As máscaras
Confessei um dia destes que estava curiosa e que iria ler – e cumpri. O Manel trouxe-mo num sábado e, assim que pude, deitei-lhe a mão. Duas noites bastaram para o começar e acabar, porque são pouco mais de cento e vinte páginas em letra de bom tamanho para quem já usa lentes progressivas há uns bons anos. Chama-se O Lago, assina-o Ana Teresa Pereira e é o romance que acaba de vencer o mais emblemático prémio literário português, o da Associação Portuguesa de Escritores. Uma certa estranheza acompanhou-me, porém, ao longo de toda a leitura: sendo um livro de uma autora portuguesa, tive a sensação de que estava a ler uma tradução e até a ver o que eu teria traduzido de outro modo. Ou a autora só lê praticamente livros ingleses – e se calhar até pensa em inglês – e, por isso, quando escreve é bem capaz de ter, ela própria, de traduzir mentalmente (palavras comuns como «representar» ou «falas» no contexto do teatro são quase sempre substituídas por «actuar» e «linhas», do inglês «act» e «lines»); ou a colagem à língua inglesa é deliberada, uma vez que a história se passa em Londres, com uma actriz e um encenador anglófonos, e todos os títulos das peças e dos livros referidos aparecem naquela língua, mesmo quando a tradução é usada correntemente em Portugal (Death of a Salesman, em vez de Morte de Um Caixeiro Viajante, ou Three Sisters, em vez de As Três Irmãs, entre muitos outros). Não posso contar grande coisa do enredo, porque este é um daqueles casos em que até um resumo muito breve estragaria o prazer da descoberta (o próprio editor pôs um excerto na contracapa, e não uma sinopse), pelo que o máximo que avançarei é que se trata de um romance sobre a relação entre o actor e a personagem que deve compor, sobre a personagem escrita e a sua materialização, sobre a criação de uma obra dramática e a sua construção posterior em palco. E também sobre a paixão e o medo, a entrega e a perda. Interessante? Sem dúvida. Já vi filmes e li livros sobre o tema de que gostei muito mais, é verdade, mas também é possível que estivesse simplesmente de pé atrás. Por isso, o melhor é lerem para tirarem as teimas. Coisa maravilhosa mesmo é não ter encontrado uma única gralha.
Bom dia Maria do Rosário e restantes confrades e compadres : - O LAGO - ora bem, como dizia o meu amigo Zé Gordo, se tiver tempo quero ver se não leio.
ResponderEliminarPois quem não ler, não sabe o que perde!
EliminarPara o compreender, talvez seja necessário conhecer a obra pereiriana!
Hum... um livro que nos faz sentir que foi traduzido, que nos leva para o universo da escrita - do autor - e não se limita a deixar-nos no da leitura...? Aguça-me a curiosidade, ainda por cima sem gralhas ;)
ResponderEliminarAna Teresa Pereira cria, ao seu redor, um ambiente muito próprio que atravessa toda a sua obra. Quando se pega num livro e se começa a ler é bom saber que ali vamos encontrar toda a envolvência, negra e sinistra, mágica e misteriosa, que a autora promove na sua escrita.
ResponderEliminarÉ voltar a um lugar/escrita seguro(a).
Gosto muito.
gostei da pertinência das observações.
ResponderEliminarnão vou ler. Li um dos seus livros e não o achei nada de especial (o verão selvagem dos teus olhos).
Sobre a Ana Teresa Pereira há um sítio que nos permite «descobrir» o seu universo, http :/ www.arlindo-correia.org 240301.html :
ResponderEliminar«Aprendi a ler quando tinha cinco anos e foi por essa altura que os meus pais me deram o primeiro gato. Os livros e os animais. Escrevia histórias de todos os géneros, aventuras, policiais, westerns. E havia os filmes. Eu seria outra pessoa se não tivesse visto The Night of the Hunter , Gaslight , quando era criança. Os meus livros são os meus filmes.»
Na literatura não deve haver peias, nem baias, nem fórmulas, nem juízos formatados. O universo literário, para quem ama verdadeiramente a escrita como forma de vida, deve ser aberto e senhor de muitos matizes. Não é autor quem pode, mas quem quer; e quem tem o seu próprio universo ficcional, seja ele público ou pessoal. A ficção somos nós. A propósito disto acabei de ler o «Um pinguim na garagem» do Luís Caminha, um escritor que encara a escrita como forma de vida e que termina o «Pinguim» desta forma:
«Mas tu, meu irmão, que também abominas o adestramento dos cavalos e as touradas, a criação desumana e a ignorância dos homens, far-me-ás a simpatia de cuidar deles?
Aqui, já não me parece que falasse dos cães que iria deixar, falava dos homens!
Adorei o "Pinguim na Garagem". É um livro de pele, sentido, inconformado, sobre o tema da identidade.
EliminarPegando no post da Maria do Rosário, também estranhei a escrita do Luís Caminha; não por me parecer traduzida, mas porque é muito particular, além de muito rica no vocabulário, na sintaxe e nos conteúdos. Parafraseando Lobo Antunes, eu também diria do Luís Caminha: ninguém escreve como ele.
Tenho muita pena que o autor não tenha publicado mais nada desde então. Seguia religiosamente o seu blogue literário, mas infelizmente ele decidiu fechá-lo.
Olá, Mariana.
EliminarEstá enganada. Do mesmo autor, encontrei na Barata (muito escondidinho, é verdade, e mesmo dos próprios empregados...) um romance de uma editora alternativa que saiu este ano: "A Decadência dos Olfactos". Muito bom. Se gostou do primeiro, certamente gostará deste.
Também estou tentado a ler "O Lago" porque a Ana Teresa Pereira cria ambientes únicos, estranhos, exóticos, oníricos, quase fora deste tempo. Tão estranhos que, por vezes, não consigo entrar na história e por isso já tenho abandonado romances seus que nunca são longos e que ela parece escrever compulsivamente, uns atrás dos outros, saindo pelo menos um praticamente todos os anos. Quando a leio, sinto-me em ambiências sentimentais extremas, como se fossem do antigamente, tipo "O Monte dos Vendavais". Vejo-a como se fosse irmã da Amélie Nothcomb cuja temática estranha e estilo literário me atraem bastante mais. "O Ponto de Vista dos Demónio" (belo título!), grande livrinho que reúne as suas crónicas no "Público" as quais essencialmente relatam as paixões literárias da autora, talvez dê uma chave sobre a colagem da Ana Teresa Pereira ao modo de escrever em inglês: os seus escritores favoritos são, na sua maioria, americanos e um bom número deles são autores de romances policiais ou de mistério. É mesmo capaz de só ler literatura em inglês, e pensar na mesma língua quando escreve, como a Maria do Rosário Pedreira desconfia. Li pela primeira vez alguns destes prosadores pelo fascínio que ela tão bem transmitia nessas suas crónicas. Que pena os jornais portugueses terem perdido o hábito de dedicarem vários espaços diários a crónicas elaboradas por escritores como ainda acontece, por exemplo, no El País".
ResponderEliminarNos livros que li da misteriosa senhora a ambiência tem sido relativamente uniforme: sempre uma Jane jovem, ou uma Kate , meio perdida e vagamente atriz e um Tom culto e mais velho que a leva para uma old cottage com um lago por perto e a penumbra húmida que se levanta dele invariavelmente. Muitas referências culturais britânicas, muitos livros e jardinagem. Não é improvável que volte a lê-la.
ResponderEliminarJá o tenho!
ResponderEliminarEu gosto da ideia de uma escrita mestiça ... Pode trazer um cheirinho ... Vou ler
ResponderEliminarVou dizer-lhe uma coisa importante , Maria do Rosário:
ResponderEliminarNão cometa o "crime de não voltar..."
Se a ameaça do seu ultimo verso fosse para valer, as rosas destilariam pelos espinhos uma dor tão lancinante e os búzios não quereriam mais falar-nos do mar; e isso é crime previsto no" código de penar".
Eu fico angustiado à espera, porque eu leio muitos livros, mas esta sua poesia é-me necessária, faz-me triste e a tristeza é um sentimento bom, liga-nos ao mundo e liga-me ás tristezas que eu trago comigo.
Se achar bem, demore aí uns cem anos, ou mil, mas volte com os seus poemas, se os não ler aqui, lê-los-ei noutra qualquer estação da vida...
Um abraço.
Faço minhas as palavras de Mário Ferreira!
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