Escritaria

Amanhã começa, em Penafiel, mais uma edição da Escritaria, que decorre até domingo. Apesar das medidas de austeridade e das leis que, salvaguardadas pouquíssimas excepções, não permitem às autarquias investimentos que não tenham retorno – o que já obrigou, por exemplo, ao cancelamento do festival LeV, em Matosinhos, no mês de Abril passado –, o município de Penafiel, ainda que com um orçamento mais curto, conseguiu levar a cabo, à custa de muita imaginação, o seu encontro anual, que visa aproximar os habitantes da cidade e alguns forasteiros da literatura através de um sem-número de actividades surpreendentes; e cito: «As letras no divã, as palavras com asas, os jardins de palavras, as montras de livros, as palavras daninhas.» Nesta edição, o homenageado será o romancista António Lobo Antunes, que acaba de publicar o romance Não É Meia-Noite Quem Quer, com mais um título inesquecível «surripiado» desta feita ao poeta René Char. Se está pelo Norte no próximo fim-de-semana, não hesite em ir dar uma espreitadela ao Centro de Penafiel, decorado com livros por todo o lado, e quiçá assistir mesmo a algumas mesas-redondas e apresentações de livros.


 


Comentários

  1. Mais um excelente post que numa manhã de temporal , palavra motiva palavra, nos motiva rapidamente à reflexão. Primeiro o supremo título de escritaria que rimava com berraria, não fossem os livros para serem lidos em surdina. Depois a informação da Rosário sobre o «surripiar» títulos, acto muito feio e apenas condizente com o tempo cinzento, tristonho e despido do Outuno . Mas, enfim, somos cada vez menos nós próprios e apenas pedaços de todos.
    «Não é meia - noite quem quer», do René Char , numa procura rápida das obras completas deste contemporâneo de André Breton , não é, aparentemente, título de obra. Nome de poema, talvez, Rosário?

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    Respostas
    1. Outuno , não, porque seria um tempo mais (u)aberto. Outono, que é um tempo (o) mais fechado sobre nós próprios!

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    2. Sim, é um verso, não uma obra. Mas não acho feio este roubo, é bom até como homenagem.

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    3. Obrigado, Rosário, pela resposta.
      «...é bom até como homenagem.»
      Pois, Char havia de gostar disso, fá-lo renascer.
      E, de facto, feio seria se tivesse sido surripiado um título de obra com o conteúdo dentro, mesmo que Lavoisier nos lembre que «nada se perde e tudo se transforma» - e que somos, todos, uma espécie de património contínuo da humanidade.


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  2. O poema de René Char é este:

    «Entraperçue»

    Je sème de mes mains.
    Je plante avec mes reins;
    Muette est la pluie fine.

    Dans un sentier étroit
    J'écris ma confidence.
    N'est pas minuit qui veut.

    L'écho est mon voisin,
    La brume est ma suivante.

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  3. "Roubado" ou não, é mais um grande título para Lobo Antunes. Não escolhe títulos assim quem quer.

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  4. Desculpem, mas acabo de ler uma entrevista de Mário Zambujal ao Blogtailors - http://blogtailors.com/6270435.html -
    e não resito em transcrever aqui um excerto, pois tem tanto a ver com a discussão de há dois dias:

    Qual foi, no seu entender, a grande mudança na vida dos escritores entre o momento em que publicou pela primeira vez e os dias de hoje?

    Hoje há mais pessoas a escrever ou, pelo menos, a publicar. Daí resulta maior possibilidade de se revelarem novos valores e também, por parte do público leitor, a capacidade de escolher. Como sempre, o mais importante é a liberdade. Da escrita e da leitura.

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  5. António Lobo Antunes - quando é que conseguirei ler um livro dele??? eu que li sofregamente e com um prazer enorme os três primeiros por ele publicados (MEMÓRIA DE ELEFANTE, O CONHECIMENTO DO INFERNO E OS CUS DE JUDAS); é que depois destes não consigo passar da página quarenta, é uma coisa aflitiva, é que não consigo entrar naquele linguajar...

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