Prisões

Está-se preso por muitas razões – e a ideia básica de que os reclusos são todos gente iletrada e desinteressada dos livros não corresponde à verdade. Basta pensarmos que Jean Genet ou Oscar Wilde estiveram presos para arrumarmos o preconceito num canto que fique a ganhar pó até que alguém o limpe e faça desaparecer de vez. Miguel Horta, pintor e animador cultural, a convite da Casa de Camilo e com o apoio da organização da «Guimarães, Capital da Cultura», criou um programa na biblioteca do Estabelecimento Prisional de Guimarães baseado n’As Memórias do Cárcere, de Camilo Castelo Branco. A obra serviu basicamente de pretexto para um número de reclusos criarem as suas próprias memórias, relacionando biografia e literatura. O projecto inclui a edição de um livro, a realização de um documentário e ainda uma curta-metragem. Miguel Horta tem experiência nestas coisas, pois há dez anos que trabalha em prisões em colaboração com o Instituto Português do Livro e das Bibliotecas, mas, citado num artigo de Andreia Brites na revista Blimunda da Fundação José Saramago, confessou que a experiência de Guimarães foi muito além do que é costume, em número de horas e nos resultados (entre outras coisas, descobriu um jovem recluso que tinha o 12.º ano que considera um grande poeta). Excepcionalmente, os detidos tiveram licença para visitar a Casa de Camilo e ouviram a história do escritor; um deles, que tivera ordem de libertação nesse dia, adiou a saída só para poder fazer a visita. Agora ficamos à espera destas Novas Memórias do Cárcere com muita curiosidade.

Comentários

  1. Muitas vezes é este medíocre preconceito que alimentamos que nos impede de ver mais além... Além das celas, das grades, das instituições, do cadastro, da ignorância, existe sempre um pessoa. Um Ser. Uma alma. Uma história- E é isso que Miguel Horta foi procurar e muito bem. Este tipo de iniciativas são simplesmente de louvar... Há julgamentos que depois de feitos e penas cumpridas acompanham esta gente por eternidades, sem a mínima oportunidade cultural... Mas também digo: há casos e caso é bem que se note!

    Que saiam essas Novas Memórias do Cárcere.

    Um abraço,
    Carla Pais

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  2. António Luiz Pacheco28 de junho de 2013 às 04:20

    Dizia o avô Abreu (por sinal advogado):
    "Nunca vi ninguém preso por ser bom rapaz!".
    É um facto...

    Mas, também é um facto que estar preso e ser criminoso ou facínora são coisas distintas!

    Mais inegável ainda me parece que o facto de se estar preso seja indiciante absoluto e definitivo de ileteracia, de ser bronco ou falho de sensibilidade artística, de gosto pelas letras, etc.

    Na verdade, até há escritores que deviam estar presos... eheheh!
    Isto chocará alguns dos nossos Extraordinários, mas pensem lá bem nas atitudes ou idéias que alguns têm e veiculam... e até no que praticam!
    Ahahah! Nem vale a pena dizer nomes...

    Portanto as novas memórias do cárcere, me parecem além de excelente iniciativa do ponto de vista humano e cultural, de grande interesse!
    Vamos ver o que dali sai!

    Saudações Kaluandas!

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    Respostas
    1. A questão, caro António Luiz, é: o que é ser bom rapaz?
      Para os governantes do Estado Novo, por exemplo, era engolir uma ditadura sem protestar...

      Já agora (e o António Luiz vai adorar esta minha veia feminista): também há mulheres presas. Para quando uma iniciativa destas com mulheres (no caso de, desta vez, não terem sido incluídas)?

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    2. António Luiz Pacheco28 de junho de 2013 às 05:58

      Eheheh! E gosto mesmo...

      O meu avô referia-se genéricamente a pessoas, penso eu! Ele sabia que também as mulheres caem na senda do crime, e a prová-lo recordo um fado de sua autoria que se cantava lá em casa:
      " Ai foi a 'zanove de Maio,
      c'um hórrive crime ássucedeu!
      Uma mãe, uma malvada...
      seus filhinhos ássassinou! "

      Ahahah!

      Quanto ao ser bom rapaz... bem realmente isso também depende muito das perspectivas de cada um, mas como o meu avô era um notório e ferrenho anti-salazarista (foi mandatário da campanha de Norton de Matos, penso que mais por ser contra Salazar que apoiante deste), não me parece que fosse esse o seu conceito, devia ser mais no sentido de ajudar as velhinhas e os velhinhos (claro) a atravessar a rua e coisas no género.

      Eheheh!

      Totalmente de acordo com o seu segundo post!

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    3. António:

      neste blogue você vai baixar a bola. Diga lá ao seu avô narigudo que vá dar uma volta ao bilhar grande. Não precisamos do vosso avô.

      O meu avô é melhor que o seu avô (engenheiro, que muito provavelmente tratou dos seus afazeres nas mesmas carteiras de aula onde você estudou.) Ele não gostava que eu desenhasse grandes falos na vitualha dos restaurantes, mas certamente me permitiria erguer-lhe o dedo.

      Vá aos gambozinhos, faça alguma coisa. Diga ao seu avô que não precisamos dele para nada, que é um narigudo que mereço desprezo. Hahaha! Que tipo de advogado é o seu avô, afinal; advogado da mula russa?

      Peço desculpa aos leitores deste blogue.

      Uma joelhada na tomatada,
      Murta

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  3. Congratulo-me em saber que este projeto se concretizou. Falei dele a 28 de Março de 2012 e, com a vossa licença, reproduzo parte do meu texto:

    Parabéns a quem teve esta iniciativa! Normalmente, a auto-estima de quem está preso é muito baixa e há quem acabe numa cadeia porque nunca ninguém lhe ensinou a fazer algo de útil. A escrita de um livro pode ajudar muita dessa gente a descobrir faculdades desconhecidas, ou a conhecer o prazer de construir algo com as próprias mãos. Em suma: pode ajudá-los a serem pessoas melhores.

    (http://andancasmedievais.blogspot.de/2012/03/presos-vao-escrever-livro.html)

    Fico muito curiosa quanto a este livro.

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