Regresso ao passado

Já não sei há quantos anos – uma dúzia, pelo menos – me dedico com especial afinco à publicação de novos autores portugueses (novos no sentido em que estão a começar, isto para que Joca Martinho, leitor deste blogue, não pense numa espécie de «pedofilia literária» que sacrifique os menos jovens). Li, por isso, centenas de originais nas várias editoras por que fui passando; e é impossível, decorrido tanto tempo, lembrar-me de todos os textos que recusei e dos nomes dos seus autores, embora uma ou outra vez ainda apareça um título que toca uma campainha ou o início de uma narrativa que me parece um déjà-vu. Mas recentemente aconteceu-me uma história bonita. O meu colega Francisco Camacho acaba de publicar um romance do psicólogo Nuno Amado intitulado À Espera de Moby Dick. Fui atraída pela capa, que é belíssima, e mais tarde o João Tordo falou-me dele com imenso entusiasmo. Conhecia o nome de Nuno Amado de livros de não-ficção, pois publica também obras na sua área profissional; mas, francamente, não me dizia nada em termos de literatura. E não é que, quando o conheci pessoalmente, ele me confessou que eu lhe teria recusado há dez anos um livro, dizendo-lhe, porém, que, se a obra fosse tão bem escrita e interessante como a mensagem que a acompanhava, não teria hesitado em publicá-la? Nuno Amado confessou-me que eu estava coberta de razão e, por isso, deitou esse manuscrito fora e se deu tempo de amadurecer. (Esperou dez anos!) Agora, fiquei curiosa sobre o novo livro. É mais um para a minha já longa lista...


 


Comentários

  1. não deixa de ser curiosa a história do livro e a espera do autor, transportada para o título, ou não.

    fiquei curioso.

    tem tudo para ser um bom livro, já que a história foi amadurecendo, sem ficar esquecida.

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  2. E lá diz o Povo:

    -tardou mas arrecadou
    -mais vale tarde do que nunca

    Sinceramente, estou com curiosidade,
    mas aparece-me logo esta verdade: não podemos ler tudo!

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    1. E nos tempos que correm, comprar tudo...
      Infelizmente vou começar a ser mais criteriosa nos livros que compro. Pela parte que me toca já vou numa redução de cerca de 30% no vencimento. Nalgum lado terei que cortar. Agora apenas compro os que eu chamo "imperdíveis" e mesmo assim, este mês vou comprar os último do Lobo Antunes e do Sandor Marai, os dois livros do Rubem Fonseca que estão mesmo a sair, o livro de memórias do Transtromer , mais o "Não Humano" de um escritor japonês, da Eucleia que, se não encontrar, terei que encomendar- falaram-me muito bem do livro. Fora os que eu desconheço... Infelizmente não dá. Tenho imensa pena porque, volta e meia, eu descobria verdadeiras preciosidades nos livros que comprava sem grandes expetativas . Mas a realidade mudou: não dá para comprar tudo o que apetece. Nem mesmo os livros.

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  3. Hoje também retornei ao passado. Ao passado das leituras: não de Melville , mas de Roth . As chagas humanas e o terror das doenças junto com os sentimentos de perda, arrependimento e estoicismo, formam o conteúdo do «Todo - O - Mundo», 27 livro de Roth . Roth , Philip Roth », diria James , como James . James Bond !»
    Ainda me faltam alguns Roth 's»...muitos...mas nada que não «despache» da 1 às 4, para quem «despacha» 10.000 caracteres por dia. A minha maior luta, afinal, tem-me esgotado é na escolha das fontes quando impressas: o Garamond , o Georgia , o Verdana ...?
    A impressão com que fiquei deste «angustiante» livro, foi como um autor também se pode esgotar e ser esgotado na busca pelo Graal da originalidade e na exigência dos outputs , num mundo já coberto a várias camadas.
    Contínuo, assim, com o sabor do Truman Capote e da sua Tiffany's » nos lábios.
    Mais valia, como diria o outro, ter cavalgado o dorso de Dick , Dick . Moby Dick !», à procura de mim mesmo, ou sentar-me no sofá do Nuno Amado.
    É que foi terrível saber esta novidade pelo BookOffice :

    «I know there are some freaks of nature whose normal output is 6,000-10,000 words a day ».
    Pausa!

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  4. E não foi recusada a Proust a publicação do primeiro volume da Recherche por decisão do editor e com base num relatório de André Gide? E não teve Proust que custear do seu bolso a sua publicação numa editora desconhecida? Porque esperou Nuno Amado 10 anos? Fez mal. A meu ver, os livros, bons ou maus, publicam-se sempre, e o Nuno Amado não devia ter desistido. Mesmo os maus merecem edição de autor em papel ou na net. Nunca se deve ficar sujeito a uma única opinião, mesmo que muito profissional e muito bem fundamentada, é que na literatura nunca se sabe... Teria provavelmente demorado menos do que uma década a lançar este que é, pelos vistos, o segundo irmão de um livro nado-morto. Mas deve ser muito boa pessoa o Nuno Amado para confessar a ferida a quem lhe matou o primeiro filho à nascença.
    Artur Águas

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    1. Esta problemática sugere-me uma questão: os editores não reconhecem o talento de um escritor que ainda não amadureceu?

      Era bom que reconhecessem e, nesse caso, não se limitassem a recusar, aconselhando-lhe a apurar a sua escrita. Era bem mais motivador. Nuno Amado, por acaso, não desistiu (até porque a sua auto-estima era alimentada pelos livros de não-ficçãooque ia publicando). Mas não desistirão outros, depois de terem sido recusados por um editor de prestígio?

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    2. Eu tenho as mesmas interrogações sobre o valor potencialmente nefasto de um autor ver um livro seu recusado. Poucos escritores -- bons ou maus -- se dedicam à escrita por razões fúteis e superficiais; imagino que a maioria fará um importante investimento emocional na criação da sua obra, boa ou má que venha a ser. E assim, julgo que todo o escritor devia ter acesso facilitado à publicação, mesmo que essa seja de difusão limitada (hoje, com a internet, isso deixou de ser problema, quero eu dizer: a publicação no mundo virtual é facilíssima). É que aquilo que pode parecer impublicável a um editor pode ser uma obra de vanguarda ou simplesmente uma obra que está fora do seu tempo. Às vezes ponho-me a imaginar o que teria sido a evolução da literatura portuguesa da segunda metade do século vinte se o romance "Clarabóia" tivesse sido publicada no ano em que foi escrito...
      Artur Águas

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  5. Hoje passei pela Bertrand. Estava à espera que o stand me fizesse a entrega da viatura nova e não me apetecia ler o livro de instruções da "máquina", cujo parecia um dicionário da Porto Editora.
    Nessa breve passagem, calhou a reparar, ainda a alguma distância, na capa da baleia de cauda para o ar e li Moby Dick, que pensei ser mais uma edição de Herman Melville. No entanto, o nome de Nuno Amado chamou-me ainda mais a atenção: não seria decerto um amigo que assim assina, pois ele não se dedica à escrita; seria o banqueiro, que também assim assina, à volta da crise económica e financeira, qual baleia neste mar encapelado, sorvedouro de baleeiros e de baleias?
    Não podia ser um ou outro: o primeiro, o meu amigo, porque não anda em busca de si próprio, mas da estabilidade do emprego e de garantir o ordenado ao fim do mês; o segundo, o banqueiro, porque a sua busca gira por outro sistema solar, onde a moeda tem o poder do sol.
    Não conheço Nuno Amado, mas quero conhecer a obra. Confesso que não a comprei, até porque tenho a leitura do compêndio do automóvel; mas confesso que será a próxima compra, tanto que ela decorre do interesse que ora me surge pela coincidência de ver tratado este livro nesta sala de reuniões. Acresento ainda a confidência da Rosário sobre os 10 anos de espera do Nuno Amado (mais 3 do que Jacob à espera de Lia) - um homem em busca de si próprio ou "um homem em busca de um livro próprio" - e, entre ele e Ahab existe, em comum, uma tenacidade que apraz aqui registar e aplaudir. A tenacidade de perseguir uma ideia, uma causa, um fim. A diferença é esta: enquanto o capitão de Pequod não conseguiu os seus intentos e a sua busca foi fatal, Nuno Amado conseguiu encontrar a sua obra e, desta feita, um pedaço da Moby Dick vem para mim, na próxima compra.

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  6. Reli o meu texto depois de publicar.
    Acrescento que o "acresento" não tem o acrescento de um "c", o que passou na revisão. E aquela forma de escrever, sem o "c", parece ter passado aos iluminados do novo acordo ortográfico, pois não lhes passou pelo bestunto transformar acrescento em acressento - irra!
    Esta é gralha de "palmatória"; outras que lá existam, aí ficam a grasnar.

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