A vida e a obra

Há muitos anos, ainda na Temas e Debates, tivemos a trabalhar connosco uma rapariga que estava a fazer o mestrado em Teoria da Literatura. Tendo-se posto a ler Borges, encontrava-se absolutamente fascinada com o génio argentino (como é, de resto, perfeitamente justificável). Porém, a sua admiração ficou bastante afectada quando lhe falámos da pessoa por detrás do escritor e das suas posições um tanto ou quanto discutíveis. Talvez não o devêssemos ter feito, porque, naquele caso, ferimos o deslumbramento genuíno pela literatura do mestre e, diga-se o que se disser, uma obra pode ser lida e apreciada independentemente da vida do seu autor. Vem isto a propósito do grande Céline – o escritor – que, ao que se sabe, também não era, enquanto gente, flor que se cheirasse. E, contudo, quão absurdamente admirável é a sua Viagem ao Fim da Noite, um grito de arte numa noite que não podia ser mais escura do que a da Primeira Guerra Mundial, na qual tudo é podre, e fede, e está cheio de vómitos, sangue e merda. Esqueçamo-nos da vida de Louis Ferdinand, o homem, e concentremo-nos em Bardamu, a personagem, um soldado borrado de medo, assistindo à destruição e pilhagem de aldeias, à morte de soldados e civis, à frieza das altas patentes militares numa guerra de chacina, metido depois na África colonizada, e na América da indústria automóvel, e atirado, no fim, para um subúrbio da pátria a trabalhar num manicómio. A narração visceral desta vida, em linguagem certamente revolucionária para a época (ainda hoje rasga o ouvido e incomoda), tem de ser lida sem se pensar nos actos de Céline, mesmo que ele tenha dado os mesmos passos do protagonista e saiba, por isso, do que está a falar. E, com Borges ou qualquer outro, idem! Leiam-se as obras ignorando as vidas.

Comentários

  1. Concordo totalmente com a sua última frase. Eu leio obras de arte literária, não leio autores.

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    1. Eu não consigo dissociar o autor da sua obra e vice-versa.

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  2. Que engraçado, anónimo! Eu leio autores. Se gosto, em todas as suas obras. Sem procurar da pessoa mais do que ela queira mostrar no escrito. Ou do que os meus preconceitos nela me deixam ver :). Amei Eugénio de Andrade a julgar-lhe uma sexualidade que ele nunca mostrou, Borges como um pequeno deus desviante, a desconhecer-lhe posições políticas que não comungo, Dali sem os excessos vitais que me atoleimam.
    Mas, por quem, como Miguel Torga, une as letras a si mesmo e com elas é um, reconheço, tenho carinho especial. Sem interferência no qualitativo da obra, que cada uma, por si mesma tem de navegar.
    E um bom dia

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    1. Mais uma vez de acordo, Beatriz. :-)
      Bom dia a todos.
      É quase impossível dissociar a obra do seu autor e da pessoa que ele foi ou é. Mas isso não nos deve impedir de reconhecer no escrito a qualidade que ele, de facto, detenha, independentemente dos múltiplos defeitos de quem o criou.
      Claro que, se o caso não for esse e nos identificarmos com a pessoa em questão e as suas opções...tanto melhor!

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    2. Beatriz, creio que é errado perguntar: «você já leu o José Saramago?» Eu já li todas as obras, nada preocupado com a biografia/ideologia do autor, apenas interessado no que a obra transmite e como o faz. Eu não leio o José Saramago, leio a sua obra, não faço o culto de personalidades.

      O anónimo

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  3. Por mais que tente, não consigo separar o autor da obra: misturo tudo!

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  4. Dois génios... dois monstros... ou não!

    Não consigo conceber a santidade num ser tão imperfeito como o homem. No entanto, não deixo de pensar que muitos houve que, não tendo criado nada, sendo igualmente imperfeitos, ou cometido mil crimes, passaram à memória (da família e amigos) como pessoas perfeitas e dignas de de servirem como exemplo.

    Não acho que a arte consiga redimir o criador, mas considero que a primeira não deve sofrer o mesmo julgamento.

    Há que separar as águas.

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  5. Acho que nunca conseguimos nos dissociar dos juízos críticos e dilemas morais. É um comportamento automático que certamente a genética social explica.

    Se temos a obra, precisamos saber da vida do autor?

    Miguel

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  6. é realmente preferível conhecer apenas a obra, quando os autores estão longe de serem boas pessoas.

    o problema é que isso nem sempre acontece.

    quando conhecemos as pessoas, o que os outros dizem interessa pouco. o problema é quando são pessoas que só conhecemos por terceiros.

    este problema é maior quando os autores ainda estão vivos. depois de partirem a obra vse for boa ence a vida, e ainda bem.

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    1. (se a obra for boa vence a vida...)

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    2. Conhecer a vida e percurso, bem como opiniões, ajuda, de certo modo, a contextualizar. Outras vezes só complica.

      À parte "Viagem ao fim da noite" Céline tem noutros títulos pós segunda guerra um instrumento para se "lavar" ou justificar de algumas das suas escolhas (colaboracionista ou não, resta a dúvida; já do anti semitismo...)

      Que seria desses livros, na minha opinião, igualmente bons ("Norte" por exemplo) se não tivesse esse estigma para conviver?

      Já com Borges é diferente, na sua literatura (fantástica) vi poucos rasgos da sua ideologia.

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    3. O colaboracionismo de Céline não passa de uma calúnia de Jean-Paul Sartre.
      Já o antisssemitismo, dizem estar escarrapachado em dois ou três panfletos que Céline escreveu nos anos 30 e que nunca se reeditaram. Nunca os pude ler, não posso fazer a minha avaliação. De qualquer modo, parece que a reedição foi proibida pelo próprio Céline, que terá revisto a sua postura. Provavelmente, não era antissemita como nos querem fazer crer: tinha apenas alguns assuntos mal resolvidos que não se devem confundir com a perseguição aos judeus.
      Um homem tem de ser julgado pelo conjunto da sua vida ou por um momento menos feliz? Eu não conheço quem sempre tenha sido justo: apenas os apaixonados e os calculistas, os que têm uma noção vaga do politicamente correcto e os que a guardam a todo o custo.
      Sartre e Céline pertencem ao primeiro grupo, mas os ventos da história arrastaram o segundo para fora das nossas memórias. Apesar de escrever incomensuravelmente melhor do que o primeiro.

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    4. No meu comentário falei de estigmas, não afirmei peremptoriamente que seriam merecidos.

      Peço-lhe que não julgue o meu comentário, fiz apenas uma contextualização, relembrando os erros (os ditos panfletos) que ele cometeu.

      Erros que TODOS um dia podemos incorrer e com os quais temos de viver.

      Já ao colaboracionismo... enfim, não vivi nesses tempos. Não presenciei nem os testemunhei.
      Mas, há que ler e perceber o contexto em que escreveu a sua obra... podemos perceber muito do que está implícito nas entrelinhas.

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    5. Olá, Vítor Ferreira.

      Nada disso, não julguei o seu comentário, apenas achei que o meu comentário ao post da MRP se encaixava melhor por baixo do seu, precisamente porque contextualizava o assunto em discussão :).

      Um abraço.

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  7. António Luiz Pacheco24 de janeiro de 2013 às 06:03

    Outro interessantíssimo tema de conversa, que estou a seguir e a apreciar. Compreendo ambas as posições, e confesso que alguma antipatia pelo autor (e sua pose e atitudes) também me influencia neste ou naquele caso... sou humano, não sou nenhum santo nem quero ser!
    Não sendo o melhor homem do Mundo, não sou certamente o pior, tolero e até aceito os outros como eles são... só me indomodam os "cruzados" e os "beatos", aqueles que se acham a medida e exemplares, que acham que nunca falham e não o aceitam nos outros, sem darem conta de que fazem diáriamente as maldades que não aceitam noutros.

    Não é fácil separar o autor da obra, não não é!
    Mas... isso nos fará perder muitas coisas boas.
    No fundo é o preconceito!
    Quanto a mim temos que perceber:
    1º A genialidade não é vulgar! Quem ela atinge quase sempre padece de outros desvios ou mazelas, comportamentais e do foro psicológico, com idéias, hábitos e manias reprováveis... mas a genialidade as supera.
    2º O contexto ou a época em que a obra foi concebida e produzida.

    Ou seja, para se apreciar e usufruir, há que abrir coração e mente...

    Tenho curiosidade em saber sobre aqueles que me tocam profundamente, é óbvio e legítimo, mas não sou assim tão duro no juízos. ´
    Aquilino era da carbonária... quando o soube não perdi nem um grama da estima que tenho pela obra do Mestre!

    Saudações tolerantes do Planalto Central

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    1. "(...) para se apreciar e usufruir, há que abrir coração e mente... (...)"
      "Aquilino era da carbonária... quando o soube não perdi nem um grama da estima que tenho pela obra do Mestre!"


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  8. Raramente me interesso muito pela vida de um escritor. Se tivéssemos nascido em diferentes contextos/épocas, as nossas convicções seriam as mesmas? Por exemplo, tenho dificuldade em explicar aos meus filhos que até há pouco tempo as pessoas não se podiam exprimir livremente, que houve canções como as do Zeca Afonso que foram proibidas. E, no entanto, na altura, para quantas pessoas isso era normal? Um outro exemplo: a escravatura foi «normal» durante muito tempo. E quantos escritores conviveram com ela?
    O que chega até nós é a obra e apenas essa devemos julgar. É claro que parece impossível não haver algo de autobiográfico na sua obra, mas provavelmente o que há de mais interessante na vida é mesmo a obra...
    A propósito disto lembrei-me da polémica em redor da atribuição do Nobel da Literatura este ano. É a obra ou o autor que eles premeiam?

    Quando vinha para o trabalho ouvi na rádio uma história «literável», que me comoveu e que aqui partilho. No final da II Guerra Mundial, Portugal acolheu 5000 crianças austríacas durante alguns anos, permitindo-lhes recuperar uma infância perdida, enquanto o país se reerguia e sarava das mazelas da guerra. Agora, a Áustria vai retribuir, ajudando crianças de famílias portuguesas carenciadas. Bem-hajam!

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    1. António Luiz Pacheco24 de janeiro de 2013 às 06:55

      Somos um povo solidário na desgraça e de grande generosidade, minha cara e Extraordinária Anabela

      Sabe, e por curiosidade, que convivi com duas dessas crianças (bem mais velhas do que eu, mas porque foram acolhidas por famílias amigas da minha): O cavaleiro Gustav Zenkl (Infante da Câmara) e sua irmã Margot (Carvalho Monteiro).
      Por cá ficaram para sempre...

      Estes são os sinais de que fala, de um contexto que daqui por uns anos será difícil explicar... e quiçá incompreensível?

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  9. Grande livro, esse.

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  10. Nunca me entrou na cabeça gente má, mesmo correndo o risco de ser apelidado de moralista e mesmo sabendo que as bordoadas da vida - e principalmente as bordoadas da infância, a desestruturação familiar - cultivam, em maior ou menor dose, os maus fígados e rancores muito pouco humanos. Só por isso dificilmente construiria uma carreira política, já que distribuiria pelos meus concidadãos sempre muito mais flores, do que levantaria o cajado para distribuir umas pauladas a quem se esquece da sua condição humana de passagem, a quem se esquece que a vida dos outros não é por si determinada. Para contrariar esse mau pensamento quase sempre me rodeei de animais ditos irracionais - para além dos outros obviamente, que uns são uns e outros, outros, como se diria há poucos dias - para alguns e do mais racional e fiel amigo para outros – o cão – principalmente para aqueles que pensam o estômago como mais importante do que a humanidade. E não falo do bacalhau, mas daqueles que alguns dizem não ser capazes de grande complexidade, de respeito pelo outro, de afectos, de simplicidade e nobreza de carácter. Para contrariar tudo isto sempre adoptei no contacto com os outros um sorriso, melhor porta de entrada do que uma «cara emburrada» embora possa estar com regularidade «açoitada» – e mesmo que haja também quem confunda a afabilidade com a idiotice de um mr . bean e o ridículo – como se houvesse algo mais ridículo do que repousarmos num caixão a alguns palmos do chão para a eternidade! E nunca me preocupei muito em blindar as minhas opiniões e os meus sentimentos, mesmo que alguns pensem devermos manter alguma contenção na transmissão da imagem: aquilo a que outros teimam em chamar de «aparências!» Quem não deve, e só concebe o ser humano na equidade, não tem de temer a comparação com o outro... ser. Felizmente que vivemos rodeados, também, de bons exemplos e boas acções. Por isso faço «desporto pessoal» daqueles que se consideram muito importantes, muito cheios de vento e de quase nada de relevante, senão muitas vezes omissos de afecto - e de palmadas higiénicas e pedagógicas. Um dos meus maiores medos foi sempre o de ser sujeito a tais injustiças, como do personagem Valjean de Hugo, que me mudassem - transitoriamente, como Valjean provou - para uma índole, azeda, amarga, desumana. Dito isto, um dos livros que deveria estar sempre à nossa cabeceira não sendo ficção, tem tanto de ficção como a de autores como Tennessee Williams e a sua Cat On a hot Tin Roof » ou «Gata em telhado de zinco». Falo da Teoria Social, de Bryan S. Turner , de que há um livro que não é mais do que uma excelente introdução aos grandes desenvolvimentos da teoria social contemporânea. Com as suas teorias da acção e da praxis, as acções, os actores, os sistemas, a teoria social e a psicanálise, os interaccionismos simbólicos, as teorias como a da escolha racional, a da cultura, a do tempo e espaço, a teoria da esfera pública, seria possível uma dessas figurinhas ter recentemente querido matar, em plena assembleia, em plena casa do povo, os seus pais? Não me parece, porque o sentido da irrelevância humana e das proporções face ao espaço, ao tempo e à natureza, não lhe permitiria.
    E é talvez por isso que a obra e a vida são simultaneamente verdugos e anjos de uma complexidade humana que nos faz predadores e guardadores de rebanho no mesmo espaço e em tempos tão pouco diferidos.

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  11. Anónimo

    pois eu leio a obra e se a ler por inteiro, podes crer que cultivo o autor - é que a alguns, sou de uma fidelidade sabuja, pronto - e não entendo tal devoção à escrita de alguém como um culto de personalidade. Significa sobretudo que admiro o escritor, não compro um livro porque quem o escreve seja anti ou pró alguma coisa. E como encarno a leitora média, senso comum portanto, creio que a maioria das pessoas assim funcionem.

    As obras, sendo boas, dardejam e eclipsam a vida pessoal. Não porque ao conhecê-la deixemos de lhe apôr um juízo, mas porque o produto não se deixa afectar. Tão mais raro que o ar,sobe. Mormente se, como acima foi apontado, haja open mind.

    Não sei porque me parece que estaremos dizendo o mesmo por palavras outras.
    Sim.

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  12. Homero foi um génio e nem sabemos se existiu; de outros, como Camões, desconhecemos quase tudo... Choca-me a vedetização dos autores. Como escreveu Oscar Wilde,
    "Os únicos artistas que eu conheci e que se mostraram encantadores como pessoas, são todos maus artistas. Os bons artistas existem unicamente naquilo que fazem, pelo que são completamente desinteressantes como pessoas. Um grande poeta, um poeta maior, é uma criatura absolutamente destituída de poesia. Mas os poetas menores são perfeitamente fascinantes. Quanto piores são as suas rimas mais pitorescos parecem. O simples facto de ter publicado um livro de sonetos de segunda categoria torna um homem bastante irresistível. Vive a poesia que não consegue escrever. Os outros vivem a poesia que não se atrevem a realizar."
    Oscar Wilde, O Retrato de Dorian Gray

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    1. António Luiz Pacheco25 de janeiro de 2013 às 02:30

      Não concordo mesmo nada!
      Conheci e conheço muita gente do Mundo das artes, que são excelentes e interessantíssimos companheiros, divertidos, extrovertidos, cultos e que vale a pena ouvir e privar, até ser amigo...
      Enriquecem-nos, a nós pobres traças! Temos sim de ter cuidado para não queimarmos as asas, se julgarmos que podemos como eles estar mesmo em plena luz...
      A idéia de que o artista tem de ser excêntrico, mau-carácter, antissocial, de "dar nas vistas", etc. é uma imagem de que aproveitam e a que se colam os que pretendem sê-lo e para quem é mais fácil fazer-se passar por artista exibindo esses tiques! Há até quem nisso faça gala...

      Também não penso pela cabeça dos escritores que leio, por muito que os admire... era o que faltava, o Mundo é meu e eu sou o que me revejo nele e dele colho, por observação e digestão directa!

      Oscar Wilde... era uma pessoa algo estranha, genial mas... a opinião dele é a dele!

      Já quanto a Camões... quem escreve uma obra tão sublime como os Lusíadas, e o faz de memória ao longo da sua atribulada vida, a tão grande distância, sem google nem wikipédia, exibindo e necessitando de uma sólida e diversificada cultura, pode ser tomado como apenas um soldado? Um truão, um galifão... um "pinta" ? Parece que era brigão e puxava fácilmente pela espada... mas isso não faz dele um mero rufia arruaceiro. E, temos muitos outros casos de génios com este temperamento belicoso, talvez pela sua viva insatisfação e inquietude genial...

      Um abraço cá do Planalto Central!

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    2. José Cipriano Catarino25 de janeiro de 2013 às 04:42

      António,
      Quis, apenas, deixar umas pistas para reflexão, uma vez que me pareceu que alguns dos comentários se orientavam para a identificação apaixonada entre autor e obra, coisa do género "se detesto a pessoa não apreciarei os seus livros".
      A citação de Wilde aplica-se que nem uma luva a autores como Pessoa - e poderia multiplicar os exemplos. Um grande artista põe tudo quanto é, tudo quanto tem, tudo aquilo de que é capaz, na sua obra; um artista menor, mesmo se apreciado (Bocage, por exemplo), vive a obra que não é capaz de escrever. Esta dicotomia poderá explicar por que alguns autores são muito apreciados no seu tempo e depois mais ou menos esquecidos (Sá de Miranda, Júlio Dinis, Júlio Dantas, Ferreira de Castro...), e outros apenas são reconhecidos e apreciados depois de mortos (Bernardim Robeiro, Camões, António Nobre, Cesário Verde, Pessoa...). Porém, não faltam, reconheço, contra-exemplos.
      De Camões, quase nada se sabe, quase tudo se inventa. Na sua juventude, feriu numa rixa um moço do Paço e foi perdoado na condição de servir o rei na Índia; dos longos anos que por lá passou, ficaram umas cartas, alguns testemunhos de amigos, e pouco mais. O resto, mais conhecido, foi resumido na inscrição tumular: "Viveu pobre e miseravelmente e assi morreu").
      Voltando ao essencial da nossa discordância: não me interessa a homossexualidade de Poe, Lorca ou de Eugénio de Andrade, não me indigna a juventude revolucionária de Aqulino (Ah, O Malhadinhas! Ah, o Romance da Raposa!), nem o mau feitio de Torga, ou a má criação e disparates de Saramago... Interessa-me aquilo que escreveram. Ou seja, não confundo o cu com as calças, para usar expressão que a grande Agustina não evitou.
      Gostava que o António tentasse ler um dos meus romances. Pode enviar-me por mail o seu endereço, para lho enviar?
      Saudações ribatejanas, da terra dos fenómenos embora.
      Mail: jose_catarino@sapo.pt

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    3. António Luiz Pacheco25 de janeiro de 2013 às 09:36

      Hóquei!!!! Agora que me explicou devagar eu percebi depressa... ahahah!
      E grato por perder tempo comigo!

      Terei o maior prazer e considero um privilégio a sua oferta!!!

      Como sabe estou bem longe, mas assim pode enviar o livro por correio normal, eheheh!
      Isso do Introncamento a Santaráim, inté pode ir na carrêra...

      Um abraço Planáltico!

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