Patenteado
Passo, como todos calculam, horas infindas a ler livros em bruto, versões que os autores entregaram ao editor cedo demais, nas quais transparece muitas vezes talento e imaginação, mas falta uma revisão atenta e crítica. Esses livros «embrionários» obrigam a mais do que uma leitura, a reflexão demorada, a uma procura de soluções para problemas específicos; e, quando tudo isso é processado, a propostas de alteração frequentemente profundas. Na maioria das vezes, tenho, porém, a sensação de que o autor, se fosse menos ansioso e apressado, acabaria por chegar sozinho às mesmas conclusões, poupando-me, claro, muitíssimo trabalho. António Lobo Antunes, numa entrevista ao vivo conduzida por Carlos Vaz Marques há uns dias numa sala do cinema S. Jorge (por ocasião dos 25 anos da revista Ler), disse que as primeiras versões dos livros lhe saíam relativamente bem e depressa, tendo até a mão dificuldade em acompanhar a rapidez do pensamento; mas era então que começava verdadeiramente o trabalho – ler, reler, rever, refazer, cortar, alterar – e era isso que demorava realmente meses; explicou ainda que era fundamental usar o «detector de merda» [sic] para tirar do «rascunho» tudo o que era excesso, gordura, porcaria. Não há, por acaso, ninguém que queira patentear um instrumento como este para me facilitar a vida?
Eu também encomendo um para ler os tratados dos meus alunos!
ResponderEliminarTem de ser mesmo trabalho artesanal...
ResponderEliminarTão, tão verdade! :-)
ResponderEliminaro dito "aparelhinho" é mesmo uma necessidade, pois a tendência é para piorar.
ResponderEliminara sociedade de hoje privilegia muito menos o sentido auto-critico.
é por isso que há por ai tantos "músicos", "actores" e "escritores"...
Pois é... mas se assim fosse, muitos livros desapareciam completamente :)
ResponderEliminarOutros teriam muitas versões diferentes pois as opiniões iriam variar, com certeza: 'o excesso, a gordura, a porcaria' são do agrado de tantos, de muitos.
Naturalmente, compreendo-a e até me ri pois tenho nas mãos um 'documento' extremamente necessitado dessa maquineta.
A. Lobo Antunes tem toda a razão. Claro que também é verdade que o "detector de merda" dele não funciona a cem por cento porque os seus livros ainda precisavam bem mais trabalhados tanto por ter gorduras a mais como nó próprio português. Nunca percebo por que razão ninguém tem coragem para dizer isto.
ResponderEliminarFora isto, e para ser justa, um grande escritor.
correcções:
Eliminarprecisavam de ser bem mais trabalhados...
tanto por terem gorduras a mais como no
Já fui júti de concursos literários (ou prémios, como lhe costumam chamar), inclusive do PNL.
ResponderEliminarSe acaso estivesse uma "máquina" dessas à minha disposição e me fosse imposta pelo regulamento, eu não aceitava ou, no mínimo, deitava-a pela janela fora.
Há profissões onde o sacrifício é a parte do espinho que sustenta a rosa. Não há volta a dar: um jurado, um editor, um crítico ou sei lá quem mais, tem de receber a carne magra e a gorda, os intestinos e as vísceras da obra; se é imprópria para consumo, ou se recicla através do autor (se for o caso de edição) ou se rejeita liminarmente, sem apelo nem agravo.
No entanto, as gorduras e demais excrescências, não são apanágio dos escritores que têm o "parto" pela primeira vez. Os autores consagrados e outros santificados, possuem esses "tumores" nas suas obras. Helás! Esses têm nome, cujo dito tem corpo tipográfico maior do que o título, vendem, são "senhores dos livros" e não há editor que tenha a coragem de lhes castigar o ego com uma recomendação do género.
Enfim, como diria o Calimero com a casca do ovo na cabeça, pobre de quem é pequenino!
Desculpe a impertinência, caro Jocamartinho: já foi júri ou já foi jurado?
EliminarCaro Jocamartinho:
EliminarQuebro o meu silêncio para lhe dizer que adorei este seu comentário.
Pois, o ego, todos o têm, a maior parte deles, tão maltratado, coitadinho. Indignarem-se, ou divertirem-se, com o ego magoado de outros Calimeros dá-lhes momentos de felicidade. Tanto preconceito, tanto elitismo, Deus meu...
Por falar nisso, quando era criança, o Calimero levava-me às lágrimas. Nunca mais me esqueci do episódio em que ele, com a sua voz angelical, canta a "Santa Luzia", num qualquer espetáculo, mas o rival sopra-lhe pimenta com um fole, fazendo-o tossir. Começam os apupos, os assobios...
Coitadinho do Calimero!
Tem razão (em parte), porque já fui jurado (membro de um júri), mas também já fui júri (como único jurado, pasme-se) onde a minha decisão, não sendo colegial, foi "ditatorial".
EliminarO que eu devia ter escrito é que já fiz parte de júris de concursos ou prémios literários.
De qualquer forma, fez bem em chamar a atenção para este pormenor.
Pois é, Cristina, já a tive oportunidade de ler textos recusados por editores ( dois, excluindo outros dois meus), cuja deficiência não se encontrava nas gorduras mas no facto de o autor ser um adventício neste mundo da arte literária.
EliminarE todos nós já tivemos conhecimento de um ou outro caso de autores que, recusados numa determinada editora, foram apadrinhados por outra e tiveram sucesso.
Não é fácil ser editor, concordo. No entanto, o verdadeiro Editor (com E maiúsculo) lê a obra da primeira à última página e, se tem sugestões para o autor, deve colocar-lhas como condição "sine qua non" para a obra sair com a sua chancela. Recusar após uma leitura em diagonal - primeira página, meio e final - com a escusa da falta de tempo ou de pachorra, é "matar" a obra e o autor. Seria preferível, nestes casos, abrir a "tasca" com o letreiro: só se aceitam originais de autores conhecidos, quais "vinhos" de cepa em região demarcada e medalhados.
"Depuralivro"? Não sei é onde se vende...
ResponderEliminarDepuralivro ou Depuralina? De qualquer forma, pode ser um "medicamento" que venha combater, por aspiração, as gorduras referidas pela Rosário em algumas obras em "bruto".
EliminarO primeiro, referido pela Cláudia, deve vender-se nas farmácias do bom senso, agora muito raras; o segundo, lembrado por mim, vende-se por aí, algures onde a publicidade previne as gorduras da barriga e coxas.
A propósito: terá regressado a Cláudia?
Esta Cláudia é outra, Jocamartinho. Recém chegada e que não tenciona dissidir... :)
EliminarSe descobrir alguma farmácia de bom senso de que fala, avise-me. Também me dava muito jeito!
Também já tenho lido originais -. agora já não leio - de pessoas que acham que escrevem histórias e que, se fosse a fazer uma revisão cuidada - como já fiz a uma ou duas pessoas - o livro inteiro ficava reduzido a uma linha... duas linhas, vá lá!
ResponderEliminarNão há a noção!
Estou de acordo com ALA. É isso mesmo. Sai depressa, o pior é depois.
ABCDEFGHIJKLMNOPQRSTWUVXYZ
Que coincidência! Ao almoço falávamos precisamente da necessidade de termos alguma diplomacia quando sugerimos algumas alterações a autores, no nosso caso, de manuais escolares. Desde corretores ortográficos que não funcionam a copy-past, todos têm responsabilidades e raras vezes é reconhecido abertamente que valeu a pena o nosso investimento na leitura atenta e crítica daquele original. Parece-me que quando se justificam tanto é porque se sentiram ofendidos e leva-me a tentar ter mais cuidado da próxima vez.
ResponderEliminarCalculo o que será ter de fazer «reparos» a nomes consagrados. Aliás, já me aconteceu ler alguns e pensar «aqui proporia esta alteração», mas e como é que isso se transmite a quem esteve meses ou anos a escrever?
O telefilme do Peixoto podem vê-lo aqui: http://www.rtp.pt/programa/tv/p29655/e1.
Obrigado !
EliminarSempre tive dúvidas sobre a natureza intrínseca do escritor. Se numa primeira fase me pareceu um ser necessariamente austero e introvertido, comecei a ter dúvidas do sentido do meu juízo depois de ler Balzac , a quem, erradamente, via por folgazão e não pelo atormentado endividado a quem os afectos disseram nada, na infância. Mas, verdadeiramente, foi a figura de Cyrano de Bergerac como herói romântico, «construída» por Edmond Rostand e baseada em Hector de Savinien de Cyrano de Bergerac que me seduziu, dada a sua nutrição de desprezo pelos poderosos, a sua coragem, a sua nobreza de sentimentos, a sua capacidade de sacrifício pela felicidade alheia. O crescimento de um escritor parece processar-se por fases, onde releva romantismo, capacidade de sacrifício e realismo. Há a primeira fase, a dos lírios do campo, que brotam como brotos anárquicos de couves – talvez daí a identificação com «brutos»; a segunda fase, em que o ansioso aspirante a escritor, se torna menos «bruto», mais comedido e cometido, estrumando, ainda assim em excesso, os lírios do campo; e a terceira fase, a do escritor, em que este subtrai cuidadosamente o excesso do estrume, metendo a mão «ao barro», que é como quem diz, rapando e desistindo da imundice sem pestanejar ou tergiversar pelo que sente de desperdício. Com a introdução das novas tecnologias, é uma questão de tempo até que, ao artesão, seja fornecido o tal utensílio de detecção de …
ResponderEliminarSe esse detetor existisse não teríamos trabalho, certo? :)
ResponderEliminarFaltou, creio eu, apenas dizer que o venerando «detector de merda» é cunhagem de Hemingway...
ResponderEliminarA verdade é que hoje os autores da moda - alguns - não se preocupam. O autor devia ser o primeiro a trabalhar, trabalhar, descobrir incoerências, repetições, saltos no tempo, descontrole na vida das personagens, etc. Se a editora do blogue tem um trabalho honesto, outros editores nem tanto e acabam por chegar ao mercado 'coisas' a que nem livros devíamos chamar. Há 'livros' que me envergonham, como falante da língua portuguesa e leitora. Como é possível haver tanta aberração à venda? Dirão que haverá quem os ache bons !! Que fazer? Como evitar este fenómeno se o factor dinheiro anda a ele associado?
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