Rasgão
Nas duas últimas décadas senti que houve uma grande evolução em três formas de arte – a fotografia (que já tinha nomes de peso, mas ganhou claramente atenção do público, da crítica e até dos mercados), a ilustração (que é hoje de alto nível) e, na literatura, o romance gráfico, do qual já aqui dei exemplos de grande qualidade. Ora, por falar em romance e em gráfico, veio parar-me recentemente à mão uma obra bem interessante que dá pelo nome de Diário Rasgado, da autoria de Marco Mendes. Embora a designação «diário» aponte para um texto de teor autobiográfico, o autor avisa que as suas pranchas são, afinal, ficções, mesmo que baseadas em gente e factos reais (e eu consigo reconhecer, pelo menos, o rosto dos seus familiares em alguns desenhos, porque sou editora do irmão e já travei conhecimento com outros parentes); mas, se essa designação pode levar a uma espécie de engano, a verdade é que encaixa bem no resultado, que é uma sucessão de acontecimentos que decorrem, aparentemente, em dias diferentes de uns quantos anos, marcando a vida do protagonista. Algumas das situações – nomeadamente as que dizem respeito à relação amorosa – atravessam todo o livro, apresentando, de resto, um desfecho bastante realista e singular. Outras constituem pertinentes comentários sobre o estado do País, as dificuldades dos trabalhadores a recibo verde, o desemprego dos jovens licenciados. Outras ainda são uma espécie de intervalos jocosos ou desabafos que cruzam todas as vidas. O desenho é primoroso – e há um toque agradavelmente despreocupado quando por vezes aparecem textos riscados ou corrigidos à mão, tornando mais verosímil a intenção de aproximar a ficção da realidade. Às vezes duro, às vezes escatológico, Diário Rasgado faz desejar que os dias do autor não se fiquem por este livro.
Neste dia pós feira do livro de uma festa de todos os amantes da leitura e escrita fica, não um grande vazio mas um recomeço: um recomeço que se faz nas livrarias e nos alfarrabistas que, temo, uma deficiente “Assunção” esvazie em pouco tempo.
ResponderEliminarFica também, pela menos da minha parte, o meu obrigado pela infinita paciência que a nossa anfitriã tem para «nos aturar» a invasiva, quantas vezes a «reescrita» e deficiente tradução do seus temas deixados para debicarmos como pequeninas galinhas (galos seria mais adequado) em busca da sua «ração de milho».
Mas fica também a noção da alteração radical que se processa hoje na literatura, pelo menos na perspetiva do romance, do romancista, do autor, talvez não tanto da poesia e do poeta. A rotatividade brutal do livro, sem local de escapatória numa autoestrada de veículos literários desgovernados, permite-nos dizer que ainda há autores, ou apenas obras? E permite a muitos aspirantes a uma escrita contínua (não aqueles que confundem obra com um dia de glória ou com um sonho de um dia de verão) perceber, que, como quase mono escritores como Dinis Machado, serão, tão só escritores de dias mais inspirados? Não seremos, na palavra de Marco Mendes, apenas uma escrita rasgada, uma nota esparsa apenas e não um diário? E esta é a minha tradução dos extraordinários posts da Rosário...uma tradução reflexiva!
P.S. ... de uma literatura que hoje parece rasgada...mesmo que nunca tivesse estado tão viva e esplendorosa como hoje!
EliminarCuriosa imagem... um galináceo em busca de milho:); as galinhas são meio estúpidas; abrimos a porta da capoeira e elas indiferentes, a esganar-se à rede na mesma. Ainda não entendi se é questão de cabecinha de alfinete, se ver mal ajuda ao prejuízo da intelectualidade difícil de não atinarem com a porta. Que não é brandura ter um olho de cada lado.
EliminarMas sim, a Rosário será uma pessoa diária na paciência: se a um romance gráfico comento com bochechos galinhentos, só pode.
Fui dar uma olhadela na net aos desenhos do Marco Mendes e são de um perfeição e realismo impressionantes. Livro a desfolhar nas livrarias para poder ficar com uma ideia mais precisa da temática do mesmo já que a qualidade da ilustração é superlativa.
ResponderEliminarCara Rosário,
ResponderEliminarFico muito contente por saber que gostou do livro. Obrigado,
Um abraço,
Marco
Força, Marco.
EliminarPelo que já vi, estás a inovar, a criar um novo paradigma.
Tens obrigações a cumprir. Tens talento.
Não te deslumbres, não facilites, não faças concessões.
Força!
Um abraço.
vivendo vou, Abraço
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