Conselhos aos jovens

Cá em Portugal, não conheço muitos escritores consagrados que queiram travar conhecimento com os que se estreiam nas letras e aconselhá-los sobre procedimentos a adoptar na carreira ou avisá-los das contrariedades e desilusões que os esperam. É bem possível que se juntem nas feiras do livro no stand da editora (se a partilharem, claro) e até conversem sobre literatura, mas, francamente, nunca nenhum dos novos autores que publiquei me contou nada de memorável a este respeito. Recentemente, porém, um escritor norte-americano que publicou o seu primeiro romance contou numa entrevista que conhecera Philip Roth num café (pareceu-me até que provocara esse encontro só para ter o supremo gozo de oferecer o seu livro ao mestre que tanto admirava) e que este (mesmo sem ter lido uma linha da obra) o terá imediatamente dissuadido de escrever, explicando que a actividade implicaria um grande sofrimento porque o desejo de se superar a cada novo livro nunca o abandonaria e poderia até dar origem a momentos de decepção e fracasso insuportáveis. Disse-lhe que parasse enquanto pudesse (ao que o jovem respondeu que, infelizmente, era demasiado tarde). Por razões bem distintas, Diderot também aconselhou um jovem poeta a deixar de escrever. Depois de ler os poemas que o rapaz lhe pedira que avaliasse, confessou-lhe que não só eram maus como mostravam claramente que o seu autor nunca escreveria nada de bom – e que, nessa medida, seria mais prudente dedicar-se desde logo a outra coisa. Às vezes, de facto, é bem melhor não pedir opiniões...

Comentários

  1. Penso que se devem seguir algumas "regras", de resto é algo que tem de vir bem do interior. Assim de repente, ocorre-me o exemplo do Bukowski... de quem nunca li uma obra.

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  2. Ao que julgo saber, José Saramago tinha como princípio : ler é viver; escrever, prossupõe ter vivido. Mas tabém há quem não pretenda fazer da escrita profissão, apenas, e só, tenha intenção de partilhar alguma coisa que julga interessante: será uma maneira, como outra qualquer. Em Moçambique existe um conceito segundo o qual: primeiro pensa-se em fazer tudo o melhor possível, depois é que se pensa no passo seguinte. Quanto ao aprender com os outros, ai de quem dispense essa necessidade, apanhamos cada banho de saber de experiência feito...

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  3. Não é bem o mesmo caso, mas penso que será inspirador para quem pensa escrever, ouvir um escritor falar assim. Encontrei um exemplo do José Luís Peixoto, porque me lembrava de já ter ouvido falar das suas incursões a escolas para falar sobretudo com adolescentes: http://vimeo.com/17195235.

    Será que ele tem alguma história dessas para contar?

    Mostrar, partilhar o que escrevemos com alguém próximo e que conhecemos bem pode ser ainda mais arriscado. Quem é que arrisca a ser completamente sincero e dizer que não gosta? E assim cria-se uma ilusão. Talvez por isso depois haja tão má receção às críticas dos entendidos... porque afinal os conhecidos tinham gostado!

    Neste exemplo do JLP vemos que ele teve muitas recusas do seu primeiro livro e isso é habitual, certo? Penso que aconteceu com o Saramago também. Quantos não desistem depois disto? Ser escritor parece exigir muita persistência, acreditar muito no que se faz.

    Por outro lado, estes consagrados que aconselham os jovens a não prosseguir no seu sonho de serem escritores talvez estejam simplesmente a eliminar concorrência. Um apontamento de humor, leia-se.

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    1. "Ser escritor parece exigir muita persistência, (...)"
      Também me parece. Exemplos não faltam.

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  4. Eu segui esse procedimento. Até porque entendo que quem se estreia nas letras não irá muito longe sem um aconselhamento sincero e, por vezes, até, duro. Mas que permaneça sempre construtivo. Não acredito em criticas demolidoras. Não há sector da vida mais subjectivo do que a literatura ou em que as opiniões variem mais. Também por esse motivo é sempre sensato dar a ler o projecto de livro a mais do que uma pessoa do meio.
    Eu, não me bastando com autores consagrados, recorri a críticos literários. Arrisquei bastante, é certo. Mas, no fim, tendo ficado com uma visão bastante impressiva dos pontos bons e menos bons do meu trabalho, pude dedicar-me a corrigir estes últimos, tendo podido confirmar junto da minha própria consciência a justeza dos reparos efectuados.

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  5. Que giro!! Giro, tudo! Tudo mesmo muito giro! Oh tia, a tia é o meu Diderot! Agora noutro tópico , fui a um funeral, o primeiro a que já fui, não por motivos nobres, mas para impressionar uma rapariga, o que é nobre cá à minha maneira. Como não queria saber do morto, nem tão pouco dos berro das velhas circundantes, andei por lá a absorver o cemitério. A campa 236 não tinha lápide -certo era tratar-se do último local de descanso de um pobre- mas tinha uma flor especial, rara, capaz de hipnotizar até à intriga! Quem será que lá pôs a flor?? Onde a arranjaram? Porque falhou o dinheiro do mármore e não o gosto por um perfume suave? Será alguma destas coisas verdade? Não merecerá tudo isto um poema? Quero crer que sim.

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  6. O primeiro conselho básico para um escritor devia lapalacianamente ser só um: «que escreva!»; e, «que escreva muito!»; e, «que goste daquilo que faz!»
    Posteriormente podia esse consagrado - já escritor como se comprova pela resposta - como quem não quer a coisa, perguntar: «mas escreves porquê ou para quê?» A pior resposta com que se podia confrontar seria, com certeza, uma do tipo: «porque quero ser famoso e conhecido»; ou, mesmo, «faz-me bem ao ego»; ou, ainda, «porque quero ser eterno!»
    A este conjunto de respostas, o consagrado torceria o nariz porque, na sua experiência solitária, quase ascética e conventual de escrever feito, (nem todos podem coleccionar revoluções, liderar milícias ou mesmo coleccionar e liderar... mulheres como Hemingway e... porque os conselhos já há muito deixaram de ser apenas no masculino), para se ser famoso e conhecido nada melhor do que uma carreira política: ora no governo, ora numa empresa de regime, à vez, porque carreira política é extensa, pouco atreita a falta de inspiração, bloqueios e suicídios e só acaba... na refor... gaiola dourada! Para quem gosta de fazer amigos é líquido ser (quase) tão aborrecido uma ou outra carreira. A primeira, pela simples razão dos teus amigos serem tão só, quase sempre, personagens das tramas dos teus livros; a segunda por - dizem alguns personagens de estórias diárias - não ser um lugar onde se faça ou, mesmo, se queira fazer amigos. Dizem! ... porque quando se reformam… - palavra que o escritor usa apenas como sinónimo durante o processo de criação dos seus livros - … ninguém percebe, acredita!?, como não fizeram amigos. Conhecidos… é coisa bem diferente! Porque, aqui chegados, quase todos se fazem conhecidos; quase nunca pelas melhores, mas pelas piores razões.
    Claro que o jovem, ou o menos jovem, também podia responder: «porque gosto muito de estar à secretária!»; ou, «porque sou dotado de uma inata inventiva!», como se se quisesse substituir ao criador na criação - que não no simples processo, no trabalho; ou, mesmo a mais honesta das respostas a que falta, só e aparentemente, brilho: «porque tenho contas por pagar!» E acrescentaria, meio envergonhado por não ter sido dotado dos mesmos instrumentos moleculares ou musculares de um Stallone:
    «E isso evita-me um desgaste físico que não ia suportar, estivesse eu, agarrado diariamente, ao selim de um daqueles camiões que recolhem o nosso lixo».

    Esta última resposta, antes de um enorme manancial delas que se podiam (des)construir, também não seria a mais avisada; já que se o visado tivesse alguma consciência ambiental saberia que correria o risco de se tornar ele próprio, rapidamente, um criador de lixo. Ou, talvez, não ele!, mas, no seu lugar, a sua casa editora. Casas das letras que já há muito, pelo seu realismo de experiência feito, o via como um burro de carga: já que os livros, como os cavalos – pelo que «enfardam» – também se abatem!

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    1. Aplaudo, Pedro! Como quase sempre! Escreve-se porque sim, porque não se pode viver sem escrever, porque é um dever imperioso da alma.
      Pode e deve pedir-se ajuda quanto à forma (que o conteúdo é muito nosso, intrinsecamente nosso), quanto ao aperfeiçoamento do estilo e, depois, o tempo, o labor e a experiência fazem o resto.

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  7. Ah...claro que, se também sobrevier a eternidade...ninguém a rejeitará. ;-)

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  8. Não sei qual é a admiração, Maria do Rosário!
    Uma águia pergunta a outra se pode caçar no seu território? E, se pergunta, o mais certo não é levar uma bicada?
    No campo das Letras há muitas trincheiras e aí disputa-se uma "guerra" onde não se fazem prisioneiros.
    Sujeito e levar algum obus - vindo de um outro autor, de algum crítico mal nascido ou de um editor - tenho-me mantido longe do reboliço. E, para além disso, nunca caí na patitice de mostrar um original a um escritor para este me aconselhar sobre a obra. Certamente ma mandaria entregar a um vendedor de castanhas, para embrulho (julgo que, nem para isso, pois a coisa modernizou-se e nem as "páginas amarelas" servem para esse fim).
    Ora, bem andam os novos autores por remarem à sua custa e, se possível, arranjarem um editor que lhes reboque a embarcação.

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    1. Valham-nos os amigos, Joca Martinho! E as pessoas de boa fé. Olhe que também as há... :-)

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    2. patetice? porquê? já se vê que o senhor não acredita em pessoas boas. Pois, informo: existem. E brilham. São generosas. Genuínas. (embora as pessoas boas também façam coisas más) Por vezes, calha serem escritores. E se não se pode pedir opinião a um escritor, vai-se pedir a quem? ao padeiro? ao nosso melhor amigo? à nossa tia-avó?

      PLFF

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  9. E se encarássemos esse exercício de trocar impressões com alguém que já trilhou o caminho sem outra ambição que não a de ... conhecer uma possibilidade mais? Pode ser bom ouvi-lo, pode ser fastidioso, pode ser motivante, aliciante, prometedor, arrasador, banal, excitante. Tal como os chineses, que aconselham a leitura de mil livros antes da aventura de iniciar um, se calhar a questão por aqui será a de encarar o escritor como um interlocutor mais, por entre outros milhares que nos poderão trazer algo que saibamos guardar e transmitir mais tarde. Ou não!

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  10. Inevitável pensar em Rilke e nas suas "cartas a um jovem poeta". Ensinamentos preciosos.

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  11. ontem não me apeteceu dizer nada, por achar que o tema nos poderia levar para mais que um lugar.

    sei que há escritores e escritores, pelo que as generalizações são sempre polémicas

    sei também, por experiência própria, que quando somos mais jovens e andamos a girar à volta do nosso primeiro livro, somos invadidos por uma inocência e uma vontade de partilhar, que pode não ser a mais recomendável.

    e os passos seguintes podem ser "tiros no escuro", com decepções à mistura, ou "golpes de sorte".

    embora o primeiro romance que escrevi seja banal e tenha passado despercebido (bilhete para a violência - terminado em 1992, publicado em 1995), contou com ajudas importantes de três escritores.

    como na altura praticava o jornalismo com entrevistas, tive a felicidade de entrevistar "gente do alto", como dizia Wilson Brasil, que no caso particular que vou focar, por serem escritores, fez com que falássemos de livros e até nos encontrássemos várias vezes para falar da literatura e de outras coisas.

    refiro-me a Dinis Machado, Francisco José Viegas e Inês Pedrosa, todos óptimos conselheiros, no meu caso pessoal.

    dos três, Inês Pedrosa (curiosamente com quem mantive menos proximidade), ao tempo jornalista do "Expresso", foi quem demonstrou mais interesse em ler o meu manuscrito e quem fez uma melhor leitura critica (ainda guardo, religiosamente, este manuscrito anotado a lápis, com tanta informação pertinente...).

    com o Francisco aconteceu uma coisa diferente. contei-lhe ao telefone pormenores da história do meu livro e ele, do outro lado, disse-me que já tinha lido aquele romance.

    imaginem a minha surpresa. como é que era possível?...

    mas era...

    era possível porque o Dinis Machado depois de ler o manuscrito aconselhou-me a concorrer ao prémio "Caminho Policial" e o Francisco fazia parte do júri...

    embora da "caminho" nunca soubesse nada do livro, o Francisco falou-me posteriormente do seu percurso, que tinha sido finalista juntamente com outra obra e embora não fosse atribuído o prémio nesse ano, o júri considerou que ambas as obras deveriam ser publicadas na colecção "caminho policial".

    como nunca recebi qualquer indicação da "caminho", se não fosse o Francisco, não sabia o que tinha acontecido ao meu primeiro romance, nem que tinha sido finalista, nem que esteve a um passo de ser publicado...

    desculpem ter contado quase a "história da minha vida literária". mas achei que devia dizer isto, porque cada caso é um caso, e há muita gente boa nos meios literários, que sente curiosidade por outras histórias, pelas motivações dos novos autores, etc.

    felizmente o mundo não é apenas composto por "Diderots" ou "Roths"...

    continuo a pensar que apesar de ser um risco, é preferível dar a ler aos outros o que escrevemos, que ficar escondido numa gaveta.

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  12. Concordo com o Luís Eme : felizmente não há só Roths e Diderots.
    E há muito essa mania dos consagrados, seja em que área for, fazerem gala de dizer que os jovens não deviam enveredar por determinada carreira, que não é para todos, que vão sofrer desilusões. Claro que há muita gente que anda enganada e não tem sentido de auto-crítica , mas também há muita gente que, com uns bons conselhos e sugestões, poderia crescer e um dia criar coisas muito bonitas.

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  13. Vamos imaginar alguém que gosta de escrever. Como é que se diz que desista porque depois se quer superar a si mesmo em cada obra? e desde quando consegue alguém superar-se a si mesmo????! Não acredito no propósito de superação. Acredito no esforço. No trabalho. Em algum sofrimento, que como já alguém disse acima, há que viver para poder contar. E só há verdade e é recto o escrito, se pelo menos o pensamento lá esteve em inteira desmesura.
    Do resto, nada sei. Talvez os conselhos façam falta aos novos. Talvez não.
    Melhor ajuíza quem pertence a tal universo.

    Não vem a propósito, mas lembro uma entrevista em que Lobo Antunes contava que se embatucava numa história - um livro - o Cardoso Pires lha escrevia inteira, completava-a. Conta ele que não servia de nada. Lia tudo e, quando voltava à escrita, não era importante, a sua história era outra. Parece que era prática comum entre os dois.

    Tão bonito! Tantas horas por dentro de um pensamento que não é o meu, a completá-lo, a preenchê-lo...não sei se para nada. Creio mesmo que entre Cardoso Pires e Lobo Antunes um para tudo.

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