Presente!

Sou há pouco tempo editora do escritor Mário Cláudio e, embora nos vejamos raramente (ele vive no Porto e eu trabalho em Lisboa) – e os nossos encontros sejam, em regra, breves –, a verdade é que, quando nos reunimos, aprendo sempre alguma coisa com a sua experiência e a sua inteligência (perdoem-me a rima, mas para estas palavras não há sinónimos). Há uns dias, ele fez-me reparar numa coisa a que ainda não tinha prestado atenção – e estava, de resto, bastante indignado ao partilhá-la; dizia-me que hoje, quando as pessoas falam de Agustina, usam o passado, como se ela tivesse morrido (fez noventa anos em 15 de Outubro e não publica há uns tempos, mas, caramba, está viva); e contou-me que, num colóquio recente, os participantes, mesmo diante da filha, falavam de Agustina como de alguém a quem, efectivamente, já não corresse sangue nas veias, o que – imagino – deve ter sido bastante incómodo. Fiquei, por isso, muito contente quando nesse mesmo dia fui ao Facebook e tinha um convite do editor Vasco Silva, da Babel, para gostar da página de Agustina Bessa-Luís; e, quando fui lá pôr o Gosto, tive o brinde de um belo cabeçalho com a frase Longos dias têm noventa anos numa clara alusão ao aniversário da escritora, evidentemente, mas também a um dos seus livros de que mais gosto (Longos Dias Têm Cem Anos), cujo exemplar já se está a desfazer na minha estante de tão manuseado. Os bons escritores – entre eles, Agustina – estarão vivos até depois de mortos; e, mesmo então, terão – parece-me – todo o direito ao presente do indicativo.

Comentários

  1. É, de facto, uma das tragédias atuais. Resulta dos avanços da medicina: o soma pode hoje ser mantido até próximo da idade centenária mas a psique muitas vezes não e, a este respeito, a ciência pouco tem ajudado. Com a nova farmacologia e os "bypasses" cardíacos tornou-se possível prolongar a vida vegetativa do nosso corpo mas pouco se pode fazer pela preservação da fisiologia da mente quando esta desaparece. Naturalmente, há modos mais elegantes e menos elegantes de tratar publicamente este drama. Mas objetivamente...

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    1. O costume. Há quem goste de falar, ou pior, de insinuar sobre o que não sabe. Quem afirma ou insinua (o que é pior) que a escritora Agustina Bessa-Luís vive num estado vegetativo, à custa da farmacologia, sem vontade nem querer, quem sabe até num estado de demência, ou está na ignorância da realidade, e ainda pode ter desculpa, ou então...

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    2. Não disse que a senhora estava em estado vegetativo, nem nada insinuei. Fiz um comentário não personalizado. Pensei que as opiniões eram bem-vindas neste blog. Lembrei apenas que os atuais "milagres da medicina" têm consequências, naturalmente não intencionais, que roubam dignidade aos últimos anos de vida de um número substancial daqueles que atingem longevas idades. A nossa condição não é a dos cidadãos do "Brave New World", morrendo em excelente forma e após um único e fulminante ataque cardíaco. Neste único aspeto, que se refere à saúde e à morte, antes fosse essa a nossa condição ! Achei relevante assinalar, a propósito da questão em apreço, que se trata de um problema que potencialmente nos afetará a todos, direta ou indiretamente, à medida que vamos ficando velhotes. Alguém quer "viver" dentro de um corpo já abandonado pela alma ? É que, cada vez mais, a morte surge num corpo idoso que a medicina consegue manter vivo por vários anos mesmo quando está cientificamente comprovada a destruição da estrutura física, o cérebro, que sustentava o espírito. A medicina progride e a longevidade média sobe, mas...

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    3. Fico satisfeito com o seu esclarecimento, quando diz que o seu comentário não tinha destinatário personalizado. Só vim à liça poque o tema base do post da autoria da Drª Maria do Rosário Pedreira é a escritora Agustina Bess-Luís, e o seu comentário poderá criar confusão em quem o lê. Esclareci, permiti que pudesse clarificar, e assim os leitores deste site puderam ficar mais esclarecidos Ainda bem.


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  2. E, já agora, parabéns por ser editora do Mário Cláudio. É um grande escritor. Ele e o Mário de Carvalho estão num grupo à parte pelo modo inventivo e, ao mesmo tempo, canónico com que tratam o português. Para além dos livros, tive a alegria de assistir a um ciclo de conferências que ele deu aqui no Porto sobre escrita literária e sobre escritores nacionais que foi um assombro. É que nem sempre quem escreve superlativamente bem, comunica de uma forma tão interessante como o Mário Cláudio. Lembra, com imensa saudade, as conversas que Saramago tinha com os seus leitores: uma inesgotável capacidade de comunicação. Mesmo utilizando uma linguagem erudita, em ambos as palavras surgem em constante fluidez. Deve ser mesmo um grande prazer para si ter esses encontros periódicos com o Mário Cláudio!

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  3. Também coloquei, no dia do seu aniversário, uma foto da escritora com o título: PARABÉNS! Exatamente por esse motivo.

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  4. António Luiz Pacheco8 de novembro de 2012 às 03:27

    Sem dúvida que os escritores sendo daqueles que das leis da morte se libertam, continuam vivos em cada livro impresso e que seja editado.

    Mas se calhar nem todos o compreendem, e dão como "morto" aquele que desapareceu físicamente ou que não publique,,,

    Saudações do Planalto Central tendendo para Luanda amanhã de madrugada...
    Vou tentar ir à Lello que é mesmo ao lado do nosso escritório central, ou até mesmo à livraria do Belas Shopping ... até estou em pulgas!!!!

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  5. Gostei muito do seu texto, como é habitual.
    Agora que me sinto no meio da vida, parece-me que compreendo melhor os dois mundos das extremidades. E não estão assim tão distantes como me parecia quando tinha 20 anos. Todos já fomos bebés, como canta a Adriana Calcanhoto, e todos seremos velhos, um dia. E as crianças que fomos ficam connosco. Há dias em que elas estranham o adulto em que nos tornámos. Pelo menos a criança que fui/sou faz isso.
    Quanto à Agustina, está na minha lista de autores que hei de ler. E agora já sei por onde começar (se estiver na estante lá de casa).

    Não tem nada a ver com o assunto, mas poderá interessar já que por aqui se tem discutido a leitura em livro/e-books. Saiu um documento da OCDE sobre e-books muito interessante, para quem acompanha estes mercados: http://www.oecd-ilibrary.org/science-and-technology/e-books-developments-and-policy-considerations_5k912zxg5svh-en.

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