Reler

Recentemente, a jornalista Teresa Sampaio do programa Ler+ convidou-me a falar sobre um dos meus livros preferidos. A lista é grande, como a de todos os leitores deste blogue, tenho a certeza; mas, certamente porque saberia das minhas hesitações, a jornalista sugeriu que eu falasse de um romance que fora objecto de um post bem elogioso aqui no blogue, provavelmente porque também ela o achava merecedor de divulgação e leitura. Falo de O Amante, de Marguerite Duras, vencedor do prémio Goncourt em 1984, sobre um episódio assumidamente biográfico, a relação que a escritora manteve, aos quinze anos e meio, com um chinês milionário de vinte e sete na exótica Indochina onde então vivia. Aceitei o desafio, mas, como já não lia o romance havia anos, disse cá para mim que o melhor era relê-lo, sentir-lhe de novo o cheiro e ter tudo mais fresco. Tratando-se, porém, de um desses romances que cremos terem mudado a nossa vida, estava aterrada com o que poderia vir a achar tantos anos depois. Já me acontecera regressar a um livro que tinha amado e não conseguir sequer perceber o que me atraíra nele da primeira vez e, quanto a este, não queria que se quebrasse o encanto. Porém, assim que abri a velhinha edição e li aquela frase «Muito cedo na minha vida foi tarde demais», percebi que o feitiço era para sempre e que não corria, afinal, qualquer risco. Reli-o num virote e fiquei outra vez com pena quando acabou. Tenho a certeza de que todos temos paixões assim.


 


 


Comentários

  1. Tempo chuvoso por cá, as chuvas atrasadas, se impedem a circulação nalguns casos fazem falta nem que seja para me lavar a carrinha. Hoje é dia de escritório e se a net deixar, vou aproveitar também para umas incursões Extraordinárias...

    Há um provérbio árabe que diz que nunca devemos voltar aos lugares onde fomos felizes...
    Em meu sentir, não se aplica à leitura!

    Todos os livros que me marcaram, ou porque gostei, ou por outra razão, enraizaram fundo!
    Ajudaram-me de alguma forma e tornaram-se parte de mim.
    Já anteriormente isto foi aflorado quando se falou do Monte dos Vendavais...
    Mas creio que agora podemos desenvolver mais.

    No meu caso, tudo o que li na infância, nas adolescência e juventude, mantém a magia que então tinha, e, quando volto a ler - o que muitas vezes faço, confesso - é uma inocência revisitada que me dá uma certa felicidade e trás a nostalgia sã desse tempo.

    Será que isso significa que no fundo, não cresci?
    Ou, que de algum modo mantive a capacidade de sonhar? De me entusiasmar ainda e com as mesmas coisas? Sinal de imaturidade?

    Não sei, o que me dizem os Extraordinários?

    É de facto um excelente tema este, para uma Sexta-feira e quem sabe um motivo para o regresso a outros tempos e leituras...

    Eu gosto de dizer que o que vale a pena em ser criança é ter sonhos e o que vale a pena em adulto é cumpri-los!
    Os livros no meu caso ajudaram, e posso dizer que se nunca atingi própriamente o sucesso, pelo menos muitos dos meus sonhos de criança os cumpri e ainda estou a cumprir... e já agora, um deles foi justamente escrever e publicar um livro.

    Um bom dia para todos e saudações húmidas cá do Planalto Central.

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    1. Nenhuma sugestão de um livro da vida? Aqui vai uma minha (e de um autor fora de moda): "Cristo Recrucificado" de Kazantsakis. Uma sociedade arcaica e preconceituosa cruzando o helenismo e o cristianismo.
      Artur Águas

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    2. Ó companheiro Extraordinário, um?

      Sabe, não é por nada mas tenho uma biblioteca de cerca de 5000 volumes ... é claro que não os li todos (e quem é que quer uma biblioteca só com livros já lidos?), mas li umas boas centenas, e , reduzir as leituras Extraordinárias a uma, é coisa que não concebo. Defeito meu certamente.

      Poderei conseguir isolar títulos a respeito de alguns temas, mas resumir tudo a um? Nada, como diria aqui o Jamba.

      De qualquer modo, se tivesse de o fazer iria fatalmente cair num nome clássico e vulgar, por força da minha falta de cultura ou de originalidade literária. Kasantsakis ... nunca ouvi falar e julgo que o tema também não é da minha preferência.
      Por razões de originalidade "O Aquário de Deus", de Bernard Gorsky , seria talvez o contraponto...

      Saudações Africanas

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    3. Interessante, esse também é referência para mim, mas como quase ninguém cita, nem a obra, nem o autor, não faz mal, também não sou de modas...

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  2. Voltar a’O Amante pode dar-se a várias interpretações… ;)
    Como refere António Luiz Pacheco e é confirmado por inúmeras pessoas que viveram em África, p. ex., e que têm grandes desilusões quando fazem uma torna-viagem, regressar a um sítio onde fomos felizes pode ser uma surpresa menos boa.
    Sinto que o mesmo acontece com os livros e as pessoas, que são um triângulo de proximidade com cada um de nós, pelo menos comigo, uma trindade com que me tatuo e que passados anos pode desbotar, quando quero encontrar o que retive na memória e que, afinal, não coincide com o que me é dado ver agora com os olhos/coração.
    Isso acontece com antigos namorados (ufa… ainda bem que…), amigos/conhecidos que não vemos há muito (céus… ela parece ter metade da minha idade! ou Mas esta pessoa já tinha estas conversas antigamente?!?); na geografia, digamos assim, nunca se consegue repetir a surpresa da primeira vez (chegar a Veneza de comboio, sair de uma estação cinzenta e suja e dar de caras com a vida do Grande Canal só faz vibrar verdadeiramente a primeira vez!); com os livros, desde logo os da adolescência, quando ainda nos formávamos como leitores, a falta de segundas interpretações (uma das maravilhas dos livros) que agora nos é óbvia, coisas que não se percebem bem, por falta de outras leituras, crenças e sentimentos que hoje já foram experimentados e não tinham sido na altura, leituras feitas em momentos fragilizados que criaram vincos que não criariam noutros momentos,… fico-me por aqui, não sem antes dizer que também eu amo O Amante.

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  3. Quando era adolescente ofereceram-me o livro do desassossego de Fernando Pessoa (Bernardo Soares) e confesso que há uns bons anos que não lhe pego. Todavia, hoje ao ler este post, recordei algo que na altura me impressionou bastante sobre a tristeza do leitor que chega ao fim de um livro. Fernando Pessoa dizia que quando estava prestes a acabar a leitura ia lendo cada vez mais lentamente, para adiar a dor da separação com as personagens e, quando por fim o terminava, chorava compulsivamente porque sabia que nunca, mas nunca mais, leria aquele livro pela primeira vez; nunca mais haveria de reviver a emoção de quem descobre o novo. Lembro-me de pensar então como o compreendia, porque eu própria por vezes sentia já a nostalgia daquilo que ainda não se havia passado…Desconfio que esse sentimento me impediu de viver inteiramente alguns momentos…que pena.
    Isabel

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  4. As paixões arrebatadoras ancoram-se também aos anos que temos quando acontecem. Mesmo quando nos apaixonamos por um livro. Mas há livros que vão para além da paixão e se tornam verdadeiras histórias de amor, daquelas que perduram mesmo quando à luz do passar dos anos lhes vamos descobrindo pequenas falhas que não vimos nos primeiros tempos. Precisamos de os saber lá, na mesa de cabeceira ou naquela estante, para quando precisamos deles. E sabemos que nunca nos vão faltar.

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  5. «O amor nos tempos de cólera» é um livro que me acompanha e que já tentei reler, mas fiquei a meio. Saber o final, por vezes, estraga a leitura do resto. É um pouco como ver o filme «Os outros» pela segunda vez.

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  6. «O Amante» é um livro extraordinário. Que nos deixa com um nó preso na garganta ainda antes de chegarmos ao fim. Sensação que perdura nas horas que se seguem à sua leitura, dado que é um desses livros que, sendo enorme na sua dimensão, não o é em número de páginas. E se é assim, tamanha, a nossa angústia, ficamos a matutar acerca do que poderia ir no espírito da própria autora, no momento de verter em palavras esses dias, que tanto significado assumiram na sua existência.

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  7. Ainda a propósito de livros que marcam, lembrei-me agora de «A insustentável leveza do ser», que me fez querer ler «Anna Karenina», um projeto sempre adiado. Agora que o filme está aí a chegar, parece-me que não lhe vou resistir e desistir de ler o livro , como sempre tem acontecido quando vejo os filmes antes de ler os livros. É que a imaginação fica presa aos pormenores do filme e deixo de sentir aquela liberdade de acrescentar ao que está escrito todo um mundo que invento e que é único. Não lhes acontece isso também?

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    1. Cara Anabela, também detesto ler um livro tendo visto, anteriormente, o filme: condiciona-me imenso! Detesto estar a ler e estar a visualizar as caras dos atores e os trejeitos todos. Já o inverso não me perturba nada: pode é causar-me estranheza, perceber que a minha leitura não coincidiu com a do realizador nem com a do responsável pelo casting. Mas não me estraga o prazer da obra.

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  8. Que grande coincidência ! Ainda ontem estive a ver esse programa na net . E esteve muito bem, como sempre:)
    Já li O Amante há muito tempo: gostei mas sinto que beneficiaria de uma releitura. Esse e muitos outros.Só que eu não arranjo tempo para ler tudo o quero...Saber antecipadamente como termina, não me desmotiva absolutamente nada. Há até livros que adorei e que nem recordo como acabam. O que eu gosto mesmo na literatura, o que me arrebata o coração, é a maneira como o escritor descreve as emoções e o sentir das personagens. Como me descreve, enfim... É que eu ainda guardo a fantasia que o escritor escreveu aquele livro de propósito para mim:)

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  9. tenho relido alguns livros, uns por gosto outros por obrigação.

    fico sempre feliz quando continuo a achar que a boa história não se alterou. mas também há algumas desilusões.

    é a vida.

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  10. Lendo alguns dos excelentes poemas "românticos" da Maria do Rosário, não espanta que este livro a tenha seduzido tanto ! E, já agora, há o belo filme do Annaud (92) cujos protagonistas aparecem na capa do livro editado pela ASA; ouso afirmar que o filme não menoriza o livro.
    Artur Águas

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  11. Cláudia da Silva Tomazi28 de setembro de 2012 às 07:14

    Bem, assim seja. Embora a natureza generosa nem acusarás vandalismos e fica-se registrado, que vos cúmplices sem chance a defesa por nem conscientes do que vos aguarda, sic.

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  12. Paixões que todos temos, e este livro é também uma delas (há quanto tempo o não leio ); mas também nos nascem novas: a minha mais recente é a sua "poesia reunida" (ainda vai a meio ); porque quem escreve "porque a saudade nos faz adultos para sempre" ou "viver à espera de uma dor que há-de chegar", sabe certamente muito da vida.
    E isso apaixona-me

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  13. Margarida Botelho da Silva28 de setembro de 2012 às 10:07

    Muito obrigada, Maria do Rosário, por lembranças como esta. Essa sensação tem-me acometido já algumas vezes, p. ex. com "No Interior da Tua Ausência", de Baptista-Bastos, com "Pensar", de Vergílio Ferreira, "O Livro do Desassossego", de Pessoa e sei lá quantos mais...
    Boas releituras!

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  14. Pois é, deve ser geracional , deve representar uma sensibilidade de uma determinada época, dever ter a ver com as escolhas - leia-se leituras - que se fazem, porque eu tenho por este livro de Marguerite Duras o mesmo tipo de sentimento que a Maria do Rosário - passe-se a comparação - , gosto muito deste romance, terá mudado o decurso dos meus dias? Não sei, talvez. Mas mudou, seguramente, a minha relação com os livros, a minha relação com a literatura e, quando a minha alma está mais encolhida e os meus dias perdidos, dou comigo a pensar"Muito cedo na minha vida foi tarde demais" e não descanso enquanto não lhe ponho de novo os olhos e o nariz em cima. Claro que há paixões assim! Claro que todos temos paixões assim" E de que outro modo poderiam ser as paixões?
    (Parabéns, Maria do Rosário, pelo livro de poemas, estou a lê-lo muito devagar, devagarinho, não vá ele acabar num instante)

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  15. Um livro em que me acontece algo semelhante é "Conversa na catedral" de Vargas Llosa. Já o li 3 vezes, e a terceira foi a que gostei mais.

    Por vezes abro-o ao calha e leio umas poucas páginas, só para ficar com um gostinho bom na alma...

    bom fds!

    Rui Miguel Almeida

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  16. Também um dos meus livros de sempre.
    A escritora fala sobre esse e outros livros numa entrevista a Bernard Pivot (disponível no Youtube) impressionante pelo desprendimento com que fala dos pormenores autobiográficos.

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