Romances da vida

Aqui há tempos, num festival de escritores, o apresentador de um programa cultural da TV andava a angariar escritores e editores para dizerem, em mais ou menos meio minuto, qualquer coisa de jeito sobre um dos livros da sua vida. Ali à pressa, ocorreu-me em primeiro lugar O Amante, de Marguerite Duras, romance que li à saída da universidade, com o francês muito fresco e um fraquinho pela literatura francesa. Não era o primeiro livro de Duras que lia (estreara-me, efectivamente, com Moderato Cantabile, de que foi feito um filme com Jeanne Moreau, mas não vi), que me fora emprestado por um professor, depois de lhe ter dito que estava a gostar muito de O Silêncio, de Teolinda Gersão. Mas O Amante era uma leitura tão diferente, tão sedutora, tão refinada e com uma maldade tão irresistível que acho que mudou de certa forma a minha maneira de gostar de livros. Depois de um período de carência, o romance de Duras está de novo disponível no mercado português, agora editado pela ASA, na sua colecção Vintage. E, embora conheça alguns leitores que não se conseguiram afeiçoar à escrita da grande senhora francesa, tenho de aconselhar esta maravilha a todos os que ainda não a leram, porque, se gostarem, vão gostar muito, estou certa, e querer navegar em toda a magnífica obra (tantos livros tão bons) que espero venha a ser retomada pela chancela que referi. Até eu, que não costumo ter tempo para reler livros, estou a considerar a possibilidade de o fazer. Uma belíssima história de amor entre um par incompatível, este romance valeu a Duras o Prémio Goncourt, o mais importante galardão literário de França.


 


 


Comentários

  1. Quero ilustrar qo que disse no comentário anterior com mais este comentário.
    Um livro de Nicholas Sparks, editado pela Presença (em 22ª edição), vem encadernado com uma capa que, parta além de assegurar ser "o livro que inspirou o filme", mostra as duas personagens principais na praia.
    Se lerem a obra, vão verificar que o rapaz, ao longo do livro, tem o cabelo rapado "à militar" e a rapariga é morena e não loura.
    Digam-me: como é que um leitor, perante esta capa "real" identifica a leitura com esta imagem?
    Não seria preferível recorrer a outra imagem que não a do filme? Ou era suposto seguir a mesma capa da editora Grand Central Publishing (e, neste caso, manter o título original "Dear John")?
    Criativos, designers, sejam criativos, por favor!

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    Respostas
    1. Apenas gostaria de dizer a Jocamartinho, que a “culpa” não é dos designers, pois são eles os primeiros a tentar fugir destas soluções. A “culpa” é das ideias petrificadas e sobretudo muito discutíveis acerca de mercado e vendas, às quais eles (os designers) estão inevitavelmente condicionados. De resto e regra geral, concordo.

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    2. Nem de propósito!
      Minutos antes de vir às Horas Extraordinárias estive a ler no jornal “i” de hoje a entrevista do jovem cineasta Rodrigo Areias, a pretexto do seu recente filme “Estrada de Palha” (western alentejano), na qual ele diz o seguinte:
      «Os meus (filmes) têm sempre a ver com livros, porque ler é um processo de libertação, de criação de imaginário. O filme é uma imposição do imaginário de alguém, e um livro não. Por isso é tão difícil ver filmes de livros que (já) lemos.»
      Concordo. Ler é libertação. O filme é imposição. Ao ler o livro, cada leitor cria o seu imaginário. Ao ver o filme, é submetido a um imaginário. A vantagem fica do lado da literatura.
      Em suma: um livro é uma coisa, um filme é outra coisa – ainda que o pretexto para este tenha sido aquele.
      O que gostava era de ler livros que tenham sido escritos a pretexto de filmes, livros que nos permitam recriar, desenvolver, os imaginários que nos foram mostrados pelos filmes. Se calhar existem, eu é que não conheço.
      Cumprimenta
      Joaquim Jordão

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  2. "Os tempos mudam e os amantes também: os da cama e os da capa".
    Gosto desta frase, é forte.

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