Sinais da crise

Os Top de vendas das livrarias nem sempre foram inteiramente honestos. Atenção: só estou a vender o peixe que me venderam a mim... Há muito tempo, um editor-livreiro que, infelizmente, já não está entre nós contou-me que, quando faziam muita fé em determinado livro e, por isso, compravam bastantes exemplares, se, na primeira semana, as expectativas se defraudavam, punham o título na lista dos mais vendidos e esse destaque levava, efectivamente, a que muitos leitores o adquirissem (o marketing avant la lettre). Hoje as coisas estão todas informatizadas e é impossível fabricar mentiras, pelo que são quase sempre os mesmos livros que encabeçam os Top das livrarias: novidades escaldantes, best-sellers internacionais, obras de gente famosa, os temas que, em cada momento, estão a dar, como se costuma dizer. E, no entanto, eis que os mais recentes Top de vendas divulgados nos jornais incluem títulos publicados há imenso tempo, muitos deles de autores que até têm livros editados já em 2013. Que aconteceu então? Fácil. Trata-se de restos de edição vendidos a dois e três euros, em bom estado e com miolo respeitável. Quem os não comprou a quinze ou dezassete, aproveita a época da pelintrice e leva para casa a garantia de umas horas bem passadas. Sinais da crise.

Comentários

  1. Eu, que nem me acho demasiado pelintra, sempre apreciei as secções de livros descontinuados ou em segunda mão das livrarias inglesas. De facto, meia dúzia de libras, ou euros e a "malta" traz uma biblioteca (e excesso de bagagem).

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  2. E nem não só mas também. Também sinais de bom gosto, de aposta em tempo ganho, de atenção ao mundo e ao que nele vale sem tempo.

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  3. Ainda um destes dias comprei um Richard Russo por 5 euritos, dos que ganharam o Pulitzer e mais uma catrefada de prémios. Andava há que tempos à procura e nunca o tinha apanhado.
    É pena que só as novidades sobrevivam nas prateleiras.

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  4. Na Alemanha, é normal haver saldos de livros com preços entre dois e cinco euros, mesmo sem crise. Há vinte anos que aqui estou e sempre me lembro de ver "saldos" desses (antigamente, com o marco). A maior parte desses livros não valem a pena, mas encontram-se, muitas vezes, pequenas pérolas (nota: não se trata de livros em segunda mão).

    Pelintrice? Nunca ouvi por aqui utilizar conceitos desses quando se quer poupar dinheiro, mesmo neste ramo. Há menos complexos. Mas o mundo editorial-livreiro é seguramente diferente do português.

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    1. Desculpe se não me fiz entender: quando falei em pelintrice, referia-me ao que nos saiu do ordenado em impostos cá em Portugal. Estamos todos mais pelintras... Não tem nada a ver com saldos.

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    2. A situação, em Portugal, é praticamente insustentável, não há dúvida. E, agora, esta história das faturas é simplesmente ridícula.

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  5. a última vez que passei pela FNAC trouxe quatro livros em saldo.

    e eles nem eram muito adeptos dos saldos, mas a crise...

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  6. Não digo a dois ou três euros, mas haja esperança que os diretores financeiros das nossas editoras retirem deste inesperado fenómeno de top de vendas de livros publicados há décadas a vontade de arriscar o lançamento de coleções compostas por reedições feitas em livro de bolso a menos de 5 cinco euros por volume.

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  7. Tenho comprado recentemente livros que andavam relativamente desaparecidos das livrarias como sejam os Justine , Baltazar, etc do Quarteto de Alexandria da Ulisseia . Neste caso reaparecidos talvez para combater a recente edição do compacto e para quem gosta de ler sem demasiado esforço de braços. Outro exemplo, falado aqui há dias, a Viagem ao Fim da Noite, que se dizia esgotado. Tudo a preços relativamente módicos. Desta faceta da crise, eu gosto.

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    1. Paulo, comprei o Quarteto de Alexandria numa daquelas feiras de caridade. A edição é da Ulisseia e cada volume custou-me €2 (o meu momento de exibicionismo do dia).

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    2. Tanto melhor para si. Eu fui mais caridoso :-).

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  8. A crise a democratizar egos, tendências, categorias, escolas, e preconceitos...e a nivelar, no preço baixo, autores consagrados e autores de vão de escada...

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  9. Eu, pecadora, me confesso. Tenho frequentado as feiras de livros usados e, há duas semanas, saí de uma delas com uma colecção integral de Fernando Namora editada pela velhinha Arcádia. Uma verdadeira pechincha!

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    1. Quem não leu um neorrealista que atire a primeira pedra :).

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  10. pelintrice? vê-se mesmo que a senhora não está em crise.

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