Portugueses em alta

Embora os Portugueses se auto-menosprezem e achem que tudo o que vem de fora é que é bom (não todos, claro, mas mesmo assim bastantes), não somos menos do que ninguém – e estou muito feliz por saber que a nossa literatura soma e segue. Há pouco tempo, fui brindada com a bela notícia de que a tradução francesa de O Bom Inverno está na lista de finalistas do Prémio Europeu de Literatura (que já foi ganho há uns anos por Dulce Maria Cardoso com Os Meus Sentimentos); e, uns quinze dias depois, leio com alegria que Lobo Antunes e Gonçalo M. Tavares são ambos finalistas do Médicis em França, que premeia o melhor romance estrangeiro (respectivamente pelas obras O Arquipélago da Insónia e Viagem à Índia) e cujo vencedor será anunciado já em Novembro. Mas não é tudo: o romance de Lobo Antunes repete a proeza na longlist do Fémina, prémio atribuído por um júri exclusivamente feminino a uma obra de ficção, para o qual concorre na mesmíssima posição a tradução francesa de Livro, de José Luís Peixoto, que, entre outras coisas, fala da emigração portuguesa em França. E, como se não bastasse, o romance A Máquina de Fazer Espanhóis, de Valter Hugo Mãe, é finalista do PT no Brasil. Com tanta coisa que há para lamentar, pelo menos em termos da nossa produção literária temos muitas razões para andarmos satisfeitos.


 


Comentários

  1. António Luiz Pacheco9 de outubro de 2012 às 03:09

    Bom dia!

    Será que os portugueses se menosprezam?
    Ou será que os portugueses ditos cultos é que bacôcamente se encantam com os estrangeirismos e depois não cultivam ou procuram na nossa cultura aquilo que ela tem e podia ser tão bem aproveitada?

    Precisamos de mais Welligtons ", e aquilo que li outro dia do novo livro da Cristina Torrão e me deixou com água na boca... e são cultura, nossa.

    Qualquer estrangeiro tem orgulho óbvio e ostenta a sua cultura - por vezes até de forma agressiva - olhem os nossos vizinhos espanhóis...

    Tenho corrido o Mundo inteiro e em situações tão diversas, dos portos de pesca às reuniões de grandes multinacionais... o desconhecimento que práticamente qualquer povo exibe sobre Portugal é confrangedor... bom os pescadores conhecem o Figo e o Cristiano Ronaldo... mas no resto não nos olham nunca como um povo que tenha "cultura".

    Chega a ser constrangedor... e o Henry the navigator é uma espécie de torre Eiffel, a roçar o kitsh ! Já tenho feito programas de visitas a alguém que me diz gostar de determinado assunto... já aqui relatei dos ingleses interessados em história e gastronomia, andando em Sintra a fugir do calor de Évora iam ser enviados por uma "agente de viagens" para o Allgarve ... e que eu desviei para o Minho - adoraram como depois reportaram!

    Creio que já referi ter passado umas semanas em Mali-Losinj na Croácia, e ao que assisti neste Allgarve do Adriático, onde exposições de pintura e outras artes locais estavam sempre patentes nos locais de passagem e de concentração... na actuação diária de coros, de música (do jazz ao clássico) em coretos e nas praças a seguir ao jantar, quando se passeia ou vai ao café... e aí o que temos? O super rock super bock ????? Que apenas celebra a busca de uns dias de libertação alcoólica e herbácea por parte de jovens selvagens urbanos...

    Mas há muitas culpas disto nas ditas gentes da cultura, digo eu que não sou um homem da cultura e se calhar estou bem posicionado para o aferir:
    - São chatos, pedantes e incompreensíveis... ostentam o maior desprezo por quem não é culto como eles e pensem do mesmo modo. São quem decide o que é cultura e não é, tendendo sempre para se afastarem do que é nosso e pendendo para o importado! Do Manoel de Oliveira ao Jerusalem (desculpem lá... mas já disse que não sou culto).
    Por isso no nosso país a cultura andará sempre de costas voltadas ao público, com as consequências óbvias e como afinal se refere neste tema que hoje aqui se trás e creio vai haver debate bravo!

    Não sou culto, mas também não sou popularucho, creio que reúno algum equilíbrio... quem lá fora conhece os nossos escritores? Quase ninguém... mas e os grandes pintores (Malhoa, Silva Porto, Amadeo ...) ou o Rui Veloso? E por aí fora.

    Saudações cá do Planalto Central!

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    1. Também nada sei do Wyoming, nem sequer apontá-lo no vasto mapa americano, nem dizer ao certo se a Estónia fica em cima ou abaixo da Letónia, ou da Lituânia. Como eu haverá muitos, mais ou menos letrados, e que se saiba, isso em nada afeta o valor cultural de cada um desses lugares, nem o orgulho que terão nele os respetivos autóctones. Resumindo, devemos talvez marimbar um pouco mais no desconhecimento que outros tenham de nós e fruirmos sem complexos a nossa própria cultura.

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    2. Eh!... Isto seria quase lapidar não fosse aquele "em cima". Em cima não poderá ser, certamente.

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    3. António Luiz Pacheco9 de outubro de 2012 às 08:03

      Justamente Extraordinário PO... justamente, e para isso há que conhecer primeiro o que temos de cultura, em vez de fruirmos directamente a dos outros! Porque não são só os outros, há entre os nossos, quem julgue e defenda que não temos cultura! E pior... quem dela se envergonhe, e, corra para Paris ou NW para "banhos de cultura" como já ouvi dizer...

      Saudações culturais cá deste lado do Equador!

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  2. Com exceção do Bom Inverno que ainda não li, todas a obras referidas são, na minha modestíssima opinião, merecedoras do prémio. São livros belíssimos que me deram imenso prazer ler. E vou aproveitar a onda para finalmente pegar no O Bom Inverno que tenho na estante, em espera, há largos meses.
    Parabéns a todos os nomeados!
    E é muito bom, sim, ver os nossos escritores reconhecidos fora de portas. Sinto um enorme orgulho e satisfação. Deveras.

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  3. Nem por acaso hoje foi anunciado que Afonso Cruz venceu o Prémio da União Europeia para a Literatura em que mais importante do que os 5.000€ é o incentivo à tradução para outros idiomas.
    Somos um país de grandes escritores, mas parece que tal só nos convencemos perante o reconhecimento estrangeiro, temos baixa auto-estima e é preciso de vejam de fora dizer que venham reconhecer o nosso valor.

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  4. Manuel Alberto Valente9 de outubro de 2012 às 10:19

    Há uma confusão neste texto, Rosário: o prémio a que o João Tordo concorre (Prémio do Livro Europeu) não é o mesmo que a Dulce Maria Cardoso venceu e que hoje foi atribuído ao Afonso Cruz (Prémio de Literatura da União Europeia).

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    1. Mil perdões aos leitores e obrigada ao leitor atento e informado.

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    2. Não há nada como a família...eheheheh!
      Isabel

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  5. Bom dia!

    Ouvi a sua participação no programa "Prova Oral", da Antena 3. Goste muito dos conselhos que deu aos aspirantes a escritores. No entanto, fiquei curioso acerca de uma coisa:

    disse que, hoje em dia, os escritores querem ser apenas escritors, ou seja, sem outra ocuação profissional. Isso é comum? Por exemplo, autores como Valter Hugo Mãe, João Tordo, David Machado... conseguem ganhar dinheiro apenas com a venda dos livros (se excluirmos o valor monetário de prémios)?

    Suponho que, por exemlo, para ganhar 10 000€/ano seja necessário vender cerca de 10 000 cópias de um livro, certo?

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    1. Os rendimentos nunca são apenas as receitas da venda dos livros. Estes autores escrevem para jornais, orientam comunidades de leitores ou cursos de escrita criativa, recebem por vezes encomendas de textos dramáticos, fazem palestras, enfim, tentam que toda a sua vida gire em torno da «profissão» de escritor. Infelizmente, só os que vendem muitos livros podem ser escritores em full-time... Mas são realmente poucos.

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  6. J. K. Rowling dá-nos a reposta para todos os nossos medos: «algum falhanço na vida é inevitável!»
    É curioso como o discurso de Harvard de JK Rowling fala «nos benefícios marginais do fracasso», num momento em que alguns Portugueses estão em alta na visibilidade literária (e, esperemos, em algo mais!), sofrendo colectivamente os mesmos portugueses os custos marginais de anos de «estadia em zonas de comodismo e conforto».
    Os nossos limites espantam-nos até a nós próprios e a vida é comprovadamente credora desse método de «partidas dobradas ou, no seu original, el modo de Vinegia».
    Preciosa, Rowling!

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    1. "J. K. Rowling dá-nos a reposta..." (!!)

      Tenham medo, muito medo!

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    2. Caro MCS , também não é caso para tanto receio; mas pronto, agradeço-lhe ter-me avisado da maldade de Volemort.

      «Volemort, dê lá vida aos "esses" que anda para aí a surripiar!»

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    3. Pedro, era apenas uma piada :-)

      Se ainda fosse: "Paulo Coelho dá-nos a resposta..."
      (pronto, pronto :-)

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  7. 1 - Os intelectuais tendem a ser snobs, sobretudo os de esquerda) ;

    2 - Em Portugal o meio cultural é o viveiro onde a pequena burguesia inventa uma origem aristocrática (sua grande obssessão - mimetizar-se com aquela classe social )

    3 - A pomposidade e afectacção do pessoal da cultura torna insuportável a frequência de eventos culturais em Portugal.

    4 - Como em tudo o resto, Portugal tem a nível cultural nichos de excelência mas, como em tudo o resto, são mínimos e a grande massa é formada de provincianos deslumbrados, Marias que vão com as outras, sem ideias próprias e baixo nível de auto confiança só dão a cara pelo que estiver estabelecido.

    5 - Portugal é uma merda. Não será a pior das merdas mas é uma merda.

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  8. Na juventude li muito e com prazer. Lia porque vivia numa terra de província onde não se podia ver TV. Não li para ser culto nem para adicionar vantagens ao meu currículo ou encher a boca com títulos nos jantares dos betos de esquerda. Li porque era a única escapatória. E agradeço à mecãnica das coisas esse contacto ( mesmo que forçado) com a literatura mas essa não é a minha natureza - sentar-me a ler se houver qq outra coisa que possa fazer. Mas sim, concordo, fica-se com um ar sério e "interessante" com um livro na mão e muitos na estante.

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  9. Em Portugal o que conta é QUEM faz não o QUE faz. Isto só é alterado pela excelência. O factor mais importante em Portugal para o reconhecimento de uma obra, em qualquer área, é a origem social e a rede de conhecimentos. Este mecanismo só é alterado pela força da obra. Quando há um prémio é o sinal para a betalhada aplaudir e jurar a pés juntos a sua admiração pelo autor desde a 1ª hora. Quem não os conheça que os compre :)

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