À espera de uma carta
O grande Juan Marsé sabe como ninguém compor personagens delirantes e cheias de humanidade (capazes também, portanto, de muitas maldades). E, em Caligrafia dos Sonhos, uma delas guarda um pouco do próprio autor que, segundo reza a biografia, foi abandonado à nascença e, como Ringo, o protagonista desta história, cresceu com uma família que não era a biológica. Centrado em Barcelona no período pós-Segunda Guerra Mundial, este romance fala de um rapaz pobre que queria ser pianista, mas a quem o destino prega uma valente partida – o que não chega, mesmo assim, para o domar na sua rebeldia nem na sua atitude para com a fabulosa senhora Mir (que espera uma carta demasiado importante e não pára de perguntar por ela) ou a filha Violeta (por quem está apaixonado, mas que trata como se ela lhe fosse indiferente). O contrabando, a actividade política clandestina, as conversas no bar Rosales, que é o lugar onde tudo se sabe, o comportamento dos adolescentes e a descrição das fricções e massagens da senhora Mir (uma espécie de curandeira sentimentalona e dada à chacota) são tudo matéria irresistível numa narrativa que não tem um verbo a mais e que acaba da forma mais surpreendente que é possível imaginar (com um fim depois de outro fim). Se a carta chega ou não à destinatária, é preciso ler para descobrir…
Parece-me ser um bom livro, só que não se pode (porque não se consegue) ler tudo!
ResponderEliminarÉ fascinante a biografia deste autor, que nasceu no mesm o ano que o meu pai (1933) e que começou a trabalhar aos 13 anos, sendo praticamente um autodidata. Mais um para a lista.
ResponderEliminarIsto devia estar no post anterior, mas tenho andado a "voar".
ResponderEliminarCom pesar meu, não posso estar hoje no lançamento do seu livro, porque estou a muitos quilómetros de distância. No entanto, tenho já o meu exemplar para ser autografado (relido em parte e lido na parte inédita, no ambiente propício e com música adequada, que escolherei especialmente para o efeito), logo que eu vá ao edifício da Cidade de Córdova.
Marsé foi das melhores "descobertas" que fiz nos últimos tempos. Falta-me ler apenas "O feitiço de Xangai" e, mesmo esse, não tardará. Nos outros dois já editados por terras lusas, é brilhante em tudo: nas personagens, na ideia global, na contextualização social e política, no rendilhado da escrita, na economia e acerto das palavras. Do melhor, mesmo.
ResponderEliminarBelíssimo livro! Juan Marsé é um dos grandes escritores do mundo, sem dúvida. Adorei a Srª Mir : toda ela é excessiva e melodramática. Mesmo como eu gosto:) E isso fica logo bem patente no primeiro capítulo. Aliás este livro é um dos que tem um início fantástico. Sempre me intrigou a maneira como um autor escolhe começar o livro: parece-me dificílimo! O mesmo se passa com os filmes. Por isso acho que se deveria proibir a entrada após o inicio do filmes.
ResponderEliminarVoltando ao tema: gostei também muito do "Rabos de Lagartixa". Aliás tenho um fraquinho por livros com adolescentes: as dores de crescimento são um tema muito curioso e, deveras, fascinante.
"é preciso ler para descobrir…" está aí a oportunidade de discutir e por estes dias, exatamente domingo passado da ocasião de ler um livro do selo Leya e fora um tanto, digamos pouco convicente; nem com relação a fluência que dentro do concerto, porém esperava mais criatividade e o que encontrara fora apenas, imaginação à quem da estructura do grupo, ou na falta de atitude positiva e constructiva; ora neste momento em que o conteúdo de publicações fazem toda a diferença, pois a qualidade é tracto e vale o juízo onde justamente a criação é responsabilidade de conhecimento, ou seja, é prejuizo a repetição de factos desgatados a projectar e ofertar quiça involuntário mas, enfim é descabido assinanar algo que concorre ao vulgar, aliás, e sem mais delongas, ocorre-me do atributo de injustiças a nem possibilidade a defesa do menor leitor, tracta-se do livro "Florence e Giles - ficção inglesa, escritor Harding".
ResponderEliminarBom livro e um senhor muito educado.
ResponderEliminarFoi a entrevista mais difícil que fiz.