Formiguinhas

No último dia das Correntes d’Escritas na Póvoa de Varzim, tive o gosto de ir ao palco receber um prémio de Design de Obra para Livro Escolar. O livro premiado – Mãos à Obra, da disciplina de Educação Tecnológica – é editado pela LeYa, mas infelizmente nenhum dos meus colegas das edições escolares, incluindo o director gráfico, Luís Alegre, podia deslocar-se à sessão de entrega, e fiquei orgulhosa por terem delegado em mim a incumbência. Admiro muito o que se faz hoje na edição de manuais (quando eu estudava, os livros eram tão feios e frios que nem apetecia estudar) e não raro observo como os seus editores são autênticas formiguinhas, tentando cumprir os prazos que, se falham, podem deitar a perder o trabalho de um ano inteiro. Dantes, tanto quanto sei, os autores de manuais estavam dispensados de dar aulas, mas agora têm de cuidar dos alunos e dos livros ao mesmo tempo, o que não deve ser nada fácil. Isso provoca naturalmente um stress danado também em quem os publica, pois há datas específicas para apresentação dos novos livros aos docentes e, se os autores se atrasam, é fácil que outros editores consigam chegar-se à frente e ver os seus livros adoptados. Já aqui referi que tenho uma grande admiração pelos colegas que trabalham na área escolar e reafirmo-o. Esta é a época em que vejo as formiguinhas saírem da toca, sempre rodeadas de provas e papelada, sempre em reuniões com professores, sempre de portáteis abertos exibindo páginas que ainda não são as finais. Têm pouco tempo para tanto… Nem os meninos imaginam, ao abrir os livros na sala de aula, o trabalho que tudo aquilo dá.

Comentários

  1. Custa-me dizer isto. «Então não o digas!», diz uma voz interior, lembrando-se de polémica recente sobre a intervenção da literatura na «política». É talvez demasiado brutal e possivelmente terá um efeito devastador na edição generalista futura em papel; e, um efeito multiplicador de mais - «ainda, mais?» -desemprego.
    Mas também há inevitabilidades na história do homem que dificilmente se podem travar. E talvez este seja o desemprego mais virtuoso porque estrutural e que, rapidamente, trará novo emprego (isto se alguma vez pudermos chamar ao desemprego, virtude, como se o desemprego não fosse dor e sofrimento - concreto - para vizinhos e amigos de carne e osso!)
    Mas no país dos «magalhães», o que se espera para reduzir os manuais em papel à sua expressão quantitativa mais simples, substituindo-os por conteúdos e «artefactos» digitais de programas mais generalistas, adaptados, afastando a empobrecedora normalização de conteúdos? E universalizar o acesso a realidades mais concretas e a um ensino mais construído «just in time»?
    Agradeceriam uma parte substancial dos pais – muitos já sem dinheiro para uma mole imensa de manuais em papel, criadora de condições iníquas de partida - os orçamentos familiares, o orçamento do todo coletivo, os lombares das crianças, agradeceria até o país vegetal.
    E talvez muitas outras leituras pudessem ser privilegiadas, mais amigas da diferenciação e dos interesses específicos de realidades culturais a várias vozes, fazendo de cada leitor, um amigo.

    ResponderEliminar
  2. Ainda sobre a escrita como intervenção pública, peço à nossa extraordinária anfitriã - e a todos os extraordinários que partilham o gosto da leitura, da escrita e da perceção de pertença à coletividade humana- a vossa tolerância pelo texto (partido em dois comentários) seguinte:

    pedro e Cristina)
    - Hei, tu… sim, tu! Estou-te a chamar. Não ouves? Não queres ouvir? Não levantes os ombros! Não fujas!
    - Eu sei! É um problema de saúde pública.
    - Desse tipo de saúde? Infecciosos? Não, não estamos infectados, nem somos leprosos! É preciso coragem? É, e muita! O que achas irmã? Não poderíamos ter usado esta coragem para nos levantarmos?
    - Levantar-me, irmão? Mas eu levanto-me todos os dias, só não levanto a minha dignidade que se mantêm em baixo, dobrada ao peso dos dias. Ficámos sem casa; ficámos sem mãe; morreu o nosso anjo!
    - E agora o que fazemos? Nunca trabalhámos, pelo menos desse trabalho, do assalariado, do que vende o tempo a troco de quase nada, quantas vezes a alma, que não retribui com um sorriso, uma palavra agradável, um afago, um carinho, o esforço, quantas vezes a lealdade, a amizade, a entrega, pelo menos eu, que tu eras um publicitário, um garboso publicitário, irmão lindo, cruzavas as palavras umas com a outras, rimava-as, adocicava-as, vendias ilusões, arrastavas donas de casa e consumidores, até que um dia, um homem petulante, sem coração, um dito tecnocrata, te tirou do caminho, bem sei, com mil desculpas, eu não tenho culpa, peço perdão, mas a culpa é de quem nos exige mais cada dia, uma taxa, uma sobretaxa, um imposto, um sobreposto, um custo, um sobrecusto, uma portagem, uma comissão, em nome da dívida, em nome do deficit, em nome do utilizador - pagador, em nome do pagador - poluidor, em nome da democracia, em nome da sustentabilidade, em nome da política, em nome de um povo, e uma mulher de crista levantada te tirou, nos tirou depois do teu, nosso, que tu sempre foste desprendido, solidário, generoso, o exíguo ganha - pão, o tecto, nosso pobre abrigo, levado por um senhorio ganancioso, ou talvez não, porque também pobre, ou abusado, em nome do contribuinte utilizador, pelo que lhe exigiram de imposto, reavaliado que foi o peso do seu bolso, à procura de qualquer tinido, forte com os fracos, João sem Terra, fraco com os fortes, João com Terra, com a polícia, com as forças armadas, com outros políticos, que temem, que revezam, donos das nossa vidas, até as esvaziarem, até nos conspurcarem com o mísero assistencialismo, com a derrota do estado social, seja isso o que for, aquele que não vive de esmolas, de coitadinhos, de gestos grandíloquos e incorrentes, de festas de recolha de fundos, de socialites, que se julgam o máximo, tiazinhas de trazer por casa, cheias de batom, de rimmel, de pó de arroz, quais palhaços ricos que conduzem os pobres até à ravina em que se despenham.
    - E têm estes abusadores nome?
    - Têm! Eles aí andam, em diferentes geografias, aos magotes, com um brilho escondido nos olhos, com contas na Suíça, imunes à crise, comentadores profissionais de trazer por casa, senhores de redes recorrentes, de interesses, de rede de negócios, de redes de maçonaria, fazedores de notícias sem novas, disfarçados de novas vítimas, algozes sem castigo, inconscientes q.b. quantas vezes das consequências das suas medidas.
    - Olha agora aqui! Aqui estamos, prestes ao sacrifício, problema de saúde pública, vírus que ateastes à nossa cidade, cada vez mais, irmãos que descartaste, sombras que não vês, entorpecida pelos vidros foscos da tua viatura, pelo lusco - fusco dos teus óculos escurecidos, ou pelo espelhado que refracte, ou reflecte e reencaminha, com que te passeias, com que te destacas, te diferencias, escuridão que ateaste, coração que se tornou metálico, endurecido, rugoso, gorduroso, cavernoso.
    (Cont.)


    ResponderEliminar
  3. - Olha agora aqui, estamos aqui, nesta plataforma, forrada a azulejos, azulejos antigos, com desenhos da nossa história trágico-marítima, agora trágico - terrena, de mão dada, irmãos para a vida, irmãos para a morte, junto à estação onde sempre morámos, antes de sermos despejados, despojados do mínimo de dignidade, pela tua ideologia liberal, a vida a quem a trabalha, a vida a quem a merece, pelo esforço, pelo sucesso, pelas vitórias, pelas conquistas de todos os dias, contra a preguiça, contra as armadilhas da vida, a favor do elevador social, não oleado, travado no seu funcionamento, no seu funcionalismo, no seu mecanismo, por uma cunha, que não é um factor, apenas uma realidade da vida, a sorte e o azar, a sorte a quem a merece, a quem a procura, a morte ao fraco, ao excluído da condição, ao excluído da sorte.
    - Mas eu nasci pobre, nós nascemos pobres, não vivemos uma infância de maravilha, tivemos apenas uma mãe, que nos mimou, que nos adorou, que nos glorificou, mas nunca fomos cristãos, isso deixamos para os outros, para aqueles que dizem ter coração, para os poderosos, para os influentes, para os que vivem na teia, alguns na corrupção, mesmo que seja só dos sentidos, dos interesses, das oportunidades, dos oportunismos, nem todos são como tu, nascido em berço de ouro, inteligente, bem provido, confiante, delirante, narciso, mentiroso, da raça dos que nunca têm dúvidas, raramente se enganam, daqueles que rejeitam a sua infância, as suas raízes, a sua condição de seres frágeis humanos.
    - E agora, nós, de nosso nome Pedro e Cristina, moradores de uma outra rua de Angola, que não a Angola da nossa infância, nos cinquenta, que já não nos dá esperança no futuro, nem esperança em ti, desesperados, sós, com falta de dinheiro, em pobreza extrema, falta do outro solidário, sem abrigo nas ruas desta Lisboa, deste mundo, vizinhos dos que vivem em alçapões, em caixas de cartão, debaixo de tampas de esgoto, uns alienados, outros dormentes, outros deficientes, outros anestesiados, outros doentes, outros enlouquecidos, outros sem memória, madrasta para muitos, amiga para muito poucos, esperamos o trem que nos levará ou arrastará para sempre, para fora desta estação, desta camisa - de - forças da nossa condição, da pobreza malvada, que nos tornará para sempre viajantes sem bilhete, vitalícios fantasmas da nossa cidade, a quem chamaram outrora polis, e do teu, do seu, carácter.

    «Fico muito triste. Eles não tinham ninguém», contou Maria Otília, 77 anos, prima afastada e única familiar notificada a M., através daquelas páginas enegrecidas do jornal da manhã, correio, no ano anterior à sua morte, ano posterior aos cem anos de comemoração da implantação da república, ano em que repousavam nos cemitérios dezenas ou centenas de milhões de vítimas da história como ensinamento, ou esquecimento, irmãos colaterais, em nome do desespero, muros de mahjong, que somos incapazes de derrubar.
    Pedro A. Sande

    (O desespero pela falta de dinheiro e a solidão de Cristina e Pedro, dois irmãos de 53 e 57 anos, que viveram o último ano como sem-abrigo, nas ruas de Lisboa, acabaram anteontem à noite em tragédia. Os dois decidiram pôr termo à vida, lançando-se para a frente de um comboio, às 21h30, na estação de Paço de Arcos.
    Cristina teve morte imediata, mas o irmão Pedro foi ainda transportado com vida para o Hospital de S. Francisco Xavier, Lisboa, vindo a falecer de madrugada devido aos múltiplos traumatismos. As razões para a tragédia estão explicadas numa carta de despedida, encontrada no bolso das calças de Pedro – desempregado há anos, depois de ter trabalhado numa empresa de publicidade. A irmã nunca trabalhou. "Estava escrito que se sentiam abandonados e viviam em pobreza extrema devido à crise económica", diz ao CM fonte policial. "Fico muito triste. Eles não tinham ninguém", conta Maria Otília, 77 anos, prima afastada e única familiar notificada.
    Cristina e Pedro viveram sempre com a mãe na casa arrendada na rua de Angola, Lisboa, até à sua morte no ano passado, aos 88 anos. Foi aí

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Obrigada pelo seu texto.
      Quantas Cristinas e quantos Pedros estarão neste momento na rua?

      Eliminar
    2. Pedro
      se há uma tromba de azar, suga sempre os mais desprotegidos. Ficam no centro daquela espiral de desgraça, que os atira para a morte e a indigência. Ontem, na TV, um senhor desportista todo em verde, a vender saúde só de olhar, com mar simpático por detrás, sorriso franco também simpático, dizendo da crise que é mais o que dela se diz que ela mesma. Decerto não lê o correio da manhã, não pisa o mesmo chão, não espera comboios, não se mistura com gentinha.
      Porque são sem mistura, estes senhores não sabem das coisas e entretêm-se com suas realidades que rolam sobre dinheiro, sem pó, lixo ou bafio. E desse mundo de faz de conta, onde todas as contas acertam - que na verdade sempre erradas - estragam a vida das pessoas, as tais que só servem para acertar as contas que eles erraram sabemos porquê.
      Dão cabo. E tudo ao longe. Sem frémito ou vómito. Que a miséria é execrável e má de olhar. Não vêem, não ouvem, não lêem. Dão-se ao luxo de ignorar.

      Eliminar
  4. Ninguém imagina o trabalho que dá tudo que aparece com ar de naturalmente.

    E é verdade que as crianças não pensam no trabalho que dão os livros que trazem na mochila, também não é isso que lhes cabe pensar. Se os reparam, pensam-lhes o peso e o que lhes têm de saber.

    Vamos à origem. Pensemos nas árvores. Na imensa quantidade de árvores estáticas, que altearam durante anos e anos. Nos ramos enredados uns nos outros, familiares. Na força das raízes que julgavam eterno o seu lugar. Nos pássaros de um dia espavorido ao barulho da serra.
    E o gosto dos livros é tanto mais por esse princípio de árvore. Dentro de alguns, ainda o cheiro verde , uma penumbra de folhedo, um mistério oculto de raiz a afundar.

    Mas as crianças não pensam também assim. Nem as editoras. Nem o tempo deixa que assim se pense. Talvez.


    ResponderEliminar
  5. Se dão trabalho a fazer, se dão! E é por sabermos que a Rosário tem consciência disso que quisemos que o prémio fosse entregue nas suas mãos... :)

    Obrigada por tudo.

    ResponderEliminar

Enviar um comentário

Mensagens populares deste blogue

Em Berlim

O que ando a ler

O principal e o acessório