Músico das letras

Muitos dos extraordinários leitores deste blogue já ouviram certamente falar de Alain Oulman, um judeu de origem francesa nascido em Portugal que virou do avesso a vida artística de Amália Rodrigues, compondo para ela fados completamente distintos dos que cantava até então e ajudando-a a encontrar poetas, como David Mourão-Ferreira, que lhe fariam letras inesquecíveis, contribuindo para que o fado passasse de uma canção popularucha para um nível muitíssimo mais sofisticado. O que talvez não saibam é que Alain Oulman, depois de ter sido preso pela PIDE, ficou muito zangado com Portugal e foi para França trabalhar com um tio, que tinha uma conceituada editora, tornando-se um editor de excepção. Num documentário exibido há algumas semanas na RTP2 e realizado por um dos seus filhos, conhecemos melhor esta faceta de Oulman através de editores que trabalharam ao seu lado e bem assim autores de renome, como Amos Oz, cujo testemunho da sensibilidade de Oulman para a música do texto era um verdadeiro enaltecimento da figura. Para que conste, esse homem que fez músicas belíssimas para a nossa fadista, tinha o cuidado de ler ao telefone as traduções francesas de certas passagens a alguns dos seus autores (e de lhes pedir que as dissessem na sua própria língua) para ter a certeza de que a música era a mesma no resultado final. Se conseguirem ver este documentário – uma peça interessantíssima sobre um homem ainda mais interessante – não percam.

Comentários

  1. Excelente documentário, da autoria do filho de Alain Oulman. Nele ouvi Amos Oz dizer uma frase de que tomei nota imediatamente e agora tenho sempre presente quando leio e/ou traduzo um livro: "A literatura é um ramo da música". Seria difícil dizer mais em tão poucas palavras.

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  2. Já vi mais do que uma vez. Não percam a parte final pois o filme / documentário acaba com uma sessão de ensaio de Amália, com Oulman ao piano e voz, que é belíssima.

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    1. Se não estou em erro, a musicarem uma letra de Cecília Meireles - canção que nunca chegou a ser gravada: infelizmente.

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  3. vi o documentário e gostei.

    lembrei-me da Rosário, por isso mesmo que escreveu: a forma - amiga e sempre presente - como o Alain lidava com os seus escritores.

    foi muito bom ele aparecer no fado.

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  4. Alain Oulman e Amália...

    Vem-me logo à memória o álbum "Com que Voz", a coisa mais perfeita que saiu da música Portuguesa.

    E... claro, "Abandono" um belíssimo Fado com letra de David Mourão-Ferreira.

    Sou um apreciador de alguns nomes do dito "novo Fado", no entanto, considero que tal denominação é absolutamente imerecida, pois foi Oulman e Amália que efectivamente trouxeram o Fado para este percurso. Quanto muito, considero esta nova "leva" como uma continuação daquilo que por eles foi feito em plena década de Sessenta.

    Ainda hoje, anos depois de me ter "encontrado" com o Fado, não deixo de me arrepiar com os caminhos e as dimensões que Oulman encontrou para a voz da Amália.

    Eu que não sou religioso, digo sem preconceitos - "Foi por vontade de Deus".

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  5. Há o ser e o estar. Alain Oulman era. Ou é ainda. E, se é do ser, não se descarta.Em Portugal, em França, onde for.
    Sempre me comove ouvir Amália com voz de dar a volta ao mundo, nós perdidos nos meandros, a sentir que a habitámos desde sempre mas somos mudos. Saber que qualquer homem ou mulher do povo, se recolhia ao mais íntimo a escutá-la. Tempos difíceis, aqueles. E que as palavras dos nossos poetas vinham assim para a rua mais estreita, o beco mais escondido, a casa menos casa. A arte, se é verdadeira, liga-nos ao universo.
    E é uma tão boa maneira de trazer ao grande público as inquietações da alma portuguesa.

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    1. Pronto; já fui reler:) Obrigada.
      Não sei se bonito. Para mim, só muito verdade. Eu vi os homens na taberna calarem-se todos para escutar, os copos parados no balcão ou no meio caminho da boca; vi o embevecido das mulheres, olhos em comoção, pregados na TV que era a única da minha terra; ouvi o murmúrio quase tímido, "diz que a Amália chora quando canta".
      O casamento Alain Oulman-Amália é extraordinária coisa.

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  6. por falar na música que a leitura tem na voz de outros, já ouviu falar deste projecto: http://www.voluntariosdaleitura.org/?

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  7. Vou procurar esse documentário sim. valew pwla dica.

    http://minhamiseravelvida.blogspot.com.br/

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  8. Depois de ver esse emocionante filme, e em particular o extraordinário depoimento do Amos Oz sobre o ouvido literário do Oulman, vi-me a perguntar: onde estão as obras escritas do Alain Oulman? Se se dedicou com tanto perfeccionismo ao fado e depois à edição, não terá ele deixado inéditos literários ? Alguém sabe ?

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    1. Que eu saiba ele compôs e musicou as letras e poesias de outros...

      Só... isso.

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  9. «Judeu de origem francesa nascido em Portugal»?

    Eu prefiro dizer «português, nascido em Lisboa, filho de pais franceses».

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  10. Estou mortificada.
    Ando em boicote à RTP à conta da contratação polémica de um pseudo-comentador, ex-pseudo-político e, por isso, nem em zapping me apanham na dita. Ou seja, por causa das minhas estupidezes de carácter, perdi um doc que ADORARIA ver. Há momentos na vida em que pequenas coisas se transformam em grandes viragens. Aconteceu-me com o Oulman, a Amália e uma noite de fados num período da vida em que eu não sabia quem era.
    Vou ver se encontro o doc e me penitencio por teimosias que dão nestes desastres.

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