Teimosia
Quando eu era pequena, chamavam muitas vezes aos teimosos cabeçudos – mas às vezes é bom ser-se teimoso, por exemplo, para fazer com que os nossos jovens leiam sem a desculpa de que os livros não lhes chegam às mãos. Assim pensam Rui Andrade e Raquel Salgueiro, dois cabeçudos que criaram uma livraria itinerante dentro de uma carrinha, inspirados nas velhinhas bibliotecas que a Gulbenkian pôs a andar por esse país fora nos anos 70 e que tantos leitores fizeram em localidades que não tinham como chegar aos livros. A iniciativa chama-se justamente Cabeçudos e esteve na semana passada na Azambuja com a companhia das editoras Planeta Tangerina e Orfeu Negro, que têm títulos belíssimos, incluindo o recentemente premiado Achimpa, de Catarina Sobral. Mas haverá muitas outras paragens noutras datas, com a cumplicidade de escritores, ilustradores, contadores de histórias e outros, em escolas, bibliotecas e outros locais, públicos e privados. O Plano Nacional de Leitura aplaude e apoia. Nós também. A teimosia, nestas coisas, dá sempre bons resultados.
Não tenho pela teimosia a maior das considerações. Pela persistência, sim, e mesmo assim só quando segue os cânones da «convivialidade», da ética social e da humildade.
ResponderEliminarTeimoso é o chefe que lidera diretivamente , não o que tem uma liderança participada; teimoso é o homem do leme, que teima no erro, não alterando o sentido do seu rumo, levando-o em direção aos rochedos e à tormenta; teimoso é o ator que mantêm o guião apesar do enfado do espetador; teimoso é o Homem que impulsivamente invectiva a nova ortografia sem lhe tomar o pulso (já fui teimoso e ando-me a tratar; e libertando-me do lastro, sinto-me mais leve); teimoso é o que acha a sua teimosia, persistência, «porque, não!»
Não tenho pela teimosia a maior das considerações: mas neste particular e em todos os que dêem à cabeça a forma de cabeçudo, pela leitura e pela reflexão sua associada, até propunha uma nova forma ortográfica para esta palavra: «teimozia.»
Não há dúvida de que a teimosia (persistência) está longe de ser apenas um defeito. Sem teimosia, não se teriam feito descobertas importantíssimas para a Humanidade. Por isso, custa-me a aceitar certos termos que, embora enriqueçam a linguagem, têm uma forte carga negativa, como chamar "piolho", ou "pivete", aos mais pequenos.
ResponderEliminarMas, enfim, esta é uma opinião muito pessoal (e, normalmente, polémica).
O termo "cabeçudo" também se enquadra nesta perspetiva, mas a iniciativa de que a MRP fala parece-me uma boa maneira de o libertar do tal sentido pejorativo ;)
Resta saber se fazem os dois cabeçudos o mesmo que a Gulbenkian; se também emprestam os livros grátis. Se, de entre as tarefas de que se incumbem, essa é uma das alíneas. Quem vive no interior e tem menos poder de compra, não gasta dinheiro em livros senão os escolares. Por não o ter. Por inexistência de hábito. Claro que depois há os outros, aqueles que compram, se o gosto os conquiste.
ResponderEliminarNão interessa se persistência ou teimosia. Leva a ler? É de continuar. Aplaudo. Digo eu, que não sei de receitas de leitura. Mas sei seguramente que a massa crítica se consegue lendo e escrevendo. E que o exercício da cidadania vive dela. Mas terá de se gostar de palavras e da arte em misturá-las. O prazer de ler ganha-se, que também se ensina a gostar; e, como em tudo que envolve pessoas, o que serve uns não serve outros. Mas em alguns de nós parece força inata, a aprendizagem da leitura a coincidir com a do gosto.
é uma ideia "cabeçuda", quase genial.
ResponderEliminarespero que seja um sucesso, que seja bem acolhida pelas autarquias e pelas escolas por este país fora.
ResponderEliminarBom dia,
diria, perscruta do exemplo de outrem.
Óptima ideia. Hoje, aos 62 anos de idade, digo com frequência que as recordações mais gratas da minha infância foram os livros levados pelas carrinhas da Gulbenkian ao Alentejo ''longínquo'' em que vivia. Recordo ainda a emoção do primeiro livro que li ! (parece mentira, mas não havia lá livros, daí amarmos tanto os da escola, únicos, sim, mas eram tudo o que tínhamos). Que bom é hoje ninguém ser privado de livros. Creio firmemente que aqueles tempos não voltam. É bom que se recordem, mas sem nostalgias tolas.
ResponderEliminarLuisa, eu também amava os livros da escola, ainda hoje sei de cor certos textos das 1ª e 2ª classes. Não vivia numa região "longínqua" e os meus pais também não eram pobres, mas "esqueciam-se" de comprar livros infantis. Apenas não pensavam nisso, os poucos que tive foram oferecidos por outras pessoas. E eram professores primários, veja lá! Mas isso é outra história...
EliminarNão creio que alguém deseje que volte o tempo das carrinhas da Gulbenkian. Mesmo se dizem "quem me dera cá o Salazar", as pessoas não são verdadeiras. E, se viveram nesse tempo, só o dizem como desabafo contra uma ou outra desordem específica e porque têm a certeza de não poder ele voltar. Se são da era pós Abril, não sabem o que dizem, são uns "inconcientes ".
EliminarMas é verdade que sei de famílias onde os olhos se abririam desmedidamente se os filhos pedissem dinheiro para livros. Para demasiada gente, os livros ainda são só os da escola. Ou a colecção para enfeitar a estante e que não passa pela cabeça a ninguém que seja de ler. Importa a encadernação e a lombada; se por acaso têm letras, não interessa, são de faz de conta, enfeite.
A Cristina teve azar. Os professores primários costumam incentivar a leitura até aos alunos; e emprestavam-nos livros :)
Quando a leitura não faz parte do mundo dos pais, como passa a fazer parte do mundo dos filhos? Intrinsecamente, quero eu dizer. Pode, claro.
É preciso ensinar a viver com os livros e que eles deixem de ser mundo à parte.
Não que eu saiba como
Os professores primários formados até ao início dos anos 70 (os do Estado Novo) não incentivavam muito a leitura. O curso do Magistério Primário não incluía muita Pedagogia (se é que incluía alguma). Salazar criou até as professoras "regentes", que eram senhoras que tinham apenas a 4ª classe, a quem se dava um qualquer polimento! (Não era o caso dos meus pais).
EliminarOs meus pais iam lendo, mas desprezavam livros infantis. E é verdade que, em geral, não gostavam de gastar dinheiro em livros. Quantas vezes tive de suplicar por um Tio Patinhas, ou um Turma da Mônica... E esses iam porque eram baratos.
Tínhamos as coleções de estante, sim. E até podíamos abrir o celofane ;) E eu fazia-o. Quantas vezes me punha a ler os volumes enciclopédicos... Até dicionários eu lia!
Cristina
EliminarPor razões familiares cresci quase dentro de uma escola. Literalmente. Onde trabalhava uma professora regente. Que me emprestava livros para ler; também é verdade que mesmo que o não fizesse eu tinha acesso à escola e lia-os todos, como li. Horas e horas sozinha lá dentro a ler livros muitíssimo estranhos como um que ensinava a fazer queijos e outro que ensinava a ser dona de casa. Seria a pedagogia do antigo regime :) era a história de uma miúda desde que saia da escola até casar. Parece-me que a qualidade dos livros é importante, mas, mais que isso, importa o espírito com que se lê. Só hoje penso que eram livros meio tontos, postos assim numa escola. Quando li o dos queijos achei imensa graça ao facto de uma garota ter uma queijaria e tive logo ali umas ideias a que ninguém ligou meia (podia ter enriquecido a fazer queijo, à época dominava pelo menos em teoria, todos os passos).
E a minha professora primária, de antes de 70, emprestava-nos livros dela ao fim de semana e dava-nos exemplares da Fagulha, de que era assinante, de cada vez que nos portávamos melhor. Na minha escola não existia um único livro. A professora era uma jovem bonita, namoradeira e muito temperamental :) Esquecia-se a namorar e cheguei a ler dez números da Fagulha de seguida. Na minha terra havia uma pessoa com um livro. Um dia a minha mãe foi pedi-lo para eu ler.
O curso do Magistério Primário tinha uma cadeira de Pedagogia, mas nada era como hoje. Estudavam-se as várias escolas de aprendizagem. Teoricamente, claro. Foi com o meu professor de Psicologia que aprendi a importância da leitura em aula. Ele lia-nos diariamente uns bocadinhos de “O meu pé de laranja lima”.
As histórias que temos com os livros são sempre engraçadas.
Beatriz
EliminarApesar de eu, também por razões familiares, ter quase crescido dentro de uma escola, tive experiências bem diferentes. E é interessante compará-las. Eu, infelizmente, não tive a sorte de ter pessoas tão carinhosas à minha volta e não posso contar histórias tão bonitas.
Enfim, é a vida. Para tudo é preciso ter sorte ;)
Beijinho
Às vezes é bom mudar de olhos :)
EliminarO sino da aldeia de Pessoa não era da aldeia, era dele.
E obrigada.
Quando eu e o meu irmão TóZé éramos pequeninos, esperávamos de quinze em quinze dias a chegada da carrinha da Biblioteca. Achávamos que trazia o mundo todo lá dentro.
ResponderEliminarE trazia mesmo!
Trazia índios e cowboys, piratas e corsários, o bando do Robin dos Bosques e os malandros do Xerife de Nottingham, e muitos outros.
Confesso que pelejámos com todos eles e ao lado de todos eles, em guerras ainda hoje lendárias.
Hoje, que o meu amado irmão partiu deste mundo, sei que, todos eles, os índios e os cowboys, os piratas e os corsários, e todos os demais sentirão a sua falta. Do seu sorriso em cada livro que desfolhava e dos pensamentos malandros que tinha, sempre que falava dos seus amigos imaginários que viviam dentro dos livros.
Graças a eles, éramos muito ouvidos pela criançada, pois sabíamos muitas histórias.
É por isso, pela gratidão que trago desde a minha infância, que só posso admirar essa "teimosia" extraordinária de levar pequenos sonhos a quem tanto precisa deles.
Pois precisamos todos de novos sonhos, de nos evadirmos para dentro dos livros. De irmos para um lugar seguro, onde a mediocridade da vida não nos afecte e onde sejamos livres de pensar.
E as crianças, mais do que todos, precisam de inventar novos mundos dentro de si.
Pois, definitivamente é aqui por dentro que vivemos.
Fora do contexto
ResponderEliminarSer-se teimoso.
Não temer! Ser-se teimoso;
teimar enfim contra todos e
voltar a teimar.
É injurioso, temeroso (ou tinhoso?)
é (uma) solução.
Pois a alternativa é...
(que alternativa temos quando não queremos ser?)
a derrisão, a demissão, a perda sem perdão, um
estupor sem fermento, já
só justificação.
Posso lá não ser teimoso!
Posso lá não ser testudo, bête, têtue!
Je suis ce que je suis, et bien
qu’ importe!
Soyez les bien venu!
Je suis pour tous!
Gostei :)
EliminarNos dias que vão passando uma iniciativa como a dos "Cabeçudos", só pode ser motivo de apreço da minha parte.
ResponderEliminarQuando o incentivo à cultura e em particular à leitura, fica para segundo plano, este país envolvido numa crise que vai muita para além da dimensão financeira, será beneficiário de iniciativas como esta que, decididamente contribuem para a criação de uma sociedade, para além, de mais culta, também mais desenvolvida economicamente e bem assim, de maior bem estar em geral.
P.S.: Não pude deixar de partilhar o meu comentário sobre o mérito da iniciativa "Cabeçudos", enquanto antigo colaborador de uma biblioteca itinerante da Fundação Calouste Gulbenkian.