O feitiço da Índia
Publiquei recentemente um romance de Miguel Real com o título deste post, mas não é dele que pretendo falar aqui hoje. Há uns anos, quando estava na QuidNovi, comprámos os direitos de um romance (na verdade, tratava-se de um relato autobiográfico, e não exactamente de uma ficção, mas era «vendido» como romance) cujos direitos de adaptação ao cinema tinham sido adquiridos por uma grande produtora que prometia Johnny Depp no papel do protagonista (mas, que eu saiba, o projecto não foi avante). Ressuscitado agora por qualquer razão que desconheço, Shantaram, de Gregory David Roberts, voltou às livrarias com bastante destaque e tenho-o visto nas mãos de muitos leitores em esplanadas e salas de espera. Fazendo jus ao título de Miguel Real, este é o livro que define, efectivamente, o feitiço que a Índia exerce nos estrangeiros. O autor, um australiano em fuga de uma prisão de alta segurança depois de condenado pelos crimes de tráfico de armas, posse de droga e assalto à mão armada, viaja com um passaporte falso para Bombaim onde, depois de um encontro com um guia turístico, o inesquecível Prabaker, e muitas outras personagens que contribuem para o tal encanto da Índia, se torna um homem completamente diferente – generoso, altruísta, merecedor do nome Shantaram, que significa «homem de paz». Mas não se pense que o livro é uma dessas obras melosas de autoconhecimento ou armada em exemplo moralista para os leitores. Nele, a Índia é retratada no seu melhor e no seu pior, e não faltam descrições dos bairros miseráveis e nauseabundos de Bombaim, das ruas imundas cheias de cães esfomeados que atacam de noite, das aldeias de um atraso indizível onde se morre de fome mas as vacas engordam. Um relato realista, pungente e, às vezes, hilariante faz deste livro um autêntico feitiço, pois, quando se começa a ler, já não se consegue largar.
Li, há alguns anos atrás, num Verão memorável, um outro livro sobre a Índia, que me deixou mais intrigada do que satisfeita: «Viagem sem regresso» de Katy Gardner .
ResponderEliminarO meu marido esteve recentemente na Índia e fiquei com imensa vontade de ir com ele. Não veio de lá enfeitiçado. Disse que viu muita miséria e que cada vez mais tem a certeza de que vivemos muito bem em Portugal.
ResponderEliminarNão compreendo o fascínio que a Índia e o budismo tem para muitas pessoas. Vou ter de ler mais sobre o assunto.
Entretanto, atrevo-me a sugerir à Isabel que compre «O pinguim na garagem» através da minha livraria online: http://afevereiro.leyaonline.com/, onde pode benefeciar de 5% de desconto. Aliás, estão todos convidados a passar por lá. Espero que a Maria do Rosário não se importe com esta «publicidade».
Não me importo nada. Toda a publicidade a livros é aceite neste blogue.
EliminarObrigada Anabela F. pela dica, não sabia que esse livro "pertencia" ao Grupo Leya.
EliminarIsabel
Lembro-me bem daquela imagem de uma Índia Imperial recheada de árvores luxuriantes a abarrotar de verde; e do calor que humedecia a pele - um calor sufocante; e do pó que arrastavam as minhas pequeninas botas, levantado alto à mais pequenina e rara brisa. Ao lado de um imponente fato branco, imaculado, colonial, de gala, impecavelmente passado, desfilava ordenado como um pequeno actor para uma câmara - que soube mais tarde alimentar-se de umas fitas - numa marcha meio marcial, meio teatral, coroada a continência de uma pequena mão, desfazendo-me nas mil macacadas que vira aos gestos meio loucos dos chimpanzés indianos.
ResponderEliminarAnimais que se passeavam, soltos, naquele lugar encantado, de homens tisnados pelo sol, mulheres portadoras de marcas circulares na testa e cobras, gibóias, que se enroscavam à noite nas caixas eléctricas à procura do calor do dia.
Lembro-me bem e quase ainda não era nascido; lembro-me bem do feitiço dessa Índia que conheci e que me lembram por sonhos de menino infante e fitas descoloridas - a que chamam de feitiços passados de 8mm.
O feitiço da Índia, ou de lugares exóticos, penso eu que existe sobretudo para nós portugueses mais do que para ninguém.
ResponderEliminarAs razões disso davam para um tratado...
Também me atrevo a dizer que, não tanto o budismo mas o culto hindú, (e o sikh) possuem fascínio bastante para nós. Enfim, pelo menos para mim... que introduzi um longo capítulo passado em Goa no meu Largueza... sem dúvida influenciado quer por minha mulher que é uma apaixonada pela Índia, quer por meu avô que foi ali comandante militar e depois encarregado-geral do governo. Minha tia casou com um distinto oficial de origem goesa (Lobato de Faria).
E eis dois livros que vou pôr na já longa lista que tenho para comprar e depois trazer... a Cristina Carvalho já vai na frente com 2 títulos (pelo menos, pois não sei se não acrescento o Gato de Upsala...). Miguel Real é outro nome seguro...
Saudações esfomeadas de livros cá do Planalto Central!
Lembrei-me de uma série de televisão, que na altura gostei bastante de ver: A Joia da Coroa (baseada no romance The Jewel in the Crown de Paul Scott que faz parte da tetralogia The Raj Quartet )
ResponderEliminarCom licença...
ResponderEliminarsobre o livro de Maria do Rosário Pedreira
http://diariodigital.sapo.pt/news.asp?id_news=604944
O texto não é da minha autoria
O artigo fala-nos do lançamento de "A minha primeira Amália". Eu estava lá e foi bonito. O fado cantado e tocado pelos jovens foi muito bom.
EliminarIsabel
Tive muita pena de não ter podido ir, Isabel. Gostava muito de ouvir a voz de desenho animado da tia Rosário. Já exprimentou fechar os olhos? Parece que a branca de neve está ali a poucos metros. Pensei nisso daquela vez em que nos conhecemos. Hoje não tenho nada de jeito para escrever, cada vez mais odeio ser bipolar, sabe? Parece-me que os momentos bons são fruto da mania, que os maus vêm da depressão e que eu, no final de contas, já não sou nada. O mais triste é não me recordar de como eu era antes da doença se manifestar. Enfim, beijinho Isabel, para si e para a sua criançada.
Eliminar...Beijinho grande João.
EliminarGosto muito de poesia, deixo-lhe este poema.
Désarroi
De gaieté en gaieté
J’ai contrefait ma joie
De tristesse en tristesse
J’ai camouflé ma peine
De saison en saison
J’ai galvaudé le temps
De raison en raison
J’ai nié l’évident
De silence en silence
J’ai parlé sans rien dire
De méfiance en méfiance
J’ai douté sans finir
De rancoeur en rancoeur
J’ai brisé l’essentiel
De pensée en pensée
J’ai flétri sans appel
De reproche en reproche
J’ai pétrifié les jours
Et puis de proche en proche
J’ai détruit tout amour…
De pleurs en espérances
J’ai conjuré le sort
De regrets en souffrances
J’ai torturé mon corps
Las…
De nuage en nuage
J’ai construit ma maison
Et d’un seul coup d’orage…
Esther Granek, "Je cours après mon ombre", 1981
Upps não me identifiquei! Sorry João
EliminarIsabel