Ofendido
As literaturas têm, normalmente, marcas de nacionalidade, mas há sempre casos de romances que se aproximam mais da literatura de outros países do que do país em que foram escritos. É este o caso das obras de Gonçalo M. Tavares, por exemplo, que a crítica diz terem um cheirinho a Europa Central – e o mesmo acontece com A Ofensa, de Ricardo Menéndez-Salmón que, sendo espanhol, também recorda numa certa secura as obras de Tavares e de autores alemães, húngaros ou polacos. Kurt, o protagonista, seria o herdeiro do negócio de alfaiataria da família se a guerra não tivesse eclodido (falo da Segunda Guerra Mundial), levando-o para longe de casa e de uma namorada que não voltará a ver, porque é judia – e, aos judeus, sabemos o que aconteceu nessa época. Muito contido e brilhantemente escrito, este é um romance sobre como pode a visão do horror afectar o corpo de um soldado que, de repente, deixa de entender a própria língua e a vê como idioma hostil e ininteligível. Excelente para umas horas livres (é um texto curto), deixa-nos a pensar durante muito tempo.
Adorei o livro! Poderosíssimo, sem dúvida. Do mesmo autor li também os outro dois volumes que compõem a trilogia do Mal: O Revisor e o Derrocada. Belíssimos, todos.
ResponderEliminarMais um post interessante que nos faz refletir .
ResponderEliminarNo meu caso não sobre Salmón , mas sob a opinião da crítica sobre o filósofo «cubista?» Gonçalo Tavares.
É que as leituras que tenho feito dos seus inúmeros livros, deixam-se um sabor - nem pior, nem melhor do que outros - a uma geografia, que casa com um modo geómetra e racional de escrita.
Obviamente, «deixam-me».
EliminarSe é do estilo de GMT, não devo gostar. É, como diz Pedro Almeida Sande atrás, muito racional e lógico. Não sinto emoção na escrita de GMT e conheço tantos escritores-filósofos que também escrevem com emoção que já não estou para perder mais tempo com esta fornada.
ResponderEliminarGostei d"A OFENSA" (mas já li há mais de três anos e do que li já não resta nada) mas, na minha opinião, e colocando as coisas no aspecto futebolístico, o Gonçalo M. Tavares é mais escritor, mais surpreendente, absolutamente imprevisível e estonteante, ou melhor um escritor desconcertante, não me canso de dizer que MATTEO PERDEU O EMPREGO" é um livro desconcertante de um escritor desconcertante.
ResponderEliminarJá vi aqui alguém escrever que GMT é mais filósofo do que escritor, mas não será que todo o filósofo terá de ser antes de tudo um escritor, um ficcionista, para não dizer mesmo um poeta? Que, por acaso, GMT também é.
ResponderEliminarCaro Paulo Oliveira,
EliminarDeve estar a referir-se ao Viagem à Índia. Gosto de GMTavares, mas por acaso acho que ele não sabe escrever poesia. O Viagem à Índia é uma narração, de que gostei muito. O que me irritou um pouco foi ele ter partido as frases para aquilo parecer o que não é: poesia.
Não me referia à Viagem. Neste caso concordo consigo, mas a solução encontrada por GMT não me irritou nada.
EliminarNão penso assim :) O filósofo não tem que ser escritor, ainda que possa. Tem de saber expor o que pensou. Porque afinal Sócrates houve só um (o nosso não vale) e a escrita é-lhe necessária. Mas não precisa agregar em história as suas teorias. Que nele o que mais vale é a racionalidade e sentido intrínsecos do pensado com o que o mundo mostra. Admiro a lucidez de Gonçalo M Tavares, mas não o pensei ainda o suficiente, talvez porque me arranhe um pouco a sua escrita e o saiba quase só das crónicas. Não o reconheço como filósofo ainda que concorde: é muito racional; a sua escrita lembra-me casas modernas, arejadas, quase monocromáticas e despidas de objectos, mas de uma funcionalidade admirável. Julgo sempre que nessas casas houve um pensamento a organizar-lhes os espaços, de modo a esconder-nos a desordem que lá está (há sempre desordem onde vivem pessoas). É isso que Gonçalo M Tavares faz com o seu pensamento, estrutura-o em racionalidade. Não sabemos se por opção se porque assim mesmo. E os escritores, salvo algumas excepções, não são filósofos. Perseguir uma ideia - ou algumas - ter uns princípios que orientem um romance, é coisa normal e de homem comum que escreve. O imaginário do filósofo não é o do escritor. Podendo acumular. E qualquer pessoa distingue o romance do ensaio crítico. E sabe se o ensaio é apenas uma crítica teórica a uma teoria ou obra já existente. Ou se uma proposta de descodificação da realidade, nova, uma chave desconhecida que, deixa ver, pode servir. Aos últimos chamo filósofos.
EliminarUm poeta? ...somos todos poetas de coração, ie, de sentir a poesia. Não é dado a todos saber escrevê-la. Quem tal arte possua que a mostre, a poesia é de dizer, tanto trovador existiu, por alguma coisa seria. A música das palavras nela vive como em nenhum outro lugar, daí o seu ser oral. E tão bonito ouvir dizer poesia. Mas a inspiração dos poetas não a julgo igual à dos prosadores. E também não serei eu a melhor pessoa para escrevê-lo. Há aqui poetas e prosadores. Que escrevam de si.
Sim, o escritor não terá de ser filósofo. Eu limitei-me a lançar a questão inversa, por um impulso que não sei agora explicar. Talvez apenas para ler as vossas opiniões. Não tenho resposta à minha pergunta, mas de poeta acho que terá de ter (o filósofo) alguma coisa. Hei de pensar porquê. Estou é capaz de deixar cair o ficcionista.
EliminarFilosofia difere qb de poesia. Nota-se de imediato na diferença de significado dos étimos originários de cada um dos termos. A filosofia é um saber e só pode ser entendida como arte na sua dimensão pedagógica. E não por ser filosofia, mas porque a pedagogia pode ser (e é) uma arte. A poesia, ao contrário, pertencia ao mundo da arte. Por exemplo, Platão não quer os poetas na sua República. Segundo ele são seres inspirados que não conseguem explicar as causas do que dizem e escrevem, facto inadmissível num filósofo. Deduzimos daqui que, e atendendo a que a República pretende a educação dos jovens - na filosofia, claro - que Platão não ensinaria a poesia aos atenienses. Segundo ele, o bom caminho para estimular a reflexão crítica era a matemática.
EliminarA opinião platónica quanto ao valor dos poetas e da poesia está fora de moda :). Mas não desmerece na distinção entre um e outro saber.
Não temos de querer juntar filósofo e poeta na mesma pessoa, sendo que pode acontecer. Mas em todas as pessoas as duas dimensões têm lugar. Se não dermos pela falta? Pior para nós.
está bem.
ResponderEliminarEstá fora de questão. Explique.
ResponderEliminarEste seu texto fez-me lembrar do filme «O leitor», que revi no último fim de semana.
ResponderEliminarNão conheço o livro, mas quando o filme me arrebata assim, fico sem vontade de ler o livro.
Mas é tão bonito o livro "o leitor".
Eliminarcadê o texto das Correntes? Hum? :)
ResponderEliminarTambém quero o texto das correntes!!!!! Querem lá ver que é preciso uma petição??!
EliminarDê-me tempo. Eu acabo de regressar das Baleares, mas juro que o publico. Preciso de o corrigir e depois, como se costuma dizer, posto-o.
EliminarÀ espera da Rosário das correntes e para me retratar de ter chamado Gonçalo Tavares de filósofo, partilho convosco a minha Viagem a Tavares.
ResponderEliminarCaro Tavares,
A quem chamei filósofo
Embora te encontre nos livros
Como poeta, ficcionista
E escultor de palavras.
Poucos saberão quem és,
Nem tu o saberás por ventura.
Na tua mão está uma hermenêutica
Que te permite enamorar as frases
De um modo não possível ao simples mortal.
Na tua mansão estão dezenas de livros abertos
Cheios de figurinhas de santos e de diabos,
E centenas de cartas que atestarão
Que vives no seu seio,
No meio de sábios e de demónios,
E que com nenhum deles encetaste diálogo
Ou elucubração, fantasia, ou provocação,
E muito menos estabeleceste um pacto
Dos infernos, com sábios, diabos,
Ou com o próprio Lúcifer
E os seus temidos, irrequietos,
E leais mordomos,
Cujas lunetas encavalitadas nos cornos
Lançam centelhas
Arrasando como fogos de santelmo
A inundar e a bordejar a porta desses drenos
A que chamam poços dos infernos.
Esta viagem iniciada a Tavares
Lá onde mora Gonçalo M.,
Soube-nos a pouco,
Mas é porque o ar ainda está frio
No revirar das páginas
E das lombadas,
E o nosso corpo e o teu olhar
Nos parece enregelado,
E as nossas mãos ainda parecem
Lisas sombras, nada carcomidas,
E temos medo de nos precipitarmos
Nesse desfiladeiro às portas do abismo
E nos encontrarmos face a face com,
O senhor Juarroz, ou o senhor Valéry,
Ou o senhor Henry, ou o senhor Brecht,
Ou o senhor Calvino, ou o senhor Walser,
Ou o senhor Breton, ou o senhor Swedenborg,
Ou o senhor Eliot,
Já para não falar na máquina de Walser,
Ou no senhor Klaus Klump,
Ou sentirmos, como num laboratório,
Que se poderia - porque não? - chamar de (…),
(Que a publicidade não é para aqui vinda!),
Laboratório Novalis.
E, arrastados pelo medo, pela ciência
E por ligações geométricas,
À perna Esquerda de Paris
Seguida ao perto
Pela do Roland Barthes e do Robert Musil,
Boiando, como aspirina em água,
Na colher de Samuel Beckett,
Ou,
Em Matteo que perdeu, desgraçadamente,
O emprego,
Encantado por uma sereia
Que encanta não pelo olhar,
Ou pela graciosa cauda,
Mas pelo olhar.
(Quem não o perde agora, entretanto?,
Ao emprego?
Mais a mais se semear tamanhas,
E curvilíneas, pantominas?
Há quem lhe chame, viagens, delírios,
Sarcasmo, invejas,
Há mesmo quem ache
Uma imatura prova dos nove,
Uma velatura,
Com o invólucro todo,
De asno),
Ou com o senhor
Desse território a que chamam
Para além de Jesus,
Porventura o território
A que outros chamam de,
Jerusalém.
Caro Tavares
Toma atenção,
Porque só repito uma vez
Porque perdão e atenção
Só se obtêm
Em tempos de tanta avidez,
Como prova de enorme generosidade.
Não foste tomado pelos raios solares
Mas pelo incómodo de nos receberes
Nesta peregrinação pelos demónios
Do teu olhar,
Nesta procissão que te dá como um ser
Profusamente racional,
(Que de fé, se tem a razão?),
Um cartógrafo ou um geómetra,
Um epicurista, um cínico,
Desta nossa viagem, Gonçalo,
A um lugar que não encontrei no mapa,
Nesta nossa caminhada
Pelos lugares que habitas,
Nesta nossa viagem
A esse teu cantinho,
Nesta nossa viagem
A esse teu lugar improvável
De filósofo,
(De atomista a sofista,
De céptico a epicurista,
De estóico a escolástico,
De teocêntrico a cartesiano,
De empírico a positivista,
De marxista
(Materialista da história, Gonçalo?,
A existencialista),
Nesta nossa viagem à tua terra,
À
Bravo Pedro Almeida Sande
EliminarGrande viagem!
EliminarPronto, o Pedro, como o Gonçalo, é do corpo todo. E parabéns.
EliminarSem desmerecer quem salpique apenas um bracito. ou uma perna.
Gostos não se discutem, mas a geometria de escrita é algo que me fascina. Sim, com a devida emoção.
ResponderEliminarGenial é o comentário de Pedro Almeida Sande.
ResponderEliminarDe corpo inteiro, escrito a régua e esquadro.