Envelhecer
Nos últimos anos, tenho assistido a um notável desenvolvimento daquilo a que vulgarmente se chama romance gráfico, embora em muitos casos (como o que hoje me interessa) a expressão seja um pouco redutora. Provavelmente, Rugas, de Paco Roca, não é sequer um romance (embora seja uma narrativa) e pode ser gráfico, por ter desenhos, mas aqui as palavras talvez contem mais do que as ilustrações. É, em todo o caso, uma obra francamente interessante sobre o envelhecimento e os lares de terceira-idade para onde são empurrados os que já não são autónomos e dos quais os filhos não podem ou não querem tratar. É isso mesmo que acontece a Emilio, o protagonista de Rugas, quando, aos setenta e picos, dá os primeiros sinais de uma confusão que vem a saber-se ser Alzheimer. Internado numa instituição, primorosa e humoristicamente retratada como uma sequência de salas onde dormitam velhos, com ou sem televisão, o objectivo de Emilio será manter-se no piso de baixo, onde ainda lhe resta alguma dignidade, como lhe aconselha logo à chegada o cínico Miguel, que aproveita as fraquezas alheias para surripiar carteiras e outros bens pessoais e para chamar os bois pelos nomes desapiedadamente. Não é tão insensível como, à primeira vista, possa parecer; mas para isso e para saber o que acontecerá a Emilio será preciso ler este livro muito premiado até ao fim. O que, naturalmente, sugiro.
Miguel?
ResponderEliminarSerá ele? o desempregado?
Nesta sociedade tão moderna e cheia de tablets e outras tecnologias de ponta, os velhos têm pouco espaço. E não apenas no sentido físico. O hedonismo em que involuntariamente navegamos segrega-os. E não me refiro apenas àqueles membros da Assembleia da República, indignos representantes do povo - que ainda é, talvez, a classe que melhor entende a velhice - , a quem falta apenas dizer que são um estorvo e que morram depressa.
ResponderEliminarQuase me parece que alguns deles têm o ar de quem pede desculpa por ter envelhecido, tanto a sociedade os exclui. E no entanto deixaram-nos um país como não conseguiremos para os nossos filhos (ok, a conjuntura foi diferente)
Ora, num regime democrático, toda a gente tem direito a viver e morrer com dignidade, que a morte é o último acto da existência. O ponto final a fechar a frase. Pertence-lhe. E tem de haver.
Acho que foi Belo que disse "a morte é um vizinho que se ama". Lembrei-me disso ao ler o seu comentário.
EliminarObrigado Beatriz - que belo texto!
EliminarNão sei se é amor, como diz o poeta. Mas acompanha-nos sempre; Somos caminhantes irreversíveis. Em cada dia dela nos avizinhamos. Se tristes, podemos até desejá-la, mas bem sabemos ser pouco profundo o desejo. Porque, enquanto vida haja, somos dela e lhe pertencemos por inerência. Que só em sofrimento se pode amar o nada. E, se a transcendência houver e outro mundo à espera, não será como este. Que nele os homens não seriam felizes, a completa harmonia não nos quadra.
EliminarPortanto, há uma certeza: a vida, como a conhecemos, não se repete: as teorias de reencarnação não pressupõem a repetição e Nietzshe ensaiou um esquema de repetições que não é claro, mas seguramente não se refere a viver o exacto mesmo.
Por mim, ama-se mais a vida porque a morte está nela como limite. E se seja o eterno sono socrático?...pois que venha tarde, quando cansado o corpo. Sabemos que um sono é bom e reparador porque acordamos, Sócrates esqueceu este pormenor (não era a sua crença).
Sorry, escrevi demais. Como quase sempre.
ASeverino
Eliminarmuito obrigada :) fez-me reler; e não lhe encontrei nada especial. Mas prezo a sua opinião.
Este livro deu origem a um filme de animaçao espanhol, também premiado, e de que muito gostei. Penso que nao estreou em Portugal. Mas há a net...
ResponderEliminarGaspar ,sim estreou numa mostra de cinema espanhol no cinema São Jorge.Também gostei muito.
EliminarO filme vai passar nos cinemas em Maio
EliminarSó quem nunca pisou o chão frio de um lar - desses tantos que albergam os nossos velhinhos, que por acaso são os nossos avós ou pais - poderá ficar indiferente ao vazio dos olhos de quem lá habita. De quem lá se permite esperar a morte, por não ter outra alternativa.
ResponderEliminarA dignidade é de facto um direito, de todos nós, e mais ainda de quem, pacientemente, espera o fim do chão frio, o apagar do olhar vazio...
http://jose-catarino.blogspot.pt/2012/10/coracao-de-manteiga.html
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