Matéria-prima

Ouvi uma vez um crítico dizer que a ficção espanhola era muito mais rica do que a portuguesa porque os portugueses em geral tinham vidas demasiado pacatas – casa-trabalho, trabalho-casa –, conversavam pouco, estavam pouco com outras pessoas, ouviam poucas histórias. Não sei se é verdade, mas é lógico que uma vida cheia (e se for de problemas, ainda melhor) pode oferecer matéria-prima inestimável para a construção de ficções várias. Estive recentemente no Instituto Cervantes para assistir a um clube de leitura sobre um livro da chilena Andrea Jeftanovic, descendente de jugoslavos (quando os avós emigraram ainda havia e haveria Jugoslávia), e, ao ouvi-la, convenci-me de que a sua família era um programa completo de ficção. Em primeiro lugar, ela contou que havia judeus, católicos e ortodoxos convivendo na mesma casa, razão pela qual tão depressa festejavam o Natal cristão como a Páscoa judaica – e isto sem nenhuns problemas. Depois, quando houve a guerra dos Balcãs, aqueles jugoslavos todos que estavam há décadas no Chile passaram, de repente, a ser uns sérvios e outros croatas e, apesar da distância a que se encontravam do cenário de guerra, zangaram-se uns com os outros e alguns, inclusivamente, deixaram de se falar. Por fim, ela, que nascera já em Santiago mas de cabelos louros e olhos azuis, era sempre vista como uma espécie de estrangeira mas também não sentia pertencer a esse país europeu desmembrado aonde nunca tinha estado. Há vidas que, efectivamente, parecem histórias…

Comentários

  1. Até eu, que já vou na minha terceira vida, teria uma história para contar, e hei-de contá-la.
    E por falar em Espanha, ainda há pouco tempo li duas boas histórias acontecidas aqui ao lado:"O TEMPO ENTRE COSTURAS" o primeiro romance da espanhola MARIA DUEÑAS (uma espécie de prima afastada da Margarida Rebelo Pinto, mas não desgostei deste romance) que nasceu em Puertollano Ciudad Real) em 1964, é casada, tem dois filhos e reside em Cartagena, e, entre outras situações, me retratou Portugal nos anos quarenta e cinquenta.
    LAURA E JÚLIA de Juan José Millas (belíssimo escritor)-um romance chocante sobre a ausência.
    Portanto estas duas histórias são talvez um exemplo que confirma o tema de hoje.

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  2. Hummm....julgo que a especificidade da escrita sul americana seja fruto de uma mentalidade própria, vinda de um estilo de vida diferente por influência de múltiplos factores também eles diversos. Contudo, a vida dos portugueses, apesar do quotidiano feito água de lago, é bastante pródiga em desgraças e gags. É a nossa maneira de contar que difere. Estou a lembrar-me de valter hugo mãe em "o remorso de baltazar serapião" ou "o nosso reino". O imaginário dele não é menos fantasioso. Mas as tonalidades da fantasia são outras. Prefiro as sul americanas (sem menosprezo para vhm e a sua inesgotável fantasia) porque são mais melódicas e menos estridentes; mais de história de faz de conta: alguém que chora tanto que se enchem alguidares com o sal das lágrimas, um anjo que cai sem querer numa capoeira e é o galináceo mais visitado, fazem-se filas, cobram-se bilhetes...e morre de velho dentro da capoeira...
    Há na fantasia portuguesa uns escolhos - ou um sui generis - que não encolhem nem por nada. E a tornam meio árida e desgostosa. Falta-lhe infância; ou a categoria do maravilhoso. Talvez.

    Um bom dia e muita sombra. E bebidas frias. Morangos, uvas e cerejas para todos. Em frescura.

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  3. o critico terá alguma razão no que diz. Alguns dos livros publicados recentemente de novos autores são histórias do Portugal de Salazar ou pós-Salazar. Se a ideia é fazer um romance histórico não se entende o porquê de irem sempre para essa altura, há muitas outras épocas históricas igualmente interessantes...

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  4. António Luiz Pacheco25 de junho de 2013 às 03:43

    Hum… não concordo lá muito com o crítico!
    Os portugueses não são nem mais nem menos pacatos ou apagados que os espanhóis… o português médio é igual ao espanhol médio, o burguês que trabalha e trata da sua vida é quem compõe a média, e, aliás é universal!
    Há mais escritores de língua espanhola? Claro… eles são muito mais!
    A opinião do crítico constitui uma injustiça creio eu, pois se formos a ver são eles os pacatos burgueses aparentemente sem história, os heróis do dia-a-dia, quem desempenha a sua parte para que a sociedade exista e se desenvolva, passando uma grande parte da sua vida na deslocação ou encaixotado, imerso em problemas! No pouco tempo que lhe sobra ainda tem de tratar das suas questões pessoais e espairecer… que tempo ou vontade fica para escrever? Nenhum…
    E, se houver essa vontade o que sucede? Como não passa de um burguês ou de um estranho ao meio, está bloqueado tanto pela ditadura do sucesso económico das editoras que só publicam o que e quem esteja na moda, quanto pela dos próprios críticos que analisam segundo as suas inclinações e cânones e só promovem o que querem e sobretudo de quem seja do meio, identificado com do clube!
    Há gente com histórias para contar, sim… vidas e vivências que darão bons livros, mas não compete a cada um fazê-lo e sim ao escritor! Por isso e para isso há escritores… não será? O escritor é o espectador dessas vidas e é ele quem depois faz a mistura e cria!
    De resto creio que é cultural, não existe entre nós uma tradição de escrever ou até de ler, mas existe uma notável tradição de contar histórias ao balcão da taberna ou sentados à mesa, isso sim!

    PS – Quando digo “ditadura das editoras”, não estou a atacá-las especificamente, pois é assim em tudo… e em todas as actividades! Cito-as porque estamos a falar objectivamente de escrever!

    Saudações kaluandas!

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    1. Concordo absolutamente com o que diz o nosso enviado ao Planalto Central, assim como desconcordo com as ideias feitas do tal crítico. Aliás, nada tenho contra a vida pacata que logo me lembra Pessoa, tão pacato só por fora.

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  5. Também penso que o problema não está no facto de as vidas serem, ou não, pacatas, mas na habilidade que algumas pessoas possuem (os escritores, nomeadamente) para observar e transmitir sentimentos e acontecimentos.

    Aliás, sou de opinião que qualquer vida dá uma boa história. É preciso é saber contá-la. A própria MRP não fez um texto interessante para as últimas "Correntes d'escrita", baseado em recordações da sua vida, em princípio, banal, sem mistura de religiões ou vivências no estrangeiro?

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  6. Também não sei se é verdade o que nos aponta o crítico. Mas ainda bem que ele reconhece que a ficção portuguesa se distingue da espanhola (e, portanto, das outras). Isso significa que a nossa tem uma marca identitária que corresponde à nossa cultura específica, ao nosso pathos, à nossa identidade.
    É isso que devemos preservar – mais do que nunca, agora, no contexto europeu a que recolhemos. E cultivar – no sentido de valorizar a Europa com a nossa diferença.

    Entretanto, se a receita para enriquecer a ficção é “uma vida cheia de problemas”, então estamos no bom caminho. E não digo isto apenas por ironia. O facto é que a complexa e inédita situação que vivemos agora tem originado, visivelmente, mudanças na nossa maneira de estar na vida, alterações por vezes dramáticas, marcantes – e isso há-de transparecer na nossa Literatura.

    Na nossa e nas outras, mesmo na exuberante espanhola, que eles também estão cheios de problemas.

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  7. Muito curiosa esta afirmação de pacatez como causa – efeito, de uma ficção pobre nacional. Curiosa porque vai contra uma certa visão editorial que privilegia o canto (e o conto) do eu, a história centrada no eu quase terapêutico em detrimento da riqueza dos actos e dos factos. A própria menorização da figura do conto é ela um paradoxo só compreensível na visão de um mundo a duas entradas, de duas partidas dobradas: o débito e o crédito.
    Vivemos num mundo normalizado e banalizado. A nossa linguagem é cada vez menos diferenciada, cada vez mais apropriada. A própria condição autoral fenece cada vez mais neste pulsar coletivo , já não de uma escrita muitas vezes reflexiva, mas de uma reescrita de pedaços, como hienas, chacais e aves carnívoras que abocanham por um momento de pretensa glória. Algo que angustia (passageiramente é certo) quem ainda escreve, não como um industrial de fatos, mas como cerzideira com atenção a cada ponto, de dedal na mão e não sem aquela «pasta» que adultera a verdadeira criação.
    Muitos vivem hoje numa espécie de espaços lagunares onde os predadores e outros peixes mais diversos e coloridos não entram, sem nunca experimentar as águas adjacentes com mais nutrientes - mais revoltas e inseguras, é certo.
    O português não é mais nem menos pacato que o espanhol; nem mais ou menos alienado do mundo; nem mais, nem menos mundividente ou cerceado de imaginação.
    E basta estar atento a algumas movimentações no palco social, para percebermos como a vida também pulsa no rectângulo, cheia de diatribes, loucuras e outros castelos de cartas sempre prontos a desabar… e a romancear.
    O que talvez tenha de mudar é o palco. Mas o palco, para nós, sempre esteve para lá da linha do horizonte.
    (Pobreza ficcional, espanhol! Pudesses fazer como eu, que escrevendo já com uma coisa a que chamaram de AO, o pude fazer hoje com o anterior só porque… porque me apeteceu! Vê lá se também o podes fazer, se tens esta riqueza, ó espanhol?)

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  8. acho que tem uma importância relativa.

    nem sempre escrevemos sobre o que vivemos, mas sim sobre o que gostávamos ou não de viver.

    determinantes são as histórias que ouvimos dos outros.

    tal como os livros que lemos, pois estão cheios de histórias de pessoas e do mundo.

    e o cinema também é importante, pelo que mostra e não mostra do mundo.

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  9. A propósito do modo com os aparentemente pacíficos jugoslavos se dividiram inesperadamente (e mutuamente se odiaram) em croatas, sérvios, bósnios, ortodoxos, muçulmanos [e, já agora, recordando também os massacres fraticidas da guerra civil de Espanha], lembrei-me das acaloradas discussões familiares do verão quente de 75 (e de, pelo menos, o ano seguinte) que rasgaram as família portuguesas; até parecia que irmãos, primos, tios, sobrinhos, pais e filhos estavam à beira de uma guerra civil.

    Mas a verdade é que o bom senso lusitano, os nossos brandos costumes, imperou, e passado um par de anos todos os rancores estavam diluídos, senão esquecidos, e o mais importante -- a família -- reconstruída.

    Teremos vidas menos intensas, e quiçá menos interessantes, do que os espanhóis ou os jugoslavos, mas em contrapartida somos gente doce e sem rancores persistentes.

    Somos um povo eminentemente tolerante, que sabe perdoar, e isso é uma enormíssima bandeira de que nos podemos orgulhar.

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  10. Absolutamente de acordo com este poste e com o que a MRP afirma, que reproduzo (...) mas é lógico que uma vida cheia (e se for de problemas, ainda melhor) pode oferecer matéria-prima inestimável para a construção de ficções várias. (...)

    Não são, certamente, problemas de saúde ou de outra ordem assim também complicada.

    "Problemas" ! Sim, "problemas"!

    Tudo se combina e tudo se constrói, mas para o "uso" da ficção, é mesmo melhor passar por eles e por muito mais situações.
    Se não, o que é que se conta?
    Mas espanhóis, são espanhóis! É essa gente que se passeia com carrinhos de bebés às duas da manhã, alegremente, pelas ramblas de Barcelona...
    Nada existe de semelhante.

    Cristina Carvalho

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  11. Na antiga Jugoslávia foi mesmo isso que presenciei, pluralidade num regime que alguns diziam totalitário, para um dito democrático, em guerra, e totalmente intolerante: dentro e fora de casa. A critica literária, por vezes, tem piada - quando feita por profissionais da coisa, geralmente, não diz nada, quando por pessoas devoradoras de livros em que todos os dias têm necessidade de ler como pão para a boca, no dia seguinte, já não se lembram do que leram assim como não se recordam do ingerido à ceia. Interessa-me muito se o leitor foi até ao fim do livro, se não demorou demasiado, se mexeu com ele. O pior é quando o leitor, instado a comentar, encolhe os ombros, faz boca cu de galinha, deixa escapar uma espécie de bufo labial ou, pior, diz: é giro, lê-se, é levinho...

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  12. Já agora, hoje mesmo, fiz uma busca electrónica, à cata do que referem as críticas em relação ao que se tem publicado ultimamente sobre ficção relacionada com a lusofonia e, em segundo lugar, as publicações da MRP . Não contando com os artigos de promoção e de divulgação na imprensa encontrei bastante pouco. Dos consagrados há pouco mesmo e daqueles que narram história dos amores da guerra, dos pretos, dos colonos branquinhos e das damas branquinhas, pouco de sumo: quase tudo passivo e harmonioso e "engraçado". O que mexeu mesmo, apesar de pouco lido, foi "O Legado de Nhô Filili ": provocou ódio, simpatia, mas mexeu com os leitores. O grupo Leya que investe no mercado não percebeu que bastaria retocar e lançar no mercado brasileiro, e das antigas colónias, passando pelas comunidades de emigração para ganhar muito e bem, mas, eles é que são os gestores e empresários. É bom saber que intrigou o leitor, que os prendeu...

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  13. Não posso comparar as duas literaturas, dado que conheço muito mal a espanhola, mas é um facto que a nossa literatura é, de modo geral, monótona, pouco imaginativa e hostil ao enredo. Tirando o grande Eça, o Camilo e o Saramago, não tivemos romancistas que se pautassem por uma imaginação vívida. A não ser que as obras que compitam com as histórias mirabolantes do Bulgakov, do Calvino, do Roth, do Kundera, do Torrente Ballester, do Kafka, do Nabokov, do Pepetela, do Sciascia, do Rubem Fonseca tenham andado escondidas de mim todo este tempo.

    A nossa poesia, porém, é a melhor do mundo, por isso está tudo bem.

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