O que ando a ler
Hoje é dia de dizer o que ando a ler. Pois bem, a Assírio & Alvim está a reeditar toda a obra de Almeida Faria. O seu primeiro romance, publicado em 1962, quando o autor tinha apenas 19 anos, acaba, de resto, de sair. Rumor Branco, tão diferente de tudo o que fora escrito até à data (e ainda hoje moderno), foi uma espécie de bomba nas letras nacionais, pouco habituadas às transgressões gramaticais (ausências de pontuação, minúsculas a seguir a pontos finais...) e a certos «maneirismos» (foi assim que alguns críticos lhes chamaram) que faziam pouco caso de uma história no sentido tradicional e impunham, em vez dela, fragmentos com um protagonista (Daniel João), nos quais não eram raras as rimas internas, as palavras cruas que na altura deviam soar ofensivas, certas ideias claramente anti-regime e muita, muita filosofia. E, por se tratar de uma escrita nova, novíssima, alguns intelectuais acolheram-na muito positivamente, noutros provocando, pelo contrário, irritação maior. O leitor tem a liberdade de fazer o seu próprio julgamento (o livro foi reeditado para ser lido ou relido, evidentemente), mas não deve perder, além do texto, a polémica que nasceu entre um seu defensor, Vergílio Ferreira (que assinou o prefácio à 1.ª edição) e Pinheiro Torres, o crítico que tentou, de algum modo, apequenar a obra, virando-se não contra o autor (a quem até reconheceu talento), mas contra o escritor que a apadrinhara (esta troca de galhardetes consta do volume agora editado). E nem interessa assim tanto saber se ganha o «existencialista» ou o «neo-realista», porque são absolutamente notáveis os textos de um e de outro, magnificamente cultos e escritos com perfeição, cheios de maldade ilustrada e recadinhos muito bem investigados, tudo coisas difíceis de encontrar nos tempos que correm, em que, salvaguardadas as excepções, as polémicas são mais pequeninas, mais mesquinhas e mais mal escritas. A ler de ponta a ponta, claro.
Diários, de Al Berto (Assírio & Alvim)
ResponderEliminarEncontro À Beira-Rio, Christopher Isherwood (Quetzal)
Narciso e Goldmundo - Herman Hesse
ResponderEliminarando a ler "O Rebate" de J. Rentes de Carvalho.
ResponderEliminarnos primeiros capítulos pareceu-me um pouco confuso, mas agora estou a gostar.
A viagem vertical - Enrique Vila-Matas :)
ResponderEliminar"Por minha mãe, eu seria andré, que assenta melhor em destino de macho." Assim começa 'Um Pinguim na Garagem', o livro que agora estou a ler. Muito bom, até agora.
ResponderEliminarJúlia,
EliminarDo mesmo autor, "A decadência dos olfactos", que li há tempos. Talvez menos intimista que o "Pinguim", até porque não está escrito na primeira pessoa, mas por outro lado também com uma linguagem irrepreensível, poética, sintacticamente perfeita como nem encontro nos monstros sagrados da literatura portuguesa (Saramago, Lobo Antunes, etc.). A história está muito bem trabalhada e envolve o leitor, que anseia por saber como tudo acaba. Muitas vezes durante o dia, ainda me lembro da Vilna, da Kaina e do Viktor, as personagens principais do livro. Ambos os livros me arrancaram sorrisos e lágrimas durante a leitura.
O feitiço de Xangai de Juan Marsé a Europa em crise do José Pedro Fernandes em que o Nicolau afirma no prefácio e eu aplaudo e corroboro: «Há outro caminho, estúpidos!»; o excelente Um Pinguim na Garagem do Luís Caminha e, para variar pouco, o Portugal e a Europa em crise, para acabar com a economia da austeridade, organizado pelo José Reis e pelo João Rodrigues: aqui, recomendo o texto, «A impossibilidade de uma economia amoral» do Castro Caldas, «A resposta bipolar da União Europeia» de António Carlos dos Santos e para terminar, «O austeritarismo, mutação do pensamento único».
ResponderEliminar«O feitiço de Xangai de Juan Marsé e a Europa em crise...»
EliminarContos Fantásticos, de E. T. A. Hoffmann, com posfácio de Théophile Gautier. Deste livro fazem parte os contos: O Morgadio, O Homem da Areia, A Mulher Vampiro (que irei começar hoje), O Diabo em Berlim (dedicarei a leitura deste conto à Merkel) e Inácio Denner. Apesar de não ter data, parece-me uma edição dos anos 60 do século passado, dos Amigos do Livro-Editores.
ResponderEliminarAcabei "O Sino da Islândia" de Laxness.
ResponderEliminarEstou a ler "O Rei do Monte Brasil" de Ana Cristina Silva e "Caderno de Mentiras" de Manuel Alberto Vieira.
Depois de muitos estrangeiros, leio nacionais.
P.S. "O Rebate" foi pensado, em primeiro lugar, como um guião para cinema. É por essa razão que a estrutura é mais fragmentada.
"Encontro à Beira-Rio" é um belíssimo texto sobre a identidade.
Há muitos livros que estão a sair agora e que só vou ter tempo de os ler no próximo ano. Rumor Branco, de Almeida Faria; Diários, de Al Berto; Cães de Tessalónica, de Askildsen...
Estou desejoso de pegar na obra completa de Rentes de Carvalho e ler, também, o mais possível de Afonso Cruz.
E que tal o Sino da Islandia? É um dos livros que estão à espera depois de acabar o excelente "Os cães e os Lobos" da Irene Némirovsky.
EliminarAntónio Almeida
belíssimo livro, António!
EliminarÉ muito mais do que uma história bem contada.
M
Sandokan e Bakunin , de Margo , e a dar luta.
ResponderEliminar"11/22/63" (ou seja, 22 de Novembro de 1963), que é uma "viagem" (no tempo) de Stephen King à época do assassinato de JFK e a alguns anos antes e depois, com 849 páginas de letra miúda na edição de bolso... que precisava de uma editora como a Maria do Rosário Pedreira para tornar o livro mais conciso e a narrativa menos vagabunda (no sentido português!).
ResponderEliminarLi hoje as primeiras 20 págias. E são as melhores vinte páginas que li nos últimos meses. Muito bom.
ResponderEliminargrande Paulo...É um Messi ou um CR7? :)
EliminarMario, nem sei que diga - percebo menos de futebol do que de literatura... :)Tendo em conta a idade, seria um Eusebio, não?
EliminarPaulo Bugalho, homónimo.
Eliminarahhhh!!!!!!!!!Ontem tive uma "discussão" com o Paulo Bugalho...um outro Paulo Bugalho :)... sobre os Messis e Ronaldos da Literatura, daí a minha pergunta. :D
EliminarEusébio é consensual. Foi uma boa resposta.
Abraço
M
Fui eu, Mário. Foi comigo. A correcção (homónimo) foi porque a minha resposta ao teu comentário vinha como anónimo. Um abraço.
EliminarAcabei de ler: Fun Home , uma novela gráfica de Alison Bechdel.
ResponderEliminarEstou a ler: Carnet de Voyage , um diário gráfico de viagem de Craig Thompson; depois de Paris, estou em Marrocos. Comecei a ler o Diário Afegão, um outro diário de viagem, este de Alexandra Lucas Coelho.
Quero ler a seguir, ainda não sei qual a ordem: Cal, de José Luís Peixoto; À Espera de Moby Dick, de Nuno Amado; Gare do Oriente, de Vasco luís Curado.
Um pinguim na garagem já está à minha espera numa livraria perto de mim. :)
Achei "FUN HOME" um livro fenomenal. Um dos melhores livros deste ano
EliminarTambém gostei muito, mas confesso que me deixou um pouco em baixo... muita vida real e nada cor-de-rosa. E já há em português. Li no original.
Eliminarsim, eu li em português.
EliminarÉ uma cacetada valente... :)
M
Parece-me que o Almeida Faria caiu na categoria de "escritor de escritores": pouco lido pelo público leitor em geral e frequentemente citado pelos seus colegas escritores. Ainda no fim de semana passado o Lobo Antunes, em Penafiel, confessava em entrevista para a Antena 2 que quando publicou a "Memória de Elefante" tinha consciência que havia gente da sua idade, e apontou o Almeida Faria, que escrevia melhor do que ele próprio o fazia. Ninguém questiona que o Almeida Faria é estilisticamente inovador mas o conteúdo narrativo dos seus livros não agarra o leitor, a não ser que este seja um artífice da palavra. Também temos hoje a sensação (estarei errado?) que Almeida Faria, sendo da mesma geração do prolífico Lobo Antunes, desistiu da ficção.
ResponderEliminarArtur Águas
Deixem passar o homem invisível do Rui Cardoso Martins. E estou mesmo a acabar. O livro é maravilhoso, tem um humor delicioso, mesmo como eu gosto! É, sem dúvida, um dos melhores livros que li este ano. Já tenho o "Se fosse fácil era para os outros" na calha e vou procurar o seu primeiro romance: estou certa que este amor é para a vida inteira!
ResponderEliminar"D. Estefânia Um Trágico Amor" de Sara Rodi.
ResponderEliminarEstou a terminar O Cemitério de Praga de Umberto Eco.
ResponderEliminarA seguir vou reler A Misteriosa Chama da Rainha Loana, do mesmo autor, para relembrar a Banda Desenhada que me empolgou no início da adolescência. As imagens que ilustram o livro transportam-me para aquela época. Também o deliciaram a ele, pelo que descreve, pois tinham passado na Itália em plena II Guerra Mundial. (UE tem mais cinco anos que eu).
As leituras aproximam-nos dos escrirores.
Carlos Reys
Carlos - "A MISTERIOSA CHAMA DA RAINHA LOANA", é um grande livro que adorei!
EliminarBOLAS!!!! E eu a ler coisíssima nenhuma... esgotaram-se-me os livros, e aqui não há livros de jeito para comprar!
ResponderEliminarEstou a estudar a composição da floresta de miombo por razões de trabalho... e é tudo!
Em aí indo, um que não vai falhar é Rómulo de Carvalho - António Gedeão, pela nossa Extraordinária Cristina Carvalho, sua filha.
Outros, logo se vê o que haja de novidades ou em carteira...
Mas vou-os seguindo...
Saudações pluviosas e florestais do Planalto Central
Li "Rumor Branco"há 67 anos.Também li todos os outros livros do Almeida Faria,escritor que muito admiro.Desde a publicaçã do seu último livro que o perdi.Vim por fim a encontrá-lo há uns meses na "minha" Arquivo,Leiria, onde esteve a falar do pintor Mário Botas.Reli então o seu 1º livro,tão actual ainda.Tivemos uma grande conversa sobre ele e a situação no nosso país
ResponderEliminarAconselho,quem o não conhece,a ler a sua obra,que vai ser reeditada.
O que ando a ler?Comecei hoje"O Feitiço de Xangai"de Juan Marsé,de quem também muito gosto.
Os textos da Rosário têm sempre um efeito estimulador – inspirador – motivador trazendo à colação, na espuma dos mesmos, aspectos muito interessantes que se distinguem da mera leitura (que já não é pouco!) das obras anunciadas das leituras extraordinárias. O parágrafo final dá uma ferroada na maldade ilustrada, nos recadinhos – hoje coisa de quem tem tempo de sobra - as polémicas - que são uma espécie de estímulos abraços de dialéctica estimulante dos contrários - e a mesquinhez. Sendo transversais a todos os tempos e lugares, são o corolário moderno da alusão da contenda entre neo – realistas e existencialistas - sujeitos de muita investigação e interesse como se comprova a seguir pelo que aqui trago como sachador da semente lançada à terra da Rosário. http :/ ler.letras.up.pt uploads /ficheiros/3044.pdfhttp :/ ler.letras.up.pt uploads /ficheiros/2994.pdfhttp :/ home.utad.pt ~aoliveir /nr_mascaras.pdf
ResponderEliminarHoje essa transversalidade das opções ideológicas e/ou éticas, parece ter ficado mesquinha e definitivamente capturada na política e no palco de assembleia, embora mesmo aí pareça, como nesta polémica, «florescer com exuberância equatorial…» - como a má erudição ou a escrita deficiente e segundo os padrões instalados. Florescência , no entanto, quase sempre com pouca substância e muito amarga, ficando as estéticas - em definho - para outros palcos.
Esta polémica, a que a Rosário alude, recordou-me um efeito muito em voga hoje em economia e finanças como o Herd – Behavior ou, portuguesmente falando, o efeito – carneirada - e o acriticismo a que a sociedade portuguesa se remete quando a crise não a afecta pessoal e directamente.
Nesse sentido, somos todos pais e filhos da crise, já que a perfeição não existe e o gosto é ele próprio «afilhado» relativo de tudo o resto. E a mesquinhez e a pequenez são, também elas, um sintoma de insanidade - característica, tantas vezes, de contornos fruto do desespero, da desdita, do amargo - e da indiferença.
No fim, só a amizade conta, a humanidade conta, o abraço conta.
O exercício de imaginação revela-se, assim, todos os dias sem complexos e sem absolutos, só o espírito aberto removendo todos os nossos demónios; demos que, em todo o lado, não devem ter mais sentido do que um enorme prazer lúdico quando não se confunde a ameaça com a busca fraterna da amizade.
Esta polémica a que a Rosário se referiu faz-me lembrar por outro lado a afirmação de sermos «o melhor povo do mundo».
Nenhum dos nossos actos tem de visar um fim, um objectivo, um interesse!
A existência também nos pede que nos abandonemos às vagas, sejamos neo -realistas, existencialistas ou não.
E embora nos falte às vezes a decência, a racionalidade, a calma, a ponderação, o respeito, a sensatez, a pontualidade, a polaridade, o civismo, a educação, a humanidade, a formação, a humildade, a honorabilidade, a disciplina, a vontade, a emulação, a solidariedade, a tolerância, a compreensão, a honestidade, a parcimónia, e tudo o mais de que não me recordo e que aparenta ser muita coisa, somos, sem quaisquer margem para dúvidas, indefectivelmente, «idiossincraticamente», o melhor povo do mundo!
Obrigado Rosário, pela chamada de atenção da polémica Vergilio - Pinheiro, com Almeida Faria com «risco» ao meio.
Nos finais dos anos 60 tínhamos no Liceu um prof que nos passava muito material extra-curricular, entre livros proibidos e as novidades mais estimulantes.
ResponderEliminarAlgumas deixaram-me marcas.
Há dias repesquei desse tempo Nuno Bragança “A Noite e o Riso” – que ando a reler com a sensação de ser ainda uma novidade e de novo estimulante.
Também como extra-curricular li, nesse tempo, Almeida Faria “Rumor Branco” – pode ser que, se calhar de o reler, desta vez me deixe marcas.
Pode ser.
Porque o extra-curricular é que foi importante nesses anos da minha formação, continuo receptivo a coisas que me deixem marcas.
A reler:
ResponderEliminarRaul Brandão: El-Rei Junot
As Luzes de Leonor
ResponderEliminarEstou a terminar "Venenos de deus, remédios do diabo" de Mia Couto e tive a companhia este mês de Jacques Prévert em "Paroles".
ResponderEliminarIsabel
a reler "O mundo de Sofia", de Jostein Gaarder
ResponderEliminarUma rectificação ao meu comentário.Li"RUMOR BRANCO"há 49 anos,quando foi publicado e não há 67.
ResponderEliminarNão sou tão velha assim!!!!Pertenço à geração do Almeida Faria.
As minhas memórias observam-me, de T. Tranströmer. A reler ainda Portugal, o Mediterrâneo e o Atlântico, de Orlando Ribeiro.
ResponderEliminarMarta