Admiração pelo inimigo

Há muitos anos, na Temas e Debates, publiquei um livro de entrevistas de Maria João Avillez a Álvaro Cunhal – e era notória a admiração da jornalista pelo entrevistado, embora pertencessem a quadrantes completamente distintos, sobretudo quando contava que levara a Cunhal todos os seus romances (os de Manuel Tiago, evidentemente) pedindo-lhe que lhos assinasse e que, de todas as vezes, regressara da entrevista sem o tão almejado autógrafo (senti que nem toda a gente teria coragem de se confessar tão absolutamente ignorado e desprezado sem um tom minimamente acusatório). Contaram-me também recentemente que Salazar era um grande leitor de Aquilino Ribeiro – e que o facto de o querer preso nada tinha que ver com a admiração que nutria pelo escritor (já pela pessoa, não se pode dizer o mesmo). Os intelectuais têm sido respeitados ao longo do tempo mesmo pelos seus maiores inimigos ou rivais, mas vivemos um tempo de viragem absurdo, em que, usando uma expressão de Ortega Y Gasset, os «ocupados» (os políticos) ignoram simplesmente os «preocupados» (os intelectuais) e não têm por eles o menor respeito, desprezando o que pensam ou dizem e não pedindo para nada o seu parecer. Ah, triste arrogância dos ignorantes que nos governam, que não só não devem ler uma linha (excepto num quadro em Excel, e mesmo aí...) como ainda por cima acham que quem lê, escreve, pinta, compõe – pensa e cria, em suma – não é gente a quem se deva dar atenção. Tristes os tempos que atravessamos, em que o Presidente da República omite deliberadamente o nome de Saramago numa Feira do Livro na Colômbia dedicada a Portugal só porque eram de quadrantes distintos...

Comentários

  1. Meus amigos - não tenham dúvidas esta gente não sabe nem escrever muito menos ler. O manequim da Rua dos Fanqueiros, para além de livros de Economia, só deve ler o Robin Sharma e seus sucedâneos. Mas quando esteve na Colômbia ele foi à Feira do Livro? certamente só para cumprir o protocolo!
    Estamos a ser governados por ignorantes (e creio mesmo que que isto não acontecerá somente em Portugal mas em toda a Europa)!

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  2. Gostei muito do post, pelo conteúdo e, sobretudo, pelo tom. Quanto a Cavaco e à sua Maria, nada espero, especialmente no que respeita à elegância ou à cultura. É incapaz de perceber que, ao contrário de Saramago, o seu nome, tão inúti como ele mesmo, será esquecido logo que cesse oficialmente funções.

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  3. De Álvaro Cunhal só li o Rumo à Vitória, livro de que me recordo apenas conter uma enorme energia - «sobra» de biblioteca familiar e que me abriu o apetite para uma fase de educação ideológica global. Livro que, conjuntamente com o Capital de Marx e outros de Engels, Feuerbach , Rosa Luxemburgo, Mao , e mais uma meia dúzia de ideólogos e práticos do socialismo e do marxismo, me serviram de educação, rastreio e contraponto ideológico a um mundo multicolor plural que os anos 70 abriram ao nosso país e a muitos dos nossos pais.
    Nesses loucos anos setenta, ainda criança, a caminhar para a pré-adolescência, senti várias vezes o inimigo dentro de portas - mais a mais para um filho de um militar, filho e neto de militares, anteriormente despolitizado, com um aparente e único sentido de dever à pátria, posto perante opções dolorosas, lealdades emergidas e secessões, até aí “possivelmente” pouco imagináveis.
    Mas esses verdes anos foram prenhes de valores (mesmo que diametralmente opostos e condizentes ou não com as nossas opções), de «cultura», de opinião, de paixões honestas e interessantes; e o poder parecia apenas o poder da ideologia, da ideia (mesmo que já lá estivesse o gérmen do interesse, da ambição, do despudor, do vazio, do deserto…)

    A roda do tempo leva-nos sempre a um velho tempo e a um novo recomeço. Mortas as ideologias, eis que elas renascem pela imposição da dor do vácuo, do acrítico, uma ideologia de sinal contrário, esvaziada de conteúdo, ignizando a ação reação de um regresso ao futuro. O fel do poder, do valor do sucesso como o dinheiro, a inveja, as frustrações pessoais, tem sempre «direito» de retorno.
    Curioso, como até nas relações internacionais podemos sempre esperar provar o nosso próprio amargo, como é o caso de mais um «homem doente da europa», a holanda: fiel aliado da austeridade e de um remédio mesinha congeminado na ignorância do outro, muito similar à «triste arrogância dos ignorantes (…) que acham que quem lê, escreve, pinta, compõe – pensa e cria, em suma – não é gente a quem se deva dar atenção», denunciado, e bem, pela Rosário.

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    1. Quando uma mezinha se transforma em mesinha, decididamente isto não é impulse », é mais alquimia, da cinzenta...

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  4. Isto hoje torna-se difícil emitir um comentário, por mais pequeno que seja... A nossa anfitriã, disse tudo em poucas palavras: "Ah, triste arrogância dos ignorantes que nos governam"

    Um abraço

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  5. Concordo com o que está dito e comentado até aqui, mas dou neste caso um pequeno crédito ao Presidente: poupou-nos à hipocrisia. No entanto, por singela que fosse a referência, tinha que ter referido o nome.

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  6. Quanto aos adversários políticos de Álvaro Cunhal o idolatrarem nunca percebi, penso que isso é qualquer coisa de hipocrisia ou de perturbação. Eu, que nunca fui seu adversário político, tinha muitas criticas a fazer-lhe e respeito-o como criador e artista. Por exemplo, os romances dele não têm carne, são trabalhos que visarão objectivos definidos e motivadores. O Saramago e o Aquilino são bem diferentes, as sua personagens são densas e humanas, não acredito que Salazar gostasse de "Quando os Lobos Uivam". O Cavaco é uma figura triste, baça, extremamente desagradável, não consigo reter dele nada de positivo no concernente ao desempenho das suas funções...

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  7. Obrigada,Maria do Rosário,pela audácia.Tristes tempos, estes..

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  8. Obrigada,Maria do Rosário,pela audácia.Tristes tempos, estes..

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  9. Aquilino foi, na minha modesta opinião, o maior entre maiores. Tanto como Criador e Homem.

    Quanto a este (des)governo (com letra muito pequena) não me importa que não leiam... De gaspar a moedas (continuando em letra muito pequena) que julgam os seus documentos de excell um assombro de verdade analítica, bastava que escutassem as pessoas, os muitos que sofrem devido à sua Cegueira e Surdez que não admite o erro.

    Que mais devo dizer? Quem votou neles?

    Gente que lê e muito ouve... mas que não tem um pingo de pensamento próprio.

    A realidade, caros Confrades Extraordinários, é que vivemos num País de Gente que espera pelo Domingo para opinar à Segunda-Feira.

    Líderes de opinião e Intelectuais são gente como nós... Falham rotundamente quando se baseiam em pressupostos errados.

    No entanto é necessário ler...
    Ler e escutar para assimilar pensamento...
    Falar e escrever para construí-lo.

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    1. Faltou-me apenas comentar Álvaro Cunhal... Grande Homem e Politico... Grande Estadista... nos antípodas do Cavaquito...

      Ahrrgh... falta-me limpar o fel...

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    2. Obrigado Vítor.

      Subscrevo na quase totalidade as tuas palavras só que talvez substituísse o Aquilino pelo Saramago (se calhar apenas porque li quase tudo de Saramago e quase nada de Aquilino)!

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    3. Puro esquecimento caro ASeverino! Não me molesta incluir o nome de Saramago junto a Aquilino e Cunhal. Como Homem e Artista, iguais encómios merece.

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  10. Nesta progressiva menorização dos inteletuais e criadores, entristece-me em particular a diminuição nos jornais (e nos media em geral) do espaço disponibilizado a crónicas de autoria de escritores. A politiquice está a tudo invadir. Resta-nos a fuga: ler, ver pintura ou ouvir música para se escapar por momentos a um mundo agreste. Ou fazer arte, construir palavras ou notas musicais, mas estas são atividades só acessíveis a alguns escolhidos, aqueles que são dotados de capacidades criativas. Que suave melancolia transparece do texto da nossa anfitriã !

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  11. Sobre Aquilino... Não é certo, longe disso, que Salazar o quisesse preso.
    Certo é que o salazarismo (não Salazar), meteu-se com Aquilino, por mor de 'Quando os lobos uivam'.
    Mas teve de abortar o processo instaurado com amnistia cozinhada em tempo...
    Certo, ainda, é que em conhecida entrevista a órgão estrangeiro, Salazar recomendou ao entrevistador: 'fale com Aquilino, vai dizer-lhe mal do Governo, mas não importa, é um grande escritor'...

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  12. Triste Povo que tem Cavaco como Presidente e Passos como primeiro ministro, uma tragédia, uma infâmia, enfim, que mais nos irá acontecer...

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  13. António Luiz Pacheco14 de maio de 2013 às 13:32

    Não nutro especial simpatia por Cunhal nem por Saramago... (Cunhal estadista???? O homem da internacional proletária? Deve ter dado voltas no caixão se por acaso se ouviu tão burguêsmente classificado... pois reconheçamos que o PCP só se tornou um partido "nacionalista", depois do desmembramento da URSS e que aquilo que hoje estão fazendo em relação à Alemanha, queriam eles fazer com a extinta...).
    No entanto não lhes nego (aos falecidos... pois aos vivos, credo!), óbviamente, nem coerência nem coragem mas sem ter de os admirar ou apreciar, apenas lhes dou o valor que entendo possuem e merecem - ou seria também um dos tais estúpidos que aqui referem!
    Já de Aquilino e Torga (esquecem-se dele?) gosto e muito!!!!
    Respeitar o adversário é um acto de coragem que nem todos conseguem, e é até uma questão de coluna vertebral... o comandante Alpoim Calvão, no seu "Honra e dever", faz justiça ao controverso Otelo Saraiva de Carvalho... quem diria! Ou, talvez não... ambos são homens de causas e de coragem, independentemente daquilo que signifiquem.
    Dar valor a outrem, não significa que pense como nós!

    Saudações do Planalto Central

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    1. Mantenho o que disse em relação a Cunhal.

      Estadista e...ponto! Tinha uma visão que queria para o País e pugnou por ela... sem derramar sangue. Coisa que Salazar não se pode orgulhar.

      Claro que pensei na Internacional Socialista, mas... por muito enrolados que estivessem os estados membros na URSS... deixando de parte alguns dos seus próprios poderes Soberanos, não deixavam de ser Estados, com a sua língua, cultura e com o seu próprio Governo (faz-lhe lembrar a UE?)

      Na idade média os Condados, Marquisados e Ducados eram autênticos estados independentes. Mas, nem por isso estes elevados Nobres deixavam de prestar vassalagem ao Rei. Vassalagem que, contudo... e reflicta bem nisto!... não rimava (nem rima) com obediência.

      Até D. Teresa assinava como Regina (vá lá!... Rainha).

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    2. António Luiz Pacheco15 de maio de 2013 às 10:47

      Meu caro Víctor, eu não reduzo o Mundo a duas facções... os que pensam como eu e os que não pensam.
      Ou seja, quero dizer, porque não sou pró-Cunhal serei forçosamente pró-Salazar? Isso seria de uma pobreza absoluta, meu caro!
      Eu sou homem de Larguezas... limitar-me a partidos, líderes, clubes, religiões? Deus me livre (eheheh!).

      Detesto o Cunhal tanto quanto o Salazar... porque se um era pró-PIDE o outro era pró-KGB, e, se por um infeliz acaso um deles ainda mandasse ou o outro tivesse chegado a mandar, não estaríamos aqui livremente a opinar... isso é certo!

      Uma coisa de que gosto e me faz sentir bem neste espaço é justamente a pluralidade, e a diversidade de ideias, credos e opiniões.

      Saudações Livres cá do Planalto Central

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    3. Caríssimo Senhor António Luiz Pacheco,

      É claro que eu não reduzo o mundo a duas facções. Nunca o tomei por Salazarista... Longe de mim, que nada li dos seus comentários que me fizesse pensar semelhante despautério.

      O que eu fiz foi comparar um e outro, nada mais. E aqui sim!... Cunhal já teria motivo para se remexer na cova, se não tivesse sido cremado.

      Mesmo não concordando com muitas coisas da visão politica de Cunhal não consigo deixar de admirar aquele Homem... Digno, Sério, Incorruptível, Educado, Civilizado e que sofreu Torturas na prisão. Por oposição a Salazar a quem, muitos juram a pés juntos ter sido um homem honesto e com as mesmas qualidades que enumerei ao primeiro (vá lá!... na escala dos Ditadores podemos considerá-lo bem macio) e que morreu pobre, o coitadinho. Como se viver à grande e à Francesa às custas do Estado não fosse o suficiente (numa altura em que aqui se passava fome). E logo ele que morreu sem família e que, convenhamos, para o túmulo não poderia levar uns cobres sequer.

      O que eu fiz foi defender o meu comentário com alguma... chamemos-lhe veemência, só isso.

      Leio com bastante agrado os seus comentários aqui postos (devemos agradecer à Senhora Maria do Rosário Pedreira que nos permite este espaço) e espero continuar a fazê-lo.

      Deixo-lhe aqui as minhas saudações e cumprimentos de alguém que gostaria de ser ainda mais livre...

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    4. António Luiz Pacheco16 de maio de 2013 às 05:32

      Meu Caro e Extraordinário Víctor Ferreira

      Estamos pois esclarecidos, extraordináriamente!
      Como não poderia deixar de ser neste espaço...

      Um abraço anti-ditaduras cá do Planalto Central

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