O futuro é sombrio

Andamos tristes lá em casa, o Manel um pouco menos do que eu, é certo, porque gosta mais da vida e, além disso, já era crescidinho quando o doutor Salazar caiu da cadeira e, como tal, o retrato que tem à frente é-lhe, de algum modo, familiar. Mesmo assim, às vezes damos connosco, à noite, a olhar um para o outro bastante macambúzios: à nossa porta (maneira de falar), há cada vez mais homens com fome – e não da que se mata com um prato de comida, que aí ainda poderíamos ajudar (embora a caridade não seja solução), mas da que só se sacia com um trabalho que não existe, independentemente de os braços terem força para tudo e vontade de fazer. E nós, no meio dessa tristeza, publicando livros. Pobres livros... Depois da ilusão do Natal (e já será para poucos, bem sei), quem vai realmente poder comprar livros, goste ou não de ler, quando as mangas dos casacos dos filhos ficarem curtas e os sapatos apertados, apesar dos pés pequenos? Quem cometerá a ousadia de ler um livro novo quando Janeiro se eriçar de frio e a conta da electricidade começar aos gritos de alarme? Quantos dos nossos amigos e conhecidos, muitos deles grandes leitores, gente dos jornais e das televisões, individual e colectivamente despedidos, começarão o ano de 2013 (o 13 do azar) desempregados, ainda para mais com a consciência de que, na sua idade, pode ser (des)ocupação para muitos anos, enquanto o subsídio de desemprego – esse, sim – tem os anos contados? E que será então dos tradutores e revisores, das pessoas que trabalham nas gráficas, nas livrarias e nas editoras? Que será de mim e do Manel, por exemplo, se aquilo em que trabalhámos toda a vida, além de não pôr comida no prato de ninguém, fizer de nós mais dois com fome (maneira de falar), iguais a esses que todos os dias se vão acrescentando à nossa porta? A preto e branco vejo o retrato do futuro próximo. O Manel, que já viveu a sépia, entristece-se menos, aconselha-me a preocupar-me apenas quando (e se) esta ceifeira moderna bater à nossa porta. Sim, ainda temos casa e porta, é um facto. Muitos já as perderam.

Comentários

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    1. Tão verdadeiro e lúcido... talvez nesta hora quem escreve e publica possa usar o seu talento para reescrever novas histórias... Talvez a cultura seja uma saída dessa sombra, uma casa onde há lugar acolhedor e quente para todos - uma casa sem portas de saída, uma casa sem portas de saída...obrigada pela sua escrita, Maria do Rosário Pedreira

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  2. Como eu a percebo, e como percebo o seu marido! A si porque não tem idade para ter visto gente descalça em pleno inverno, a ele porque, apesar de tudo, ainda vai buscar uma réstia de optimismo à comparação do tempo que vivemos (presente) com o tempo que alguns também vivemos (pretérito) das meias solas e do fato do pai virado para o filho. Aos dois, um pedido: continuem a publicar livros. Há sempre a esperança (desculpem a ironia) de que voltem as bibliotecas itinerantes da Gulbenkian!

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  3. Faço por pensar como o Manel (desculpe a aparente familiaridade) e não sofrer por antecipação. Mas é cada vez mais difícil ficar alheio à realidade. Enquanto for possível - e, felizmente, ainda o é - façamos por nós e pelos outros. Estas são também alturas em que se nota muita capacidade de ajuda. Gosto de olhar para esse lado "da coisa".
    Gostei do desabafo. Está sentido.

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  4. Tive um chefe que me dizia sempre "preocupares-te antes é preocupares-te duas vezes". Nunca me esqueci desta frase. Neste momento, tenho enormes motivos de preocupação, que me fazem incluir-me no grupo que refere que vai deixar de comprar livros (ou comprar muitos poucos). Mas não lerei nem um bocadinho menos. Irei à biblioteca, trocarei livros com amigos. E quererei SEMPRE ler bons livros.

    Se eu fosse a si, continuava a fazer o que tem feito tão bem: publicar bons livros, descobrir grandes talentos.

    As crises passam, mais tarde ou mais cedo, mas os livros ficam, especialmente os muito bons. Na minha opinião, a Rosário já publicou muitos nesta categoria. Ainda que ninguém os leia agora, ainda que vários se percam para sempre dos olhos dos leitores, hão-de haver outros a dar-lhe alegrias tremendas daqui a uns anos.

    Permita-se desanimar, mas não se permita desistir de um bom livro ou de um grande escritor que descubra, em nome de uma crise contra a qual, cada um de nós, isoladamente, nada pode.

    Com estima,

    Rui Miguel Almeida

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  5. com estes governantes, é uma forte possibilidade, pois têm conseguido, não só esticar, mas também ampliar a crise.

    só a maneira como olham para a cultura assusta.

    os livros vão voltar, inevitavelmente, a ser objectos de luxo...

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  6. A idade ensina-nos, de facto, a preocuparmo-nos com as dificuldades concretas que nos estão, a dado momento, a atingir efectivamente. Tudo o resto é desperdício de sofrimento e, por conseguinte, de vida.
    Por outro lado, a literatura sempre desempenhou um papel importantíssimo em épocas como esta: de crise de valores e de ruptura. Pela função de denúncia, de crítica, de reparo. E pela tentativa de correcção de condutas e modos de actuação. Ainda que não se venda mais, vender-se-á sempre o suficiente para alertar consciências e despertar vocações.
    E é com esta perspectiva optimista que devemos despertar a cada dia.

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  7. Lembro-me de quando criança, eu que fui uma filha tardia, olhar para os velhos álbuns de fotografias dos meus pais e pensar que o passado era algo que se desenhava sempre a preto e branco. Hoje, à beira dos 40 penso que o futuro sim, é que é monocromático, mas de contornos difusos. Mas a pergunta que me assalta é : De que cor será resignação que paira neste país?

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  8. António Luiz Pacheco5 de dezembro de 2012 às 03:09

    Meus Caros e Extraordinários comparsas destas Horas!
    Caríssima Anfitriã e Extraordinária Senhora das Letras

    Desta vez vou ser, talvez mau, certamente polémico eventualmente ofensivo… peço as maiores desculpa, e compreensão.

    Como agricultor falido, desempregado, com dívidas, sem subsídio e com mais de 50 anos, bateu-me há muito à porta aquilo que a ensombra!
    Por isso, o que escreve toca-me particularmente. E, dá-me que pensar!
    Mas, talvez porque não sendo intelectual, porque sou de um povo tradicionalmente iletrado, rude, inculto mas não sem cultura, abri os braços à vida como aos toiros e fiz o que gerações de portugueses fizeram: - Tive ainda, aos 56 anos, de emigrar... desta vez não por escolha e sim por obrigação!

    A sua preocupação é real! Partilho e compreendo-a porque também sou amante dos livros e de tanta coisa (para mim) bonita, das colecções Philae, à cerâmica, de pintura... de que hoje, e sabe-se lá por quanto tempo, estou arredado! Hélas… como dos cubanos, dos bons maltes e demais coisas boas e epicuristas... dos discos, das caçadas, das corridas de toiros, dos cães... tudo me está vedado, pois até da família estou longe!

    Não me derrubará! Como não nos derrubou ao longo de séculos... vai ver! Caramba, sobrevivemos a invasões bárbaras, aos cartagineses e romanos, aos árabes, piratas, castelhanos,
    franceses, inquisição, terramotos, desastres naturais e incêndios, guerras civis, ultramarinas e mundiais, fascismo e comunismo, revoluções… a Merckel e o Gaspar são um incidente!!!

    Mas, muito sinceramente, não tenho pena nenhuma de quem fez profissão única o escrever nos jornais e comentar nas tv e rádios! Tenho sim dos revisores, tradutores, tipógrafos (ainda há?), mas pelos outros, os que cultivaram a modernidade que agora os fere de morte, não, não tenho!
    Porque são os que há anos me maltratam! E, agora me acusam, a mim que produzi, de ter vivido acima das minhas possibilidades e provocado o desastre que os atinge! Nós, os ignorantes, iletrados, toscos, pirosos, retrógados, incultos, pimbas, campónios... que lemos livros foleiros, ouvimos música pirosa, gostamos de futebol, de toiros, de sardinhadas, praia e vinho tinto... mas éramos quem os sustentava nos seus poleiros, papagaios a palrar!
    Agora... terão de semear o seu próprio girassol!

    Desta vez vou levar aqui poucas vou... mas tenho cabedal para isso, graças a Deus e à vida!
    Não me poupem…

    Saudações da diáspora!
    PS - estou a fazer remessas para aí, e não para nenhum paraíso fiscal...

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    1. Muito admiro a sua coragem, muito apreciei o seu comentário.

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    2. clap , clap , clap . Excelente comentário, António.

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    3. não foi mau, António, nem ofensivo.
      é a esperança e a acção que tanta gente precisa quando deixa tombar os ombros com desânimo.
      bem haja!
      paula

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  9. um dos melhores textos que já li neste blogue...

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  10. Caríssima (com perdão pelo abuso),

    Este não é um texto que só se leia. Obrigada.

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  11. Também eu, apesar de ter sido até agora bafejado pela sorte, sinto na carne a dor alheia e ainda recentemente a plasmei no conto "Uma casa portuguesa", 4 pp., que pode ser lido aqui:
    http://jose-catarino.blogspot.pt/2012/11/uma-casa-portuguesa.html
    As ameaças que pairam sobre o sector editorial e livreiro, agora muito agravadas pela crise, terão começado bem antes. Recordo-me de, pouco depois da compra pelo grupo Leya, ter telefonado para a Caminho a saber de um original que tinha enviado para apreciação e ser atendido por funcionária destroçada, que tinha acabado de ser despedida. Conversámos durante mais de uma hora, não sobre o meu original, mas sobre a sua situação desesperada, cinquenta e tal anos, encargos, nenhum apoio, doença que a impedia de trabalhar em contacto com o público...
    Como Cesário, em Contrariedades: aquele drama bem maior dissipou a minha raiva e frustração pelo desinteresse da editora...

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  12. Não gosto nada de a sentir assim Maria do Rosário, mesmo nada. Logo você, que tanta força me deu, e que, suponho, de igual modo deverá inspirar com essa mesma pujança de assombro, todos os autores que lhe passam pelo crivo objectivo desse seu toque de midas . Eu não o sou, fui um dos muitos rejeitados, e mesmo assim, ensinou-me tanto e colocou-me no caminho certo para ser melhor, para querer ser melhor. E eu, eu mantenho essa esperança erguida, sem desfalecer. Não gosto mesmo nada de a ler assim, mesmo que tudo o que aqui li, seja tão maravilhoso. É imerecido.

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  13. Sensibiliza-me que partilhe assim, de peito aberto, a sua angústia. A angústia de todos nós. Belíssimo , o seu texto, pura literatura em desabafo. "O Manel , que já viveu a sépia..." é muito bom. Que haja, ao menos, quem vá dando sentido aos nossos medos, quem saiba (d)escrever a fome dos outros, junto à nossa porta.
    Quero acreditar que os livros sempre foram e sempre serão jangadas: salvam-nos e salvam-se as mais sólidas (entenda-se, editoras, editores, leitores...). E quando o cataclismo de 2013 passar (maneira de falar), que remédio senão erguer novas portas e paredes e, quem sabe, recomeçar a engordar as nossas bibliotecas.

    Um abraço solidário para si, outro para o seu Manel .

    Vera

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  14. Calma, Maria do Rosário!
    Calma, Extraordinários.
    A coisa, de facto, não está para brincadeiras.
    Mas é por isso mesmo que devemos manter o bom-humor.
    O bom-humor é antídoto da depressão, do desânimo, da resignação. E é estimulante da coragem, da esperança, da firmeza.

    Aqui vai, pois, a receita.

    (Nota 1: São versos de João de Vasconcelos e Sá, Oficial de Cavalaria, lidos durante um jantar em Évora em 1933, na presença do então Ministro da Agricultura – Leovigildo Queimado Franco de Sousa)
    (Nota 2: onde se lê Oliveira Salazar, ler Passos Gaspar, que mantém a rima e fica tudo a bater certo.)

    Ao Excelentíssimo Senhor Ministro da Agricultura

    Exposição

    Porque julgamos digna de registo,
    a nossa exposição, Sr. Ministro,
    erguemos até vós humildemente,
    uma toada uníssona e plangente,
    em que evitámos o menor deslize,
    e em que damos razão da nossa crise.

    Senhor, em vão esta província inteira,
    desmoita, lavra, atalha a sementeira,
    suando até à fralda da camisa.
    Mas falta-nos a matéria orgânica precisa,
    na terra que é delgada e sempre fraca.
    A matéria em questão, chama-se caca.

    Precisamos de merda, senhor Soisa,
    e nunca precisámos de outra coisa…

    Se os membros desse ilustre Ministério
    querem tomar o nosso caso bem a sério;
    se é nobre o sentimento que os anima,
    mandem cagar-nos toda a gente em cima
    dos maninhos torrões de cada herdade,
    e mijem-nos também, por caridade…

    O Senhor Oliveira Salazar,
    quando tiver vontade de cagar,
    venha até nós, solicito, calado,
    busque um terreno que estiver lavrado,
    deite as calças abaixo, com sossego,
    ajeite o cu bem apontado ao rego,
    e como Presidente do Conselho,
    queira espremer-se até ficar vermelho.

    A nação confiou-lhe os seus destinos…
    Então comprima, aperte os intestinos.
    E ai… se lhe escapar um traque não se importe…
    quem sabe se o cheirá-lo não dará sorte…

    Quantos porão as suas esperanças
    num traque do Ministro das Finanças…
    E também, quem vive aflito e sem recursos,
    já não distingue os traques, dos discursos…

    Não precisa falar, tenha a certeza,
    que a nossa maior fonte de riqueza,
    desde as grandes herdades às courelas,
    provém da merda que juntarmos nelas.

    Precisamos de merda, senhor Soisa,
    e nunca precisamos de outra coisa,
    adubos de potassa, cal, azote;
    tragam-nos merda pura do bispote,
    e de todos os penicos portugueses,
    durante pelo menos uns seis meses.

    Sobre o montado, sobre a terra campa,
    continuamente eles nos despejem trampa.
    Ah terras alentejanas, terras nuas,
    desesperos de arados e charruas,
    quem as compra ou arrenda ou quem as herda
    sempre a paixão nostálgica da merda…

    Precisamos de merda senhor Soisa,
    e nunca precisámos de outra coisa…
    Ah, merda grossa e fina , merda boa,
    das inúteis retretes de Lisboa.

    Como é triste saber que todos vós
    andais cagando, sem pensar em nós…
    Se querem fomentar a agricultura,
    mandem vir muita gente com soltura…

    Nós daremos o trigo em larga escala,
    pois até nos faz conta a merda rala…
    Ah, venham todas as merdas à vontade,
    não faremos questão da qualidade,
    formas normais ou formas esquisitas.
    E desde o cagalhão às caganitas,
    desde a pequena poia, à grande bosta,
    tudo o que vier a gente gosta.

    Precisamos de merda, Senhor Soisa,
    e nunca precisámos de outra coisa…



    Vamos lá, meus caros, nada de desanimar: – agachados (mas não resignados), façamos todos força, que é precisa muita matéria para fertilizar o país.

    Agachados embora, se for para este efeito nada nos derrubará – como nos mostra o valente Pacheco.

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  15. Desperto para o dia sem ilusões nem esperança.
    Nada é tão triste como a liberdade enclausurada,
    Nem nada tão frágil como a liberdade à solta.
    «Quem eu sou?
    Quem és tu?
    Que vontade conténs em ti?
    Que saudade andas a arrastar?
    Que futuro encontras em mim?»
    Sentado à beira de uma pedra,
    Num tufo de relva, desgastado o verde,
    Transporto-me para a montanha
    Que um duende parece ter colocado à minha frente.

    «Serei capaz?
    Serei suficientemente audaz para atravessar esta montanha?
    Que perigos me espreitam por detrás?
    Que homem sairei dos seus trilhos?
    Que caminho tomar?»
    À beira de um caminho
    Recolho com a mão uma avezinha caída,
    Que treme assustada.
    Perguntei-lhe:
    «Quem és tu?
    O que aqui fazes?
    Que voo seguiste?
    Que amparo não tiveste?
    Que corrente de vento te lançou ao chão?
    Que dor é a tua?»
    Aninhou-se na minha mão,
    Enrolou-se e soltou um último suspiro.
    Abri uma cova e enterrei-a,
    Com algumas mãozadas de terra.

    Quando voltei ao meu caminho,
    Lancei um último olhar
    E vi uma mão cheia de aves a esvoaçar
    Em volta do local onde a tinha enterrado.
    Quando me aprestava a subir uma pedra
    Em forma de corcovado,
    Ouvi um chilrear nas minhas costas.
    Centenas de pássaros esvoaçavam em grupo,
    Fazendo um longo rasto em formato de cauda.
    Na sua frente ia um pássaro
    Que brilhava como mais nenhum
    E a cauda transformou-se num repente numa estrela
    Que brilhava com enorme intensidade.
    Esgotado, segui o meu caminho,
    Momentaneamente amparado por esta visão grotesca, mas bela.

    A montanha inclinava-se para mim cada vez mais
    E era como uma escada para as nuvens,
    Que se fantasiavam agora de formas de fadas, de animais, de deuses.
    O ar começava a rarear naquelas camadas,
    Ouvia a minha respiração ofegante,
    As minhas veias a latejar,
    O meu coração a palpitar;
    O esforço em me encontrar com as pedras,
    E os paus da natureza, porque a natureza não é só flores e folhas,
    Era cada vez maior.
    A vegetação rareava;
    Rareava, também, onde me agarrar
    Para contrariar o declive.
    A cada passo, pretensamente ganho,
    As pedras soltavam-se e faziam-me recuar.
    Os meus joelhos
    Começaram a arrastar-se por aquele deserto - pedregoso,
    A sofreguidão esgotou o cantil.
    Um último pingo adiou-me o cansaço
    E a exaustão para o próximo movimento.
    Aves de rapina de enormes dimensões e aspecto aterrador,
    Espreitavam ao perto, cada uma a ocupar,
    Como por ordem de Antiguidade,
    As cristas das enormes protuberâncias rochosas.

    Quando cai pela última vez por efeito da gravidade,
    Que me queria levar outra vez de volta ao início do caminho,
    Ouvi novamente um silvo de aves a esvoaçar,
    A aproximar-se, centenas em bando.
    Perto de mim, desenharam em círculos
    Cada vez mais pequenos uma mão enorme,
    Uma enorme mão que, pouco antes de desfalecer,
    Senti puxar e elevar-me.

    Quando acordei,
    Parecia ter sido depositado num jardim imenso.
    Abria-se à minha frente um enorme vale,
    Onde milhares de pequenas aves esvoaçavam
    Escrevendo no céu azul,
    Como folhas ao vento,
    Um flash com as seguintes palavras:
    «A, VIDA, NUM, SONHO!»

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  16. Minha querida. Uma pergunta para si:

    Consegue atrever-se, deixar a sua mente ousar, a inventar novas maneiras de estar e ser?
    A necessidade cria o engenho... Que necessidade sente em si e o que é que a impede de criar o engenho, ainda?
    Onde pára a nossa criatividade para resolver os problemas da sobrevivência?

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  17. Gostei muito do seu texto. Também tenho sentido essa tristeza que tão bem descreve. É um desalento que se instala aos poucos, sobretudo quando vemos partir jovens que nos são próximos (os meus enteados já foram os dois) e não vemos como poderão um dia ficar por cá os nossos filhos. E este país, será para velhos?
    A literatura (e a poesia, em particular) não morrerá, mas quando falta o pão, quem pensa em ler?

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  18. Como mostra o valente Pacheco, o futuro nunca é sombrio; sombrias são as nossas expectativas! Sombrias são as nossas amarras, mas não as nossas âncoras! Cheira mal o Sócrates? Mude-se o Sócrates! Não presta o Passos? Ponha-se o Passos a trote! ... Não se diga é que o futuro é sombrio, porque nós somos o futuro; e o futuro não é feito de dias, é sempre sépia... e bom para a poesia!

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  19. Em cinco linhas - não sei escrever mais - não consigo exprimir o que o texto, tristemente belo, me incutiu (e os comentários, em especial o do amigo Pacheco). Também sou dos que viu o país a sépia. Otimista irresponsável, tento enganar-me relativizando a situação. No entanto, o cerco aperta-se. Temos de resistir.

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  20. LE SOLEIL S'EST COUCHÉ CE SOIR ...

    Le soleil s'est couché ce soir dans les nuées.
    Demain viendra l'orage, et le soir, et la nuit ;
    Puis l'aube, et ses clartés de vapeurs obstruées ;
    Puis les nuits, puis les jours, pas du temps qui s'enfuit !

    Tous ces jours passeront; ils passeront en foule
    Sur la face des mers, sur la face des monts,
    Sur les fleuves d'argent, sur les forêts où roule
    Comme un hymne confus des morts que nous aimons.

    Et la face des eaux, et le front des montagnes,
    Ridés et non vieillis, et les bois toujours verts
    S'iront rajeunissant ; le fleuve des campagnes
    Prendra sans cesse aux monts le flot qu'il donne aux mers.

    Mais moi, sous chaque jour courbant plus bas ma tête,
    Je passe, et, refroidi sous ce soleil joyeux,
    Je m'en irai bientôt, au milieu de la fête,
    Sans que rien manque au monde, immense et radieux !

    (Recueil : Les feuilles d'automne)
    Victor Hugo

    Isabel


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  21. Hoje já estava triste e fiquei ainda mais...

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  22. Um belo e sentido texto, sem dúvida, Senhora Rosário. Parabéns. Estes, também aos ilustres seguidores de seu blogue que sempre nos trazem muito bons comentários, ainda que com pontos de vista, por vezes, opostos.
    O fundo do poço é escuro, frio, horrendo. Conheço-o e triste é vermo-nos nele e sentirmos todo esse horrível desconforto. Mais triste do que isso, quantas vezes por nos faltar força e coragem, é pensarmos que abaixo nada mais há, que estamos mesmo no fundo. Mas não é verdade. Não é. Abaixo desse "fundo de poço", há outros "fundos" muito mais profundos, mais terríveis, onde a vida se esvai a cada segundo. Eu pensava assim quando não tinha um pão, nem água, nem luz, e estouravam bombas em todas as direções. E, quando vi e senti que era apenas uma fase transitória e que jamais deixaria a esperança morrer-me nas mãos, renasci. Subi e um pouco mais acima, havia luz.
    Um desmoramento pode ser catastrófico e fazer com que outros ocorram, em cadeia. Se todos, de mãos juntas, procurarem o abismo, todos cairão. Se se derem as mãos e procurarem subir, como balões de sonho e esperança, se aprenderem a dizer "não" ao conformismo que vos toma, encontrarão, com toda a certeza, o caminho bom que todos merecem.

    (só não assino por timidez)

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  23. Não se preocupe. Hoje vi um anúncio de um careca de óculos a anunciar um "buqueguifete" que parece que é milagroso. Fiquei logo optimista.

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  24. Não gosto de ouvir carpir sobre os livros nem ver escrito que os livros são um objecto de luxo. Por este andar, esta Malta governativa ainda os vai taxar a 23% - já estiveram, no IVA, à taxa 0%, lembram-se?
    Desculpem, mas há aqui contradições. Quando entro numa livraria ou num espaço comercial que pretende ser (e é) uma grande livraria, vejo títulos publicados de um dia para o outro, alguns com tiragens assombrosas (do género, 5ª edição-90.000 exemplares). Pergunto: quem os comprou?
    90 mil significa, pelo menos, 75 mil já vendidos. E num país com este ratio de habitantes, só para um título, é obra!
    Por vezes, leva-me a crer que quem compra livros - quem tem esse poder económico para comprar muitos livros - não é o melhor leitor e contribui para o escoamento de "lixo" impresso.
    Há fome, sim; há e houve desgoverno, sim,sim e sim; provavelmente teremos, muitos de nós, de retrocedermos aos tempos do Manel e de mim próprio (embora mais novo).
    No entanto, não comparem a fome de estômago, do mantimento vital, da sobrevivência, com a fome da leitura. Não cometam essesacrilégio! Para a fome da leitura, "ainda" há bibliotecas públicas; para a do corpo, nem sempre há a porta aberta para um caldo de sopa.
    Resumindo: devo ser um desalinhado nestes comentários, mas prezo a sinceridade. O livro não é um instrumento vital, mas é uma ferramenta de liberdade, de sabedoria, de cultura, não um artigo de luxo, embora alguns se apresentem nesse patamar. Mas há edições que se multiplicam como cogumelos - vide os números do depósito legal - e não estou em crer que os editores os lancem para desembolsarem do seu bolso o correspondente aos custos da publicação.
    Tenho pena dos que sofrem, mas tenho pena de mim; ao contrário da canção, não me ponho de mal comigo para estar de bem com os outros.

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  25. Perdoem-me, mas sombrio foi o passado. Diria até que foi escuro. E, nessa escuridão, ninguém viu onde foram parar as verbas, por que ralos escusos se escoaram e em que bolsos estão escondidas ...
    Se não se queimarem os livros ainda haverá direito à leitura. Talvez mais direito a esta do que a um naco de pão. Além do mais, alguém, em sã consciência, achará prazer em alimentar a alma quando tem um vazio no estômago?

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  26. Creio que, por um lado, não havendo dinheiro para muitas distracções as pessoas vão Encontrar-se mais. Porque a vida vai ser bem mais difícil mais oportunidades vão surgir de as pessoas Encontrarem-se, a si próprias e aos outros. Porque o bem estar material vai diminuir drasticamente, ou mesmo desaparecer, a busca do bem estar situar-se-á noutros parâmetros. A cultura recuperará a sua verdadeira dimensão. Neste sentido, o livro será um objecto de grande importância por ser um dos suportes mais sólidos e concretos que temos das ideias que perduram desde sempre.
    Por outro lado, toda a decadência a que vamos assistir nos próximos anos, ou melhor, a decadência que vamos viver e sentir nos próximos largos anos será o terreno ideal para construirmos uma sociedade bem mais feliz, mudando o modelo já comprovadamente falido em que vivemos. Os melhores tempos que hão-de vir não nascerão do acaso. Tendo presente a ideia de liberdade de K. Gibran e, obviamente, valorizando o presente em desfavor de um hipotético futuro, diria que não será necessário aguardar a vinda da “ceifeira moderna” para despertarmos para a luta. Não seremos felizes havendo homens com fome mas julgo que não devemos mergulhar na tristeza esperando um “futuro sombrio”. Em vez de esperá-lo é necessário Alumiar o futuro! Ânimo!

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    1. Acabei de ler o conto «Cidade Líquida», do João Tordo.

      Finalizado, fiquei com um sabor ao estilo cinematográfico de Hotel Memória, um Hotel Memória mais curto, uma espécie de exercício capitular de uma obra em construção.

      Há muito que já sei que a cinematografia da nossa vida se joga numa empatia não desprezível. Há muito que sei que a nossa memória é pródiga em tudo e coisa nenhuma. O caminho será mais árido de aparentes felicidades, mas a Larguesa das vistas obliterará a vanidade. O tempo será, pois, de esperança renovada.

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  27. Rui Conceição Silva5 de dezembro de 2012 às 15:19

    Há dois meses atrás, o meu único irmão suicidou-se.
    Por falta de esperança, sobretudo.

    Chorei muito.
    Choro muito.
    E chorarei ainda por muitos dias, sem que o possa evitar.

    E o que aprendi?
    Aprendi que nem todas as árvores resistem aos vendavais.
    Que os sonhadores não sabem viver sem sonhos.
    Que a vida é um acaso do universo.

    Todavia, a solidão também pode fornecer-nos o antídoto contra o seu próprio veneno.
    Pois, depois desta tragédia na minha vida, até me rio das tempestades.
    De todos os trovões e de todos os relâmpagos.
    Até os acho inofensivos.
    Por isso, que venham terramotos e ciclones, Adamastores e Ciclopes!
    Todas as formas de monstros.

    Crises económicas?
    Ah, elas que venham também!
    E até podem trazer todos os pessimistas, todos os analistas e todos os gráficos, todos os estudos e todos os pareceres.

    Sim, elas que venham!
    Elas que se atrevam a tentar assustar um homem que perdeu um irmão.
    Nem adivinham a coça que levarão.

    Pois um homem que percebe a subjectividade de tudo isto, torna-se um assassino de crises baseadas em euros.

    Porque só a crise de afectos é realmente importante na nossa vida.

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    1. Tem toda a minha solidariedade (bem sei que não a pediu), revi-me nas suas palavras talvez porque eu própria vivi igual experiência devastadora.
      Aprendemos a viver de outra maneira...mas vivemos.

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  28. Nos momentos de profunda crise, a cultura é sempre o principal sacrificado: é lugar comum dizê-lo, mas as palavras são para ser ditas, sempre!
    Muito grato pelo realismo da narrativa!
    creio que é assim, dizendo a verdade nua e crua, que se alimenta a chama da esperança!
    Vai ser muito difícil de aguentar: as contas do final do mês aumentam sistematicamente, enquanto o vencimento vai diminuindo!
    Onde é que isto vai parar?

    Gostei do comentário que falou das bibliotecas itinerantes! Memórias de um passado recente, muito triste em geram, à excepção das "itinerantes". Espero que não se volte a repetir.

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  29. É. Muita crise, muita crise, andamos todos tão tristinhos e macambúzios, tadinhos, mas é só chegar Fevereiro e é vê-los a todos a saltitar em volta do Manel e Ca Lda na Póvoa das Correntes, a exibir o luxo dos grandes "grupos editoriais", com grandes campanhas e milhares de livrelhos vendidos. E com o execrável secretário Viegas de novo na dança. Também vão andar "macambúzios" nessa altura, de copinho e croquete na mão?

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  30. António Luiz Pacheco6 de dezembro de 2012 às 01:40

    Não sei se venho atrasado... mas do que li, e li tudo com a atenção própria duma traça literária, creio poder concluir aquilo com que me debato e ouso apresentar:

    - De facto com a crise a cultura sofre... mas qual cultura? A do croquete? Ah, sim sem dúvida!
    Mas a "cultura", creio que não...
    Porque não vai haver dinheiro para tanto CD, tanto DVD, tanto concerto e espectáculo-por-dá-cá-aquela-palha, para festivalices... tanto I-pê-qualquer coisa... isso é garantido!
    Então, espera-se que esse dinheiro que era desperdiçado muitas vezes, passe a ser aplicado com critério... e os livros cabem neste conceito!

    Em tempos de crise aparecem os bons escritores, que os outros ficam no crivo cuja malha aperta... e em tempos de crise as pessoas lêem, pois ainda é o que têm (e terão de reaprender) para manterem as asas do espírito!

    Saudações de uma manhã de chumbo cá no Planalto Central.

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  31. Acabei de ler o post de hoje e todos os comentários...parece que levei hoje uma tareia...

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  32. Acontece-me nunca ter tido muito, mas imenso é o pouco que tenho e, ainda que mo vão tirando, sobra sempre para mim, para os meus, para os outros. E quando perco de vez algo ou alguém, tento abraçar os que ficam, repartir o que fica. E se estiver sozinho, olho para a multidão, não olho para mim. Há quem não tenha muito e entre em livrarias. E há quem não tem dada a ouvir quem tem pouco e entra em livrarias. E se cheguei a sentir o pudor de nem sequer pretender imprimir nada em papel durante dois anos, percebi que nos dias frios e preciso é perder a vergonha e produzir papel para embrulhar peixe no dia seguinte, como dizia o Pina, que todos os papéis serão para embrulhar peixe ou tapar irmãos sem casa. Estou feliz e não susterei esta minha doença. Estou feliz e propagarei. Sempre. Beijos a abraços (que também matam algumas fomes)

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    1. Um raio de sol neste dia chuvoso. Obrigada

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  33. Tão verdadeiro e lúcido... talvez nesta hora quem escreve e publica possa usar o seu talento para reescrever novas histórias... Talvez a cultura seja uma saída dessa sombra, uma casa onde há lugar acolhedor e quente para todos - uma casa sem portas de saída, uma casa sem portas de saída...obrigada pela sua escrita, Maria do Rosário Pedreira
    mjoão saraiva

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  34. O futuro é sombrio, acredito e assusta; mas assusta-me mais, que tão poucos recenheçam no passado recente a culpa desse futuro; assusta-me ainda mais, ver que há quem queira de novo esse passado recente para nosso futuro.

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