Morte certa
Os jornais têm sido unanimemente entusiásticos com um livro recente de uma jornalista, Susana Moreira Marques, que escreve habitualmente no Jornal de Negócios. Muito difícil de classificar – porque, sendo uma reportagem e um livro de viagens, compreende também momentos de grande literatura e testemunhos de evidente crueza – Agora e na hora da Nossa Morte – assim se chama a obra – «rouba» o título a um livro de poesia de José Agostinho Baptista para falar de uma visita a um grupo de doentes terminais em Trás-os-Montes, abrangidos por um programa de prestação de cuidados paliativos ao domicílio da responsabilidade da Fundação Calouste Gulbenkian. Osso duro de roer, porque estar tantos dias ao lado de pessoas que sabem a morte certa e próxima tem forçosamente de exigir muita coragem, muito estofo, e ao mesmo tempo de virar do avesso a cabeça de quem está vivo e com saúde, emprestando-lhe uma perspectiva da existência inteiramente nova. Fulgurantes, para mim, foram as primeiras quarenta e tal páginas – notas de viagem curtas, por vezes de apenas uma linha, cheias de poesia, profundidade e sentimento, que nos deixam adivinhar as aldeias agrestes com as suas neblinas e as famílias enlutadas mesmo antes de os seus queridos as deixarem. A seguir, vêm os relatos na primeira pessoa, como entrevistas não editadas, de doentes amaldiçoados ou de membros das suas famílias transformados pelas circunstâncias, unidos na desgraça, pesados de lembranças e culpas e desejosos de redenção. Por fim, as fotografias de André Cepeda dão rostos às vozes e mostram os lugares da tragédia que se avizinha. Não saímos os mesmos destas páginas.
Ainda bem que falou deste livro, cara Maria do Rosário. Anda na minha mira desde que saiu, não só pelas excelentes críticas que tem recebido, mas também, e sobretudo, por tê-las ganho unanimemente tratando-se de um tema sobre o qual é tão, tão difícil escrever com a abordagem e a sensibilidade certa. É desta que vou gastar uns tostões.
ResponderEliminarDesejo-lhe um excelente novo ano!
Um abraço,
Carla Nunes
Também já o tenho anotado na agenda. Falaram-me maravilhas desse livro! Estranhamente ( ou não) ainda não o vi em exibição nas livrarias.
ResponderEliminarA vida ao vivo!
ResponderEliminarÉ interessante que se constate tal, quando se trata, precisamente, da morte. Por isso é que não saímos os mesmos de páginas como estas.
Aos futuros leitores interessados: o livro está esgotado. A segunda edição, num novo formato, chegará às livrarias até ao final do mês.
ResponderEliminarObrigado pela informação ! Um mês é capaz de ser tempo suficiente para eu poder recuperar de ter visto o filme "Amour" do Haneke e poder arranjar força de alma para aguentar a agonia de uma nova obra de arte sobre um outro possível final da minha própria vida. Procurarei o livro em fevereiro nas livrarias.
EliminarObrigada, Madalena.
EliminarVi-o referido na Time Out, foi diretamente para a minha lista de livros a ler...
ResponderEliminaro que chamou mais a atenção das palavras da Rosário, foi o «roubo» do titulo.
ResponderEliminarpode-se "gamar" um título de uma obra já publicada, ainda por cima se estiver registado na SPA?
Nos agradecimentos, a autora explica que recolheu junto do poeta a necessária autorização. Daí as aspas.
Eliminargrato pelo esclarecimento, Rosário.
EliminarMas este título na "origem" não é um "verso" da oração "Avé Maria"?
EliminarQuando era pequena, cheguei a ir à missa e havia uma parte dessa oração que dizia "Rogai por nós pecadores, agora e na hora da nossa morte", mas enfim, posso estar enganada...
Isabel
Não, isso é mais do que certo. Ámen. O primeiro livro, o de poesia, foi certamente buscar a frase à oração, claro.
Eliminarhttp://www.amazon.com/Emperor-All-Maladies-Biography-Cancer/dp/1439170916 Este também versa sobre desgraças, cair do andarilho, virar o penico, etc... Foi um amigo meu, que vive em NY, que me recomendou. Parece que é muito bom.
ResponderEliminarLuv
JMC
XoXoXo
É dificílimo tocar estes assuntos com a dose certa de sensibilidade e dramatismo, sem resvalar para lamechices fáceis que lhes retiram toda a dignidade. Ainda não li o livro, mas estive a folheá-lo e pareceu-me ter essa rara "justa mesura". É poético e belo, embora duríssimo. Parabéns à autora, não deve ter sido nada fácil esta descida aos infernos íntimos da morte.
ResponderEliminarAna Vidal
Nunca se sai o mesmo da morte. Quando se gosta de alguém sobre todas as coisas e desvalido nos morre centímetro a centímetro, não saberíamos, ainda que o quiséssemos, ser depois os mesmos. A morte não é apenas trauma e ponto no fim da frase. É também profundo enriquecimento de quem vive. Uma necessidade do crescimento interior.
ResponderEliminarA experiência da autora do livro não é bem esta, que pode pensar ter ali o coração, mas não. Esta é a que nos cabe viver na nossa individualidade, quase porta sim porta sim. Que a morte é sempre dos outros. Com algumas variantes. Porém, difere mais no tempo em que calha caber-nos.
E Bom Dia