Filmes

As palavras levam-nos por vezes aonde não esperávamos e ajudam-nos a desenvolver a nossa veia de ficcionistas (ou, quiçá, uma imaginação delirante). Um dia destes estava a ler o jornal Público a correr – como acontece quase todas as manhãs – e a passar os olhos pelas gordas e, de repente, os meus olhos arregalaram-se com o título de uma coluna: «Ressurreição de Visconti confirmada em Vicenza.» Sou uma grande admiradora de Lucchino Visconti e apreciaria bastante o seu regresso à vida e ao cinema, pois neste século ainda não encontrei um realizador com o seu bom gosto e a sua elegância; mas que anunciassem a sua ressurreição pareceu-me, ao mesmo tempo, um reles golpe publicitário do município de Vicenza para se fazer importante e levar até lá gente de todo o mundo arrepiada com o milagre. Brinco, claro, mas foi ao autor de filmes como Rocco e os Seus Irmãos ou O Leopardo que aquelas palavras me levaram. O meu delírio acabou, contudo, mal li as primeiras linhas da notícia: estávamos, afinal, na página de Desporto e Visconti é um ciclista italiano que, pelos vistos, deu a volta por cima e venceu quatro etapas do Giro (a volta a Itália em bicicleta). Tenho de estar mais atenta aos cabeçalhos da próxima vez para não me pôr a fazer filmes…

Comentários

  1. VISCONTI - soberbo, uma obra de arte cada um dos seu filmes que vi.
    Filmes - pois falando em filmes baseados em livros;
    Aqui há dias passou numa das sessões da RTP2, um filme com Dustin Hofman e Steve McQueen e não é que nem dois grandes actores conseguem fazer um filme que consiga ser melhor que o livro.. PAPILLON de Henri Charriere (li-o todo quase de uma só vez, era eu ainda uma criança, mas aconteceu).
    Será que MORTE EM VENEZA (baseado no livro de Thomas Mann ) será uma excepcção, que confirmará esta regra?

    ResponderEliminar
  2. Tia, já ouviu falar de Centrum? De "A" a Zinco. Senão qualquer dia lê numa banca de jornais que "Jesus regressa" e vai a pé para Jerusalém. Ainda bem que há um post sobre filmes, estava mesmo para falar de um filme aqui no blog. No mês passado li imensas críticas negativas sobre o Great Gatsby e todas diziam o mesmo "mais um livro assassinado". No entanto, a minha mãe, que nunca sai de casa, pediu-me se eu o ia ver com ela e fui. ADOREI. Adorei as cores, a velocidade, o DiCaprio a tratar toda a gente por "Old Sport", a inclusão de elementos actuais na história e, acima de tudo, a forma como o realizador pintou os anos 20 como uma época feliz, ao contrário da decadência exagerada que utilizam sempre que retratam a década. Se eu quisesse a experiência do livro, bem... lia o livro. São meios de entretenimento distintos, que apelam a sentidos distintos e que se complementam. Um filme tem um argumento que por acaso se baseou num livro, não é uma reprodução em 90 minutos de uma coisa que demora um mês a ler. "Ah... em termos de representação do amor enquanto objectivo último do ser humano, o livro é MUITO superior" pois é, e em termos de palavras impressas numa pasta feita a partir de madeira o livro também é muito superior, já em termos de pixeis acesos por meios eléctricos num ecrã o filme costuma ganhar. Gostava de saber a vossa opinião sobre o filme.

    Cumprimentos do Planalto Central... ah não... esta despedida não é minha! Beijinhos e abraços!

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Também achei o filme do Gatsby excelente mas confesso que o livro do Fitzgerald me deslumbrou e deslumbra imensamente (fui reler várias passagens após ver o filme). Está escrito num inglês tenso e enxuto (e há ainda quem diga que esse estilo é à Hemingway, mas, para mim, foi o Fitzgerald quem primeiro o praticou...) e narra uma história com um enredo tão vertiginoso que não admira que tenha dado origem, ao longo de um século de cinema sonoro, a várias versões cinematográficas. Um Romeu e Julieta numa época de euforia (ou, talvez melhor, disforia), com uma Julieta que acaba por se deixar seduzir pelo calculismo...

      Eliminar
  3. MORTE EM VENEZA - um extraordinário filme de Lucchino Visconti , de 1971, mas O INTRUSO e O ESTRANGEIRO são duas obras divinas, duas obras de arte, deste extraordinário realizador de cinema italiano; e creio que serão ambos baseados em livros. Portanto, aquilo que já referi -raramente um filme chega aos calcanhares do livro em que se baseou- é uma verdade que apenas confirma o extraordinário realizador que foi LUCCHINO VISCONTI (terá falecido em 1976).

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Não sabia que "O Estrangeiro" do Camus tinha sido posto em cinema pelo Visconti. É que é, para mim, a melhor novela curta do século XX. E seguramente gostaria de ver como o Visconti lhe pega. Tem a certeza, caro Severino, que há um "Estrangeiro" do Visconti ?

      Eliminar
  4. Mais um post a apelar à reflexão: imaginação delirante, criatividade, imaginação repousante. Palavras distintas para coisas aparentemente diversas, mas não há dúvida que a literatura não deve viver sem ela. Hoje muitos autores já são despidos de criatividade e imaginação; são produtos cosméticos, não da sua capacidade inventiva e de reelaboração de experiências e conteúdos mas processadores automáticos de produtos de (mau) consumo. Ou não fosse noutro patamar, mas elucidativo, o delírio televisivo actual, lixo puro, um espécie de nojo aos cães, de um país «castelobranquizado!» Muito mais respeito tenho pelos ditos «trabalhadores do sexo» do que o exemplo anterior. Mais vale vivermos no aparente delírio da nossa capacidade reflexiva inventiva: muito mais higienizada.

    ResponderEliminar
  5. Essa do Visconti ciclista é que eu não estava nada à espera...
    Quando o Severino disse noutro dia que o único filme que achava superior ao livro era «O Leitor», eu pensei logo no «Morte em Veneza» do Visconti que, na minha opinião, é muito superior ao livro.
    A inesquecível interpretação de Dirk Bogarde, a beleza de Bjorn Andresen e a sublime música de Gustav Mahler fazem deste filme uma verdadeira preciosidade.
    Antonieta

    ResponderEliminar
  6. António Luiz Pacheco4 de junho de 2013 às 03:44

    Gostei uma vez mais de o ler meu Caro e Extraordinário Pedro Sande! Como tem a capacidade de me penetrar no cérebro... invejo-o, confesso e gostaria de ser assim... mas como sou avesso a cópias, ficarei na plateia a aplaudir!
    Um abraço para si e bem-haja!

    Ó Courinha, até já há o Centrum Senior - eu sei porque pelo menos uma vez por ano tomo um frasco... eheheh!
    Vi o Grande Gatesby com o R.Redford e a Mia Farrow, e gostei... era filme obrigatório no meu tempo, anos depois li o livro porque achei que devia ler... e francamente foi-me difícil conciliar os dois, pois o filme era muito bom, como é o livro, mas estava a ler e sempre a ver as sardas e o chapéu branco dela e a melena loira dele... No entanto tenho muita curiosidade de ver esta nova versão de um grande filme, porque só se faz uma segunda versão de um grande filme se esta versão for outro grande filme... e acho que o di Caprio é um grande actor, creio mesmo que assenta na pele de Gatesby como numa luva!

    O Visconti... não é de todo da minha preferência, confesso! Que querem... eu sou fã do Tarantino!
    Eheheh! Bandas sonoras dele tenho-as gravadas e me acompanham nas minhas viagens solitárias como a da semana passada, 1100 km para ir ao Lubango pôr um carimbo na guia de circulação da minha Hilux e voltar... só mesmo a poder de "From dusk till dawn"... eheheh! Conhecem "Dengue woman"? Devia ser um tema na moda...

    Vêem como se divaga... ah! E que doce é divagar, mesmo que ninguém nos ligue nenhuma...

    Saudações do Planalto Central

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Obrigado Caro António Luiz É muito amável e é tudo isso e muito mais do que me aponta; e um valente e ousado português como infelizmente não o são todos. Um grande abraço para si e que o Huambo veja a cepa de muitos dos ainda extraordinários portugueses, habitantes de uma terra muitas vezes madrasta.

      Eliminar
  7. Sim «extraordinário Artur» há mesmo um The Stranger by Visconti!
    É de 1967, com o Marcello Mastroiani e a Anna Karina, e o argumento é adaptado do livro do Camus.
    :)
    antonieta

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Cara Antonieta,
      Isso é mesmo espetacular ! Tenho mesmo que ir à procura desse filme, ainda por cima com dois dos meus atores italianos favoritos ! Obrigado pela confirmação do post do extraordinário Severino. Grazie mile !

      Eliminar
  8. Um livro que é uma desgraça e deu origem a um filme bom foi o Padrinho do Mario Puzo. Ainda por cima o raio do homem escreveu dois livros quase iguais, o Padrinho e a Família (Rodrigo Borgia) em que até o nome dos filhos são quase todos iguais.

    ResponderEliminar
  9. João Courinha, e não existe um Centrum para acelerar um pouco a leitura «daquela coisa que demora um mês a ler»? LOL
    Mas tem razão, um filme não tem que ser igual ao livro.
    Eu li o Grande Gatsby há muitos anos e vi o filme realizado pelo Jack Clayton, com argumento do F.F.Coppola (o tal com o Redford e a Farrow).
    Gostei bastante de ambos.
    Gostaria de ver esta nova versão mas como fecharam as salas de cinema das duas cidades mais próximas...
    Vou esperar pelo dvd, mas não é a mesma coisa, e nunca será em 3D.
    :)
    antonieta

    ResponderEliminar
  10. o Visconti devia gostar muito de ler e de escrever.

    e claro, de ouvir música...

    os filmes dele têm essas coisas todas, por isso é que nem toda a gente gosta.

    pode ser que o ciclista campeão, nas horas de descanso, aprecie um bom livro...

    e a música dos filmes do "primo", também podiam ser regalo para ele. :)

    ResponderEliminar
  11. Já há cerca de um ano (27 Jun 2012), a propósito do post “Romances da Vida”, se falou aqui deste confronto entre o filme e o livro em que esse se baseou.
    Citei então o jovem cineasta Rodrigo Areias: «Os meus (filmes) têm sempre a ver com livros, porque ler é um processo de libertação, de criação de imaginário. O filme é uma imposição do imaginário de alguém, e um livro não. Por isso é tão difícil ver filmes de livros que (já) lemos.»
    E acrescentei: «Concordo. Ler é libertação. O filme é imposição. Ao ler o livro, cada leitor cria o seu imaginário. Ao ver o filme, é submetido a um imaginário. A vantagem fica do lado da literatura».
    Sublinho, agora: A vantagem fica do lado da literatura.
    Concluí, então: «Em suma: um livro é uma coisa, um filme é outra coisa – ainda que o pretexto para este tenha sido aquele. O que gostava era de ler livros que tenham sido escritos a pretexto de filmes, livros que nos permitam recriar, desenvolver, os imaginários que nos foram mostrados pelos filmes (...)».
    Reforço, agora: É, talvez, tempo de a Literatura tirar mais partido da vantagem.

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Que bela defesa da Literatura ! Texto de antologia sobre a liberdade que só a Literatura oferece a quem a busca. Que bem pensado ! A ler, reler e guardar. Obrigado.

      Eliminar
    2. Ora, ora! Ó Artur, também – que diacho! – não exageremos.
      O cinema, sendo embora a forma de expressão artística talvez mais recente, já tem o seu lugar consolidado junto das outras, junto da literatura, etc. – Ok, nada a objectar, é a ordem natural das coisas.
      Cinema versus literatura? – Ok, é uma maneira de colocar as questões da expressão artística nossa contemporânea.
      Acontece porém que, de todas as formas de expressão artística, a literatura não é sequer a mais recente. Antes de inventar a escrita, a Humanidade pintou nas cavernas, criou a música a partir da voz humana e da percussão… Depois vieram a escultura, a arquitectura… A pintura e a música, e as outras, evoluíram graças às tecnologias, primeiro rudimentares, depois desenvolvidas…etc…
      Apenas muito mais tarde os códigos gráficos que, lentamente, foram transformados em meio de comunicação escrita – com a técnica da reprodução, primeiro por cópias manuais, depois pela tipografia – deram oportunidade à criação daquilo a que hoje chamamos literatura, aquilo que circula por escrito entre nós.
      Na verdade, a literatura é recente – e o cinema ainda mais recente.
      E o facto é que, graças às tecnologias, de todas as formas de expressão artística, estas – e a música – são hoje as que podemos usufruir plenamente sem sair de casa
      Entretanto, o cinema é a que mais está envolvida com o dinheiro, o capital, a finança – se me faço entender. Por isso tende a predominar, e a subjugar as outras.
      A música e a literatura, embora mantendo as suas autonomias, são cada vez mais “adaptadas” pelo cinema.
      A música, honra lhe seja!, tem sabido tirar algum partido do negócio – repare como se autonomizaram tantas peças musicais que foram compostas expressamente para filmes, Nino Rota, etc.
      A literatura é que ainda se mantém submissa – quer dizer: adaptam-se obras literárias ao cinema, mas ainda não se adaptam narrativas cinematográficas à literatura.
      É apenas esta a questão.
      E é – proponho eu – apenas uma questão de tempo.

      (Isto digo eu, que não percebo de finanças e não tenho cinemateca).

      Eliminar
    3. De novo texto que é uma delícia literária e de conceitos. Obrigado ! A ideia de que a literatura se mantém submissa ao cinema e que o futuro poderá reverter esta situação, criando livros a partir de filmes, é muito interessante ! Concordo consigo: será provavelmente uma questão a concretizar nas décadas que se adivinham. De um modo rudimentar, podemos já dizer que não é só o cinema que se serve da literatura mas que, hoje em dias, a literatura também suga o cinema: há livros que passam a ser relidos porque novas edições se fazem e se tornam vendáveis por os seus enredos terem levado a êxitos recentes no cinema. Não adivinho, no entanto, como isso funciona porque não me lembro de ter lido um romance como consequência de ter visto antes um filme nele baseado.

      Eliminar
  12. Existe, no YouTube e por inteiro, o filme "O Estrangeiro", acima citado. Há dias fui lá matar as saudades ...

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Maravilhosa informação ! Este blog é frequentado por pessoas espetaculares ! Se isto não é solidariedade cultural no seu estado mais puro, então não se o que é... Obrigado !

      Eliminar
  13. Após inúmeras desilusões, não consigo gostar de filmes extraídos de livros. Deixei de ver. Mas se for um filme construído com a "ideia" central de um livro (ou de outro filme) depois transformado noutra coisa, desenvolvido noutro contexto, isso gosto e muito. Assim de repente lembro-me de grandes filmes "desse tipo": Apocalipse Now (Coração das Trevas), Ondas de Paixão (A Palavra), Vale Abraão (Madame Bovary ).

    ResponderEliminar
  14. Isto de escrever no dia seguinte não tem muita piada, mas... desde já confessando não ter vindo cá ontem, e abordando este texto um dos realizadores que mais me agrada (ou não!... Se calhar é um texto acerca do ciclista homónimo do grande homem) não podia deixar de dar a minha achega.

    É necessário conhecer - Do Neo Realismo ao Ultra-Romantismo - o Cinema de Lucchino. Visconti

    Abraço (para quem ainda andar por aí)


    ResponderEliminar

Enviar um comentário

Mensagens populares deste blogue

Em Berlim

O que ando a ler

O principal e o acessório