Desemprego literário

Às vezes, pode parecer que não ouço (leio) o que dizem os leitores destas Horas Extraordinárias, mas a verdade é que foi por causa de um deles que levei para férias um livro cuja leitura se encontrava havia muito em stand-by Matteo Perdeu o Emprego, de Gonçalo M. Tavares. Trata-se, antes de mais, de um objecto artístico singular, muito cuidado, no qual não importa apenas o texto, mas também o conjunto de fotografias de manequins que representam os protagonistas das curtas ficções (com nomes de A a M – Matteo é o último), quase todos do sexo masculino, e bem assim uma tabela periódica de cidades, e não de elementos, embora a de Mendeleev também apareça no livro, na forma de uma tatuagem em Braille nas costas de um prostituto que é amante de um cego. Mas este não é um livro de contos no sentido tradicional, uma vez que, a seguir à história de Matteo (que é, de certa forma, a mais desenvolvida), temos um curiosíssimo posfácio que é a exegese do que acabámos de ler, feita pelo autor como se por alguém que não ele. E a verdade é que esse «ensaio» nos leva de novo às narrativas, num movimento mais ou menos circular – como é o dos textos, pois cada um deles liga ao seguinte através de um nome novo (o do protagonista da história que se segue) e, curiosamente, o último nome que aparece (e cuja história nunca saberemos) é o de alguém que assistiu à morte do protagonista da primeira história. Livro sobre a ordem e o caos, sobre o indivíduo e o colectivo, sobre o império da racionalidade sobre a emoção (tudo aqui é bastante frio), Matteo Perdeu o Emprego é uma obra que nos deixa permanentemente a pensar.

Comentários

  1. É curioso como vivemos no medo real, sombrio e execrável de perdermos o emprego, como se o emprego não fosse apenas o uso a que sujeitamos o nosso corpo e espírito (e quantas vezes nos sujeitamos a arrendar esse uso, separando o estado físico da alma que mantemos - ou não - intocada).

    Por perdermos o emprego perdemos quantas vezes a alma, como se a alma fosse coisa de somemos importância, como se não fossemos nela à busca de outros mundos onde a felicidade está postada à nossa espera.

    E é por isso que não acredito na perda de Matteo: Matteo nunca perderá o emprego, porque o emprego literário não se perde, quando o seu uso está cometido à própria fruição.

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  2. É curioso o uso, com este significado, da palavra emprego que, etimologicamente, é muito próxima da palavra implicar.

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  3. Dediquei este verão aos novos autores de língua portuguesa: Gonçalo M. Tavares, José Luís Peixoto, Ssndro William Junqueira, Luís Caminha, Mia Couto, João Tordo, etc.. Confesso que só gostei, e muito, de Luís Caminha e de José Luís Peixoto, que são escritores com a pena à flor da pele, como costumo dizer.

    Gonçalo M. Tavares é o escritor-filósofo. Dele li, há una tempos, "Jerusalém" e "Como Aprender a Rezar na Era da Técnica". Do primeiro, não retive nada: não me deixou qualquer marca. Do segundo, que acabo de ler, ficou-me a ideia de um texto muito pastoso e que só arranca no último quarto; embora, na onda do autor, a piscar o olho ao leitor preguiçoso com frases e capítulos curtíssimos; enfim, para mim trata-se de uma escrita muito racional mas sem emoção.
    Comparando com Milan Kindera, outro escritor-filósofo, diria que este este, sim, me emociona (todos os anos torço para que ganhe o Nobel).

    Para concluir, acho que vou dar mais uma oportunidade ao GMT com a obra que agora a MRP aconselha. Pode ser que as suas obras mais pequenas me surpreendam: há escritores que só são geniais quando são concisos, como Jorge Luís Borges reconheceu que era o seu próprio caso.

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    1. De GMT ainda só li "Aprender a rezar...". "Escrita muito racional mas sem emoção", sem dúvida. O livro pareceu-me, a certa altura, tão perfeito, a nível literário, que me perguntei se precisamos de coisas tão perfeitas. É que ser perfeito implica, frequentemente, ser chato...

      Tenho, ainda, o "Jerusalém", vamos ver.

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  4. Quanto ao medo de perder o emprego, é infelizmente cada vez mais real neste momento de crise.

    Fico mais uma vez com vontade de ler GMT. Ao ler «Viagem à Índia» comecei por sentir que era uma colectânea de frases citáveis (e pensei até em presunção), mas depois percebi que todo o livro é isso: um conjunto de frases notáveis que contam a história, mas que permitem uma outra leitura, ao acaso, deste livro, como fazemos com alguns livros de poesia.

    Como gosto de contos, este não escapará.

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  5. Descobri o GMT este ano quando li o "A viagem à Índia": magnífico! Só a partir deste livro - já tinha lido três anteriormente - engrenei na sua escrita, decifrei-o.
    Percebo e concordo quando o apelidam de escritor-filósofo:os seus livros são essencialmente metafóricos e estão carregados de aforismos, a meu ver, brilhantes. Faz-nos pensar e questionar a vida e a condição humana. Mas discordo totalmente quando dizem que são desprovidos de emoção! Eu não consigo questionar-me sem me emocionar, as emoções estão lá. Colocadas de maneira diferente do habitual, mas estão lá. Ele emociona-nos através da razão. Da introspeção . Para mim é esse o seu maior mérito.

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  6. Bolas, querem ver que agora o GMT não presta!

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  7. MATTEO PERDEU O EMPREGO" creio que já há mais de um ano que o li, mas sinceramente não tenho nada a ideia que seja um livro de contos...ou então a memória estará a atraiçoar-me, mas desde já digo que ADOREI (e aqui não sou atraiçoado), mais um livro para o qual apenas encontro uma palavra: DESCONCERTANTE, de um escritor para o qual também só consigo arranjar uma palavra para o classificar: ABSOLUTAMENTE DESCONCERTANTE.

    A não perder FASCINANTE/DESCONCERTANTE/PURO ILUSIONISMO

    E "JERUSALÉM" tem a mesma classificação. Já "peguei" no "VIAGEM À ÍNDIA" mas deslarguei " à pág. trinta e tal apenas e só porque é um livro para o qual terei de estar preparado e esse momento ainda não chegou.

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