Pré-presidente
Correndo o risco de desagradar a alguns dos leitores deste blogue, confesso aqui abertamente que não tenho qualquer simpatia pelo actual presidente da República e nunca me comoveu a sua história de self-made man difundida pelos seus eleitores para que, pelo menos, o admirássemos; não nego, mesmo assim, que durante muito tempo o achei uma pessoa séria, embora a minha opinião se tenha manchado com aqueles juros altíssimos dos seus investimentos no BPN (quando a esmola é grande o pobre desconfia), mas nisso também não serei muito original. Jorge Sampaio foi um presidente mais ao meu gosto, admito, alguém que não apareceu na esfera da política só depois do 25 de Abril e suficientemente culto e informado para não meter gafes, não contar piadas sem piada, não se desculpar com os netinhos por não estar onde era preciso e, sobretudo, não dizer que a mulher tem uma reforma de caca ou outros dislates do mesmo tipo a pessoas que ganham o ordenado mínimo ou estão desempregadas; sério também ele, teve além disso a coragem de demitir um governo que, a esta distância, se calhar até era menos incompetente do que o actual (que o que decide à terça altera à quinta, pensando melhor por outras cabeças). Desconhecia até recentemente que Sampaio mantinha uma espécie de diário desde jovem – e foi com esses muitos caderninhos como base que o jornalista José Pedro Castanheira lhe traçou agora a biografia que, longe de ser apenas uma «vida», é a história de Portugal (e não só) com ele como protagonista. Mas atenção: o livro que saiu é apenas um primeiro volume, que vai até à sua entrada na Câmara de Lisboa como presidente; o resto – creio que a parte que melhor conhecemos, mas, nestas coisas, nunca se sabe – será objecto de um segundo tomo. Para quem se interessar, uma vida cheia e inspiradora.
O que eu amei este texto...
ResponderEliminarMas pior do que o seu silencio actual, foi o seu silencio durante a era de Sócrates... Ele até era professor de Finanças!!!!
Eliminara mim não me desagrada nada, Rosário.
ResponderEliminaraliás o seu silêncio na situação actual diz quase tudo da personagem.
a biografia será de certeza interessante, pelo menos a parte dos anos sessenta e setenta, mas mil páginas (?).
E então se o pobre é economista, ai desconfia, desconfia! Só que não se importou...
ResponderEliminarEu também não fiquei desagradado e concordo absolutamente. São realmente figuras com estatura muito diferente.
ResponderEliminarMaria do Rosário, como fico contente por ler este texto aqui hoje!
ResponderEliminarAinda hoje de manhã me interrogava sobre o que vai ser preciso fazer para que a nossa classe política deixe de ser a vergonha que é, com declarações contraditórias todos os dias. Nasci depois do 25.04 mas estou bem consciente do que se passou nos últimos 25 anos, e não entendo como se pode dizer e fazer tantas barbaridades saindo sempre impune.
E o nosso presidente, que devia ser o vigiliante do povo que o elegeu, esconde-se atrás do Facebook e de algumas palavras e poucos (nenhuns) atos. É mais uma vergonha para o nosso país.
Fiquei com imensa curiosidade em ler a biografia agora publicada. Há cerca de duas semanas, JS deu uma entrevista na sic-notícias de que gostei muito. Tive saudades do tempo em que foi presidente. Enérgico, elegante, cosmopolita, destemido, preocupado mas não catastrofista, realista porém sensível. Um estadista. Falta-nos tanto alguém assim...
ResponderEliminarMarta
Partilho as duas opiniões, que acabam por ser consequência uma da outra, ou melhor consequência de acreditar no que representa realmente um Presidente da Républica. Que nunca poderá ser apenas mais uma linha no curriculum de um self made man.
ResponderEliminarFiquei curiosa com essa biografia.
Corremos sempre o risco de desagradar ou nos desagradarmos, mas suponho que seja esse o custo de viver numa sociedade livre. Por outro lado sendo esclarecidos, esse desagrado é antes de tudo a prova da diversidade e liberdade que devemos cultivar.
ResponderEliminarCreio que as biografias das figuras ditas públicas(sejam elas do vector da sociedade que sejam) são sempre um contributo para a história e a sua compreensão num dado momento. Para mais um presidente da república que goste-se ou não, queira-se ou não se queira é a primeira figura!
Não foi meu presidente mas isso é outra história, e aliás este também não é... ainda por cima nem sequer é culto, refinado, cosmoplita... como alguém definiu o outro.
Saudações do Planalto Central
Concordo com a Rosário numa coisa e discordo noutra. Ela terá as suas razões, que bem explicou, eu tenho as minhas que nem sequer vou explicar.
ResponderEliminarNão gosto do actual presidente da República - nisto, há acordo; não gosto do anterior presidente da República - nisto, discordamos.
Ora, posto isto, sabendo que um e outro dos supra mencionados tiveram coisas boas, más e piores (mas nenhuma óptima), vamos ao que interessa: a biografia.
Confesso que sou dos poucos que não estão interessados em biografias; mas menos interessado ainda nas biografias antecipadas, quando o biografado ainda continuará a contribuir para o volume, quando este já publicado; detesto quando as biografias, que se dizem "auto", são escritas por um terceiro com base em "apontamentos" de pessoas vivas.
Que querem?! Sou um desalinhado. Tanto assim sou que, ainda recentemente, me foi proposto fazer uma biografia de uma personalidade de Sintra, ainda viva (felizmente), com recolha através de entrevistas e recortes e eu disse "nim", para dizer "não" logo que venha o assunto novamente à carga. O biografado tem uma riqueza curricular fantástica, está ligado à Igreja e a grandes obras, é uma figura com quem mantenho óptimas relações... Mas, lá está! Não é o papel que eu quero na peça.
Por isso, por tudo isso e por mais aquilo que disse à entrada deste comentário, não me interessa o livro. Se lá está a História de Portugal, em todas as possíveis e pretensas biografias de cidadãos - incluindo os que nasceram depois de 25 de Abril, como a Vespinha - há História de Portugal e, esta, numa perspectiva ocular e vivência personalizadas.
Livros escritor pelo próprio para publicar em vida, só narram o que lhes interessa, defendem as suas fraquezas e enfatizam as suas virtudes; escritos na última fase da vida, então, lembram-me o rifão - é como o Ti Raposo, quanto mais velho, mais baboso.
Nem livro nem Sampaio, que me chegou a dizer pessoalmente que não lia o jornal - e muito menos o meu trabalho - onde eu, quase semanalmente, o criticava.
Nem livro nem Cavaco, por tudo o que se viu já e o que (não) se vê e pelos comentários que ele não lerá no jornal onde eu criticava - porque o criticaria, zurzindo bem - porque já não colaboro ali.
Concordo inteiramente com esta análise.
EliminarNo meu blogue já escrevi sobre esta nova moda das biografias de pessoas vivas, que não só as autorizam, como ainda fornecem os elementos para a sua realização. Critério que, a meu ver, lhes retira parte de credibilidade.
Independentemente de considerar que em Portugal não há virgens na responsabilidade - todos temos responsabilidades no estado a que o país chegou, seja através do sistema político que caucionamos, da nossa falta de participação, da nossa falta de sentido crítico construtivo, da nossa fidelidade canina a grupos, grupelhos, clubes, partidos e partidas, da nossa falta de imposição de accountability , …)
ResponderEliminarVerdade que, uns mais, outros menos.
Uns por acção, outros por omissão - a maioria silenciosa que só se ouve quando os seus «privilégios pessoais» são postos em causa ou situações limite acontecem (valendo este tipo de juízos o que vale, muitas vezes apenas percepções contaminadas por terceiros e mensageiros, já que em Portugal faltam muitas peças aos puzzles para se perceber, na íntegra e a cores, a real responsabilidade de cada um nas coisas da representação – infelizmente muitas vezes com sentido conotativo).
De Sampaio já tinha lido «João Gabriel, Confidencial – A década de Sampaio em Belém, Lisboa, Prime Books , 2007.»
Destaco, como curioso, da sua última intervenção no espaço público, o seu: «aí, arrebenta, arrebenta!»
Obviamente que (salvaguardado o apreço pela sua «carga cultural») esperava mais dele antes e depois, como de todos os que se querem afirmar como estadistas, senadores ou representantes do povo: o exemplo da parcimónia de ex-gabinete e de mordomia, a emulação que faz o estadista. Nesse aspecto Eanes, o general sem medo, o «não posso rir que fique feie !», é na linguagem cifrada de uma geração de adolescentes, «muito mais à frente!»
E não é que arrebenta, sim senhor, sempre, pelo lado dos mais fracos!
Eu também não acho que precise de ler a História recente de Portugal pelos olhos de Jorge Sampaio. Além disso, acho que se deve acabar com esse preconceito de que alguém que apareceu na esfera da política antes do 25 de Abril é melhor do que alguém que apareceu depois. Vai no sentido da pergunta que Mário Soares fez a Freitas do Amaral, num Frente a Frente, nos anos 80, que era, mais ou menos: "E o que é que o senhor fez pela democracia?" Achei-a indecente e injusta e julgava que já tínhamos ultrapassado essa fase. O 25 de Abril deu-se há quase 40 anos!
ResponderEliminarP.S. (Para quem lê demais nas entrelinhas) Isto não é um manifesto a favor do Cavaco.
No geral, tem razão. Mas eu tenho, se calhar pela idade, mais confiança em quem efectivamente lutou para que eu hoje pudesse escrever estas coisas. Houve muita gente que entrou na política depois com nível, evidentemente, e não podem caber todos no mesmo saco. Mas um senhor que foi fazer a revisão do carro e se tornou de repente dirigente de um dos maiores partidos (bem sei que não o estava a defender) não me oferece nenhuma espécie de segurança em termos do seu interesse pelo bem colectivo. No texto, a comparação era entre os dois, mas, no abstracto, concordo consigo.
EliminarNão me desagrada de forma alguma. Dou-lhe antes os meus parabéns pela coragem que demonstra.
ResponderEliminarFalta na nossa classe política actual a coragem de defender um povo que o elegeu.
Não votei neste partido... neste governo... nesta pretensa refundação (não será antes enterro?) do estado social.
Faltam políticos que entendam o significado real de um Cursus Honorum.
Ainda hoje, passados que estão mais de dois mil anos, as Catilinárias estão actualizadas.
Basta ler para compreender... que para se ser bom politico é necessário ter uma espinha dorsal... recta.
Todos dizem(os) mal dos políticos, mas o que precisamos é disso mesmo, de políticos. O atual PR é só mais um economista.
EliminarSampaio, excelente, culta e séria pessoa. Só é pena ter uma expressão oral tão enrolada e tão pouco direta ao assunto que quer comunicar. A falta de acutilância no discurso prejudicou-o e prejudica-o. Dá e deu sono. Com mais profunda cultura e vivência, continuo a preferir Mário Soares mesmo com o seu radicalizado discurso de hoje em dia. Mas a radicalização do pensamento é uma fatalidade biológica em pessoas de idade avançada que tiveram uma vida de muito pensar. Interrogo-me, como outros neste blog: não sou da família, não sou historiador, porquê ler mais de um milhar de páginas, sobre a vida de um político mediano, com tanto Tolstoi que me falta?
ResponderEliminarArtur Águas
A diferença entre Jorge Sampaio e Cavaco Silva é, basicamente, a diferença entre uma pessoa e uma não-pessoa. Todos conhecemos exemplares desta última, triste, subespécie. Não trazem grande mal ao mundo, coitados. Limitam-se a existir. O que é inaceitável é ver um deles chegar ao cargo de mais alto representante de uma nação.
ResponderEliminarInteressante (para não variar) a conversa!
ResponderEliminarEu também não preciso de ler a história de Portugal através de Sampaio nem de ninguém, sobretudo a contemporânea pois faço parte dela!
Mas, julgo que para quem um dia mais tarde queira sentir o pulso, medir a história num dado momento passado, à luz dessa altura, importa sim ler então estas e outras memórias, diários, biografias, cartas... e convém que sejam de pessoas cultas, embora não só!
Porque assim se pode compreender o momento e nalguns casos entrever explicações no futuro.
Julgo portanto serem importantes estes contributos. Pessoalmente tenho encontrado muita informação útil neste género de documentos, para todo o tipo de fins.
Sim, dou-lhe razão. Um contributo destes é importante para o futuro. Dou meio passo atrás e admito que será um útil livro de pesquisa.
EliminarDesengane-se quem ache conhecer a sua contemporaneidade, só porque nela existe e interage.
EliminarA contextualização serve muitas vezes (especialmente hoje em que se sofre tantos estímulos) para criar uma falsa ideia.
Quantos de nós se acham preparados e informados?... apenas para cair num rotundo engano.
A história escreve-se sempre (há excepções, claro) passados alguns anos quando se sofrem os efeitos das medidas tomadas... dos acontecimentos vividos... dos enganos ou acertos cometidos.
Basta pensar nos derrotados do seu tempo que foram redimidos no decurso dos anos.
EliminarStravinsky = Vencedor do seu tempo
Mahler = derrotado e ridicularizado no seu tempo/ amado e ovacionado cinquenta anos depois...
Muitas vezes a história prega-nos destas partidas, nem sempre a imortalidade escolha a quem os augúrios tanto favoreceram.
Meu Caro Víctor Ferreira, a história escreve-se depois, sim, mas tanto para a escrever como para a entender, tem de saber qual o sentir/pensar do momento em que ela ocorreu.
EliminarE isso só se faz com recurso às fontes da época, pois que o pensar na época de 70 era bem diverso do de hoje...
Fala em compositores e eu respondia-lhe com Galileu... por exemplo!
Mas falamos sobretudo de história e aí a coisa é diferente, normalmente quer a história antiga ou a moderna foi escrita pelo vencedor e impera o seu ponto de vista, jamais o do vencido... no entanto (e me corrijam os especialistas) isso vem mudando, pois que a qualidade e até o grau de fidelidade dos documentos e fontes para a história contemporânea, creio que tornam possível hoje em dia uma outra forma de abordar a história que não apenas na óptica do vencedor... muitas vezes o vencido tinha razão! Ou pelo menos as suas razões e é isso que interessa para nos conhecermos e evoluirmos, saber das razões e não apenas das do vencedor!
Saudações do Planalto Central
Ler Sampaio não será só ter mais um contributo para se conhecer a história. Acontece que ele próprio foi protagonista dessa história, e como tal há decisões que ele tomou que só ele poderá explicar...
EliminarC.Rodrigues
EliminarCaro Senhor Luiz Pacheco,
Os seus reparos (acertadissímo no exemplo de Galileu) só atestam o meu pensamento.
Queria apenas dizer que só porque vivemos nesta época e contexto, não significa que tenhamos uma correcta ideia do tempo em que vivemos.
Basta pensar nas diferentes opiniões de cada um... e nos projectos e construções civilizacionais que cada geração contribui para este nosso percurso enquanto espécie.
Saudações minhotas...
Como popularmente se diz, penso que estão bem um para o outro...
ResponderEliminarO Cavaco é uma aventesma , o Sampaio é um homem banal às cavalitas de uma classe politica que envergonha o género humano mas, mais grave do que isso tudo, existe uma biografia do... tã tã n tã tã n... Salgueiro Maia! Se sempre quis saber tudo sobre a vida de um Average Joe , sem ter que despir o robe e ir ao café falar com o Sô Esteves sobre a pescaria aos safios, esta é a sua oportunidade! Mais de 1000 páginas sobre o que qualquer pessoa faria naquelas mesmas circunstâncias ! Sem emoções, sem sobressaltos , sem porra nenhuma que se possa dizer notável ou surpreendente!! E depois ainda pode dizer aos amigos que sabe tudo sobre "um grande senhor que nos ofereceu a democracia"! Ah se o Stravisky tivesse conhecido o Salgueiro Maia ou o Cavaco...
ResponderEliminarJoão, quando falas em Salgueiro Maia, queres dizer Sampaio, não é?
Eliminarcaso contrário, como é que o Capitão de Abril aparece no teu comentário?
Sim, também gostava que esclarecesse se esse "Average Joe" e essas 1000 páginas sem emoção se referem ao capitão de Abril, ou ao Presidente dos Socialistas.
EliminarIsto não era sobre biografias? O Salgueiro Maia tem uma enorme, tão enorme quanto desprovida de interesse. Se quiseres entrar num debate sobre o valor do senhor, não percas muito tempo com isso que eu hoje não estou para ai virado. Um abraço!
Eliminarpensava mesmo que te tinhas enganado.
Eliminarporque o Salgueiro Maia parece aparecer do nada.
em relação ao valor das biografias e dos biografados, é sempre relativo.
Creio que muita gente que passa por aqui não se desagradou com o seu texto. A liberdade de expressão é mesmo assim: respeitar a opinião dos outros concordemos ou não.
ResponderEliminarEu concordo com o que escreveu. Jorge Sampaio deixa saudade na presidência e saudade em muitos portugueses, que numa situação difícil necessitam de uma voz de poder que os defenda das investidas - de Cavaco Silva recebemos silêncio.
Esta será uma biografia interessante, de alguém que faz parte da História Contemporânea do nosso país e sobre ela deixa uma marca interessante.