Auto-retrato
Conhecia o autor e até publiquei em Portugal As Partículas Elementares, que não é o seu primeiro romance, mas foi o primeiro a sair em tradução portuguesa. E, no entanto, O Mapa e o Território, de Michel Houellebecq, vencedor do Prémio Goncourt, é um livro inteiramente diferente e, em certa medida, nem sequer parece de um autor francês contemporâneo. Fala-nos de um artista, Jed Martin, que pede a Houellebecq (uma das principais personagens) que lhe escreva o texto de abertura do catálogo da sua primeira grande exposição (na anterior, colectiva, havia exposto uma fotografia de um mapa Michelin que o tornou um artista de sucesso) – e este acaba por concordar, criando-se entre os dois uma relação não exactamente amistosa ou íntima, mas em todo o caso empática e digna de nota. Jed decide então retratar o escritor e oferecer-lhe esse quadro – e o mais interessante é que a personagem do pintor serve ao próprio autor para se retratar na terceira pessoa sem cinismos desnecessários como o homem estranho e misantropo que todos sabem que é. Na sequência da viagem que Jed faz para entregar o quadro (finda a exposição), o livro muda completamente de rumo, e uma morte inesperada em condições horripilantes (cabeças degoladas e corpos desfeitos) levar-nos-á até ao culpado do crime pela mão de um comissário da Polícia (ou não exactamente). Cheio de movimento e animado aqui e ali com descrições pormenorizadas de questões laterais ao enredo, O Mapa e o Território é, entre outras coisas, um excelente romance sobre os artistas de várias naturezas e as suas vidas públicas e privadas. A tradução é de Pedro Tamen.
Hum... a acção desse livro não decorre num passado vagamente colonial e recente, numa ex-colónia, francesa creio?
ResponderEliminarJulgo tê-lo lido, pois o nome é-me familiar. Terá sido publicano há uns dois/três anos? Ou estarei a confundir com um título e tema semelhante?
Saudações dos dias de chumbo do Planalto Central!
Está a confundir: passa-se em Paris e numa cidadezinha francesa onde o autor passou a sua infância. Que inveja por não estar em África...
EliminarGrande livro ! Absolutamente ! Pelo menos tão interessante como "As Partículas Elementares" ! O modo como sarcasticamente em "O Mapa e o Território" o autor descreve o meio artístico pós-moderno e cosmopolita europeu é deliciosamente cómico e arrojado. A primeira parte centra-se num jovem artista plástico talentoso, mas que vive miseravelmente porque não consegue vender os seus retratos figurativos, e que subitamente faz um contrato fabuloso (e se torna ultrafamoso) a fazer ampliações fotográficas em tamanho gigante de áreas escolhidas do mapa Michelin de França; uma russa de inultrapassável beleza e rara inteligência que aparece e desaparece arrastando consigo vários enigmas; o meio literário e intelectual parisiense com as suas cumplicidades, intrigas e calúnias (ainda por cima utilizando nomes de escritores e críticos reais !) e, sobretudo, como a Maria do Rosário sublinha, um auto-retrato absolutamente arrasador que o Houellebecq faz de si próprio e que, para quem tem seguido as suas entrevistas televisivas e jornalísticas desde há mais de uma década, bate certo com a sua imagem pública. [Comparável em reconstrução irónica da sua própria vida e persona, vistas ambas de vários ângulos, só o último livro do Coetze, que também faz de morto no "Verão"; outro livro absolutamente imperdível]. O modo como o Houellebecq descreve a sua voluntária reclusão numa casa rural na Irlanda é fascinante. E depois o bónus final da intriga policial, bastante "gore", após o regresso do autor/personagem às suas origens geográficas francesas, com o tal "caprichado" detetive, e seu ajudante, que tem que deslindar o crime. Um romance muitíssimo bem escrito, com referências para muitos e variados gostos.
ResponderEliminarSempre respondi melhor
ResponderEliminarQuando as nuvens
Se empoleiram
no horizonte.
Nas épocas de bonança
Torno-me uma espécie
De bonecreiro
Um manipulador atento
Mas bondoso
Honesto
E carinhoso
Das minhas próprias
Marionetas.
Nas horas
De tempestade
Um guerreiro
(…)
Ou pelo menos
Quero pensar
Que é verdade.
PAS
"PARTÍCULAS ELEMENTARES" já o li há uns dois ou três anos e o que me ficou cá no "baú das recordações" foi - que grande livro, que maravilha, daqueles que se começa a ler e não se consegue parar, está nos 100 melhores livros que li até hoje e nos primeiros lugares e, por isso mesmo, o recomendo vivamente.
ResponderEliminarDeste autor foi o único que li porque. entretanto, um amigo meu leu um outro do mesmo autor não sei precisar o título (mas lembro-me que tem na capa, uma vaca sentada - a preto e branco a vaca) e deste não gostou nada...mas "AS PARTICULARES ELEMENTARES" esse eu recomendo porque o li num instante .
Também gostei muito desse. Embora o final fosse ligeiramente menos bom que o resto.
ResponderEliminarConcordo em absoluto. Precisava de um pouco mais de pathos.
EliminarPerdoe-se-me a ignorância, ó extraordinária Maria do Rosário, (sou mesmo um analfabeto), mas patos leva h????
ResponderEliminarDepende. Se for mais de um a grasnar, penso que não. Mas eu sempre escrevi e li com h. Talvez também o tenha cortado o novo AO...
EliminarEh,eh,eh! Quem é que disse que as poetisas e as editoras-poetisas não têm humor?
EliminarBom fim-de-semana para todos.
Caro Severino,
EliminarPercebo a sua dúvida e faz todo o sentido porque existem ambas as palavras, gregas e transcritas à margem de quaisquer acordos ortográficos e sentidos de humor: PATOS e PATHOS.
PATOS não tem nada que ver com a ave abaixo aludida por MRP, como muito bem o meu amigo saberá, caso contrário não haveria dúvida nenhuma. PATOS quer dizer "caminho, percurso" e transcreve-se assim em língua portuguesa porque se grafa com o 'tau' grego, que tem o mesmo som que o 't' português. Encontra-se, por exemplo, na conhecida palavra peripatético, e creio que a palavra 'pata' (de animal) também estará relacionada, directa ou indirectamente, com este PATOS.
Já PATHOS quer dizer paixão, sofrimento, e transcreve-se com 'th' o 'theta' grego, que julgo ser equivalente ao 'th' inglês na palavra 'theatre'. Encontra-se, por exemplo, na palavra 'paixão', 'patologia', etc.
Ambos os termos me fazem sentido na teoria da literatura, e já encontrei os dois. Dependerá do que a autora do blogue quis referir. Se for algo como a emoção, simpatia,. pena, etc., etc., suscitados no leitor por uma passagem de um texto, PATHOS está bem utilizado e já Aristóteles o utilizava. Se for algo como o enredo, etc., bem estaria PATOS mas creio que não se utiliza.
Caro Xavier
EliminarObrigado pelo teu esclarecimento.
Para ser honesto já terei certamente ouvido e lido esta palavra (pathos) mas, sinceramente, na altura não sabia e como tento ser sempre honesto intelectualmente digo o que penso e ali foi o que fiz, simplesmente não sabia e disse que não sabia; claro que poderia ter ido tentar saber, e até fui (mais tarde) ao dicionário de português e não encontrei lá a palavra (não vou a Wikipédias porque é mais ignorante do que eu) e como não gosto que os portugueses usem palavras estrangeiras em texto português disse-o (mas neste caso apenas e só por ignorância)!
Também compreendo que a MRP, lá bem do alto da sua sapiência, não tenha paciência (nem tempo) para aturar ignorantes (não fico por isso zangado com ela, obviamente).
Ora se o meu amigo também teve dúvidas do significado da palavra neste texto, já não sou só eu...
EliminarConsidero 'a possibilidade de uma ilha' o melhor livro de Houellebecq . O discurso ácido e corrosivo sobre o presente e a visão distópica que projecta num futuro de humanos, clonagens e neo-humanos de clonagem, é deveras marcante e assustador. Curiosamente "o mapa e o território" é o mais "leve" dos seus livros (talvez fosse essa "leveza" a condição para o prémio goncourt ) e ainda que tenha gostado, é inferior ao já referido 'partículas elementares ' ou 'a plataforma'. Quanto ao homem estranho e misantropo, ou qualquer outro adjectivo, que lhe possamos atribuir, entra na temática, já aqui referida de outras vezes, sobre o que é mais relevante. Interessa o homem ou as suas obras ?
ResponderEliminarMiguel
Já tenho esse livro há muito tempo mas ainda não lhe peguei. Do Houellebecq li o Plataforma e o Partículas Elementares. Gostei de ambos. Tanto gostei que comprei o Mapa e o Território, mas devo confessar que não é um escritor que me arrebate a alma. De todo.
ResponderEliminarGostei muito, muito, ultrapassou tudo o ue estava aà espera: http://vespaaabrandar.blogspot.pt/2012/04/este-foi-em-4-ou-5-noites.html
ResponderEliminar"não é um escritor que me arrebate a alma. De todo."
ResponderEliminarassino por baixo
Houellebecq é o típico pos-neocon provocatório convencido que é um carapau de corrida por andar para a frente e para trás com conas mirradas e com conas pujantes e existencialismos pornográficos misturados com serras para cortar pedaços de carne humana
Puxa vida!
EliminarAcordou mal disposto/a?
Parece que atirou para a cesto do pão algumas pedras.
Tenha Um Bom Domingo
É um pouco como dizes Emmmmmmmanuel mas olha que,na minha modesta opinião, "AS PARTÍCULAS ELEMENTARES" é um grande livro!
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