Queridos anos 60
Quem viveu nos anos 60 e viu a série Conta-me como Foi, não pôde deixar de evocar episódios e cenas da sua vida naquela reconstituição de época primorosa. E agora, por muito que nos digam que Portugal evoluiu de forma espectacular nos últimos quinze anos, há um livro fantástico à venda – LX60, de Joana Stichini Vilela (texto) e Nick Mrozowski (projecto gráfico) – que nos ensina como o País nunca mais foi o mesmo depois dos anos 60 do século passado. Foi só nessa década, por exemplo, que os lisboetas puderam andar de metro, viver nos Olivais, atravessar a ponte de carro para a outra margem do Tejo, comprar num supermercado ou ir à Feira Popular (coitada, já lá vai), dançar nas discotecas ou mesmo passar um fim-de-semana num hotel de luxo como o Estoril-Sol (que também já não temos). Mas nem tudo foram rosas, claro, com a Guerra Colonial, a PIDE a matar e torturar, a esperança média de vida aos sessenta e tal anos, mais de 80% dos partos em casa, umas cheias que destruíram centenas de lares e um terramoto que assustou todos na capital. Contra algumas dessas pragas, havia, porém, tertúlias nos cafés, livros proibidos que passavam por baixo dos balcões, programas de TV inteligentes como o Zip Zip e revistas pensantes como O Tempo e o Modo. Claro que o povo também se divertia com o Festival da Canção, as Misses e Eusébio a jogar à bola… Este livro, para quem viveu nos anos 60, é precioso: remete-nos para um tempo que foi marcante numa certa emancipação dos portugueses e das portuguesas (ah, a mini-saia!) e leva-nos numa viagem ao passado de um País que estava cheio de vontade de ser outra coisa. Para ler e folhear.
Desconhecia esse livro. Vou já espreitar! Nem imagina como gosto dessa época. Adorava ver o "Conta-me como foi" essencialmente pela reconstituição da época. Da nossa época. Portuguesa, entenda-se. O cinema e a televisão abarrotam de filmes desse tempo, com reconstituições tão boas ou melhores que aquela mas, por serem estrangeiros, não nos tocam tão fundo. Até as latas de guardar o açúcar e a farinha eram iguais às da minha mãe Ehehehe Fantástico!
ResponderEliminarCoincidência ou não, é o "livro do dia " de Nuno Vaz Marques e vinha a caminho para o meu emprego, de carro, e ouvindo-o, pensei logo que esse livro havia de vir para a minha estante!
ResponderEliminarAna b. também gostava muito do " Conta-me como foi"! Em primeiro lugar porque era visto em família (pequenos e graúdos), depois porque, a partir da série, percebe-se a evolução e as alterações vividas no nosso país e por último parecia, por momentos, que entrava em casa da minha avó, ou até em minha casa quando era pequena.
Isabel
Quando eu era pequeno víamos o Dragon Ball e saiamos com cuidado do autocarro. Porquê? Porque na paragem estavam sempre uns malvados que nos tentavam roubar o boné, não nos baixássemos nós a tempo. Uma vez roubaram-me uma pastilha gorila que eu tinha acabado de comprar, fiquei tão triste... foi em Benfica, à porta da Superlivro . Comprávamos cromos do mundial de futebol, pensávamos que os professores eram gente acima da média e confiávamos na chegada de um tempo em que tudo seria evidente. Nos clubes de vídeo só existiam filmes de ninjas, o ninja branco, o preto, o vermelho e o americano. Não existia internet, a pornografia impressa unia as gentes, como uma espécie de oferta à comunidade, como um lampejo de doce partilha. Lembro-me do primeiro filme pornográfico que vi, foi no canal 18, foi importante, foi um evento, um evento que hoje já morreu, como a aspersão com água tépida. Tudo era minucioso , tudo agourava desilusão, os médicos, os juízes , as empresas, as máquinas, as ideias e os labores: quando somos pequenos temos muito orgulho na nossa gente. No prédio em frente ao meu vivia uma menina que tinha um papagaio, um dia pedi à minha mãe que me ajudasse a comprar uma prenda, fui lá, fiz a minha oferta e voltei para casa, não sei se hoje o faria. Quando era pequeno, em viagem, acenava ao carro de trás, invariavelmente arrancando um sorriso que hoje é o meu. Não me lembro de mais coisas, pensei agora no meu filho, avaliei-me e fiquei contente.
EliminarGiro o que escreveu.
EliminarUpss!! Perdão ao Carlos Vaz Marques a quem inventei novo nome!!!
EliminarIsabel
Oh João gostei tanto do que escreveu, é por isso que faz falta neste espaço, apareça mais vezes!
EliminarLi-o e fiquei contente.
Isabel
A Isabel é que é muito querida. Tenho andado a tratar das minhas 9500 figueiras e estou com a moral de rastos para escrever!! Beijinho
EliminarÉ uma querida Isabel!
EliminarObrigado, rica tia.
EliminarHá lá melhor maneira de começar o dia? Obrigada João
Eliminarmudou muita coisa, mas menos que no resto do mundo, porque o Salazar e o Marcelo já sabiam dos malefícios da coca cola e de outras modernices. :)
ResponderEliminarSim, isso da mini-saia e das discotecas estava longe (muito longe) de ser para todas as meninas.
EliminarEstava na minha lista já bem antes de ter saído! :)
ResponderEliminarÉ verdade que toda a crise gera a sua própria oportunidade e… a sua própria redenção. O ponto é: à custa de quê e de que dimensão de dor?
ResponderEliminarOs anos do cinzentismo Salazarista e Marcelista «criava as suas próprias «tertúlias nos cafés, os livros proibidos que passavam por baixo dos balcões, os programas de TV inteligentes como o Zip Zip e as revistas pensantes como O Tempo e o Modo.»
Apesar disso, apesar desses cinzentos e queridos anos sessenta de contrários, era indubitável que portugal queria ser outra coisa e queria o retorno ao humanismo.
E conseguiu - ou pensou que conseguiu - a espaços, durante os empolgantes anos setenta. Bem como nos oitenta, nos noventa e no raiar do novo milénio. A mudança foi radical, até meteu uma nova dimensão, a I&D, mas a doença sempre esteve latente e emerge em ciclos, paulatina, sorrateira, batendo como quem espera por nós, com quase todos a adorar os bezerros de ouro e os meninos de oiro, individualistas, delirantes, franzinos na ambição colectiva. A claustrofobia lusitana, a bipolaridade e uma mesquinhez individualista muito pequenina de quem queria ser grande, uma espécie de sapo que quer à viva força ser boi foram, novamente, sendo destapadas e postas a olho nú - para quem os queria ver e não vivia em negação. A ganância, a obliteração do essencial, do espartano e a distorção de valores fizeram o resto.
Hoje, resta-nos as saudades do futuro, as saudades dos queridos anos 80, 90 - e os livros - e apesar da austeridade radical (há sempre outros caminhos!) que nos reconduz à percepção da nossa própria dimensão de cigarras, os queridos anos 2000 serão no futuro vistos como anos terríveis de falta de crescimento, de esperança, de desemprego, de matriz corrupta, do abaixamento bomba relógio natal, do retorno à emigração, do desalinhamento europeu, mas também da tomada de consciência de uma nova centralidade de prioridades, de afectos, de riqueza na simplicidade e de afirmação de sustentabilidade social, pessoal e ambiental.
Redenção e castigo: queridos anos 2010; que saudades que iremos ter de ti!
Nos fins de 50, inícios de 60, eu costumava ir visitar os meus bisavós a uma aldeia a 11 km de Coimbra, cidade onde nasci. Aos meus olhos lá chegar era quase uma expedição, que acabava num percurso a pé, por caminhos de terra. O aspeto da aldeia, tirando os buracos da metralha que não tinha, era o de uma congénere afegã. Até as mulheres andavam de roupagem escura e cabeça tapada, espreitando furtivas os visitantes da cidade (nós) por detrás de portas semiabertas que logo se fechavam à nossa aproximação. Daí para cá tem de se reconhecer que passámos do 8 ao 80 e o Orelhudo (assim se chama!) é agora um subúrbio lampeiro onde todos, estou certo, socializam pela net queixando-se da crise com amargura.
ResponderEliminarBelo texto, Paulo.
EliminarMuito obrigado. Um contributo de quem pode contar como foi. Obrigado também por mo ter feito recordar.
EliminarCaro Paulo
EliminarConcordo com o seu texto, supostamente bem lisonjeado pela sua editora, mas há ali um parágrafo que foge à minha compreensão, se cotejado com o tempo actual. É este -
(...)"espreitando furtivas os visitantes da cidade (nós) por detrás de portas semiabertas que logo se fechavam à nossa aproximação."
Parafraseando Carvalho Rodrigues (o cientista), digo que, ao tempo, quando alguém batia à porta de uma casa dessas aldeias, de dentro não se perguntava quem era ; dizia-se, "entre!"
Agora, graças à onda desenfreada de vigaristas, ladrões, oportunistas e marginais, as pessoas da aldeia olham-nos por detrás das portas semiabertas e logo as fecham à nossa aproximação.
Em liberdade, é estranho isto, passadas décadas de obscurantismo, falta de liberdade e analfabetismo. Mas não duvide que, neste pormenor e naquele parágrafo, as coisas não mudaram e o medo - um outro medo - permanece.
Um pequeno parêntese só para dizer que não sou editora do Paulo Oliveira.
EliminarPois pode crer que foi assim que ficou registado na minha memória: olhos que nos espreitavam por entre cinco centímetros de porta entreaberta. Já a da avó se abria tal como descreve o cientista. Quanto à editora que pretensamente me lisonjeia, é garantidamente fumo sem fogo: isto são apenas fogachos de cinco linhas por desfastio e pode MRP (ou Jocamartinho ) descansar que por este lado não vai aparecer trabalho (ou concorrência).
EliminarO vazio não é editável.
EliminarCaríssimos
EliminarRosaária e Paulo
Cometi um lapso sem nele subjazerem segundas intenções.
Sobre o texto, mantenho que foi bem lisonjeado, porque efectivamente corresponde à visão que eu tinha (também) desses tempos e de hoje, bem como à forma como conduziu as suas impressões.
Relativamente ao vazio, o Paulo a qualquer altura o pode preencher; no que respeita à Rosário - com as minhas desculpas - nunca se sabe se poderá vir a ser editora do Paulo, assim ele corresponda com um trabalho que surja na razão directa das suas qualidades descritivas e literárias.
Rosário e não Rosaária, como facilmente se compreenderá.
EliminarÀs vezes julgo que, pela minha mão, escreve a mão do diabo - cruzes credo!
Eu fico lisonjeado duplamente, e ainda mais divertido com a confusão, mas acreditem que não tenho esse objetivo , nem sinto fôlego para tal. Uma coisa é mandar umas bocas à pressa razoavelmente escritas, outra é ser um escritor. Só tenho a pretensão de ser um leitor.
EliminarPenso que o Diabo seja omnigráfico, felizmente foi para as gentes que ficou reservado o dom do entendimento.
EliminarAo regressar ao País depois de passados 15 dias de trabalho numa Europa falida (ao ouvir as nossas chamadas elites, parece que ainda não compreenderam bem o estado comatoso em que estamos desde há uma dúzia de anos) vi com tristeza, ao pôr em dia a leitura dos blogues, que aqui nada se disse sobre os 90 anos de Agustina.
ResponderEliminarBem, não seja por isso. Acho que é amanhã ou quinta que sai um post sobre isso, desculpe o atraso, devia ter saído no aniversário! Já o programei, por isso, se tiver paciência para esperar, lê-lo-á. E ficará contente com um anúncio que lá se faz, tenho a certeza.
EliminarFiz-lhe o meu reparo com base no que aqui já se escreveu, e bem, sobre Agustina. Fico contente com a notícia. Levei para o Douro o seu novo livro que reúne a sua poesia; dois verdadeiros luxos: ver o Douro e ler a sua poesia. Ambos tocam o nosso "intimus"que é o superlativo de "interior".
EliminarPaulo, eu morei numa aldeia talvez parecida com essa que descreve, mas a minha fica perto da Guarda. É verdade sim, que quando algum estranho por ali aparecia espreitávamos e tentávamos perceber quem era e ao que vinha. Afinal, era um acontecimento raro! Mas as portas ficavam sempre abertas e se alguém aparecia era convidado a entrar e oferecia-se logo de beber e de comer.
ResponderEliminarJá nasci na década de 70, mas lembro-me de terem alcatroado a estrada e de terem instalado a eletricidade. Lisboa estava bem longe do meu horizonte. E eu bem longe de pensar que um dia viria para a sua beira (desde a Beira).
Anabela, eu nasci bem no início da década de 50, são 20 anos a mais, no mínimo. De todo o modo, a minha descrição escrita num instantinho pouco antes do almoço não procurava caracterizar todas as aldeias deste país em todas as épocas. Apenas descrever em poucas linhas o que a minha memória de rapazinho registou naquela aldeia específica naquela altura: olhares furtivos e portas a fecharem-se quando os forasteiros passavam. Depois, quando o contacto se proporcionava, as pessoas eram afáveis, e nunca fui corrido à pedrada, nem me largaram os cães. Do que lá se comia nos dias de visita também me lembrei agora: sempre chanfana (carne de cabra velha previamente mergulhada em vinho tinto durante dois ou três dias) como nunca mais consegui comer em lado nenhum.
EliminarContaram-me de um livro que se chama "Três Transcendentes Teresas" e que conta a seguinte história: Existe um vortex fátuo (tanto quanto um vortex o pode ser) de onde são distribuídos os destinos de homens, sítios e vontades. Uma perturbação nesse turbilhão origina três vilas e três Teresas que alternadamente se encontram, originando as nove correspondentes historias. Explora a natureza do "onde", a oferta dos genes e o papel da aleatoriedade . Já ouviram falar neste livro?
ResponderEliminarIsso mais parece um travalínguas do género de os(as) Três Tristes Tigres. Trata-se de uma trindade, que hoje se vulgariza nas troikas: em vez de P's (PPP) são T's (TTT); ambas (PPP e TTT) no mesmo vórtice, com a diferença no 3x3 das TTT e 100x100 das PPP, mas o mesmo poder de escoamento giratório e de sucção.
EliminarNunca ouvi falar desse livro, mas isso não interesse para o bem da Humanidade e para colmatar o deficit; como também sou alérgico a turbilhões atmosféricos e poços de ar quando viajo de avião, não contem comigo.
No entanto, é claro que aprecio a divulgação do João Courinha, para não morrer estúpido.
Boa noite, ou "boa noute ..." como dizia o Melo, já que se fala de anos 60.
ResponderEliminarCheguei agora, fatigado de um dia inteiro a lutar pelos caminhos, para chegar a locais remotos e inimagináveis quanto belos, sempre com a tracção do Land Cruiser ligada (nem pensar em usar a Hilux ), debaixo de chuva diluviana. Conheci um personagem fantástico, desses que há quem julgue só existirem nos livros do Conrad , Hemingway , sei-lá-eu ... com 71 anos e sobrevivente a todas as guerras, me contou tantas histórias de uns anos 60 mais para o Paulo Oliveira que para as minissaias Lisboetas.
Ele há coincidências do diabo!!!!
Mas o que queria dizer-vos é o seguinte:
O quanto gostei de Vos ler, e às lembranças de cada um, no que é um exercício vivo e da vida, das pessoas que sois e somos. Nem imaginam o que significa este bocadinho e o ler-Vos apenas, sem obrigações, e o saber que há gente esclarecida ao meu alcance, pela net .
Nem calculam o que constitui para um cérebro devastado por coisas que difícilmente se imaginam, chegar aqui a esta autêntica praia
Saudações trovejadas e sacudidas do Planalto Central
Saudações de Lisboa.
EliminarIsabel