Belvedere

Delícia suprema é ler um escritor que, muito além de saber inventar uma boa intriga e de lhe dar o mais surpreendente desfecho, conhece e usa palavras estranhas e deliciosas, que precisam mesmo de que alguém as resgate do desuso para não fugirem dos dicionários nos próximos tempos (nestes em que vivemos, há uma pobreza nos discursos e nos escritos em geral que é de bradar aos céus). Estou a saborear Mário de Carvalho em duas novelas – O Varandim e Ocaso em Carvangel –, ambas no mesmo volume recentemente publicado (um 2 em 1 muito apropriado à época de poupança e falta de desafogo financeiro que atravessamos). E que felicidade é poder entrar assim, pela mão de um escritor que muito sabe e, ainda por cima, gosta de partilhar, na casa do senhor Zoltan, com dois filhos impossíveis e um sogro moribundo que ocupa demasiado espaço (até porque grunhe bastante), na qual um varandim quase esquecido (para o qual dão janelas que se encontravam entaipadas) se torna de um momento para o outro mirador privilegiado de fidalgos e matronas, decididos a não perder pitada de um castigo que o grão-duque, embora levemente contrariado, acabou por concordar em infligir a meia dúzia de anarquistas. Pobre homem sensato e discreto este senhor Zoltan, que é contra a pena de morte e o espectáculo do sadismo e com quem a sorte vai ser – pois claro – injusta, como seria de esperar da ironia de Mário de Carvalho, mestre na dita e noutros equipamentos literários para gáudio dos seus leitores. Agora, lambo os beiços, saciada, e guardo para amanhã Ocaso em Carvangel, sobre um jovem notário numa terra onde todos aguardam um navio (sei lá se virá), porque duas novelas tão boas num só dia podem habituar-me mal, e quem já leu o volume inteiro diz que esta segunda é ainda melhor. Em tempos de escassez, é bom conservarmos pelo menos um kit de sobrevivência para o dia seguinte.

Comentários

  1. Já tenho este livro e estou desejosa de o ler!
    Do mesmo autor li A arte de morrer longe e o magnífico, delicioso, hilariante, maravilhoso, soberbo, Quando o diabo reza. Adorei este livro! É um dos meus livros preferidos de sempre. Entretanto, já comprei mais alguns livros anteriores mas que ainda não li.
    E não menos importante: adorei ouvi-lo no Câmara Clara! Foi uma das melhores edições do programa.
    Fã, portanto.

    ResponderEliminar
  2. Ainda não o li, apesar de já o ter em casa. As críticas que faz são pertinentes e relacionam-se, também, com uma questão geracional, com o género de livros a que se teve acesso e com a qualidade do que se leu. Que influi, depois, decisivamente, na forma de escrever.
    Contudo, existirá sempre uma ressalva a ser efectuada.
    Mário de Carvalho é um extraordinário escritor de língua portuguesa e é minha convicção que a linguagem a que recorre lhe é inerente, sendo por si utilizada com naturalidade.
    Mas não façamos da escrita um exercício de utilização constante de palavras em desuso ou de compreensão difícil que implique o recurso constante a um dicionário.
    Porque escrever é uma arte que deve ser difundida por todos os estratos da população (quer os mais, quer os menos cultos) e porque ler deve constituir, acima de tudo, um prazer.
    Bom fim de semana!

    ResponderEliminar
  3. Não gosto muito de dizer que este ou aquele é o melhor escritor português... mas Mário de Carvalho e o novo Luís Caminha são os escritores portugueses que nos últimos anos mais prazer me tèm dado, precisamente por causa da riqueza de vocabulário e por estilos literários que denotam uma grande preocupação com muito mais do que apenas a intriga.
    Ao pé deles parece-me tudo tão... descuidado. Ou talvez melhor, tão americano. Talvez seja isso, a maior parte dos autores portugueses afinal são americanos... São despojados de estilo, o que é muito valorizado hoje em dia. Mas que diabo, às vezes apetece tanto ler alguém com estilo! Viva o Mário de Carvalho.

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Bruna: que pessimismo! E, até, que injustiça! Há muitos outros autores portugueses com estilo. Por exemplo: já leu alguma obra do Luís Naves?

      Eliminar
    2. :) Não, Sandra. Obrigado pela dica. Estava a pensar nesses novos autores que são para aí tão badalados. Não me enchem a alma... A exceção para mim, dos que conheço, claro, é o Luís Caminha. Os outros, acho-os tão todos parecidos e tão fraquinhos... Mas eu sei que os melhores estão escondidos... Luís Naves nem tinha ouvido falar. Obrigado mais uma vez, pode ter a certeza de que vou ler. Se quiser aconselhar-me alguma obra em especial..,

      Eliminar
    3. Aconselho-lhe "Jardim Botânico", editado pela Quetzal o ano passado. É um livro acerca da Guerra Civil da Guiné Bissau em 1998. É um autor com uma linguagem bastante fecunda em que abundam os tais vocábulos de compreensão menos imediata. Vale mesmo a pena lê-lo. Tem também um blog aqui no sapo bastante interessante onde publica textos dispersos e pequenos episódios do quotidiano. http :/ diasdopo.blogs.sapo.pt /
      Vai ver que vai gostar.
      Abraço! Bom fim de semana!

      Eliminar
    4. Obrigada! Vou espreitar.
      Bom fim-de-semana.

      Eliminar
  4. "Conhece e usa palavras estranhas e deliciosas":

    http://ruadaspretas.blogspot.pt/2012/12/joao-araujo-correia-caminho-de.html

    ResponderEliminar

Enviar um comentário

Mensagens populares deste blogue

Em Berlim

O que ando a ler

O principal e o acessório