Menores maiores

Um dia destes, fui a uma escola secundária falar com adolescentes sobre poesia e criação literária em geral. Fizeram-me perguntas bem interessantes, deram opiniões muito curiosas e, no seu todo, a sessão foi mais produtiva do que muitas em que participei para leitores adultos. Nem sempre corre assim tão bem, mas, em regra, as crianças e os adolescentes ainda não perderam uma certa vergonha de se expor e costumam ser mais sinceros. Um dia destes, divertimo-nos bastante com uma colega que trabalha na área infantil da Oficina do Livro e que recebe vários e-mails de miúdos. Uma menina de 11 anos andava a ler As Mulherzinhas e, ao terminar o primeiro capítulo, escreveu a dizer que tinha encontrado uma gralha, que a seguir identificava, indicando a página e a linha respectivas, e corrigia. Um rapazinho ainda mais novo, de 8 anos, mandou uma longa mensagem a explicar que se tinha posto a ler um livro de Miguel Sousa Tavares (já não me lembro qual) e, porque estava a gostar muito, queria agradecer à «iditora» que o tinha publicado, avisando que, quando se encontrasse mais adiantado na leitura, daria uma opinião detalhada. Fantástico. Quando eu escrevia livros juvenis, recebia muitas cartas de leitores – algumas com críticas completamente justificadas e o elenco das gralhas que depois se corrigiam nas edições seguintes. Valham-nos estes pequenos intelectuais, que serão provavelmente os leitores de amanhã, se tivermos a sorte de não se perderem pelo caminho com outros objectos lúdicos ou, claro, vícios piores.

Comentários

  1. Leio muito desde que me lembro de saber ler, mas nunca tive a iniciativa destas crianças. É bonito!

    PS: O maior atrevimento que tive foi um dia, já com uns 20 anos, ter ido a Fontanelas procurar Vergílio Ferreira e ter conseguido estar 10 minutos a conversar com ele...

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  2. De repente voltei à infância. também li Mulherzinhas da Louisa May Alcott assim como toda a colecção da Condessa de Ségur que devorava. Tinha ideia que as crianças/jovens de hoje não tocavam muito neste género de histórias, foi por isso uma boa surpresa ouvir o seu testemunho.
    Isabel

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  3. Ainda bem que ainda há editores que, como a Mª do Rosário Pedreira, que têm em conta a opinião e as observações dos leitores. Ainda há pouco tempo enviei vários e-mails para a D. Quixote a propósito da quantidade absurda de gralhas e da aparente falta de revisão do livro "Catch-22" e nunca obtive resposta. Na edição como em qualquer negócio há os bons e os maus profissionais. Esperemos que os primeiros sejam sempre mais que os segundos.

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  4. Adorei ler este post... adorei mesmo. Revi-me completamente, como se me olhasse ao espelho e me visse, mas em letras alinhadas em palavras.

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  5. «...que serão provavelmente os leitores de amanhã» ou até, quem sabe, os revisores ou mesmo editores de amanhã. Já denotam pelo menos espírito crítico e iniciativa!
    Eu tento ignorar as gralhas (no último livro que li, numa 3.ª edição ainda encontrei algumas), mas incomodam-me bastante. Confesso que me tem parecido que tem havido cada vez menos cuidado na «caça» à gralha, mas talvez isto talvez esteja relacionado com a quantidade de livros que hoje se publicam, muito superior ao que se publicava há uns anos.
    Nunca enviei cartas nem aboradei editores sobre gralhas, com uma exceção: no Caim encontrei umas cabras que passavam a ovelhas na página seguinte e isto, para uma guardadora de vacas como eu fui em criança, fez realmente confusão. Afinal, apesar de eu ter lido uma edição já bem adiantada foi-me dito que já tinha sido detetado e corrigido.
    Fiquei na dúvida se um editor recebe bem este tipo de observações, mas parece-me que isso dependerá de cada um, certo?

    Maria do Rosário: «...os adolescentes ainda não perderam uma certa vergonha de se expor e costumam ser mais sinceros» - ainda não perderam a vergonha ou ainda não a ganharam?

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    1. Apercebi-me que sem querer acabei por ficar anónima no comentário anterior.
      Agora assino:
      Anabela F.

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    2. Gostei de ler o seu comentário, Anabela.
      Há gralhas que não são "apenas" de texto ou puramente gramaticais; há-as de pormenor, como no caso das cabras que se transformam em ovelhas (e não se trata de uma tradução, onde isto frequentemente acontece), de dias de Verão que na página seguinte se diz serem de Inverno, etc.
      Há lapsos que não são "apenas" da responsabilidade dos revisores, porque vêm da origem, dos autores.
      Provavelmente, o aviso que fez à editora do Caim (Caminho) causou perplexidade, muito embora lhe tenham dito que já tinham detectado o lapso - isso não é gralha ou erro tipográfico, é um erro de pormenor. É como se o autor colocasse os pinguins no Polo Norte.

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    3. Regresso aos comentários para esclarecer o que é óbvio - basta ver a hora da publicação dos respectivos comentários -, uma vez que a resposta da MRP é dirigida ao comentário da Anabela e não ao meu.
      O lapso foi meu, ao não seguir a ordem das respostas. A minhas desculpas para ambas.

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  6. Gandas miúdos!!!! (já eu quando escrevo às "iditoras" a elencar as gralhas dos livros que tantos euros me custaram e que tanto me irritam, fico no zero)

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  7. Bom dia aos extraordinários visitantes e aos extraordinários escreventes em sendo alguns destes visitantes escrevem e lêem mais o que menos escrevem e aos outros tantos escrevem menos e mais lêem, pois em tractando-se dos que escrevem entre os que lêem, escrevendo ou não maiores menores ou menores maiores como diz a princípio a Dra. Maria Rosário Pedreira e fora por tempo aplicar-se, dedicar-se e ensinando-se como exemplo a quem realmente responsável as letras diga-se poesia e criação literária a adolescentes e nem tão adolescentes assim visto a sinceridade em projecto atemporal o ser idônio preza-se por aspectos da formação e conpceito organizado das idéias e ideiais firmando-se por leituras interessantes, correctas e simples sem nenhum sacrifício ou seja que despertem a boa intenção enquanto causa e aprimoramento humano justificado em sendo.

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  8. Sendo o texto da MRP direccionado menores maiores condicionante a prática de leituras entre acerto por erro ou erro de acerto cuja periodicidade da gralha estende-se a pela maior e menor atenção equivalência e proporção a indisposta margem de acerto considerando o nível inteligível e precocidade a diferença etária a preparo e evidente da contraposição e disposição relativa a iniciativas outrora dinâmica haja luz de inclusive a posteriori, com realação a leitura propriamente deste post a exemplo Jocamartinho.

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    1. Explique-me anónimo, porque eu nunca percebo e no entanto maravilho-me com esta deliciosa forma de dispor as nossas palavras, como se fosse em frases, como se fosse em textos.

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  9. Margarida Botelho da Silva15 de junho de 2012 às 08:16

    Fantástico, Maria do Rosário!
    Há tempos, quando dinamizei uma sessão de leitura com base n' A [sua] Biblioteca do Avô, gostei particularmente do facto de as crianças associarem tão bem a arca ao tesouro que é uma biblioteca. Quando chegam a grandinhos, às vezes é-nos difícil explicar o sentido de «metáfora».
    Curiosidade: eu levei uma arca para a sala de aula da classe. A turma descobriu-a e, depois de a se votar em quem abriria, as crianças puderam ver um embrulho com uma bela fita e um bilhete. Depois de lido e desembrulhado, fomos à biblioteca escolar. A menina que levava o livro foi a correr à professora bibliotecária informá-la que «foi o avô da história que deu o livro para a biblioteca para que todos os meninos o possam ler!». Tivessem os maiorzinhos esta capacidade de se deixam envolver pela fantasia...

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  10. Meu eu poeta
    parte d'este amar
    sou sal,
    tua em poesia mar.

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  11. Perfumes menores maiores: essência amor.

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    1. Claudia Tomazi ou Claudia Tomasi? O apelido é italiano, sem dúvida. Lembra-me o do autor de "O Leopardo", Guiseppe Tomasi de Lampedusa.
      Seja como for, a Claudia possui - como já aqui se disse - um encanto especial, pela sua forma de escrever e construir as frases. Todos sabemos o que ela escreve, mas subjaz qualquer coisa que nos passa despercebida, como se escrevesse noutra língua e procurasse uma tradução no Google, o que não é o caso.
      Aí reside o seu encanto: objectivamente, "obriga-nos" a fazer uma segunda e uma terceira leitura.
      Não seria de bom tom vir comentar outro comentador, pela forma de escrever, se não o fizesse pela positiva. E eu, sinceramente, quero ler os comentários da Claudia, porque trazem uma frescura que não sei explicar, mas trazem.
      Julgo que foi um comentador (Manuel) que referiu a sua entrada em outro blogue e lhe teceu elogios. Eu faço o mesmo.
      Gosto da Claudia.

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    2. Boa!

      Podemos formar um novo blog:
      "Gosto da Cláudia"

      Eheheh!

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