O que ando a ler

Nos últimos tempos, por uma coincidência inexplicável, li três romances que falam de gémeos, da questão do duplo e do problema da identidade. Nesses romances, os gémeos eram tão depressa do mesmo óvulo como de óvulos diferentes e, num deles, até havia gémeos de ambos os tipos. Dois desses livros eram, curiosamente, de autores brasileiros – e é de um deles que hoje falarei, o que tem por título Dois Rios e vem assinado por Tatiana Salem Levy, uma escritora de quem li há uns anos o magnífico A Chave de Casa. Desta feita, temos uma obra partida ao meio: de um lado, fala-nos Joana, do outro Antonio, gémeos que viveram juntos uma história secreta que nos é contada veladamente, na qual o pai morreu de enfarte, lançando uma sombra de culpa nos irmãos, e a mãe, mais ainda desde que enviuvou, sofre de um distúrbio psíquico que obrigou Joana a ficar com ela depois da partida intempestiva da sua metade masculina. Em ambas as partes, porém, está a irresistível Marie-Ange, uma francesa que entorta a boca quando expele o fumo do cigarro e que tem um dilema cuja resolução recairá ou em Joana, ou em Antonio, ambos loucamente apaixonados por ela e capazes de mudar as respectivas vidas por esse amor. Cada metade do livro é, pois, um rio, o rio por onde Maria-Ange desaparecerá da vista dos amantes num barco de pesca, deixando-os insuportavelmente sozinhos com as suas memórias. Engenhoso e algo transgressor, Dois Rios constrói-se numa sequência de pequenas narrativas na primeira pessoa, ora cruas, ora poéticas, e foi um dos romances finalistas do prémio PT no Brasil.


 

Comentários

  1. Que grande coincidência: comprei-o, ontem!

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  2. «Os Monstros Também Amam», Clara Sánchez

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  3. À espera de Moby Dick, de Nuno Amado. A gostar da forma e do enredo, mas a estranhar algumas «opções gramaticais» e com uns «de» e «que» fora do sítio, que me têm irritado, pois não esperava isto em livros dessa chancela. Mas tenho-me interessado pelas personagens e apetece-me continuar, apesar de me parecer que os diferentes autores das cartas não são suficientemente distintos enquanto narradores e estão demasiado colados ao estilo do autor.

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  4. ainda ando por Liaboa, no ano da morte de Ricardo Reis...

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  5. Servirá de resposta para os próximos meses: A piada infinita, de Foster Wallace.

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  6. Vou seguramente ler esses 3 livros sobre gémeos. Eu própria tenho uma irmã gémea verdadeira, e tratando-se de uma relação intensa e inexplicáve (quanto a mim) fico sempre curiosa de ver o olhar dos outros sobre "nós". Já no "nenhum olhar" do José Luís Peixoto há gémeos e a forma como foram tratados é inesquecível.
    Ainda bem que vem aí o Natal e o meu aniversário, as chances de receber uns livritos aumentam!
    Isabel

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  7. Também relendo O Ano da Morte de Ricardo Reis, desde que se anunciou o nonagésimo aniversário do autor, e Escarpas, de Gastão Cruz.

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  8. Ando a ler "A Desaparecida", de Cláudia Silva.

    Não entendi uma linha, mas recomendo.

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  9. Pois eu estou a re-re-reler O Ano da Morte de Ricardo Reis: é uma leitura-escrita.

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  10. "Um Pinguim na Garagem", de Luís Caminha (Caminho, 2009). Também sobre questões de identidade: um homem descobre uma fotografia do pai quando este era novo (todas as outras foram destruídas propositadamente) e percebe que é igualzinho ao pai. Trata-se de um clone.

    Uma belíssima surpresa para mim neste fim de ano. Estou a gostar muito da escrita do autor e do modo como ele vai descrevendo a vida interior de um homem que parece estar a querer desistir dela.

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  11. A ler "Um Blues Mestiço" de Esi Edugyan
    A escrever sobre "A Lebre de Olhos de Âmbar - Uma herança escondida" de Edmund de Waal

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  12. Eu só tenho lido production manuals sobre amêndoas do site da UC Davis (Universidade da Califórnia). Ontem fui a um bar, só havia homens e na névoa da minha desilusão de jovem em busca de algum bom artigo feminino, resolvi escrever:

    (isto é muito pouco profissional, desculpe tia)

    Fui bom na noite de Reis!
    Agi branco, sem agenda.
    Engano-me? Vós! Que quereis?
    Sou mau?! Normal? Doce venda...
    Fui porque é bom ser-se bom?

    Aqueles "filhos do amor",
    Os que respiram bondade,
    Sei que irradiam calor,
    Arrendarão probidade?
    Fui porque sou invejoso?

    Tantos dos que desejam céu,
    Vivem para dar em vida.
    A ilusão não faz o réu,
    Antes da fome contida,
    Fui porque sou mentiroso?

    Primitivos num Tarrafal,
    Quarenta homens sem nação,
    Desconhecendo a moral,
    Partilhariam a ração?
    Fui porque sou curioso?

    Alas! Admirem-se os fins,
    Não sei creia no inato,
    Nunca nascem homens ruins,
    Até se educa um rato!
    Quem me explica porque fui?

    Espero que se divirtam a ler isto, foi escrito na parte de trás de uma conta do bar. Beijinhos e abraços

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    1. Gostei do poema, a sério. A desilusão é inspiradora...
      Isabel

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    2. Onde está "não sei" deve ler-se "não se". Esqueci-me de dizer que no fim dessa noite conheci uma rapariga!!!

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    3. Olhe que eu sou ciumenta...

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    4. E lá se foi a inspiração!

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  13. Não ando a ler. Não dá jeito, tropeço nos móveis. Prefiro ler sentado.

    Ultimamente, nos escassos intervalos que me têm dado as complicações da vida, sento-me um bocadinho a ler “O Inverno das Raposas - Outras Crónicas de Londres”, de Clara Macedo Cabral [Orfeu – Editora e Livraria Portuguesa (e Galega) em Bruxelas]

    Clara vive em Londres, trabalha na City.
    Convive quotidianamente com a multicultura londrina, e conhece de perto as maquinações da alta finança.
    Lida, portanto, com as duas facetas da crise civilizacional que está em andamento.
    De vez em quando faz um intervalo, senta-se no Poets Corner, ou no Fig and Olive, e escreve para nós.

    Eu faço meus os seus intervalos, e sento-me a ler o que ela, com clareza e bom-gosto, nos relata sobre as suas experiências de vida.

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    1. Que graça, fui eu que, ainda na QuidNovi, publiquei o seu primeiro livro de crónicas londrinas. Muito interessante mesmo!

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  14. "O Fotógrafo da Madeira". Uma boa supresa.

    Mila

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  15. "A herança do vazio" de Kiran Desai é o que ando a ler (oferta da mana gémea, precisamente).
    Estou muito curiosa relativamente a um livro que é muito falado neste blogue, trata-se de "Um Pinguim na Garagem", é fácil encontrá-lo?
    Isabel

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    1. Olá, Isabel!

      Eu comprei o Pinguim na Barata, na Av. de Roma, que pertence à Leya. Acho que é fácil encontrar em qualquer livraria do imperio Leya, porque o livro foi publicado por eles há uns anitos.
      É um texto lindíssimo que acho que foi aqui lançado pelo "seu" Nuno Serrano :). faz bem em lê-lo e, já agora, depois gostava muito de saber a sua opinião :) Desde que o li pergunto a toda a gente: "Já leste o Pinguim na Garagem? :)
      Também já comprei o segundo romance do autor, e esse acho que só mesmo online: "A Decadência dos Olfactos". Ainda não li mas já me disseram maravilhas, pelo menos a respeito da capacidade do autor para se transmutar.
      Agora estou a ler outro livro muito bom: "O Anatomista", de Federico Andahazi.

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    2. Muito obrigada Mariana pelas suas indicações. O seu entusiasmo ainda me deu mais vontade de ler o Pinguim. Irei à Barata, ainda por cima gosto de ir a essa livraria.
      Aproveito para mandar cumprimentos ao Nuno Serrano e dizer-lhe que os seus comentários fazem falta neste espaço. Vá lá, venha visitar-nos!
      Isabel

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  16. Li Bel-Ami, de Gui de Maupassant e, presentemente, estou com as Viagens de Gulliver, de Jonathan Swift... a terminar a Segunda Parte.

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