Olhares sobre a vida

Agora, que já temos um novo Nobel, cuja escolha provocou alguma polémica, saiu um livrinho do anterior premiado, o poeta sueco Tomas Tranströmer. A sua edição – de resto, muito cuidada, com algumas fotografias bem bonitas – só parece fazer sentido justamente por causa da importância do galardão, já que quase nenhum poeta no seu perfeito juízo deixaria publicar os primeiros poemas que escreveu; mas As Minhas Lembranças Observam-me – assim se chama a obra – não é apenas (ou sobretudo) um livro de poesia, como, aliás, o título indica: é um relato de infância escrito pelo autor aos sessenta anos para dar a conhecer às filhas a sua juventude (relato que, ao que parece, aspirava a uma continuação que não existiu dado o AVC sofrido entretanto por Tranströmer). De outro tipo completamente diferente, até porque escrito por uma mão que não é sua, a vida de Maria Barroso é também objecto de um livro, Maria Barroso, Um Olhar sobre a Vida, assinado por Leonor Xavier. Mais do que uma biografia da ex-primeira dama (que, antes de se casar com Mário Soares, foi uma conceituada actriz e lia poesia como ninguém, segundo me contou o poeta Gastão Cruz), é uma homenagem a uma mulher singular na história recente do nosso país. Para quem gosta de olhar para as vidas alheias, duas boas hipóteses à disposição.


 


Comentários

  1. gostei muito de "As minhas lembranças observam-me". O livro, como objecto, está muito bem conseguido: sóbrio e com requinte.

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  2. O do Transtromer já cá canta:)

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  3. O conhecimento da história da vida de Maria Barroso ficará sempre incompleto sem a leitura das suas cartas a Mário Soares (edição do jornal "Sol"), no que se refere ao seu próprio percurso de vida mas também ao seu relacionamento com o homem que viria a ser Presidente da República e que, em certa medida, a eclipsaria.

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    1. Haverá alguém, ou algo, que Mário Soares não eclipse?

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    2. Costuma-se dizer nestas alturas, é a grande mulher por trás do grande homem, asserção que não cai bem em lado nenhum, em especial em certas áreas. No caso Miterrand , ideologicamente semelhante, atingiu-se talvez o paroxismo: eram várias, de diferentes grandezas. Quem nos dera, no entanto, nas aflições que passamos, um casal presidencial de semelhante envergadura! Quanto ao Strömer , já lhe li as Lembranças em francês e são de leitura suave e recomendável. Fi-lo não por pedantismo, mas porque me abalanço nessa língua - nasci antes da americanização intensiva - e porque encontrei uma versão baratucha . Eu sei, em Miterrand falta um t.

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    3. A pergunta é muito pertinente.
      Mas o exemplo em questão é um pouco impressionante.

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    4. Talvez impressionante, mas não raro (infelizmente).

      É um caso conhecido e ainda bem que se reconhece o valor a quem o merece. Mas quantas mulheres de valor não foram, e não são, eclipsadas pelos maridos? Nesse aspeto, há ainda um grande caminho a percorrer.

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  4. Coimbra, 1969:
    - Estudantes em greve aos exames;
    - O cerco pela polícia é total;
    - Maria Barroso vem dizer, em voz bem alta, poesia (a tal que não se podia dizer);
    - entre os que escutam, alguém (eu) que agora recorda.

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  5. Ainda não há muitos anos ouvi Maria Barroso em Leiria a dizer exemplarmente os poemas que Afonso Lopes Vieira escreveu para as Cenas Infantis de Robert Schumann. Com Jorge Moyano ao piano, foi um espetáculo inesquecivel.

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  6. A Maria Barroso não é a mulher do Pai da Democracia? aquele que tem não sei quantos seguranças e não sei que veículo, Fundações para não pagar impostos, etc etc...e tudo à nossa custa???Não é a mâe daquele democrata que ia morrendo quando o avião caíu porque o "carregaram" demais? pois é pois pois é, não sejamos inocentes, meus amigos, a cambada anda por aí....

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