Narrativa em suspenso
Há muitos anos, ainda na Temas e Debates, publiquei um autor das Bermudas, cujo romance – Se Ninguém Falar das Coisas Maravilhosas – fora finalista do Booker e arrebatara dois prémios importantes. O escritor chamava-se Jon McGregor e construía uma narrativa em permanente suspensão que, desde as primeiras páginas, nos avisava de uma ocorrência que só no desfecho se esclarecia. É assim também o romance que tenho agora em mãos – O Dia de Amanhã, de Ignacio Martínez de Pisón (de quem já li outras obras, entre as quais Maria Bonita, uma pequena maravilha). Neste, falam muitas vozes e todas elas sobre a mesma personagem controversa – Justo Gil, um pobretanas ambicioso muito ligado à mãe, que sobe na vida de formas supostamente ínvias e trama, claro, muita gente. E digo «supostamente» porque são suposições o que os relatos sempre nos oferecem, pistas, avisos, venham eles do tipo que deu a mão a Justo quando ele chegou a Barcelona com uma mão à frente e outra atrás, da rapariga que foi sua sócia num pequeno negócio e ele deixou cheia de dívidas ou mesmo da colega de trabalho que tem um fraquinho inconfessado por ele mas os olhos bem abertos às suas manigâncias. Brilhante retrato de uma figura através de olhares alheios, esta é também uma história da Espanha nos anos 1960 e 1970, mais atraente porque, entre Franco e Salazar, as semelhanças são, apesar de tudo, bastantes e não conseguiremos deixar de nos rever em muita coisa. A tradução – muito boa – é de Maria Manuel Viana.
Tinha acabado de ler este post da MRP sobre narrativas em suspenso quando me cruzei com esta pequena nota sobre E. L. James , a autora afamada e (a)fortunada das 50 Sombras de Grey , que nem sequer como sombra teria espaço no meu lugar. Diz a nota, penso que não lhe posso chamar notícia, que notícia seria as «50 Sombras de um Franciscano de seu nome Francisco», que E.L . “vai escrever um manual de escrita para quem quer ganhar dinheiro. Truques de quem conhece as técnicas de como agarrar um leitor – e não o deixar escapar.”
ResponderEliminarSerá pelos colarinhos?
Quem lê não lê E.L. James!
EliminarSe assim não fosse já viram quantos livros venderia, por exemplo, o Philip Roth, o Corman MCarthy e não só estes, obviamente.
Pois... Mas há quem queira ser assim agarrado. Até há quem goste de usar coleira...
Eliminarobrigada, Rosário. gostei muito de traduzir o romance.
ResponderEliminarMªManuel
Não posso ler tanta coisa de que por aqui se vai falando. Razões. Mas é uma forma garbosa de apresentar alguém, de conhecê-lo, talvez. Fiquei curiosa...será que são coincidentes as opiniões? se completam? ou será uma dessas pessoas fascinantes mas cansativas que conseguem ser muita gente e ninguém? Ou que é apenas uma pessoa normal e quem o diz lhe mostra facetas diversas...a expressar que parte do personagem conheceu; e, nessas opiniões, a dar de si algum conhecimento
ResponderEliminarInteressante, a ideia.
Nunca li nada do Pisón , nem o conhecia (confesso) até o ver e ouvir nas Correntes de Escritas deste ano. E fiquei com o nome dele retido pelo muito interessante improviso que fez lembrando a sua juventude passada nos anos sessenta numa cidadedezinha espanhola de província, cujo nome não me recordo, com um ambiente dominado por uma tacanhez muito próxima à nossa da mesma altura e em que imperava a fascinação pelo que era estrangeiro (era sempre melhor do que o que era espanhol; eles entretanto mudaram, nós nem tanto...), embora quase sempre inacessível ou proibido. Ora essa terrinha, que era a dele, ficava relativamente perto de uma base do exército americano. Foi fascinante ouvi-lo falar desse mundo exterior que a Espanha franquisca ocultava aos seus cidadãos e que, no entanto, para ele estava mesmo ali à mão de semear: bastava deslocar-se uns quilómetros para ver esse mundo diferente enxertado em plena Espanha retrógada, para já não falar na alegria que era para os jovens de toda a zona limítrofe à base que resultava de poderem sintonizar a estação de rádio dos soldados americanos que transmitia música nunca ouvida em emissoras nacionais. Nessa noite decidi que iria um dia ler Pisón . Obrigado por me darem essa oportunidade.
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