A escritora e o soldado
Falei-vos há tempos de que, neste ano, iria ter duas boas escritoras na minha lista (mulheres, pois!). O romance da primeira, Cristina Drios, acaba de sair e vale mesmo a pena ser lido. Fala-nos, em dois tempos distintos, de uma escritora cansada do seu casamento que toma a descoberta da fotografia de um avô desconhecido – e fardado – como pretexto para escrever um livro e se afastar da rotina; e da sua personagem, Mateus Mateus, um homem estranho e corpulento, aparentemente insensível, que fez parte do contingente português que combateu em França durante a Primeira Guerra Mundial. Mas, muita atenção, apesar de a História ser cenário, este não é decididamente um romance histórico. Porque o que aqui interessa não é o destino dos combatentes nem as circunstâncias da guerra, mas a densidade psicológica dos intervenientes na narrativa – o avô-soldado, a enfermeira que enviuvou antes de se casar, o médico alemão, o órfão que sabe truques de ilusionismo e faz aparecer ovos para os pudins, o militar albino que serve de cobaia a estranhas experiências freudianas e, obviamente, a própria escritora, que os faz caminhar numa história profundamente original, na qual também ela é várias coisas ao mesmo tempo. Finalista do Prémio LeYa em 2012, Os Olhos de Tirésias é um romance muito maduro para quem só recentemente começou a escrever para os outros, uma obra de análise psicológica com assinalável profundidade e uma boa promessa para o futuro.
Penso que a escrita feminina é inigualável. Que as mulheres escrevem diferente as mesmas coisas. E até para além da forma, são outras as forças que as movem; ou, quem sabe, não são outras, mas fazem parecê-lo. E isso é mérito. Pelo escrito sobre o romance, parece-me um imaginário fértil e até bem humorado; mas falta-me ler e pensar sobre.
ResponderEliminarParabéns à Cristina. Desejo-lhe um caminho no que ora começou. É corajoso amor escrever neste tempo que a sorte destinou.
Obrigada, Beatriz!
EliminarA propósito de escritoras, aposto que um destes dias aqui se discutirão, como se fez com as Sombras da James , os ambientes humanos criados pela nova e fulgurante estrela dos globais best-sellers que é Gillian Flynn, a escritora das mulheres perversas (ou das perversas relações conjugais ), cujo artigo/entrevista no "El País" me deixou curioso. No entanto, pegando ontem numa livraria em exemplar do seu "Em Parte Incerta", e executando o velho teste de abrir o livro a meio e ler uma página seguida, fiquei bastante desiludido com o estilo da Gillian Flynn. Pareceu-me jornalístico, básico, cinematográfico, longe do estilo de escrita da Patrícia Highsmith como quem esta relativamente jovem escritora tem sido comparada.
ResponderEliminarFiquei com muita curiosidade. Vou espreitá-lo da próxima vez que for "cheirar os livros". Tenho uns vales para torrar e, se as primeiras páginas me cativarem, resgato-o para a estante, onde terá direito a todo o meu carinho e atenção.
ResponderEliminarDesejo boa sorte para "Os olhos de Tirésias"!
Rui Miguel Almeida
Já me tinha questionado se era eu, distraída convicta, que só reparava em escritores portugueses masculinos ou se havia mesmo poucas mulheres portuguesas a publicarem romances. Tendo em conta o seu comentário "(mulheres, pois!) " chego à conclusão que há mesmo poucas mulheres portuguesas a escrever bem e a chamarem a atenção dos editores/as. Muita sorte para a Cristina Drios. Vou tentar ler este livro.
ResponderEliminarO romance parece muito interessante. Vou comprar. Desejo à Cristina Drios, com os meus parabéns, grandes sucessos literários. Esta sua obra, independentemente da sua visão de género, é arrojada e sobre um tema que é sinceramente aliciante para ler.
ResponderEliminarDisse a Rosário que a Cristina é uma das finalistas do Prémio LeYa. Ora, não sei se será pedir muito para entrar no secretismo dos outros finalistas, uma vez que faço questão de adquirir as suas obras, como o fiz em prémios anteriores. é claro, se a LeYa pretende editar todos esses finalistas, quando chega ao meu conhecimento as suas obras, depois de naturalmente editadas.
Um reparo: o Prémio LeYa é de uma grandeza extraordinária em euros; por essa razão, era bom que fossem convenientemente divulgados os autores finalistas que, até prova em contrário, reputo os melhores de três ou quatro centenas de autores concorrentes.
Se o reparo atrás não tem razão de ser - e já está tudo divulgado - peço desculpa.