Comer e chorar por mais
And now for something completely different… Pois, sendo eu uma péssima cozinheira, é estranho vir aqui falar de um livro de receitas – mas não resisti porque este é o livro de receitas ideal para quem detesta ou não sabe cozinhar. E porquê? Porque a sua base são as conservas. O autor, Henrique Vaz Pato, é o proprietário de um restaurante na zona do Cais do Sodré chamado Sol & Pesca, muito badalado em guias e artigos sobre Lisboa por esse mundo fora, no qual, para variar, o menu é exclusivamente composto de conservas: de sardinha, de atum, de ovas, de cavala… Com marcas óptimas que não se encontram facilmente num supermercado (a menos que seja gourmet), oferece-nos uma refeição muito original acompanhada apenas de pão e do que se quiser beber. O livro, igualmente intitulado Sol & Pesca, vira, porém, as conservas do avesso e cria com elas pratos que exigem alguma confecção mas farão de certeza a delícia de todos, além de serem extremamente fáceis de preparar. Eu, que sou aselha com os tachos, aplaudo.
Como se diz em alemão: "Übung macht den Meister" (o treino faz o mestre - há algo parecido em português, mas, vão-me perdoar, não me vem agora à ideia. É raríssimo eu falar português, só treino a minha língua materna a escrever e essa será a razão para, por vezes, usar palavras e expressões mais "estranhas", a nível espontâneo, pelo que aproveito para pedir a compreensão de todos os que visitam este espaço).
ResponderEliminarVoltando ao assunto (e pedindo perdão à nossa anfitriã): a cozinha é como tudo: exige treino. Mais uma vez, em alemão: "von nichts kommt nichts" (do nada, vem nada). E, para quem não sente apetência para os tachos, não há livro que lhe valha. Com ou sem conservas!
Cristina
EliminarCompreendo-a perfeitamente. E a sua prosa não parece, nem por sombras ser de pessoa que só treine o português por escrito :).
A cozinha tem os seus truques. Mas do que até hoje me foi dado observar, os melhores sabores ligados à culinária, fazem mal a um rim ou aos dois, ao fígado, ao baço e a sei lá quanta tralha que temos cá dentro.
E porém. Pode ser um prazer cozinhar. Porque é indefectivelmente agradável comer. E quem não gosta de comer? Du-vi-do. Não sei mesmo se existe tal espécie de gente. Mas já ouvi pessoas várias "ai, eu não gosto nada de comer"; e expressam isto em tom de nojo compungido. Se eu, numa admiração, não gostas?! de certeza? E elas a abanarem a cabeça, os olhos a amiudar, a boca franzida num esgar de parecer outra coisa, "não gosto de comer, queres o quê?"
Hum, hum...convidei uma tal pessoa para um jantar e ela esqueceu o esgar e o quanto detestava a comida, e fê-lo em tal agrado que agora a convido de quando em vez pelo prazer de a olhar na degustação.
E não. Não sou óptima cozinheira. Nem o meu jantar era nada com mais jeito e modos que a correnteza dos dias.
E a Rosário desculpe, que não quero ofender as conservas e muito menos as das lojas gourmet, que, já se sabe não existem na minha terra, mas tenho-lhes muito respeito na mesma, pronto. Mas pela sua rica saúdinha faça uma receita só de vez em quando, que as cólicas são perigosas para si e podem deixar o Horas Extraordinárias para o enfiado.
E espero que Henrique Vaz Pato não leia isto, que não desejo chatear ninguém numa 6ª à tarde
Aprestem-se a ser felizes. BFS
Beatriz
EliminarPor acaso, também acho estranho essa expressão, "não gosto de comer". Haverá pessoas que gostam de comer mais do que outras, mas, não gostar de comer, a mim, parece-me não gostar de viver.
Eu sempre gostei de comer. Tive é de ir adaptando o regime alimentar à idade, para manter uma certa elegância ;)
Quanto ao treino, falo por mim. Quando casei (há vinte anos), também não era grande coisa na cozinha, não fazia ideia quais os condimentos que combinavam, quais as temperaturas certas para cozer isto, ou fritar aquilo, e tinha imensa dificuldade em fazer molhos, pelo que usava muito os instantâneos, aos quais basta juntar água.
Mas, enfim, a experiência e a convicção de que qualquer pessoa pode aprender qualquer coisa, basta aplicar-se, acabou por operar (quase) milagres. Hoje em dia, dou comigo a inventar receitas, ou a modificar outras, que até saem melhor do que as originais, coisa que, há vinte anos, não sonhava ser possível. E vou-me especializando em receitas com pouca, ou mesmo sem, carne, até já pensei criar um blogue sobre o assunto, só a falta de tempo me tem travado.
Quanto a bolos, confesso que continuo "aselha". Mas, lá está, nunca me dediquei à sua confeção, mais por razões de calorias, seguindo o princípio: quanto menos tentações, melhor. É claro que me basta ir a uma pastelaria, mas, entre o ir e o não ir, há sempre alguns que escapam ;)
Também na cozinha sou um desastre. Porque não gosto e porque não treino, é um ciclo vicioso. E as conservas fazem parte da minha despensa, com umas batatas cozidas nunca me deixam mal. :)
ResponderEliminarVespinha, costumo usar sardinhas de conserva para fazer um gratinado que fica uma delícia (uma criação minha, diga-se de passagem). Quando estou em Portugal, aproveito para comprar as latas, venho sempre com muitas na bagagem ;)
EliminarCristina, pode enviar-me a receita para o mail do blogue? Obrigada!
EliminarUm gratinado de sardinhas de conserva????!!!! prefiro nem experimentar.
EliminarBom. As minhas histórias com a culinária são verdadeiramente hilariantes se não fossem em simultâneo dramáticas (para mim, aos 15 anos, eram muitíssimo dramáticas, debulhava-me de choro); parece que tenho alguém na família que puxa para o meu lado (infelizmente para ela) e na família sou dada como exemplo de inépcia que conseguiu sobreviver; ser normal, digamos:)
Desimaginava que alguém levasse de Portugal sardinhas de conserva. Mas há quem leve caixas de cérelac e esteja na meia idade :))
Na Alemanha, só encontro sardinhas de conserva de... Marrocos. E eu prefiro apoiar a indústria portuguesa! Também regressamos sempre com muita garrafa de vinho tinto no carro ;)
EliminarPara quem vive no estrangeiro, é normal andar com comida na bagagem. O produto mais usual é o bacalhau, pois, seco, como em Portugal, não se encontra em mais lado nenhum (na Alemanha, só há bacalhau fresco). Eu, por acaso, não ligo muito ao nosso. Uma vez, um inglês, casado com uma portuguesa, disse-me, boquiaberto: "tu és a única portuguesa que eu conheço que não leva bacalhau na bagagem!"
Como veem, no estrangeiro também se pode aprender muito sobre os portugueses.
Ahahah!
ResponderEliminarA prática trás a perfeição – é o adágio a que a Cristina T. se referia!
Pois eu adoro comer e cozinhar… e sem falsa modéstia safo-me bem… sou o cozinheiro em casa que a minha mulher detesta cozinhar (mas gosta de comer, seja embora pouco “carneira”). Nas reuniões institucionais ou ocasionais da família está sempre tudo expectante dos meus menus, e sou muitas vezes convidado para ir cozinhar algo numa reunião de amigos. Imaginem que já fui fazer para um grupo da tertúlia de caça e toiros (faltou-nos o Ortega…), uma lebre com feijão ao restaurante Toucinho!
A minha vida profissional desenvolveu-se exactamente na área alimentar (frescos), começando por ser durante 10 anos responsável nas compras de perecíveis do Pingo Doce, e ainda hoje lá está a minha marca e coisas que ajudei a desenvolver ou mesmo criei… e garanto que tenho tido o privilégio de trabalhar numa área que seria um hóbi.
Bom… mas a verdade é que não conheço uma única pessoa que não goste de comer, e, que seja boa pessoa… me perdoem os ascetas. Nada! O prof. Pádua emite mesmo através da tv uma péssima vibração! Até Kahlil Gibran fala da comida… eheheh! Sou dos que acreditam piamente que o Bom Deus pôs na Terra as coisas boas, para nosso deleite!
Saudações do Planalto Central
Caro António Luís
EliminarAinda bem que fiquei a saber que o Extraordinário habitante do Planalto Central não se ocupou da área de Livros do Pingo Doce. Aquilo é uma miséria!
Um abraço da Meseta Ibérica para o Planalto Central - enfim, dois planaltos em dois continentes.
Os ascetas, por serem ascetas, não quer dizer que não gostem de comer. Apenas acham que devem disciplinar o seu corpo, ao ponto de praticamente não precisarem de comida. Quanto mais gostarem de comer, mais difícil será! Enfim, é um modo de vida que, na minha opinião, nada tem a ver com as pessoas que dizem enjoar só de olharem para a comida. Essas pessoas costumam ser azedas e/ou tristes e os ascetas, salvo exceções, vivem equilibrados e em paz consigo próprios e o mundo, o que eu admiro.
EliminarDe resto, gostei muito de saber que o António Luiz cozinha bem. Mas, pensando bem, já devia ter calculado. A maneira como descreve os pratos no seu "Largueza" revela grandes conhecimentos culinários ;)
Olá *-* Ando à procura de blogs de Portugal com quem me possa familiarizar porque apesar de eu também ter um, a maioria das vezes só conheço outros do Brasil. Foi um prazer ver o blog.
ResponderEliminarPode visitar o meu e dar também a opinião.
www.fofocas-literarias.blogspot.pt
Jessinha
EliminarGostei muito do seu blog, particularmente do seu post com um livro da ASA, onde, para minha satisfação, afirma que gostou mais do título e da capa da versão portuguesa, em compração com a edição brasileira.
Pelos vistos, apesar daquele acordo desacordado, que tem o acoplativo ortográfico, e da implantação da LeYa no Brasil, as edições dos autores portugueses neste grupo chegam tanto a esse lado do Atlântico como a chuva ao desero do Sahara.
Bem, para ser franco, há livros de ficção de autores portugueses - e alguns até da LeYa - que não perdiam nada se ficassem a meio caminho; ou seja, nas águas do Atlântico, a cerca de quatro horas de avião, depois de aberta a escotilha dessa bagagem. Não são todos, evidentemente, mas só alguns, julgo eu.
Se não fosse pela originalidade das conservas, diria que os livros de culinária estão tão na moda que até irritam, tal como os “policiais” do Stieg Larsson .
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