Mudam-se os tempos
Dou comigo a pensar que, quando era mais nova, me entusiasmava com alguns livros a ponto de, como um verdadeiro cruzado, obrigar toda a gente que conhecia a lê-los. Hoje, não sei se pela idade, se pela quantidade de livros lidos, já me é difícil encontrar uma obra que justifique tal empenho. Mesmo autores que, no passado, me encheram as medidas parecem escrever actualmente obras menos profundas ou empáticas (senti isto, recentemente, com o último romance de McEwan, por exemplo, mas calculo que o problema seja meu, e não do livro). Em todo o caso, acredito que, para além do «envelhecimento», haja um certo número de obras que, no seu tempo, foram fulcrais, mas que, num contexto e época diferentes, já pouco dizem aos leitores. Falo disto porque, recentemente, desencantei da estante do Manel um clássico que queria muito ler (e dele falarei noutro dia), inserido numa colecção da Editorial O Século que prometia «As Maiores Obras do Nosso Tempo». Só que esse «Nosso Tempo» já não é este tempo que agora é o nosso, porque da lista de livros publicados e a publicar na colecção constavam apenas cinco títulos que hoje ninguém lê (para não dizer que quase ninguém sabe sequer que existem). Senão, vejamos: Vitória Quatro e Meia, A Glória de Don Ramiro ou A Solteira dizem-vos alguma coisa? Ou, se preferirem, Enrique Larreta ou Louis Bromfield são escritores que se encontram nas vossas estantes? Senti-me um bocado ignorante, devo confessar, e só me aliviou saber que não era a única a não conseguir identificar senão Thomas Hardy entre os autores da lista. Talvez daqui a uns anos ninguém se lembre dos livros que, entusiasmadíssima, li na juventude e obriguei toda a gente a ler. Há sempre demasiados livros condenados ao esquecimento.
Obrigada a todos pelos mimos de ontem!
ResponderEliminarLouis Bromfield - creio que "AS CHUVAS VIERAM" tenho lá em casa (será mesmo assim?)...
ResponderEliminarQuando, há muitos anos, li "O HOMEM QUE RI" de Victor Hugo, também eu queria que toda a gente o lesse...realmente há livros datados que lemos há muitos anos e agora se calhar não conseguiríamos passar da página 26...
«Há sempre demasiados livros condenados ao esquecimento.»
ResponderEliminarNão só os antigos, que já passaram de moda, mas também muitos actuais, vítimas de estranhas formas de silenciamento.
E também há o contrário: romances hoje ignorados que, mais tarde, são ressuscitados e passam a estar na moda.
Enfim, é a literatura!
Caro Anónimo vais-me desculpar mas se há palavra que não se aplica aos LIVROS é o estar na moda, porque os que estão na moda não são livros são mercadoria. Basta atentar nas quantas SOMBRAS DE GREY quanto livros já apareceram com as capas iguais, tudo lixo.
EliminarO que vale é que a vida literária, como a outra, é ciclíca. Veja como nos últimos anos foi exumado do esquecimento o magnífico Sándor Márai. Talvez os nomes de Enrique Larreta e Louis Bromfield voltem a soar no tempo dos nossos netos...
ResponderEliminarSandor Marai?
ResponderEliminarCada vez que olho para uma lareira, lembro-me, com saudade, de \"As velas ardem até ao fim\"
curtosinstantes.blogspot.com
Hoje faz anos o nosso extraordinário António Luiz Pacheco. Parabéns, que seja um excelente dia aí no Planalto Central. Um grande abraço para si.
ResponderEliminarDo pouco que conheço do Pacheco – e conheço-o apenas daqui, das Horas Extraordinárias – há qualquer coisa nele que me faz lembrar Jorge de Sena.
EliminarJá estou a ver a reacção do António Luiz: “ – Mal-acomparado!!! Eh!eh!eh!eh!”…
Mas pronto – digam-me lá se não calha a preceito ao nosso valente Pacheco este poema que se segue:
“Quem muito viu…”
Quem muito viu, sofreu, passou trabalhos,
mágoas, humilhações, tristes surpresas;
e foi traído, e foi roubado, e foi
privado em extremo da justiça justa;
e andou terras e gentes, conheceu
os mundos e submundos; e viveu
dentro de si o amor de ter criado;
quem tudo leu e amou, quem tudo foi -
não sabe nada, nem triunfar lhe cabe
em sorte como a todos os que vivem.
Apenas não viver lhe dava tudo.
Inquieto e franco, altivo e carinhoso,
será sempre sem pátria. E a própria morte,
quando o buscar, há-de encontrá-lo morto.
(Jorge de Sena)
Caro Pacheco
Faz 57, não é?
Ó homem, leve a peito o poema de Sena.
Inquieto e franco, altivo e carinhoso, deixe-se andar por cá outros tantos, ouviu?
Um forte abraço do
Joaquim Jordão
Força Pacheco, um grande abraço.
Eliminar57?!... Então ainda é novo. Parabéns a todos!
EliminarJá é o terceiro, hoje. Muitos parabéns, António.
EliminarCaro "amigo extraordinário" António Luiz Pacheco
EliminarOs meus parabéns pelo seu aniversário. Aproveito para lhe dizer que as "Horas extraordinárias" não seriam as mesmas sem o seu contributo, oxalá o dê por muitos e muitos anos, inquieto e franco, altivo e carinhoso das lezírias ribatejanas ou do planalto Central!
Saudações citadinas
Isabel
ps: Já reparou como o mimamos?! não se vá habituando, é mesmo porque hoje é o dia do seu aniversário!!
Lembro-me de um chamado "Consciência de Médico", editado na Livros do Brasil, que era o preferido da minha avó. E Stefan Zweig, que preenche as prateleiras da minha outra avó?
ResponderEliminarJulgo que vale sempre a pena pegar nesses livros. Podemos ter agradáveis surpresas. Descobri no outro dia Freya Stark e estou encantado. Uma excelente escritora de viagens, apenas um bocadinho abaixo de Chatwin e Theroux. :)
É a diferença entre o temporal e intemporal. O que se lê sempre em actualidade e é um clássico e o que está preso à época não tanto por ela como pelo modo como nela o livro se inscreveu. O tempo comanda-nos e tem a última palavra. Que o pó pousa em todos. Mas ao retirá-lo, uns refulgem. E outros, oxidaram.
ResponderEliminarNem todos os escritores são geniais. E alguns, na sua época, muito importantes. Que cada um autêntico e rigoroso no dizer que é seu, a conquistá-lo palmo a palmo. O resto, o tempo cobre e descobre. E, como se disse acima, sem regra.
(…)
Não podemos ser todos capitães; temos de ser tripulação
Há alguma coisa para todos nós aqui.
Há grandes obras e outras menores a realizar,
E é a tarefa própria que devemos compreender
(…)
Douglas Mallock
E parabéns ao António Luís Pacheco.
Subscrevo, Beatriz.
EliminarHá quem seja temporalmente limitado...e quem se revele intemporal. É como é. Não se trata de realidade acessível a todos. Se o fosse, seria fácil. E a genialidade nunca o é.
Confesso-me emocionado até com o poema!
ResponderEliminarO facto de não ser consumidor não faz de mim insensível ou fachado ao que é belo!
Um excelente presente de aniversário, e sim... sem falsa modéstias nem hipocritos pudores, revejo-me inteiramente nele! Aliás creio que tem muito a ver com nós, portugueses e ribatejanos.
Somos assim todos nós no fundo.
Confesso que o desconhecia... se bem que "Sinais de fogo" tenha por mim sido "visto" de forma muito superficial, ainda não era a altura, mas está lá para quando for!
A poesia também se aprende, tudo tem o seu tempo e creio que ele virá... tranquilizem-se pois!
Já agora, a maioria das versalhadas feitas para o nosso livro de curso, foram de minha autoria... em pé-qubrado evidentemente, e muita malta até de outras universidades me pedia que lhe fizesse umas quadras! E esta? Ahahah!
Vou fazer uso dele junto do meu círculo de amigos e divulgar as palavras, para isso serve também este "nosso" espaço.
Saudações agradecidas cá o Planalto Central!
Concordo inteiramente com o A. Severino sobre a questão das "modas"...
ResponderEliminarAs modas não são para quem gosta de ler!
São para os que lêem... digo-o sem sem desprezo, e ainda bem que há quem as siga! A indústria livreira, os profissionais e nós os que não lemos segundo a moda, dependemos disso também!
Quanto ao resto...
Confesso que desconhecia os autores que a nossa anfitriã cita no seu post!
É assim mesmo, digo eu... e novamente ainda bem pois há tanto para descobrir...
Já impingir aos outros o que ando a ler, nunca foi o meu forte... sou um bocado para o púdico nesse sentido e sem esse espírito "missionário" (?). Acho que é pessoal. Claro que se inquirido ou em conversa sobre o tema, aconselho muitas vezes esta ou aquela leitura... o que é diferente.
Saudações do Planalto Central
Parabéns !
EliminarE obrigado pelos seus excelentes posts neste blog.
Que inveja por não estar ao calorzinho que imagino no Planalto Central; está um frio de morrer aqui no Porto.
Obrigada Sandra. Há sintonias :)
ResponderEliminarsenhor aniversariante António Luiz
leitura não se impinge. É sugestão não hipnótica. Se tens apreço pela pessoa, tendes a verificar. E aprendes três em um :) a ti, a quem te indicou a obra e à dita.
o que é concretamente o planalto central? sou geograficamente nula.
Extraordinária e estimulante discordância!
EliminarA leitura - como a literatura - impingem-se sim e definitivamente, quer maior prova disso que as exposições nas livrarias e hipermercados?
E os artigos ou as ditas "críticas" em jornais e revistas?
Pode é haver quem seja imune ao impingimento!
Planalto Central - assim se designa uma vasta região no centro de Angola, que compreende as províncias do Huambo, Huíla, Bié...
Fique bem, como se diz por cá.
Sinto muitas vezes o mesmo, tendo algumas vezes um despique temperado com gente de outros tempos que mencionam obras e autores meus desconhecidos e espelham a minha ignorância quando returco com exemplos meus contemporâneos.
ResponderEliminarPior que isso, no entanto, será a perca de empatia que se sente perante obras que no passado tanto nos tocaram; imagino, simplesmente, que tenhamos sido nós a mudar e não as obras. Os nossos sentimentos e emoções acabam por ser uma mera simbiose do que sabemos, não o contrário.
Antonio Luíz
ResponderEliminarfui verificar ao meu livro de bolso - o dicionário - o significado de impingir e parece-me haver no termo uma constrição do sujeito que não verifico no impingir de revistas e livros por livrarias e quiosques que os tenham em exposição. Continuo a chamar-lhe sugestão. Mas admito que o português (língua falada) corrente o assuma como impingir.
Talvez queiramos dizer o mesmo.
Obrigada pelo esclarecimento. Pensava qualquer coisa como a meseta ibérica :)
Um bom resto de dia