Europa diferente precisa-se

No primeiro dia de Julho, chegou à minha caixa de correio electrónico um convite, no mínimo, inquietante (fiquei um pouco nervosa, é o que quero dizer). Não me considero ninguém no universo europeu (posso ser alguém na minha casa, metade de alguém na empresa onde trabalho e um cagagésimo de alguém no meu país), mas a Europa – nomeadamente, o presidente da União Europeia (e também o anfitrião, o primeiro-ministro polaco) – resolveu dar-me uma importância que não tenho e convidar-me para participar num encontro-debate em Varsóvia (viagem e estadia pagas) no âmbito de um programa que dá pelo nome de A New Narrative for Europe. «Narrativa», aqui para as nossas bandas, faz se calhar pensar logo naquela história de José Sócrates, mas a verdade é que a Europa, segundo o discurso de Durão Barroso no lançamento deste programa, em Abril passado, não quer ser só uma união económica, como até aqui, considerando a cultura um valor nuclear e um elemento unificador da integração europeia. Logo, é preciso que se escreva uma nova narrativa para a Europa, baseada numa perspectiva mais humanista. Nessa medida, cientistas e intelectuais (devo estar neste grupo, ui) de todos os países-membros são, pois, chamados a participar numa de quatro sessões de debate ao longo de 2013 e 2014 e a ajudar a «reescrever» a história da Europa para que possa existir, com o contributo de todos, um maior investimento na cultura, na educação, na investigação e na inovação e, no futuro, um maior crescimento, mais emprego e coesão social. No momento em que escrevo este post, não apanhei ainda o avião para Varsóvia, mas oportunamente darei conta do que lá se passou. Como editora de novos autores, tenho uma especial atracção pelas novas narrativas. Deve ser por isso que me convidam.

Comentários

  1. Creio que será de todo o merecimento a presença da extraordinária MRP, e a MRP sabe bem disso pois certamente lidará constantemente com gente do meio absolutamente coxa, incapaz e incompetente.

    Permito-me referir que não acredito que o Durão Barroso tenha preocupação com a cultura.

    Vamos aguardar então por essas notícias. Obrigado

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    1. E eu permito-me partilhar a opinião que aqui expõe acerca de Durão Barroso.

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  2. Antes de mais, Parabéns pelo convite... Se há alguém que merece e deve ter, com certeza, uma palavra a acrescentar à narrativa da Europa, a mim parece-me que esse alguém dá pelo nome Maria do Rosário Pedreira. Independentemente do que se por lá passar, pelo menos, fica-se com a sensação de que fomos bem representados...

    Um abraço e boa viajem.
    Carla Pais

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  3. European commission President Jose Barroso and Polish Prime Minister Donald Tusk are set to launch a so-called 'new narrative for Europe' on Thursday. The leaders, along with 250 invited personalities, will discuss challenges facing Europe and explore the history, values, symbols and cultural aspect for Europe's 'new narrative'.

    Desejo que a MRP vá lá e fale, proponha, discuta, principalmente convença os restantes 249 convidados que há uma terra onde se escreve português correcto, cujo é pouco traduzido na Europa. Já não falo em convencer o Barroso e o "prime minister", que estarão ali como Pilatos no Credo.

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  4. Este post enquadra-se numa daquelas áreas extramuros que me entusiasma.
    E que revela que, mesmo a leste, nesse leste que se libertou de uma economia castradora planificada para um sonho de uma economia totalmente libertária de bezerros de ouro, se começa a perceber que a Europa não pode ser só um projecto económico sem gente dentro.
    E que a história da construção europeia nas suas raízes “queria” paz com desenvolvimento.
    E que o desenvolvimento se faz no concerto dessa narrativa velha que é a cultura, educação, investigação e inovação, não nessa narrativa bolorenta, amorfa, porque se confunde com intensidade e exploração, chamada competitividade. Godspeed , Rosário, e que se substitua com muito mais eficácia a tecnocratas grisalhos no pensamento, lançando sobre eles as suas flores, as suas portas e as suas janelas arejadas a ocidente.
    Ainda, ontem, recuperando o livro e a cultura, estiveram muitos no lançamento da “Magia Das Chaves”, um projecto totalmente dedicado à Acreditar, que nos faz acreditar que a um país mesmo em resgate sobram créditos na construção de uma Europa feita à velocidade do verdadeiro sentido de humanidade – derrubadas as barreiras dos egoísmos, egocentrismos e narcisismos de um individualismo sem comunidade.

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  5. António Luiz Pacheco12 de julho de 2013 às 03:00

    Só posso dizer que nos devemos sentir honrados enquanto Portugueses, por estar presentes.
    E mais, que nos sentiremos todos os daqui deste espaço, Extraordináriamente distinguidos pelo convite que lhe foi feito, pois afinal é a luz que nos ilumina, entre traças e borboletas!

    Na certeza da sua Extraordinária participação, sinto-me plenamente confiante e estimo poder
    transmitir-lho.

    Aos demais, aplaudo uma vez mais e como sempre a qualidade das intervenções e o orgulho que sinto em vos ler!

    Saudações kaluandas e um bem-haja por fazerem de facto cultura que até a mim consegue chegar!

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  6. Cara Maria do Rosário
    Espero bem que esta iniciativa dos burocratas da União Europeia não tenha como objectivo final, embora disfarçado, a formatação e uniformização da cultura na Europa.
    É que, como bem sabemos, nisto de formatação, regulamentação, burocratização, uniformização, eles são peritos. Impõem regras miudinhas para tudo e mais alguma coisa.
    É certo que, como diz no seu texto, a cultura pode e deve ser um elemento unificador da integração europeia.
    Mas, penso eu, essa unificação será débil se a cultura for governada no sentido da uniformização – e será forte se forem respeitadas, cultivadas e valorizadas as diferenças, as especificidades de cada região, de cada um dos povos que constituem a Europa.
    A elite que governa a UE está excessivamente contaminada e formatada, obcecada, pela natureza predominantemente económica da União. Receio bem que possam derivar para a gestão da cultura na perspectiva do negócio.
    A diversidade é, em si própria, o valor, a riqueza da Europa.
    Porém, a diversidade é mais difícil de integrar na lógica do mercado. Uma chatice para os burocratas e tecnocratas. Eles não vão resistir à tentação de meter o bedelho lá no encontro em Varsóvia…
    E eu já estou a adivinhar o conteúdo que eles estão a preparar para a versão final da “New Narrative for Europe”:
    « Artº 1º (Retórica) - A diversidade cultural da Europa, blábláblá..; Artº 2º (Substancialidade) - Porém…etc por aí fora»
    Imploro-lhe, Maria do Rosário: esteja atenta e, se for caso disso, diga-lhes de sua e nossa justiça.
    Boa viagem e bom trabalho.

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    1. Há um excelente livro de Paulo Vila Maior que segmenta as diferentes perspectivas teóricas da União Europeia e que nos dá uma extraordinária visão da complexidade desta Europa.

      Porque a Europa é hoje um agregado de grandes complexidades feito de teorias parciais como o consociationalism ", mas também o novo institucionalismo , onde as instituições europeias são os protagonistas, com lógica da dependência instalada das instituições e dos agentes (e eles são tantos!), com poder concentrado em cartel de elites, com a (falta de) respeito do direito de veto mútuo, com teorias fusionais (influência indirecta de decisões de estados membros nos restantes)...

      Bem como teorias caracterizadoras do processo, como o neo funcionalismo (a lógica do spillover ), com o intergovernamentalismo liberal, com a governação supranacional... bem como as perspectivas metafísicas. O governo multinível , o Estado Internacional, o Estado Regulatório...

      Ou seja a Europa (a UE) é hoje uma babilónia de poderes, lobbismos , comitologias , interesses unívocos estatais e a união na diversidade parece querer caminhar na união na univocidade, fazendo-nos crer que só a federalização e a concentração resolve o problema de uma europa construída na subsidiariedade, na lealdade comunitária, na cooperação, na coesão, ...

      Ao homem consciente importa assim não deixar de visualizar (não ser ethnically blind mas também cultural blind ) e apercebermo-nos da multinacionalidade e do multiculturalismo que nos tomou (deve tomar) o espaço.

      Como diz o Mia Couto nas suas Vozes Anoitecidas posto na boca de Carlota Gentina , “Eu somos tristes … quando conto a minha história, me misturo, mulato não de raças, mas de existências”. Ser cidadão, “alma e lugar em mim”, é assim cada vez menos um constrangimento da nossa condição de nasciturnos num dado lugar, detentores de direitos de cidadania, esses direitos de primeiríssima geração. Já Pessoa em “desassossego” se tinha “da lei da Pátria libertado” quando exclamou: “A minha pátria é a língua portuguesa”. O seu céu, limitado só no tecto de nuvens, já extravasava “por todos os lados” por via de um intendo “caminheiro” criativo.
      Os direitos culturais são, assim, na cidadania universal, uma espécie de filhos da globalização e do homem espalhado como verbo… naquilo que Touraine dualiza como o “universalismo dos direitos e o particularismo dos interesses”.
      A unidade na diversidade do projecto europeu só cambaleia na ignorância, medo ou no engano da superioridade ou inferioridade das almas.

      Assim, cara Rosário “espete-lhes na consciência” com alguns dos seus poemas!

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  7. Muito bem, é positivo e MRP tem categoria e merece: espero que deixe bem claro que há mais vida para lá da UE: Portugal é singular no Mundo e já estamos fartos da subalterna...

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  8. Parabéns Rosário!

    Devo dizer que o Zé Manel subiu alguns «cagagésimos de ponto» na minha consideração ao fazer-lhe esse convite.
    Fico feliz pois tenho a certeza que nos vai representar muito bem.
    Fico muito feliz por si, pois sei que vai aproveitar ao máximo esta oportunidade de conhecer pessoas (espero que interessantes) de países e culturas bem diferentes da nossa.
    E também conhecer mais uma «cidade capital» (não sei se já conhece) e, quem sabe, escrever um conto sobre Varsóvia.
    Resumindo, Carpe Diem!
    :)
    Antonieta

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  9. Boa viagem e bom trabalho para a Rosário.

    Não acredito nessa gente que tão tarde se lembrou de um projecto humanista para a Europa.

    Mas há que ver a narrativa, confrontá-la em português. Porque, pelo menos, será uma nova narrativa. Ou talvez não.

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  10. Que tal dizer ao Barroso que os franceses têm razão ao querem preservar a sua criação cinematográfica, protegendo-a do bulldozer americano ?

    O ultraliberalismo não é lei universal e omnipotente que todos têm que seguir e respeitar como se fosse um dogma infalível. As culturas regionais que devem ser protegidas do rolo compressor financeiro das industrias globais.

    Que hipócrita da parte do Barroso este tipo de iniciativas quando ele é um dos agentes da submissão das culturas regionais aos interesses do capitalismo global...

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    1. Verifico, caro Artur, que tem acompanhado o debate sobre a “excepção cultural”, actualmente liderado na Europa pela Ministra da Cultura do Governo de França, no contexto da negociação de um acordo sobre o comércio e o investimento entre a UE e os EUA.
      Mas peço que tenha em atenção que, nesta fase recente desse debate, está em causa, principalmente, um aspecto específico da produção cultural – o cinema – que é particularmente relevante em França, algo relevante na UE, mas muitíssimo relevante nos EUA.
      É também necessário não perder de vista que a expressão artística / cultural através do cinema é aquela que, para se concretizar, de mais meios necessita – humanos, materiais, técnicos, financeiros, etc – e, portanto, a que mais depende de entendimentos e compromissos a vários níveis.
      O facto, entretanto, é que, por várias e conhecidas razões, o cinema francês adquiriu um estatuto relevante, do qual os franceses, muito legitimamente, não querem abdicar. Daí o seu forte empenho na defesa da “excepção cultural” naquele acordo entre a UE e os EUA.
      [Para melhor esclarecimento, recomendo que pesquise(m) «La France, fer de lance de l'exception culturelle face au marché libre», par Aurélie Filipetti (ministre de la culture), in Le Monde de 13.06.2013]
      [Recomendo também, já agora, que não se perca de vista que tem vindo a ganhar alguma relevância o conceito de « cinema português independente », a sua originalidade, as suas especificidades…]
      Esse debate tem actualmente relevância mediática por causa das tais negociações em curso com os EUA acerca das áreas cinematográficas / áudio-visuais.
      Mas, tirando esse aspecto especial, a discussão mais ampla sobre a “excepção cultural” tem já alguns anos.
      E tem muito que se lhe diga – basta ver o texto de Mário Vargas Llosa de há nove anos atrás (pesquisar «O Estado de S. Paulo - 01/08/2004 - Vargas Llosa: razões contra a exceção cultural”).
      Sem prejuízo do que, no comentário aí acima, peço a Maria do Rosário que esclareça na reunião com os burocratas lá em Varsóvia, eu tendo a concordar com muito do que escreveu Vargas Llosa neste texto de 2004.
      Muito provavelmente, Maria do Rosário conhece este texto. Certamente terá presente, lá na reunião, que “o mercado não determina a qualidade, mas sim a popularidade de um produto. E já sabemos que nem sempre ambas as coisas coincidem – embora às vezes sim”. E concordará que é este “às vezes sim” que é importante.
      E terá também presentes as advertências do Artur Águas – e minhas – sobre as culturas regionais, que devem ser protegidas do rolo compressor financeiro das indústrias globais, ou seja, da submissão aos interesses do capitalismo global.
      Assim, o que os burocratas/tecnocratas que mandam na Europa vão, a nosso pedido, ouvir de Maria do Rosário lá em Varsóvia, é que é possível – e desejável – que a diversidade cultural europeia seja a fonte da fraternidade, e esta, por sua vez, seja a fonte da qualidade, e esta seja, “cada vez mais vezes sim”, a fonte de popularidade.
      Estamos combinados?

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    2. Plenamente de acordo !

      Viva a diversidade que é o paradigma fundamental da sobrevivência biológica e cultural !

      O perigo da abertura completa sem proteção do cinema europeu ao americano é que um dia destes as distribuidoras serão todas de capital maioritariamente americano e não haverá sala de cinema que passe outra coisa senão filmes produzidos pela indústria americana. É que já quase nem há cineclubes para os bichos estranhos que gostam de ver cinema não americano.

      O Vargas Llosa é um convicto defensor do Hayek e esquece frequentemente a legitimidade da defesa dos interesses das minorias, que precisam de proteção especial para não desaparecerem.

      E entre as minorias encontram-se intelectuais de formação clássica como ele próprio.

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  11. Rosário Varela-Leiria12 de julho de 2013 às 14:08

    Parabéns,Mª do Rosário!
    Todos sabemos o seu valor e se a convidaram para esse evento,é porque a sua reputação atravessa muitas fronteiras.Merece!
    Fico muito contente!
    Bom trabalho!
    Um beijo

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  12. Uma nova narrativa para a Europa?? "Houston, we have a problem"...

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  13. Fora de horas, ainda comento para lhe dizer que contamos consigo para inspirar aquela gente, pois bem precisam!

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