Ler a norte
No Dia Mundial do Livro houve um sem-número de actividades levadas a cabo por várias entidades ligadas à cultura. Fez-se muito, mas a verdade é que os comentários muitas vezes referiam que não se saiu de Lisboa e que o resto do País também merecia. Com toda a razão. Mais ainda quando se sabe que este ano não haverá Feira do Livro na cidade do Porto, quebrando-se uma tradição de anos e anos, como se a norte as pessoas não gostassem de ler... É verdade que os custos eram altíssimos para quem participava e que, entre inscrições, transporte dos pavilhões e da mercadoria e pagamento ao pessoal, quando não se ficava em casa, acabava por se perder dinheiro. Era para isso que se contava com o apoio da Câmara Municipal da Invicta, que oferecia o espaço e ajudava com uma verba o certame. Sabemos, porém, que os municípios estão de tanga e – pior – que, mesmo de tanga, preferem apoiar os aviõezinhos com fumos às cores a fazerem acrobacias sobre as pontes e outros eventos que enchem o olho mas em nada contribuem para os portuenses ficarem mais cultos. Porque será? Eu cá diria que a quem está no poder dá sempre jeito ter uma carneirada que não pensa. Muito mais, evidentemente, do que uma população que ponha as suas decisões em causa e se revolte. É o que temos...
Gosto!
ResponderEliminarTal como não se consegue lutar contra o tempo é difícil lutar contra a realidade e a realidade é que o pessoal quer é aviões com fumo, Carolinas/ZeZés Camarinhas/Nuchas comandados pelo Mr. Ed (o cavalo que fala), e livros é coisa de chatice que dá muito trabalho, isto sempre foi um país (direi mesmo um Mundo) em que livros só a metro para decorar a estante.
ResponderEliminarE viva o Big Brother, aqui e em todo o Mundo, porque afinal este cenário não acontece só aqui é a globalização, os livros sempre foram coisa de meia dúzia de mentes grandiosas, por isso tão escassas...
Acontece que o atual presidente da CMP não pode concorrer à sua re-eleição e é um homem que eu, portuense, nunca vi em qualquer espaço cultural (Teatros, Casa da Música, Coliseu ou Cinemas, etc.), portanto, ao negar o habitual apoio financeiro da CMP à Feira do Livro, está a confirmar a sua maneira de ser: o que eu não aprecio, não merece ser financiado. E o dr. Rui Rio até gosta de sorridentemente repetir o proverbial: "quando me falam de Cultura, eu agarro na carteira." Tenho, no entanto, esperança que a Feira do Livro do Porto ainda se realize porque há um movimento local que está a lutar nesse sentido.
ResponderEliminarnem mais...
ResponderEliminarAqui onde vivo, bem no interior da Beira Interior, junto à raia, resta-me a Feira do Livro do Jumbo e do Continente!
ResponderEliminarLOL.
Tenho saudades do tempo em que trabalhava na Rua Artilharia Um e todos os dias descia até ao Marquês, e depois ia pela Av. da Liberdade bisbilhotando tudo e comprando muito...
Neste último dia do livro, comprei uma preciosidade: «Geração do Novo Cancioneiro», poemas ditos por Maria de Jesus Barroso, música de Luisa Amaro.
Foi no Jumbo (e eu só ia comprar frutas e legumes) e custou apenas 4,25 euros.
Foi o meu dia de sorte!
Antonieta
Antonieta
EliminarAgora também pode contar com a feira do livro dos CTT. Se algum dia eu imaginei os CTT a venderem livros!
É de aplaudir, evidentemente, a forma como os correios divulgam os livros (alguns, é claro), embora se saiba que também recebem pagamento das portagens e vendem lotarias. Espero que nunca caiam na esparrela de vender vinho a copo. Sinal dos tempos.
Com diz o Artur, e bem, há gente aqui no Porto que ainda não deixou de lutar para que se faça. Mas há uma coisa que é importante ficar claro, para que não venham mais tarde com discursos redondos: os políticos do Porto estão a ser inábeis e duros de cabeça, sem visão, mas ao outro lado, à Apel (cujos interlocutores falam de Lisboa, quando deviam estar aqui), têm sido oferecidas variadíssimas alternativas. Só espero que não vença a facção que também é dura de cabeça e não percebe a dor que é causada nos tripeiros, e que acha que este ano o Porto precisa de um castigo político, e que o único castigo é não haver feira. Porque isso, e disse-o a quem de direito, é um tiro no pé. O Porto não vos perdoará. Nem a uns nem a outros. Por favor não brinquem com a honra desta cidade. E nada de tretas e discursos redondos. De resto tens razão, Rosário, ninguém quer saber de cultura, e mesmo dentro dela o que conta agora é uma visão reduzida do que ela realmente é. Com o bom pretexto da crise.
ResponderEliminarCom diz o Artur, e bem, há gente aqui no Porto que ainda não deixou de lutar para que se faça. Mas há uma coisa que é importante ficar claro, para que não venham mais tarde com discursos redondos: os políticos do Porto estão a ser inábeis e duros de cabeça, sem visão, mas ao outro lado, à Apel (cujos interlocutores falam de Lisboa, quando deviam estar aqui), têm sido oferecidas variadíssimas alternativas. Só espero que não vença a facção que também é dura de cabeça e não percebe a dor que é causada nos tripeiros, e que acha que este ano o Porto precisa de um castigo político, e que o único castigo é não haver feira. Porque isso, e disse-o a quem de direito, é um tiro no pé. O Porto não vos perdoará. Nem a uns nem a outros. Por favor não brinquem com a honra desta cidade. E nada de tretas e discursos redondos. De resto tens razão, Rosário, ninguém quer saber de cultura, e mesmo dentro dela o que conta agora é uma visão reduzida do que ela realmente é. Com o bom pretexto da crise.
ResponderEliminarÉ uma pena que assim seja... Que as iniciativas de um País sejam feitas à medida da intelectualidade de quem o gere... E se assim é, como se tem vindo a comprovar ao longos destes últimos tempos, só prova o elevado nível intelectual dos nossos políticos. Oh, desculpem lá qualquer coisa, mas um País que não educa e promove a sua cultura, é um País pobre, sem rumo... O que somos Portugal?
ResponderEliminarEu já tinha dito algo semelhante no facebook mas houve logo quem se insurgisse contra mim. Dizem-me que anda sempre toda a gente à espera da ajuda do estado... Pois eu acho muito bem que se façam coisas sem o estado, mas na impossibilidade o estado (se for de verdade) tem a obrigação de promover o acesso à cultura.
ResponderEliminarAs pessoas com mais poder económico nunca se lembram das que não têm...
Eu sei, e também faço parte do grupo, que muita gente aproveita a feira do livro para poder passar algum tempo no meio dos livros e dos autores, mesmo que não consiga comprar nada...sempre traz impregnado na pele o cheiro dos livros por algum tempo...
Cláudia Moreira
Não sou do partido... nem sou habitante da mui nobre cidade do Porto... no entanto, apesar de concordar com o exercício de reflexão, não concordo com o resultado.
ResponderEliminarO dito evento "aviõezinhos com fumos às cores a fazerem acrobacias sobre as pontes" faz mover todo um comércio e turismo que nos dias de hoje, bem feitas as contas, tão depauperados andam.
E repare-se, tão valioso é o evento que alguns o quiseram desviar para sul.
Não sou contra a defesa da Feira do Livro e daquilo que representa para a cultura, mas... não devemos extravasar os assuntos, misturar alhos com bogalhos. Tudo tem um contexto e espaço próprios.
E sim... sou do Norte. Sem futebol ao barulho, mas com portagens nas Scut`s 1 ano antes das do Sul.
Um Norte castigado pelos centralismos e provincianismos que irradiam de Lisboa.
E, se falamos das desigualdades entre Norte e Sul, que tal se referíssemos as escandalosas assimetrias entre Litoral e Interior?
Enfim... tudo isto me faz pensar.
Assimetrias entre norte e sul...entre litoral e interior...
EliminarLamento que, no Porto, não haja Feira do Livro nos moldes tradicionais. Mas pode que ainda consigam alguma coisa. E seja o último ano que tal suceda. Não sei bem como é o litoral culturalmente falando. Mas o interior é uma pobreza. E vai ficar mais pobre. As pessoas que vão à feira apenas ver os livros...não sei, tenho pena delas. Uma criança que vai para a feira do chocolate sem dinheiro...é tortura. Mas as pessoas do interior que iam à Feira do Livro, que compravam como e o que podiam, vão deixar de poder ir. E quando o interior viver apenas de si mesmo, de duas uma: ou os homens se mudam em marionetas, ou se solta o bicho bravio que todos amordaçamos cá dentro.
Porque os políticos fazem e pensam o mundo à sua imagem e semelhança. Como se observa.
É muito triste, eu ainda tinha esperança que fosse feita numa nova data.
ResponderEliminarA feira não é só para os tripeiros, é para todos os que vivem no Norte, como é o meu caso.
Suzana
Julgo que é injusto responsabilizar a Câmara Municipal do Porto (CMP) pela não realização da Feira do Livro. Parece-me uma análise demasiado simplista e convém escutar os argumentos da Vereadora da CMP. A decisão é sempre criticável mas ficou a ideia que a decisão foi puramente financeira e de que não há qualquer preocupação com a Cultura por parte dos responsáveis da autarquia portuense.
ResponderEliminarAcho também que é injusta a colagem desta decisão à ideia “(…)que a quem está no poder dá sempre jeito ter uma carneirada que não pensa.” Não devem haver tantas autarquias em Portugal com uma postura tão pouco populista e realmente interessada em resolver os problemas da cidade como a CMP.
A autora do blog faz, a determinado passo da sua pequena peça, uma interrogação, quando compara a ausência da feira do livro do Porto - e esta é condenável - com as acrobacias aéreas. E inquire, dando a sua resposta - "porque será?"
ResponderEliminarA resposta que deu é correcta. No entanto, não é isso que se passa no "reino" editorial? A procura manda, o oferta obedece. O aproveitamento político, claro está, leva a última de carrinho.
Salvo raríssimas excepções, daquelas editoras que lutam contra a maré e pugnam por não vender "a alma ao Diabo" (ficando com edições limitadíssimas e na prateleira), a maioria segue a evolução dos gráficos no gabinete do chefe. Se vende, imprima-se e dê-se o "nihil obstat", ainda que seja subproduto onde nem os ácaros se aproveitam para ferrar dente; se não vende, mas é uma obra que merece o "imprimatur", santa paciência, "a nossa editora, se bem que considere a obra bem escrita, não pode, nesta altura, publicar o seu trabalho".
Tenho de referir que não recebi uma resposta destas, mas sei como é usual.
O povo quer pão e circo? Ofereçam-lhe telenovelas e big-shows. O povo não quer livros? Crie-se um projecto com o nome "Ler", chamem-se alguns escolhidos para a recomendação do ensino público e auxiliem-se as editoras.
Uma tiragem de 1.500/2.000 exemplares é vulgaríssima para um livro cujo autor não tenha passado pela televisão ou não tenha ganho um prémio literário de montante pecuniário relevante. Se pega e é desconhecido, se o autor é realmente bom, segure-se com um contrato leonino, vincule-se à editora durante "x" anos e suba-se-lhe um pouco os direitos um pouquinho acima da fasquia dos dez por cento.
Enfim, Maria do Rosário, a feira do livro que não existe (devido a um autarca que é insensível à cultura livreira) e as pontes onde sobrevoam e subvoam os aviôezinhos coloridos, deu-me ensejo para - como diria Aquilino - "lhe entrar em casa".
E fez muito bem. Mas saiba que a casa não é minha (sou apenas uma inquilina com uma renda baixa).
EliminarOlá Jocamartinho,
ResponderEliminarObrigada pela dica, vou tentar passar por lá, se bem que seja uma zona de estacionamento quase impossível, mesmo a pagar.
Espero, contudo, que não tenha só livros cheios de florzinhas e corações dourados...
Saudações Beirãs
Antonieta