Letra morta

A matéria-prima da literatura é a língua – e houve sempre quem se perguntasse como é possível, a partir de um número de vocábulos aparentemente limitado (é sempre possível criar neologismos, mas os dicionários não crescem assim tanto de um século para o outro), construir um texto com frases e expressões que, durante a leitura, parecem tantas vezes combinações nunca antes usadas por ninguém. É frequente surpreendermo-nos com a forma como determinado escritor inventa uma linguagem própria reinventando a língua, ao produzir, por exemplo, um efeito inesperado com duas palavras que não costumam aparecer juntas ou subverter uma regra gramatical para virar tudo do avesso, mas a seu favor. Há também a ideia (e em pintura, com a vulgarização das instalações, ela foi muito difundida) de que tudo está já criado e não se consegue ir mais longe em termos inventivos. O fim da literatura foi, de resto, anunciado várias vezes ao longo do século passado; no ano em que eu nasci, por exemplo, Maurice Blanchot defendeu que, ao tornar-se reflexão sobre si mesma, a literatura caminhava infalivelmente para a morte. Nesse mesmo século XX, porém, escreveram-se muitos romances que eram sobre a escrita de romances e também sobre escritores mortos e vivos e personagens de outras obras e, consequentemente, da obra que se estava a escrever. Alguns eram pura literatura e os seus autores até ganharam o Nobel... E cá estou eu, 53 anos após o vaticínio de Blanchot, todos os dias a ler literatura e todos os dias à procura dela. Será que vai chegar um tempo em que, por mais que passe páginas e páginas, nada do que leia caiba nessa palavra a que hoje chamo literatura?

Comentários

  1. Os livros são imortais e, por mais que lhes anunciem a morte, todos os dias nascem em toda a parte.

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  2. Não acredito.

    Enquanto existirem diferentes pessoas com talento, haverá vozes diferentes na literatura =)

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  3. Hum... é bem possível que não tenha percebido nada daquilo que li no post. Afinal não passo de uma traça literária!

    Mas atrevo-me a discordar daquilo que me pareceu entender... e aliás nem percebo muito bem como é que o senhor citado, pensa assim!
    Mas isso deve ser por limitação minha...

    A literatura, é a expressão das idéias, de forma escrita, certo?
    Então, enquanto houver idéias, há algo para exprimir através da escrita... independentemente do número de palavras que se conheçam ou que existam numa língua!

    Estou errado?

    Saudações Literárias do Planalto Central

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  4. Respondendo à sua pergunta, penso que não. Embora, à medida que avancemos na idade, se nos torne mais difícil surpreendermo-nos. Ao crescer, tornamo-nos mais exigentes (e também se exige mais de nós). Por isso, temos gostos diferentes, conforme a fase da vida em que nos encontramos, o que, na minha opinião, não implica que passemos por fases "parvas", ou "ignorantes". Cada coisa tem o seu tempo, é tão simples como isso. E censurarmo-nos por, no passado, termos gostado disto ou daquilo, só nos diminui a autoestima.

    Penso, no entanto, que a nossa idade (experiência) é o outro aspeto da questão, ou seja, por mais que nos dediquemos à literatura, nunca conseguiremos abarcar tudo o que se criou, em mais de dois mil anos de civilização. Por isso, haverá sempre algo que nos surpreende, mesmo que não seja realmente novo.

    Lembrei-me agora de uma passagem de "Uma Mentira Mil Vezes Repetida", de Manuel Jorge Marmelo, e que facilmente encontrei, pois sublinhei ;)

    "É provável que, desde que começou a contar histórias, há vários milénios, a humanidade já tenha disposto de tempo suficiente para inventar todas as variações que esta arte possa admitir. Se não as conhecemos a todas e presumimos, por isso, de alguma originalidade, devemo-lo apenas à ignorância ou, vá lá, à impossibilidade de conhecer tudo quanto se fez antes em cada uma das culturas do mundo".

    Fico-me por aqui, que isto já vai longo. Mas compensa ler o resto, na página 30.

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  5. Será o conceito de literatura assim tão estanque à passagem do tempo?

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  6. Face a este gigantesco pico de letra morta, veio-me à mente uma enorme pirâmide onde enterrar os meus mortos, muito para além de qualquer Gizé. Uma figura pequena e frágil destacava-se trepando pela pirâmide, figura minúscula quase a chegar ao topo. O vértice no entanto parecia não alcançável e infinito.
    Aurélio deu-me um número: 435.000 verbetes, sem esquecer as margens. Peguei neles e introduzi-os numa máquina que tenho propositadamente para estes momentos, em que subo pirâmides.
    Na subida pelo pico gelado ia escorregando numa massa ainda informe: era gelo onde eu pensava já encontrar neve. À transparência e com o esfregar de uma luva sem cor, divisei um nome: neologismos: eram essas as margens. Entretanto, a máquina já estava quente: havia que prosseguir! Fatoriais , combinações, e o número não parava de crescer: impossível de encontrar, de um infinito de letra sempre viva que alegrava mais do que doía.
    Não seria já o meu olhar encandeado, dorido e cansado de tanta viagem?

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  7. Faço um vaticínio sobre "escreveram-se muitos romances que eram sobre a escrita de romances[...]. Alguns eram pura literatura e os seus autores até ganharam o Nobel". Aqui vai a minha profecia: o próximo deste tipo de escritores que ganhará o Nobel será o Enrique Vila-Matas, talvez mesmo já em outubro próximo.

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  8. No livro que ando a ler, o narrador inventa uma realidade alternativa nas suas insónias e uma das suas personagens vive nela com alguma consciência de que tudo aquilo não passa de uma invenção. Paul Auster, em «Homem na escuridão», cria e recria. E a literatura é também isto e alimenta-se desta capacidade de inventar não só novas formas de dizer (talvez o mesmo) mas também novas realidades ou mundos/universos/vidas que nos façam sonhar e sair da nossa realidade. E, enquanto houver criatividade e imaginação, não há limites. Por outro lado, a realidade, a vida, vai oferecendo tanta matéria nova que, desde que haja quem tenha o impulso de criar (seja em que arte for), haverá sempre criação artística. É claro que se ainda andássemos todos preocupados com a sobrevivência, como no início da nossa espécie, seria mais difícil ter disponibilidade para a criação artística. Nesse aspeto, a crise tem-nos feito regredir, pois quem pensa em literatura quando tem em casa filhos a passar fome? Talvez esse seja o maior perigo e não o esgotar de todas as possibilidades e combinações. Mas haverá sempre escritores como o Luíz Pacheco, capazes de criar sobretudo nas condições mais inóspitas.

    Ao ler o seu post lembrei-me de Mia Couto e das suas palavras compostas, com tanta poesia dentro!

    Admiro quem consegue ter uma voz diferente, pois há tanta coisa escrita que escrever com estilo pessoal e único deve ser cada vez mais difícil.

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    1. Minha Cara Anabela, gostei dessa sua imagem de “criar em condições inóspitas”... e afinal a história da literatura não está cheia disso?

      Se calhar os grandes génios nem se desenvolvem assim tanto na abundância burguesa, ou teríamos uma genialidade generalizada à Rodrigues dos Santos, e sim em meio de grande necessidade que também na literatura lhe aguça o engenho... na miséria e indigência, nas dificuldades, nas guerras, nas perseguições… Soljenitsin, Camões, Byron... Camilo (preso por dívidas), claro Luiz Pacheco, e por aí fora, de Hemingway a sei-lá-eu... até me lembro da "Crónica dos dias tesos", eheheh!

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  9. Escrever com arte. Não me parece que termine. Salvo se o homem, ele mesmo, tenha um fim. A arte é uma categoria humana que nos desvia de sermos máquinas e dessa serenidade imutável da técnica a galopar eficiência. Sentimos com consciência. E isso nos empurra para criar e ser diversos. E se é verdade que tudo já foi dito, não o é menos que não procuramos, no que lemos ou vemos, o absolutamente original. Ao contrário, me parece por vezes que o mais simples é o único que emerge. Como se a mente do artista, qualquer que ele seja, se aproxime indefinidamente dessa simplicidade que procura e leva por vezes a vida toda a tentar desocultar. Como dizia Sophya, enquanto houver essa concentração especial da atenção, enquanto haja uma antena que se deixe atravessar, há livros, há pintura, há música, há escultura…e há trabalho. Muito trabalho sobre o que se atravesse nos caminhos de cada artista. Que o escritor há-de ser um artista da palavra.
    Porém, num blogue onde todos fazem Horas Extraordinárias na escrita, decerto com arte, eu que sou leitora e penetra, digo pouco. Fale/Escreva quem vive a condição de ser um quase incondicionado.

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  10. Duvido...
    Não aprecio particularmente teoria da literatura. Os Derridas, os de Mans, os estruturalistas e todos os etcs, e mais os de a literatura morreu. Mas depois há sempre um Lodge e lá se volta a crer na literatura "per se" sem os atavios com que a espartilhamos.

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  11. “What are we going to do? Now it's all been said
    No new ideas in the house and every book has been read”

    É de uma música dos U2. Deixo-lhe esta citação aqui por brincadeira, lembro-me de uns iluminados há uns anos quererem apontar o Bono como possível Nobel da literatura.

    Não desanime, nem dê nunca para esse peditório do fim disto e daquilo. Nem o mundo acabou e tinha data marcada e tudo.

    Aqui há umas semanas confidenciou-nos que, apesar de ser ano de crise, lhe têm passado coisas muito boas pelas mãos e adiantou-nos 2 nomes de quem prometeu nos ir falar em breve (não os fixei, mas como diz o meu pai, cada santo tem o seu dia).

    Ainda lhe falta descobrir muitas pérolas. Se quiser apostar… :)

    Rui Miguel Almeida

    Ps: confesso que também fiquei curioso com o seu texto das correntes.

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  12. Gostaria de aproveitar a ocasião para escrever aqui alguma coisa sobre este tema aflorado por Maria do Rosário: “romances sobre a escrita de romances” – que é, actualmente, o que mais me motiva.

    Quer dizer: o fim da Literatura tem sido regular e profeticamente anunciado, talvez (quem sabe?) porque ela se tem alimentado essencialmente de problemas que lhe são tecnicamente alheios, isto é: problemas correntes, do comum das pessoas, que ela tem repetidamente tratado com variantes de estilo, mas de tal modo que eles se vão revelando aparentemente limitados, de duvidosa eternidade, esgotáveis.

    No entanto, graças aos seus próprios problemas concretos, a Literatura tem dentro de si uma fonte inesgotável de sobrevivência – porque os seus próprios problemas intrínsecos, são, por natureza, sempre renováveis através da ficção.

    Talvez possa designar isto por meta-ficção: – a ficção da construção da ficção, a ficção da interacção que realmente existe entre as personagens e o escritor, e a que, noutra dimensão, também realmente existe entre o escritor e os leitores, ou a dos inesgotáveis problemas que podem ser ficcionados pelo escritor aos editores, aos tradutores, aos artistas gráficos, aos tipógrafos, aos distribuidores, aos livreiros, etc.
    Enfim, os problemas concretos da escrita em si própria, do processo dos livros em concreto, do seu vasto universo de questões concretas, ficcionadas à vista dos leitores, sem truques nem segredos.

    É isto, actualmente, o que mais me fascina.

    Infelizmente são horas de ir descansar.

    Tenho amanhã pela frente uns problemas reais que não sei com contornar pela via da ficcão: – desapareceu o espelho retrovisor do meu velho carro, tenho muita dificuldade em guiar sem ele para espreitar o meu lado esquerdo, preciso de resolver isto rapidamente, sem grandes ficções a atrapalhar-me, até porque tenho de ir no próximo sábado ao Porto berrar a minha indignação na grande manif, e isso é uma missão de muita responsabilidade, não se compadece com teorias do fim da Literatura, porque o fim que pode iniciar-se no sábado é de outro âmbito, mais adiante a Literatura o tratará, mas sem o espelho retrovisor é que não lhe será possível lá chegar com o rigor histórico que a possível ficção não poderá dispensar.

    Depois falamos.

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