Post mortem

Quando morre alguém conhecido, não raro nos dias e semanas seguintes os jornais e televisões dedicam páginas e horas de encómio à figura quando, frequentemente, se esqueceram dela enquanto estava viva. Muitos escritores esquecidos tornaram-se, pela morte, autores incontornáveis e determinantes na história da literatura dos seus países. Muitos escritores médios, se não medíocres, apareceram depois de mortos como figuras de proa no contexto da época e grandes visionários. Lembro-me, por exemplo, de um autor que os «confrades» consideravam bastante mediano (embora vendesse muitos livros) ser brindado, depois da morte, com cinco páginas de elogios num só jornal, para espanto de muita gente que sabia o que se pensava dele. Mas, nisto de post mortem, o contrário é também possível e, passado o período do luto, há quem retire prazer de bater no ceguinho, pôr a nu a sua vida e dizer que andámos todos enganados achando que esse homem ou essa mulher eram excepcionais. Recentemente, a «vítima» foi Steve Jobs que, enquanto foi vivo era praticamente só um génio da informática, mas depois de morto se transformou num personagem verdadeiramente disgusting, que tratava mal as namoradas e era até avesso a tomar banho. Enfim, lembro-me de a grande Agustina ter escrito um álbum sobre a sua vida e não ter incluído nele o marido. Quando lhe perguntaram porquê, respondeu, muito simplesmente, que ele ainda estava vivo... Quem sabe sabe.

Comentários

  1. A morte lava mais branco

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  2. Quando comecei a escrever artigos sobre gente bem viva, aconselharam-me a mudar de "objecto" de estudo porque os mortos não dariam tanto trabalho... Sorri ao ler o texto, obrigada.

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  3. Por isso, muitos e bons a todos!

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  4. Certos textos que, na aparência, parecem não dizer muito, têm por vezes o condão de remexer em coisas até ali inertes.

    No entanto, dado o carácter genérico do mesmo, o essencial pode ficar encoberto por outras camadas de sedimentos que se remexeram.

    No fim, nada se expôs, tudo ficou mais turvo.

    Acontece assim quando remexemos numa velha garrafa de vinho: o depósito ergue-se, tornando o liquido inconsumível por um período de tempo.

    Mas... não será essa a intenção da autora?

    Farei por isso a minha síntese do texto:

    - hoje, há pouca critica em Portugal.

    Todos nos lembrámos, nas mais diversas formas de arte, de exemplos de criticas (justas ou injustas) feitas em voz bem alta.

    Hoje, a minha achega não será no campo literário mas na música.

    Haverá, decerto, quem se lembre de uma certa personagem, Sergiu Celibidache (explêndido maestro) e das suas criticas em alta voz a Herbert Karajan (Maestro e ídolo incontestado no seu tempo).

    À parte uma disputa entre ambos para o cargo de Maestro/Director Artístico da Filarmónica de Berlim, que o segundo ganhou após a morte de Wilhelm Furtwängler em 1954,

    o primeiro era dos poucos que se atreviam a contestar em voz alta o segundo (o ídolo) por oposição ao unanimismo e proselitismo que lhe devotavam.

    Resumindo: só depois da morte de Herbert Karajan é que surgiram muitas vozes a contestar a estética e escolhas interpretativas do primeiro.

    Enfim, há que dizer que depois de morto é mais fácil.

    E isto é, desassombradamente, um exemplo oposto ao que a nossa hospitaleira Maria do Rosário Pedreira nos deu no seu texto.

    Concluindo: contra o unanimismo... marchar, marchar.

    Abraço a todos


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    1. Já que citou o Karajan, confesso: que falta que me faz ouvir na antena 2 a Filarmónica de Berlim conduzida pelo Karajan! Têm gravações de um rigor inultrapassável ! Há 30 anos, todos os dias se ouvia Karajan na rádio clássica. Estranhamente, nos nossos dias, praticamente desapareceu do programa da estação. Parece que o opróbio post mortem lhe advém de em jovem ter sido soldado nazi. Dá vontade de lembrar: também o Papa !

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  5. Excelente texto :). Mas devo dizer que Steve Jobs ainda era vivo e eu já ouvia falar mal dele, mais em termos de traições a sócios (à laia do Zimmermann do Facebook).

    Uma dúvida de quem se interessa por estas coisas e já teve discussões sobre este assunto. A última frase da MRP está correcta assim ou ficaria melhor "Quem sabe, sabe." Eu prefiro como a MRP pôs mas sempre me corrigem quando não ponho a vírgula...

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  6. Que sábios os romanos: "De mortuis nihil nisi bonum". É feio remexer a vida dos mortos indo à procura, e muitas vezes inventando, "podres" a quem já não se pode defender das aleivosias alheias. Sejamos nobres e sigamos a máxima latina !

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  7. Concordo plenamente com o assunto do post, mas o que me traz aqui é a última frase: finalmente vejo uma relativa livre (ou sem antecedente expresso) correctamente pontuada, uma vez que, como toda a gente sabe, não se separa o sujeito (a relativa livre) do verbo. De facto, "quem sabe sabe". E como eu embirro com a vírgula com que teimam em separar sujeito de verbo! Até cheguei a reclamar no Totta contra aquele "quem quer dinheiro, vai ao Totta". Em vão.
    Também em matéria de sintaxe temos todos muito que aprender neste blogue...

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  8. Nunca soube pôr vírgulas. E um dia perguntei a um professor de português, como sabê-lo sem erro. Ele olhou-me sério e

    "com excepção daqueles chavões como não separar o sujeito do predicado com uma vírgula (ok, muito mais in, relativa livre), depende de como lês ou queres que te leiam; há lugares onde todos colocávamos a vírgula, mas noutros depende de como dizes, as vírgulas são a tua paragem de respiração ou de sentido.”

    Suponho que continuo a pôr mal as vírgulas. Mas deixei de me importar com.
    Há escritores que não põem pontos, logo, abusam da vírgula; os que não usam maiúsculas; os que mudam de linha sem mais; os que começam uma frase, colocam muitas outras e nelas muitas linhas e ideias diferentes e depois interrompem e completam a frase. Há os que inventam palavras que ficam tão à maravilha. E a todos entendemos. Mais: gostamos do jogo.
    Aprender a escrever exige a norma e o seu cumprimento. Mas depois há todo um equilíbrio no arame que depende em parte de cada um e do seu poder de brincar pensando. ´um jogo bem mais aliciante, suponho. Que não se joga às primeiras.

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    1. José Cipriano Catarino30 de janeiro de 2013 às 14:24

      As violações da "norma" só são reconhecidas por quem a domina, suponho. O jogo que o escritor faz com a língua pressupõe que o seu leitor o acompanhe. Se escreve "tu fostes", ou o leitor contextualiza a frase, sabendo que o autor não dá erros desses, ou a interpreta como correcta, perdendo a intenção do autor (ironia, por ex.), ou acusa o autor de erro grave, perdendo também a interpretação pretendida. Agramaticalidade pressupõe, assim, maestria, comedimento, intencionalidade, etc. Eis um excelente tópico para discussão.
      Não foi por snobismo que me referi às relativas livres, mas porque são normalmente mal pontuadas.
      E, concordo, a virgulação é difícil. Escrever é difícil.

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    2. José C C

      Desconhecia a expressão “relativas livres” . Encontro-a mesmo mais in, no sentido em que me parece científica e foi bem explicitada. Atitude que não é própria de um snob:)

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    3. José Cipriano Catarino31 de janeiro de 2013 às 02:22

      Bom, a designação oficial dessas relativas no Dicionário Terminológico é mesmo snob: "orações subordinadas relativas restritivas substantivas sem antecedente expresso". Creio que me não esqueci de nada. São também chamadas "livres" porque, ao contrário das orações relativas adjectivas, não estão "presas " a um antecedente.

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    4. Santos deuses! isso não é snobeira. Mas para tal a melhor resposta que conheço não é minha :) é a que deu Teolinda Gersão depois de ensinar os netos a estudar português e colocou no FB.
      Começa assim
      «Vou chumbar a Língua Portuguesa, quase toda a turma vai chumbar, mas a gente está tão farta que já nem se importa. As aulas de português são um massacre. A professora? Coitada, até é simpática, o que a mandam ensinar é que não se aguenta. (...)A professora também anda aflita. Pelo visto, no ano passado ensinou coisas erradas, mas não foi culpa dela se agora mudaram tudo, embora a autora da gramática deste ano seja a mesma que fez a gramática do ano passado. (...)Por exemplo, o que acham de adjectivalização deverbal e deadjectival, pronomes com valor anafórico, catafórico ou deítico, classes e subclasses do modificador, signo linguístico, hiperonímia, hiponímia, holonímia, meronímia, modalidade epistémica, apreciativa e deôntica, discurso e interdiscurso, texto, cotexto, intertexto, hipotexto, metatatexto, prototexto, macroestruturas e microestruturas textuais, implicação e implicaturas conversacionais? (...)»

      Excentricidades criminosas.

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    5. e com que concordas, curtos instantes? que quem concorda com tudo, com nada concorda :) já que nenhum dos dois existe.

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    6. Beatriz, obrigado por perguntar com que concordo eu, já que, efetivamente , pouco claro fui.
      Concordo com o necessário equilíbrio no arame. Quando li a sua expressão, de que gostei, a primeira coisa que me veio à cabeça foi exatamente : completamente de acordo.

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    7. Curtos instantes

      :) obrigada
      estamos sempre no arame. E às vezes sem rede. Já Platão entendia o curso da vida humana como a condução de um carro que segue em frente, numa estrada à beira do precipício. Para complicar, é puxado por dois cavalos que se esforçam em direcções opostas.

      E tão aliciante viver. Apesar de.
      BFS


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  9. Que se fale e escreva sobre e para quem está vivo.
    Depois de morto pode parecer mais fácil e tudo ou quase se pode dizer a respeito do dito. Acontece que, muitas vezes, os "podres" que vêem à tona, não são assim tão podres e sim inverdades e mentiras. E ao morto, que não fala, nem escreve, é-lhe cerceada a defesa, o argumento, a réplica ...
    O inverso também é aplicável. Quantos trastes não viraram anjos, depois de mortos?
    Falemos aos e dos vivos, sim?

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    1. Anónimo

      É insofismável, escreve-se para os vivos. Mas não se reduz a eles o objeto da escrita. Os que passaram fizeram não apenas a sua mas também a nossa história. E há urgências e razões que ali enraízam. A necessitar entendimento. O mundo presente pouco se entende sem o passado. Assim os vivos são curtos demais sem o tamanho de quem os trouxe. Somos todos mais que nós mesmos e o nosso tempo. Creio que as tricas e minúcias da humanidade de cada um, pouco importam. Mais diria que são particularidades que tolhem a perspectiva.

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