Dramalhão

Há de certeza boas razões para lermos alguns livros em determinada idade, e não noutra. E isto é válido para aqueles que só compreendemos inteiramente na maturidade, como o é para os que, depois de lida tanta coisa, acabam por nos parecer de alguma forma datados, pueris ou exacerbados demais para o nosso gosto adulto. Porém, não queria sair deste mundo sem ler O Monte dos Vendavais (sei lá eu bem agora porque não o li em adolescente), de Emily Brontë, e decidi fazê-lo nas últimas férias com a sensação de que os clássicos são leituras seguras e nunca nos desapontam. Mas, oh, o dramalhão de faca e alguidar que me esperava estava bastante longe dos meus planos estivais… Amores arrebatados e castigadores, vinganças que incluem violência verbal e física constante, humilhações de toda a espécie (sobretudo por parte de quem já foi humilhado), mortes camilianas ou semelhantes, enfim, quase conseguimos visualizar as cenas no palco de um teatro e ouvir os pontos de exclamação no fim das falas, de tal forma tudo está carregado de drama pungente. Confesso que, ao contrário do que Clara Ferreira Alves vaticinava um dia destes no Expresso, não me apaixonei por Heathcliff, o mau da fita, embora me tenha interessado esta abordagem da luta de classes, escrita no princípio do século XIX por uma mulher educada com mão de ferro e até por isso corajosíssima. Mas preferia tê-lo lido aos quinze anos, confesso, pois a verdade é que não me encheu as medidas…

Comentários

  1. Nem todos podem ser como o Eça que, embora tenha escrito 'coisas' datadas, como esta, também é autor de intemporalidades, que fazem inveja a escritores e pensadores.

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  2. Estudei esse romance na Faculdade e na altura gostei imenso... Voltei a lê-lo passados uns cinco ou seis anos e continuei arrebatada. Mas depois li Jane Eyre, da Charlotte Brontë, e perdi o chão! Hoje digo que O Monte dos Vendavais foi dos romances que mais me marcou, mas a leitora que sou agora considera Jane Eyre superior. Em tudo...

    Marta

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  3. Também o li muito recentemente. A sua leitura não me foi indiferente, nem vou esquecê-lo, mas senti-me aliviado quando acabei de o ler.

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  4. O Monte dos Vendavais não teve um percurso fácil. ao contrário de Jane Eyre a sua aclamação não foi unanime e demorou algum tempo até se establecer como clássico.
    Pelas opiniões que viu lendo geralmente as pessoas ou adoram ou detestam ao contrário de Jane Eyre que é sempre adorado ou vá quase sempre.

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  5. "O Monte dos Vendavais" vale precisamente pelos sentimentos arrebatados, por uma maneira estranha de amar, que perdura mesmo depois da morte. Uma forma de amor que talvez não exista, mas almejado por muita gente. Além disso, é um bom documento de época. Naquela altura, as violências verbais e físicas e as humilhações estavam na ordem do dia. Hoje, não apreciamos, claro, mas é aí que reside a dificuldade em escrever romances históricos, por exemplo. Se fosse possível escrever como na Idade Média e descrevê-la na perfeição, desconfio que ninguém quereria ler tal. Mesmo os romances históricos considerados de alto valor literário não passam de aproximações. Como diz o Prof. Mattoso, temos uma ideia de como escreviam as elites medievais (ou melhor, de como se escreviam documentos oficiais), mas é impossível saber como falavam as pessoas, seja qual for a sua classe social. Passar para os diálogos expressões que se leem em textos e crónicas é um método muito discutível, pois, além de dificilmente dar um retrato fiel, dificulta muito a compreensão do texto.

    Mas voltando ao tema: não esqueçamos que Emiliy Bronte (desculpem, não fui à procura do "e" com pontinhos), foi educada com mão de ferro, como a Maria do Rosário disse. Além disso, morreu antes de completar os trinta anos, não foi casada nem teve filhos e nunca saiu da sua terra-natal, nem sequer foi a Londres, a capital do seu país. Quase não saiu de casa e do terreno que a rodeava. Tendo todas estas limitações em conta, é incrível que tenha conseguido escrever um livro.
    Li, algures, que psicólogos e críticos literários que se ocupam do seu caso são de opinião de que viveria num mundo bastante artificial, cheio de fantasias próprias.

    "O Monte dos Vendavais", apesar de ser considerado um clássico, é de valor discutível, na própria Literatura Inglesa. Há quem diga que não passa de um histerismo de uma jovem sem horizontes nem experiência de vida, mas, ao mesmo tempo, tornou-se num objeto de culto, que inspirou já vários filmes, séries e canções. É caso para perguntar de onde lhe vem essa magia...

    Enfim, algo que não se esquece, como disse um comentador, do qual não fixei o nome e não o tenho agora à disposição (desculpe).

    Numa coisa, discordo da Maria do Rosário: não acho que seja um livro para adolescentes.

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  6. Oram vivam todos!

    Gostei muitíssimo de ler as vossas opiniões e as análises, que são sempre interessantes.

    Concordo com MRPedr . sobre o tempo e a idade em que as leituras são feitas! Absolutamente!
    Porém, e como muito bem refere a CTorr . esta obra não é apenas para adolescentes e talvez por isso e por tudo o que contém seja tanto um clássico quanto mantém a mística que refere!

    Por isso me atrevo a opinar que acrescentaria que tanto quanto a idade e o tempo, há que contar com outros factores que podem influenciar essa aceitação da leitura, e que tem a ver com o momento ou fase psicológica em que nos encontramos quando lemos determinada obra... compreendem?

    Pelo menos eu sinto e sei o que escolho para ler consoante vão as coisas...

    Saudações melíferas cá do Planalto Central!

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  7. Li "O Monte dos Vendavais" há já muitos anos e não retenho, por isso, as especificidades da obra. Mas recordo-me que, na altura, me pareceu que a personagem de Heathcliff se destacava, obviamente, das demais. Não por qualquer maldade caracterizadora. Mas sim por uma certa dureza de espírito que o leva a empreender uma vingança cega e destruidora até daqueles a quem ama. Uma dureza que advém de um espírito atormentado pelos maus tratos e pelas humilhações de que foi, também ele, objeto.
    O que não deixa de ser, de facto, impressionante é o romance ter sido escrito por uma autora sem qualquer experiência de vida relevante. Sendo isto demonstrativo de que a capacidade de observação dos comportamentos alheios e a argúcia relevam, por vezes, mais, do que a experimentação directa das sensações.
    Neste caso, decerto, relevaram.

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  8. Li O Monte dos Vendavais no fim da adolescência e também não me encheu as medidas, confesso, nem tampouco me apaixonei por Heathcliff. Superior, sem dúvida, será Jane Eyre, da irmã, que li recentemente e que me parece muito mais verdadeiro e maduro, decerto por ser retirado em grande parte da própria vida de Charlotte.

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  9. Há um tempo para tudo, é certo.
    Li esse livro na adolescência - há poucos anos, portanto.. cof cof - e, confesso, não me recordo bem dele. Mas lembro-me de ter gostado muito. Provavelmente, agora, senti-lo-ia de forma diferente. A idade, as circunstâncias, o humor, influenciam muito a apreciação de uma obra. Quer seja literária, cinematográfica, ou outra.

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    Respostas
    1. Eheheh ! Sabe o mel é excelente contra a tosse!
      E este daqui então...

      Bem, voltando ao tema, neste belo fim de tarde africana, sereno, ao som de vozes estridentes no seu português cantado, porque estou longe e portanto a valentia aumentou, vou ser iconoclasta extremo:

      - O que é que diferencia o dramalhão "Monte dos Vendavais" de "O teu rosto será o último" ????
      Hein? Creio que a distância é apenas marcada pelo tempo... será? Porque o tema e a razão da escrita (traumas, fantasmas... etc.) não serão os mesmos em cada época?

      Saudações do Planalto Central

      Quem me responde?

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    2. Caríssimo, agora já só com o pote de mel inteiro...:)
      Percebo o que diz e concordo que os grandes temas da humanidade são, na sua essência, os mesmos. Mas a forma como são abordados diferem, frequentemente, com a época. Mas claro que um bom romance é intemporal!
      Saudações lisboetas!:)

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    3. Perguntas interessantes, na medida em que me suscitam uma nova: considerara-se-á "O teu rosto será o último", um dia, datado e exagerado como hoje se considera "O Monte dos Vendavais"?
      Só o tempo o dirá (se ele sobreviver)...

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    4. Caríssima e Extraordinária Expatriada, agora estamos iguais, eheheh!

      Tínhamos aqui conversa a sério para uns tempos!

      Cumprimentos especiais para si!!!

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  10. Também não gostei de Monte dos Vendavais quando o li, teria eu talvez uns 15, 16 anos. Apesar de ter um ar ribombante, pesado, pesadíssimo como um grande cortinado adamascado, apesar da sua "intensidade" de trovão daqueles que se impõem, ná! não faz o meu género.
    Nada que se compare a Jane Eyre da mana Charlotte. Eu sei que Charlotte era a mais velha das três irmãs e, portanto, talvez mais experiente na vida, mais conhecedora. Sim, que isto sem se ter vivido algumas "aventuras" não se vai lá com facilidade...
    E agora, em tom final, li aqui há tempos um livro sobre as vidas das irmãs Bronté, arrepiante! Dá para perceber muita coisa.

    Bolo rei seco e esfarelado

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    Respostas
    1. Sim, salvo erro, a Emily foi a que morreu mais nova e era a mais imatura das três irmãs. "O Monte dos Vendavais", no original "Wuthering Heights", foi o único livro que escreveu. Queria chamar a atenção também para o facto de que o romance se prende igualmente com a mística dos "moors" do Yorkshire, uma paisagem muito especial do norte de Inglaterra, quase sempre coberta por nevoeiros (misteriosa) e cheia de areias movediças ("moor"), um solo, portanto, muito traiçoeiro. A paisagem foi também usada, entre outros, por Sir Arthur Conan Doyle, nalgumas aventuras de Sherlock Holmes. Foi nesse ambiente, marcado pelo isolamento, que as três irmãs Bronte nasceram e cresceram.

      Já agora, penso que será do conhecimento geral que a canção "Wuthering Heights" de Kate Bush, talvez a sua mais famosa canção, é precisamente baseada no romance.

      Podem ver um dos vídeos aqui:

      http://www.youtube.com/watch?NR=1&feature=endscreen&v=Fk-4lXLM34g

      E eu não resisto (desculpem), a transcrever a letra. Não é que tenha gostado muito do romance, mas gosto da mística dos "moors".

      Out on the winding windy moors
      We'd roll and fall in green
      You had a temper, like my jealousy
      Too hot, too greedy
      How could you leave me
      When I needed to possess you?
      I hated you, I loved you too

      Bad dreams in the night
      You told me I was going to lose the fight
      Leave behind my wuthering, wuthering
      Wuthering Heights

      Heathcliff, it's me, I'm Cathy, I've come home
      I'm so cold, let me in your window
      Heathcliff, it's me, I'm Cathy, I've come home
      I'm so cold, let me in your window

      Oh it gets dark, it gets lonely
      On the other side from you
      I pine a lot, I find the lot
      Falls through without you
      I'm coming back love, cruel Heathcliff
      My one dream, my only master

      Too long I roam in the night
      I'm coming back to his side to put it right
      I'm coming home to wuthering, wuthering
      Wuthering Heights

      Heathcliff, it's me, I'm Cathy, I've come home
      I'm so cold, let me in your window
      Heathcliff, it's me, I'm Cathy, I've come home
      I'm so cold, let me in your window

      Oh let me have it, let me grab your soul away
      Oh let me have it, let me grab your soul away
      You know it's me, Cathy

      Para finalizar, lembro que o amor de Romeu e Julieta é também muito arrebatado. As emoções levadas ao extremo prestam-se sempre ao culto.

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  11. Olá. Não sei se leste a tradução da Profª Ana Maria Chaves, mais recente do que a que lemos aos quinze anos, mas, no meu entender, faz toda a diferença. De resto, aos quinze anos tinha-me parecido algo confuso, mas nunca leve (insisto na tradução). Agora não. Agora pareceu-me duro, mas bom.

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