Viver, viver
Todos conhecemos pessoas que apetece abanar, lentas e permanentemente adormecidas; mas também já estivemos certamente com o oposto, gente que não se cala um segundo, que nos está sempre a interromper e a puxar pela roupa, que não pára de ter ideias e acaba por se tornar cansativa. A personagem do livro de que hoje falarei, Joana, se fosse uma pessoa de carne e osso das nossas relações, estou certa de que nos fascinaria terrivelmente tanto pela sua franqueza como pelo seu mistério, mas daria cabo de nós de alguma maneira, pelo menos como vai dando cabo de si e de todos ao longo da narrativa. Estou a falar da protagonista de Perto do Coração Selvagem, de Clarice Lispector – um magistral romance da brasileira que nasceu na Ucrânia, mas sempre considerou o Brasil a sua pátria, escrito quando pouco passava dos vinte anos e de uma maturidade literária que merece o adjectivo deste blogue: extraordinária! A obra de Clarice é de uma vivacidade estonteante, mas esta Joana de coração selvagem é um bicho de sensações que não lhe fica atrás nem nos deixa descansar um só instante durante a leitura. Criança hiperactiva e hiper-pensante, adolescente rebelde, imaginativa e por vezes maquiavélica, adulta fascinante e ao mesmo tempo capaz do pior com os que dela se aproximam, Joana, se não pensar ou sentir um mísero segundo, é a criatura mais infeliz do universo – e o seu amor por Otávio, que poderia ser perfeito (e parecia mesmo perfeito), acaba por ser uma distracção que a afasta dessa pulsão de permanentemente ser ela própria, mesmo quando não sabe bem quem é. Com parágrafos que queríamos saber de cor, com repetições que emprestam um ritmo quase alucinante ao texto, com ideias belíssimas (e bastante vanguardistas se tivermos em conta que Lispector nasceu em 1920), este é um livro sobre a maravilha e o horror que pode ser viver, viver cada minuto da vida sem desperdiçar nada de nada. Altamente recomendável.
Na última Feira do Livro tive oportunidade de, pelo "cheiro", adquirir "A HORA DA ESTRELA" desta bonita mulher perfeitamente identificável na sua beleza Ucrânobrasiliana ...ando há uns tempos com vontade de lhe pegar!
ResponderEliminarUcrânia - já que vem a talhe de foice - EURO 2012 - alguém me saberá responder:
ResponderEliminar-há muitos anos que acompanho o futebol (praticante e adepto lagarto- , mas nunca me lembro de ver um, ao menos um, jogador de futebol com um livro na mão. Mentira, conheço um que lê Valdano do Real Madrid- e que, por acaso até já escreveu dois livros sobre futebol, mas é o único quer a nível nacional quer a nível internacional que conheço, e este um será portanto a regra que confirma a excepção - uma cambada de analfabetos e alguns não sabem ler-
Desculpem a trapalhada do texto (anterior) mas estava a pensar como um jogador de futebol - com os pés- (creio que foi o grande treinador José Maria Pedroto que o terá dito).
EliminarSe calhar levam-nos na mala. Já acompanhei enquanto jornalista um Europeu de Futebol e outros jogos e também nunca vi os meus colegas jornalistas com livros na mão. E nem por isso os considero uma cambada de analfabetos. Mais vale não os levar (aos livros) na mão e lê-los do que andar a mostrá-los e nunca os abrir. Cumprimentos
EliminarCaro Rui, mas os jornalistas vão em trabalho e não precisam de andar com livros na mão porque esses temos nós a certeza de que lêem (até porque é a sua profissão)!
EliminarMas tem dúvidas de que (a grande maioria, para não dizer a totalidade) dos futebolistas são uma cambada de analfabetos? tem? E acha que algum dos futebolistas profissionais portugueses lê? oh Rui então o meu amigo andará certamente muito distraído; tal como não é preciso andar com livros na mão para se dizer que se lê, também não é preciso andar com os auscultadores nas orelhas para se dizer que se ouve música, nem de óculos escuros à saída dos autocarros para verem a entrada do hotel...talvez seja para que os "camelos" dos emigrantes os não reconheçam (os camelos que viajam não sei quantos quilómetros para os saudarem e para serem completamente ignorados (óculos escuros) e muito menos ouvidos (auscultadores).
É preciso levantar a cabeça e prontos...
Mas oh Rui não se chateie porque não ler não é crime, crime é ter tanto tempo disponível e não o aproveitar em algo melhor que a play-station ...e ler para quê?? isso é uma chatice...é preciso é levantar a cabeça...(com auscultadores nos ouvidos e óculos escuros para não ser reconhecido, tal como fazem as senhoras finas e charmosas nos funerais - vão todas de óculos escuros-!), numa viram na "CARAS"?
EliminarCaro Severino
EliminarNão tenho a certeza de que os jornalistas leiam, aliás tenho sérias dúvidas de que a maioria leia.
Quanto aos futebolistas, tenho a certeza de que alguns lêem, como lêem quaisquer outras pessoas de outra classe profissional.
Quanto à questão dos óculos escuros e dos auscultadores. dou-lhe toda a razão, mas não era disso que aqui se falava.
Por fim, não se preocupe que eu não me chateio, só escrevi o que escrevi porque penso que não se pode generalizar e os futebolistas são pessoas como as outras, uns com melhor carácter outros com pior. E uns lêem e outros não. E uns são analfabetos e outros não. Só não posso é qualificar uma pessoa pessoa pela profissão (ou falta dela). Ainda há dias dei com um sem-abrigo na minha rua a remexer o lixo e disse-me que andava à procura de livros para ler. Mas há muitos que procuram outras coisas. Como disse, não se pode/deve generalizar.
Abraço
Rui
É verdade, concordo consigo Rui.
EliminarRealmente não se deve generalizar e nada tenho contra os jogadores de futebol mas sinceramente que não tenho boa impressão dos futebolistas no aspecto intelectual (tenho até a pior das impressões), mas às vezes se calhar tenho esta mania de falar com o coração ao pé da boca e até parece que sou um gajo atrevido e cheio de preconceituoso e até acho que não sou nada disso...
Quanto ao analfabetismo em Portugal (e não só) é uma coisa assustadora (em todas as profissões, claro).
Um abraço
Um abraço, caro ASeverino, até breve.
EliminarHá tempos eu não via um comentário preconceituoso tão idiota. Por padrão todos os são, mas este salta aos olhos. É de uma ingenuidade perene!
EliminarMe lembrou o Poeta Mario Quintana:
"DA BOA E DA MÁ IGNORÂNCIA
A ignorância rasa e simples é coisa honesta e conserva desanuviado o entendimento. Mas Deus te livre, meu filho, da ignorância complicada."
Há tempos eu não via um comentário preconceituoso tão idiota. Por padrão todos os são, mas este salta aos olhos. É de uma ingenuidade perene!
EliminarMe lembrou o Poeta Mario Quintana:
"DA BOA E DA MÁ IGNORÂNCIA
A ignorância rasa e simples é coisa honesta e conserva desanuviado o entendimento. Mas Deus te livre, meu filho, da ignorância complicada."
Olá, um bom dia extraordinário ao extraordinário nem em ordinário como extra, extravagante e extractor sempre pontuando horas extraordinárias a indicação de Lispector sendo referente como segue o post "idéias belíssimas" fora a criatividade saltitante para o amor e vibra e pulsa e estabelece da compreensão necessária ao objectivo.
ResponderEliminarUm dos melhoes romances da "nossa"querida Clarice, chamo-lhe nossa porque fala a nossa língua, mas sobretudo porque fala da "nossa" vida. As repetições do possessivo são propositadas: quando nos agarramos a um autor, a um texto, a uma citação, a uma personagem, eles passam a fazer parte de nós, do que somos e do que respiramos. Tenho a Clarice Lispector, assim como tanta(os) outr(a)os como meus. Este gosto por determinadas obras e autores não se explica, nem se oferece, mas dá-se a conhecer, dá-se para que outros os amem. Não tenho grandes ambições na vida, mas gostaria de poder passar aos meus alunos e aos meus filhos este amor aos livros. Daqui a uns anos não haverá livros, mas talvez perdure o que transmtimos e aprendemos com os livros que nos ajudaram a comprrender - melhor - a vida. Esta longa conversa também vem a propósito do exame de Língua Portuguesa do 9º ano, passo a explicar, o texto principal do exame era do Gonçalo M. Tavares, boa escolha?! Sem dúvida. Fácil o exame?! Não, não era.Exigia que os alunos tivessem hábitos de leitura - que não têm - talvez esteja na hora de começar a dar a conhecer aos meninos outras coisas que não os vampiros, as hello kitties e os canais da Fox. Talvez seja a hora de começar a ensinar, aos nossos meninos e meninas, a ler, a pensar e a gostar do que está para além do imediato, descartável, mediático... Não me parece que nas escolas, apesar do esforço hercúleo dos nossos professores, se esteja a caminhar nesse sentido - no próximo ano letivo a disciplina de Filosofia perderá horas no currículo do ensino secundário.Teremos bons leitores, seres Humanos sem o estudo da Filosofia, que leva ao estudo dos clássicos, que leva ao gosto pelas histórias, que leva ao gosto pela vida, que leva ao amor pelo próximo e por ai adiante?!
ResponderEliminarEnfim, Rosário desculpe-me este desabafo, mas como sabe as palavras são como as cerejas e estamos no tempo delas....
Continue a dar sugestões de leitura que nós agradecemos.
"Todos conhecemos pessoas que apetece abanar, lentas e permanentemente adormecidas;"
ResponderEliminarGostaria em estar presente e ser presente compondo o significado e estender de: perceber, dever, acção, compromisso e rota! A vez perguntaria e pessoas diriam a saber respostas e justificá-las o mundo fora globalizado em projecto ambição e vias de fluir organizadas intenções... em sendo comum a vontade deveria a maioria fazer acontecer a humanidade, humanizar o bem querer e de propósito a conquistada feição cada qual perceberia sem entendimento a causa o emplemento e ressaltara aprender do despertar: princípios, condicções e aspectos e a saudável conducta no entanto seria em lamentável golpe a circunstância a nem favorecer a represa a tanger a alimentar a partícula crescente por compor do compremeter a generosidade a vida a viver e viver e nem contudo em possível por certo o vento trouxera a certeza o frescor a sabedoria. Lispector uma lição de superação.
Ó Drª essa descrição de uma peste infantil até parece da minha sobrinha-neta Laurinha !!!!
ResponderEliminarpois é, lê-se, escreve-se e vive-se a várias velocidades.
ResponderEliminaré tudo uma questão de talento e às vezes de tempo.
a Clarice é um mimo deliciosamente extravagante.
"considerou o Brasil a sua pátria"
ResponderEliminarNa década de oitenta ou setenta sei lá, posta em viagem pela américa Clarice Lispector acompanhara a escritora Ana Maria Machado acadêmica das letras do Brasil e aconselhara, recomendara a esta o comportamento a mulher em reserva e integridade bem ao respeito devera manter-se-á séria do exemplo a terra natal.
Do paradoxo:"nos fascinaria terrivelmente tanto pela sua franqueza como pelo seu mistério".
ResponderEliminarDiria do post Viver,viver: per real quanto imaginário.
Escrever fora acto e bondade, princípio e contemporização.
Já que estamos a falar de livros, permitem-me contar o que se passou hoje. A minha filha de 3 anos queria comprar um presente à mana que fazia anos. Encaminhei-a para uma loja de roupas para que ela lhe escolhesse uma écharpe, mas não quis entrar dizendo-me
ResponderEliminar_Mãe, quero comprar um livro de verdade!,
_E o que é um livro de verdade?", pergunto-lhe eu, e no alto dos seus 3 anos responde-me
- É um livro com letras, sem bonecos!!!"
Foi hoje e fiquei muito babadinha.
Isabel