Olhar para trás
O Manel é um grande fã de Patrick Modiano, mas eu nunca tinha lido nenhum livro deste autor que uma publicação em França disse ser o melhor escritor francês depois de Proust. Não conheço a literatura francesa assim tão bem – quase todos os anos, pela rentrée, saem mais de 500 novos romances e é difícil estar a par –, mas, depois de ter lido a novela Horizonte, até posso perceber a comparação estabelecida com o autor da Recherche, uma vez que também aqui (e, ao que parece, em toda a obra de Modiano) se trabalha sobre a memória e as memórias, que são, afinal, o que liga (quando liga) as várias pontas de uma história. O mais invulgar é que, neste livro, são as coisas aparentemente secundárias e laterais na vida do homem que recorda – um rosto numa esquina, uma fachada de um prédio, uma estação de metro – que remetem para o que ele não esquece – no caso, Margaret Le Coz, uma rapariga com um drama pendente, que namorou uns tempos com ele, mas de repente teve medo e desapareceu sem deixar rasto. E, embora não fiquemos nunca exactamente a saber se o drama de Margaret se compôs, reconhecemos que há coisas pelas quais vale a pena olhar para trás e, quiçá também, seguir em frente. Um livro curioso.
Bom dia caros amigos (as) extraordinários (as).
ResponderEliminarObrigado Maria do Rosário tenho lá (esquecido) um livro do Patrick Modiano que comprei (creio que em saldos) que já vou pôr em lista de espera.
Dora Bruder, a única coisa que lhe li, não chega para me tornar fã do autor.
ResponderEliminarQue bom nós leitores (e humanos) sermos tão diferentes ! Li a Dora Bruder há uma década e essa jovem mulher desmiolada acompanha-me sempre. Tão assim que visitei (infelizmente só por fora), num dos meus raides Ryanair a Paris, as instalações onde ela (e muitos outros parisienses) foram mantidos antes de serem levados para a longa viagem. Eu até esperava que junto áqueles portões, do que agora é um grande quartel, houvesse uma pequena placa homenageando os muitos que por lá passaram. Esse curto romance do Modiano é lancinante porque nos faz antever, à medida que caminhamos na leitura, com enorme angústia e pesar, que uma jovem à deriva, como tantos somos nessa idade, vai ser esmagada por ter o azar de viver em circunstâncias históricas terríveis. E eu fiquei a amar a Dora Bruder para sempre.
EliminarArtur Águas
Caro Artur, concordo consigo quando elogia as diferenças. Este Dora Bruder, apesar de me ter sido agradável de ler, não teve, por uma ou outra razão, o impacto que teve em si. É caso para dizer que teve melhor sorte. :)
EliminarCumprimentos
Pelo que acaba de escrever, há um livro que deve adorar: Tudo O Que Tenho Trago Comigo, de Herta Muller.
EliminarÉ curioso que, quando dediquei umas escassas linhas a Dora Bruder (no modesto blogue que "alimento"), usei o livro de Müller como exemplo. E talvez tenha sido pela força dessa obra que não senti tanto o livro de Modiano.
EliminarCumprimentos
Obrigado pela sugestão ! E aqui sou eu que tenho que parafrasear o amigo Carriço confessando que não foi feliz o meu primeiro encontro com a Herta Muller, mas procurarei emendá-lo com a leitura deste outro livro da autora !
EliminarArtur Águas
PS: até porque reconheço que nem sempre o Modiano me tocou tanto como no Dora Bruder. E se só tivesse lido os outros livros de Modiano? É a tal questão de sorte.
Essa sorte é uma questão interessante, uma vez que haverá sempre um livro menor de um escritor maior. :)
Eliminar... a não ser que o autor do romance se chame Juan Rulfo, Boris Pasternak, Emily Bronte ou MR Pedreira....
EliminarArtur Águas
Obrigada, mas uma coisa é uma coisa, e outra coisa é outra coisa.
EliminarCara Maria do Rosário, tem toda a razão e peço desculpa por ter misturado alhos com bugalhos; relerei nestas férias de agostoo último dos romances citados; one-book novelists are a particular kind that deserves to be studied.
EliminarArtur Águas
Já agora: não seria curioso pedir a Vila-Matas para dissertar sobre os "one-book novelists", ele que repetidamente escreve sobre Batleby, Oblomov e outros que tais, ao mesmo tempo que cultiva na sua vida de escritor exatamente o contrário dessas suas "admiradas" personagens da extrema imobilidade, da abulia e do não fazer...
EliminarArtur Águas
Claudel e Modiano na lista de "urgentes", já.
ResponderEliminarObrigada!
PLFF
Nunca li nada do P. Mondiano mas tenho esse livro que referiu. Já não falta tudo...:) Mais um autor para descobrir com urgência.
ResponderEliminarVale sempre a pena olhar para trás. Somos o nosso passado. E só quando tomamos consciência disso, podemos seguir em frente. Caso contrário, os alicerces em que nos apoiamos nunca deixarão de ameaçar ruir. E viver nesse sobressalto constante consome muita energia. Demasiada...
ResponderEliminarNão tenho comentado porque já não leio, mas, no outro dia, casualmente, num filme, encalhei com um poema do Dr. Seuss e fiquei maravilhado. Cá vai um bocadinho (desculpem o off-topic, mas como vi uma comparação ao Proust fiquei logo a fazer beicinho):
ResponderEliminarYou will come to a place where the streets are not marked.
Some windows are lighted. But mostly they're darked.
A place you could sprain both your elbow and chin!
Do you dare to stay out? Do you dare to go in?
How much can you lose? How much can you win?
And IF you go in, should you turn left or right...
or right-and-three-quarters? Or, maybe, not quite?
Or go around back and sneak in from behind?
Simple it's not, I'm afraid you will find,
for a mind-maker-upper to make up his mind.
You can get so confused
that you'll start in to race
down long wiggled roads at a break-necking pace
and grind on for miles across weirdish wild space,
headed, I fear, toward a most useless place.
The Waiting Place...
Voltou Courinha?! Temos sentido a sua falta Homem!
EliminarReporto-me ao último parágrafo de Maria do Rosário: – «(…) E, embora não fiquemos nunca exactamente a saber se o drama de Margaret se compôs, reconhecemos que há coisas pelas quais vale a pena olhar para trás e, quiçá também, seguir em frente.(…)»
ResponderEliminarAcredito nisto: – Olhar para trás, seguir em frente.
Não sei dizer exactamente porquê.
Talvez porque os dramas que, uns pessoais, outros gerais, recentemente (ou sempre?) se me têm atravessado no caminho, me têm afinado a lucidez de perceber que, provavelmente, nunca ficarei (nunca ficaremos) a saber se, ou como, eles se compõem.
Talvez que, por definição, um drama (no sentido lato, como no sentido restrito) é algo que nunca se saberá se se compõe, como se compôs.
Talvez por isso eu, cada vez menos “quiçá”, cada vez mais sem dúvida, reconheça que há (cada vez mais) coisas pelas quais vale a pena olhar para trás – mas, principalmente, seguir em frente.
A propósito, e de algum modo a confirmar a minha tese, conto-vos um episódio que me aconteceu hoje mesmo.
Com o meu velho B.I. prestes a caducar, fui tratar do novo Cartão de Cidadão.
Curiosamente, pode tratar-se isto numa Conservatória de Registo Predial.
Pois ali me apresentei – e fui cordial e eficazmente recebido – como um vetusto prédio.
Uma máquina ia fotografar-me. A simpática Conservadora aceitou interromper o processo automático para que eu ajeitasse as pontas reviradas do bigode, perspicazmente entendendo que estas deviam ficar a equivaler às impressões digitais como marca identitária da minha descrição predial – perdão, da minha identidade pessoal.
A máquina, entretanto, propunha actualizar a minha altura para 1,79 m. Em relação ao que constava no velho B.I., eu teria crescido sete centímetros. A experiente Conservadora, olhando-me de alto abaixo, perspicazmente entendeu por bem fazer a média, e estipulou-me 1,75. Aceitei a decisão. Ainda assim, ora essa – cresci!
O meu bigode e a minha altura ficaram oficialmente maiores, actualizados.
Pois bem, isto não é brincadeira, é o que confirma a Conservatória do Registo Predial: – A sabedoria consiste em seguir em frente olhando para trás.
Agora que olho para trás, desculpem-me o adiantado da hora.
Mas que não seja por isso: – Deixemos lá a hora. Olhemos para a frente.
Cumprimenta,
Joaquim Jordão
EliminarCaro amigo Joaquim Jordão
Permita-me protestar pelo excesso de avaliação e, já agora, pelo atrasado da hora.
Não é que o caro amigo vai ser responsável por mais uma situação de atropelo de direitos iguais?
É que consta, caro amigo Jordão, e quando consta é porque já acabou de acontecer, que vai ser brevemente acrescentada uma variável há canibal e emergente - de emergência nacional, bem entendido - arrecadação fiscal.
Ou seja caro amigo, ficará com o ónus de os mais altos em osso (o que é o meu caso, amigo Jordão, e apenas em osso já que a pele - não a carne que essa já é inexistente - já me a levaram quase toda para enxertos de operações mal cuidadas) irem ser (segundo consta, até pela média de altura dos ditos eleitos) penalizados em equidade cidadã, pela galopante esquizofrenia fiscal instalada.
De resto, caro amigo, olhemos para a frente que se faz tarde… e desculpe-me este mau acordar, que não é hábito!
Um abraço predi ...perdão, solidário!
Modiano o melhor escritor francês depois de Proust? Que publicação terá feito tamanho elogio? Talvez o Aventure Chasse et Pêche? O Guide de l'Automobile? :)
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