Calhamaços
Aqui para nós, confesso que ler um calhamaço na cama não me dá grande jeito e que andar com ele atrás está fora de questão: a coluna ressente-se logo e uma fumadora como eu chega ao último patamar das escadas a ofegar como se tivesse corrido cinco quilómetros ou mais. Mas, pelos vistos, os calhamaços estão na moda – e há quatro editoras que acabam de pôr na rua obras maiores em todos os sentidos, não querendo saber de quantos quilos conseguimos transportar ou suportar em cima do peito ou da barriga. Para começar, está aí finalmente A Piada Infinita, do escritor-mito David Foster Wallace, romance ora cómico, ora trágico, sempre complexo e, seguramente, notável (só li umas cinquenta páginas do original há anos e fiquei logo a saber que o meu inglês era insuficiente, por isso a notícia da tradução é tão boa). Depois, o único romance do Prémio Nobel da Literatura que tinha sido traduzido em Portugal mas andava arredado dos escaparates, Peito Grande, Ancas Largas, de Mo Yan, está de novo à disposição dos leitores que queiram conhecer a obra do nobelizado chinês. Em terceiro lugar, a obra magna que é Quarteto de Alexandria, de Lawrence Durrell, que muitos de nós lemos nos quatro volumes de capa branca (amarelecida entretanto nas estantes) da Ulisseia, apresenta-se agora num só tomo para os mais novos (que são também os mais fortes) lerem de enfiada – e são mil e tal páginas de intriga política e sexual na cidade egípcia que foi uma espécie de Paris no Médio Oriente. Por último, um grande (em todos os sentidos) ensaio de Antony Beevor, A Segunda Guerra Mundial, vem mostrar-nos como um tipo sem carisma chamado Adolf Hitler conseguiu chegar aonde chegou (e dizer-nos que os tempos que agora atravessamos têm bastantes semelhanças com esses em que a guerra na Europa eclodiu). Tudo muito interessante, tudo a ler, mas ai, as costas não vão aguentar...
para isso se fizerem os e-readers..para poupar as costas das pessoas heheeh
ResponderEliminarPois! Excelente sugestão. Os livros digitais constituem, a este nível, uma boa alternativa. A mim, pessoalmente, causa-me alguma admiração que um autor consiga conviver com as suas personagens durante tanto tempo. Um livro com oitocentas páginas implica um enorme dispêndio de tempo, de energia, de ponderação e de reflexão com o mesmo tema e com as mesmas figuras.
ResponderEliminarÉ necessária uma enorme força de vontade para não se cair na tentação, nestas circunstâncias, de alterar, subitamente, o enquadramento factual da narrativa ou de criar, a meio da trama, novas personagens.
Com o acordês - é extraordinária a falta de respeito pelos Leitores - tenho comprado no original, ou em tradução francesa - em formato digital: muito mais barato, não se aturam S más traduções, mas leve.
EliminarCorrigindo: Com o acordês - é extraordinária a falta de respeito pelos Leitores - tenho comprado no original, ou em tradução francesa quando o inglês é mais difícil - em formato digital: muito mais barato, não se aturam as mais traduções, mais leves.
EliminarO peso dos livros é uma questão importante: há peso e peso! Livros magrinhos que fazem mossa e largas lombadas completamente balofas.
ResponderEliminarO Quarteto de Alexandria é dos tais livros que devia permanecer separado.
ResponderEliminar.1 – Adoro livros grandes, pesados, volumosos… cartapácios, calhamaços… são como os carros, para mim têm de ser grandes, gosto de ter muito carro à minha volta, e gosto de ter peso nas mãos, de sentir UM livro… ou só leria revistinhas… Mas mais do que isso porque um livro é um amigo e a amizade quer-se longa, que dure e nos apaixone, absorva, ocupe!!!
ResponderEliminarAinda bem, e espero que volte a moda…
.2 – Dizer de Hitler que não tinha carisma… é brincar com uma coisa muito séria! O sr. Hitler era um iniciado, um teosofista que usou para o mal o seu saber e capacidades… levou atrás de si povos inteiros (sim não foi só o alemão) e ainda hoje tem seguidores, provocou o que se sabe… reduzi-lo é apenas menosprezar o adversário, e muitos se arrependeram disso na época! Não li o tal livro, mas se calhar é um truque para o promover… só pode! Tal disparate, como se diz nos Açores…
.3 – A frase de capa, “toca-nos no que há em nós de imutável”, também me parece uma frase- feita, vazia, redutora e até tola… o há em nós de imutável, é tanto e tão diverso… quanto Extraordinário!
Saudações Planáltico-centrais
também tenho alguma "alergia" a calhamaços.
ResponderEliminarnão é o número de páginas que define um grande livro. pode quanto muito definir um livro de peso. :)
promissor
ResponderEliminarJá li alguns comentários a «A piada infinita», e à epopeia que foi a sua tradução. Tenho alguma curiosidade em ler, apesar de temer que seja demasiado complexo para aquilo que estou preparada neste momento.
ResponderEliminarE gosto de livros grandes, muito! :)
Lembro-me do 2666 que li sempre na mesa da cozinha, a única mesa que tenho em casa, por ser insuportável de ler noutro local qualquer, devido ao peso.
ResponderEliminarJá não é a primeira vez que se fala neste espaço dos livros "gordos", como diriam os pequenos. E também não seria a primeira vez que digo aqui que adorei os seguintes calhamaços: "Belle du Seigneur" de Albert Cohen e "As benevolentes" de Jonathan Littell! Adoro livros com muitas e muitas páginas para arrastar o momento da despedida (quando são bons, evidentemente!!).
ResponderEliminarDos livros mencionados no post, apenas li "Peito Grande, Ancas Largas" de Mo Yan quando nem suspeitava que viria a ser prémio Nobel.
Isabel
«As benevolentes», muito bom.
Eliminar...é um a seguir ao outro
ResponderEliminarDezembro é o mês do Foster Wallace . Ler e escrever sobre o livro.
Janeiro é o mês do Durrell . Ler e escrever sobre o livro.
:-) Compreendo bem o seu incómodo. Uma sugestão: quando leio calhamaços na cama, recorro a uma almofada gorda. À cabeceira da cama uma maravilhosa almofada triangular, para leitores; sento-me, e, sobre as pernas dobradas, pouso a almofada e por cima desta o livro: fica um pouco afundado na almofada e deixa de agredir com o seu peso. Beijinho, continuação de boas leituras e obrigada pelas suas sugestões.
ResponderEliminarJá que estamos numa de partilhar as nossas opiniões sobre calhamaços, aqui vão duas minhas: foi um calhamaço o livro que me agarrou à leitura no início da adolescência. Foi "O Conde de Monte Cristo" que li porque o meu pai dizia maravilhas sobre as voltas e reviravoltas do seu enredo e eu, à medida que o ia lendo, tirava grande prazer em partilhar as minhas descobertas com os comentários dele. Descobri então que discutir um romance com quem já o leu ou está a ler é um dos prazeres ambulacrários à fruição literária. Entrado com estou em idade mais do que madura, arrisco a dizer que não teria a felicidade conjugal que tenho se a minha mulher não fosse uma grande leitora. Ela já leu "A Bela do Senhor" e adorou e eu ainda não tive coragem para lhe tocar, assustado pela sua extensão. Aparte terminado, acrescento que foi um quase calhamaço a minha grande descoberta literária deste verão: o "Liberdade" do Jonathan Franzen que é um retrato delicioso da vida familiar de classe média-alta americana, descrita com um olhar de imenso humor e ironia, confrontando ideias e obsessões de esquerda com o oportunismo de direita dos seguidores de Bush filho no início deste século. Cada página uma lição de inteligência, elegância e revelação ! Talvez até tenha gostado particularmente deste livro por ter vivido uma meia dúzia de anos nos states, já que a minha mulher o largou ao fim de umas vinte páginas. Mas confesso que tenho quase sempre alguma cautela antes de me aventurar à leitura de um calhamaço. Ainda não li o "Guerra e Paz" !
ResponderEliminarArtur
EliminarÉ a primeira vez que há referência a alguém que tenha lido a "Bela do Senhor"neste blogue...Que emoção eheheh!!
Vá lá, não se assuste e leia-o! Vai ver que é daqueles livros que apetece logo discutí-lo com alguém, nem que seja para se certificar que não é o único a ter ficado perturbado com o que lá está escrito. Reconheço que é difícil entrar naquele universo, mas quando se consegue, torna-se um vício!!
Isabel
Cara Isabel, com o meu espírito reforçado pela sua nova mensagem vou mesmo ter que me atirar à "Bela do Senhor". Mas antes vou ter que respirar fundo para ganhar fôlego. Obrigado !
EliminarVoltando aos calhamaços, eu e o nosso "extraordinário" Jocamartinho recomendamos a leitura de "A lenda de Martim Regos" de Pedro Canais...
ResponderEliminarIsabel
Deixem os calhamaços em casa se não querem andar com eles atrás. Não dêem é ideias às editoras, que agora algumas resolveram dividir os livros em 2 e em vez de pagarmos um livro pagamos 2. Estas situações são inadmissíveis e constituem um roubo!
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