Uma vida nos livros

Leio no blogue de um amigo espanhol editor e escritor, Adolfo García Ortega, uma história belíssima de uma chilena, Susi Armendáriz, que, vivendo perto do Cabo Horn, apenas conseguiu ver o seu farol aos noventa anos, pois desde pequena que praticamente não saía da aldeia onde nascera. Aos dezoito anos, foi para casa de uma senhora rica e cega ler-lhe diariamente romances, onde ficou até aos trinta e quatro, altura em que a patroa morreu. Mas poucas semanas depois ofereceram-lhe um novo emprego como leitora noutra casa próxima. Desta feita, a senhora não era tão rica, mas estava também cega, e foi com ela que passou os quinze anos seguintes, lendo continuamente. Aos sessenta e sete anos, Susi fizera da leitura em voz alta a sua única profissão e, quando a nova patroa morreu, conseguiu outros trabalhos do mesmo tipo até ser ela própria muito velhinha. Nos últimos tempos em que trabalhou, já nem sequer lia, repetindo à sua maneira as histórias que conhecia desde a juventude. Quando praticamente cegou, contava a si mesma essas histórias, como se fossem recordações da própria vida, acabando por confundir a realidade com a ficção: sem ter saído da sua aldeia, acreditava que já estivera em muitos locais que serviam de cenário aos romances que lera e que protagonizara muitos dos episódios ali contados. Quando, aos noventa anos, a levaram finalmente a ver o farol do Cabo Horn, essa foi a sua última recordação.

Comentários

  1. Que belíssima história!
    Aproveito para referenciar que foi deste excelente escritor que li talvez o mais belo (e triste) livro sobre os campos de concentração nazis: O COMPRADOR DE ANIVERSÁRIOS. Recomendo-o vivamente .

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  2. Concordo, belíssima história. Nunca ouvi falar desse escritor, mas fiquei muito curioso com o livro que o Severino recomenda. O título em si já promete. Hei-de pesquisar por ele.

    Boa semana a todos,

    Rui Miguel Almeida

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    1. Eu publiquei deste autor um fantástico romance chamado «Café Hugo» e o livro que ASeverino menciona, ambos na Temas e Debates.

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    2. E que belos eram aqueles livros (como "O COMPRADOR DE ANIVERSÁRIOS")

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    3. Os tempos que vivemos têm coisas muito boas. Pesquisei o livro que o Severino referiu e, após uns clicks, dei com ele a bom preço num desses sites onde podemos vender coisas. Já fiz a transferência e espero tê-lo nas mãos dentro de dias.

      É o que mais gosto neste blog. Descubro autores que por certo não descobriria sozinho. Não gostei de tudo o que li, influenciado por recomendações da Maria do Rosário ou por algum dos fiéis seguidores das horas extraordinárias, mas devo dizer que o saldo é francamente positivo, ao ponto de não ter hesitado em comprar este livro hoje (o preço ajudou muito, confesso, que os tempos estão difíceis).

      Vou fazer uma nota mental para deixar a minha opinião, uma vez lido o livro. O tema interessa-me muito, já estive duas vezes em Auschwitz e ... (prefiro que as reticências terminem a frase).

      Anotei o outro livro do mesmo autor, fica a aguardar que me apaixone pelo comprador de aniversários.

      Rui Miguel Almeida

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  3. Maria do Rosário...gostei.
    Há pelo mundo tantas coisas assim...e, nós \"livres\", nem nos apercebêmos.
    Mas, o facto de, apesar de cega ter conseguido inventar-se histórias, é magnífico!

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  4. E afinal não teremos todos o nosso Cabo Horn, às vezes ao virar da esquina? E não Lemos todos em voz alta, mesmo quando lemos em silêncio?

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  5. Ler para alguém é uma experiência bonita; estou a lembrar o livro e o filme “O Leitor”, e até as vezes que eu mesma o fiz. Ser pago para ler não o há-de ser tanto, mas julgo que alguns de nós não se importariam. E a quem é cego, é um mundo que se abre. Que hoje os CDs retiram-nos o emprego.
    Bom, aos noventa anos ela mesma veria muito mal. Mas seria interessante saber se distinguia uma memória da outra. É indubitável que o que o imaginário construiu sobre o lido foi o com que viveu e deu a ver; tanto que, mais tarde, se entretinha a contar a si mesma as histórias lidas. Mas uma última memória é só isso: a última.
    Contudo, tão diferente é o que existe do escrito sobre ele! Todos temos o nosso cabo Horn, sim. Talvez vários. Mas me parece que é em nós mais uma desatenção. Tal mulher viveu imersa num mundo de papel por condição. Talvez sobrevivência. Que não conheço a obra.
    Mas há ainda aqueles a quem a realidade falha e o mundo de papel também. E como os bichos, confinados a sua jaula exígua. Não sei se neles o pensamento cria asas. Mas espero.

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  6. Os livros que se lêem, e os livros que se vivem.

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  7. Que belo texto nos ofereceu a nossa anfitriã sobre a essência do que são as "Horas Extraordinárias" ! E, com a ajuda do Severino, deixou-me curioso quanto a um escritor que desconhecia. Obrigado a ambos ! Já que estamos em maré de lembrar livros inesquecíveis, aqui vai um: "A Leitora" de Raymond Jean em que uma ainda jovem mas madura mulher ganha a vida através de anúncio de jornal em que se propõe fazer leituras ao domicílio. Tem um enredo fascinante que se vai complicando e contém alguns desenvolvimentos um pouco perversos. Conheci pessoalmente o escritor num colóquio há mais de uma década numa Feira do Livro do Porto. Parecia o exemplo acabado do tímido e rotineiro professor universitário de província, sem brilho especial, sem verbo cativante, diria até bastante cinzento. E, no entanto, tanta imaginação e qualidade de escrita posta por Raymond Jean numa novela curta que à partida escolhia uma temática que até soava a artificial e quase a académica !

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  8. Obrigado Artur, vou já à cata dele.Ora aqui está uma ideia : porque não um dia aqui no HORAS EXTRAORDINÁRIAS dedicado a sugestões dos bloguistas ? com justificação!

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