Livros Difíceis

Os nossos jornalistas da área da Cultura gostam de apanhar os políticos, especialmente os que desempenham funções governamentais, em falso. Lembro-me de que um dia perguntaram a Santana Lopes, quando era Secretário de Estado da Cultura, se lera Proust e de ele ter respondido com uma evasiva que lhe saiu muito mal, afirmando que lera mas já não se lembrava de quase nada. Proust é tido como autor difícil – e é quase sempre Em busca do Tempo Perdido que os jornalistas vão buscar para tramar os entrevistados. Mas há um outro livro dos ditos difíceis que também anda na boca de toda a gente quando se trata de entalar alguém (confesso que também nunca o consegui ler de fio a pavio). Trata-se de Ulisses, de James Joyce, e há muito boa gente que acha que o autor deveria ter ganho o Prémio Nobel da Literatura por causa dele. Para espantar os papões, Gonçalo M. Tavares falará hoje mesmo dessa obra maior da literatura na Casa Fernando Pessoa, às 18h30. Quiçá não desfaz alguns mitos sobre a sua extrema dificuldade e nos convence a tomar coragem para lhe pegar pela primeira ou segunda vez...

Comentários

  1. Há alguns anos atrás, muito jovem ainda, requisitava para leitura domiciliária, livros na Biblioteca Itinerante da Câmara Municipal de Lisboa (sou cliente de todas as capelinhas, neste caso era uma carrinha, creio que Renault), que estacionava ali no Jardim da Escola Politécnica, creio que às quintas feiras à tarde, e que o funcionário que lá estava (de barbas, não me lembro do nome), me recomendava vivamente o Proust e, após muita insistência, lá trouxe o 1º. Volume de “EM BUSCA DO TEMPO PERDIDO” e na quinzena a seguir lá o devolvi creio que sem ter lido mais de 20 páginas, lembro-me perfeitamente da seca. No entanto, passados estes anos todos, ando a ver se arranjo coragem para ceder aos apelos do próprio livro que tenho na estante (que comprei entretanto) e que, não sei se por estar mesmo em frente dos olhos ao nível da barriga, todos os dias me olha com um ar muito triste e de extrema solidão…qualquer dia perco a cabeça e levo-o de férias mais os cinco irmãos dele; mas não pode ser nas férias de Verão, porque aí sim iria contrariar aquelas publicações que todos os anos publicam uma lista de livros para férias, é que neste caso, não caberá mesmo nessa famigerada e ultrajante lista... feita por quem não lê e para quem não lê!

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  2. Bom dia,
    Vou dar o corpinho ao manifesto:
    Não li e, sinceramente, não tenho intenções de ler tão cedo:
    " Em Busca do Tempo Perdido", "Ulisses" e "O Homem sem qualidades".
    Interrompi a leitura do livro do Proust ao 3º volume. Comecei a ler o do Musil , mas...enfim... há tantos outros que preferi desistir.
    Ainda não tentei o Ulisses...

    Pode ser que um dia mais tarde...

    Cumprimentos a todos.
    M

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    1. A propósito de livros difíceis; poderei incluir estes nos difíceis?
      -"A MONTANHA MÁGICA"
      -"OS BUDDENBROOKS"
      -"MORTE EM VENEZA"
      -"MOBY DICK"
      -"D. QUIXOTE"
      -"O HOMEM SEM QUALIDADES"
      ."GUERRA E PAZ"
      -"WERTHER"
      e mais alguns...

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    2. Severino, o Quixote está aí a mais. MRP refere-se a livros difíceis. Chato é outra coisa. De todo o modo, o Quixote não é uma coisa nem outra. É até divertido.

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    3. Retiro o chato. Foi chato, mas baralhei-me entre comentários. Mas mantenho-o, no que se lhe aplica. Dom Quixote não me parece difícil. Longo, sim, mas divertido (e essencial).

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    4. Obrigado Paulo, sempre a considerá-lo.

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    5. Eu nao acho "Os Buddenbrooks" um livro difícil, já a "Morte em Veneza" é chatíssimo. Quanto ao "Werther", tive de o ler na Faculdade, na altura, também achei chato, mas hei-de pegar nele outra vez, para tirar dúvidas.

      Ainda nao li os outros que constam da sua lista. E acho que os políticos deviam ser mais honestos (olha quem) e assumir que nao leram determinado livro. Ficava-lhes melhor, do que darem respostas que soam a falso, como no caso de Santana Lopes. Afinal, é obrigatório que um político tenha lido Proust?

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    6. Cristina o que parece ser obrigatório é eles (políticos) serem mentirosos...

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  3. Do Ulisses nunca passei do 5.º capítulo, em diversas tentativas, em tradução brasileira e portuguesa, mas não deitei ainda a toalha ao solo. Acho que se deve tentar primeiro o Retrato do Artista Enquanto Jovem. Já o fiz, com êxito. Mas há pior, o Finnegans Wake - "riverrun , past Eve and Adam's ...", de que não passei nunca do primeiro parágrafo e de alguns outros salteados: "And the duppy shot the shutter clup (Perkodhuskurunbarggruauyagokgorlayorgromgremmitghundhurthrumathunaradidillifaititillibumullunukkunun!) And they all drank free ." Há uma tradução brasileira de Haroldo de Campos, salvo erro, e uma portuguesa, incompleta, de M. S. Lourenço. Nunca lhes pus a vista em cima. Deve ser o desafio máximo da tradução (?).

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  4. li "Ulisses" de Joyce (sem dificuldades. de maior diga-se...) mas agora Proust, não li nadica de nada.

    e muito sinceramente não acredito que venha a ler alguma coisa dele.

    tenho centenas de livros que ainda quero ler, de tantos autores que gosto.

    por outro lado, já não tenho a teimosia de outros tempos, de ir até ao fim, quando apanhava um livro chato. :)

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  5. Vou chegar a todos eles (como se costuma dizer, "se Deus quiser"). Já olhei várias vezes para a estante para começar Em busca do tempo perdido, mas o facto de ter o segundo volume e não ter o primeiro, tem-me desmotivado. Ulisses deve ter prioridade, ainda que tenha uma fila considerável de outros livros à sua frente.
    Já de Musil , de que aqui se falou, li A portuguesa e outras novelas sem grande dificuldade e entusiasmo, diga-se e li o primeiro volume de O Homem sem qualidades, este sim a prometer muito, mas que julgo vir a ser-me mais benéfico numa fase mais adiantada da minha vida. Quando voltar a ele, começarei do zero, como se nunca lhe tivesse pegado.

    E porque falamos de livros difíceis, vou acrescentar outro, não pela dificuldade de leitura, mas pelo caminho penoso que por vezes se torna, de tão aborrecido: A montanha mágica. Acontece que, por teimosia, nunca desisti. Ainda bem. Tenho-o hoje tão presente como não acredito que tivesse se o tivesse lido de uma assentada. É um livro que custa a escalar como uma montanha, mas que fica a viver no leitor, como que por qualquer manobra mágica.

    Boas leituras

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  6. O Joyce é o cúmulo do desinteressante, para mim. Proust é um pouco melhor. Ambos escreviam para o umbigo. Todos os escritores têm de o fazer um pouco para serem bons, mas não ao nível de desprezo pelo leitor a que eles chegaram. Não merecem ser lidos.
    Já Musil, que o nosso extraordinário Mário Rufino referiu atrás - acho-o um autor maravilhoso. Não sinto, como com os anteriores, que só escrevesse para si.

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    1. António Luiz Pacheco5 de junho de 2012 às 03:40

      Meu Caro e Extraordinário Nuno Serrano:

      Permita-me discordar de si num ponto muito específico:
      - Para mim, dentro do meu conceito de livro e de leitor, que não tem de ser o mesmo que o seu, o autor tem de escrever para os outros e não para si mesmo!

      Creio que é o do separa o autor-difícil-chato do autor... de sucesso?

      Um abraço

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    2. Caríssimo António Luiz Pacheco

      Concordo que o escritor que não quer escrever só para a gaveta deve escrever tendo em atenção o leitor. Quando referi que o escritor deve escrever um pouco para o umbigo, quis dizer apenas que tem de ser genuíno, não escrever algo que não lhe faça sentido (tanto nos temas como na forma) só por saber que os leitores vão gostar ou que vai ter mais leitores e mais sucesso. Conheço alguns casos assim em Portugal mas não quero dizer quais :).

      Também distingo difícil de chato. Os chatos são difíceis, claro, mas há difíceis que não são chatos, são maravilhosos: Milan Kundera, Marguerite Yourcenar, Camilo Castelo Branco, Musil... Tantos!

      Agora, os dois nomes referidos referidos por MRP são chatarrões. Deviam ter escrito apenas para a gaveta e ponto.

      Saudações urbanas!

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    3. António Luiz Pacheco5 de junho de 2012 às 05:26

      OK! Compreendidíssimo!
      E grato pela sua paciência em me esclarecer!

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  7. António Luiz Pacheco5 de junho de 2012 às 03:34

    Outro post do melhor!

    Estou a sentir-me reconfortado pela sinceridade,
    aliás prova de inteligência (se me permitem) e esclarecimento dos comentários! São o que tanto me atrai a este espaço Extraordinário, onde me atrevo a dizer que posts assim fazem história!
    O Caro Luís Eme disse tudo:
    - "Livros chatos!".
    Nem mais!

    Afinal o que são livros difíceis?
    Não creio que se possa definir com exactidão:
    - São os que custam a interpretar, porque os conceitos que contêm são herméticos e difíceis de perceber?
    - Pela dificuldade na compreensão das idéias que exprimem?
    - Pelo rebuscado da linguagem que exija um elevado nível de vocabulário ou conhecimento específico da linguagem usada?
    - Ou pelo pouco interesse que desperta?

    Julgo que é demasiado subjectivo e está muito condicionado a factores, mais exógenos e que são portanto do leitor do que endógenos, ou da própria obra em si, conteúdo, linguagem, estilo, tema, género, etc. Estão a seguir-me?

    Um código do processo civil ou um tratado de anatomia e fisiologia animal são o quê?
    Por exemplo, a "Introdução à metodologia das ciências sociais" do prof. Pantoja Nazareth , foi a coisa mais difícil que já fui obrigado a ler!
    Reparem "fui obrigado"... do género de ler um parágrafo e não ter retido nada porque não percebera... tinha de voltar atrás, descodificar e tomar notas e resumir numa frase minha a idéia que a custo extraía. Método de estudo, pois tinha exame da cadeira! Todos temos exemplos assim!
    Chegou-me!
    Nunca mais li nada que não me interessasse!

    Agora, daquilo que me interessa há os que são
    "difíceis", mas para outros porque não lhes interessam a eles.
    O Traité rustica de l'apiculture " deve ser de dificuldade Extraordinária para muitos de vós... porque não vos interessa!
    Ou não será?
    E isso faz de mim superior? Não!
    Faz de alguém superior, o ter lido o "Ulisses"? Ou Proust ou o nosso Aquilino?

    Muito francamente penso que há é livros que são chatos! Difíceis? Não! Chatos! E isso depende do interesse que cada um consegue despertar em nós. Se formos comparar na listagem da nossa Extraordinária Almira , veremos exemplos de que há quem leia coisa bem chatinhas... e o meu "Caravelas" é capaz de ser um exemplo, mas não o leio para me armar em bom ou parecer culto, e sim porque o tema me interessa!

    Desculpem... estou a ser chato!
    Conseguiram ler o post até ao fim? Não creio, eheheh !

    Saudações do campo!

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    1. Certamente nem seria o tipo de conquista primária a leituras difíceis.

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    2. António Pacheco
      Consegui ler o seu comentário até ao fim - talvez isso prove que não é chato e, certamente, nada difícil.
      Concordo consigo. Aquela interrogação:
      "Faz de alguém superior, o ter lido o "Ulisses"? Ou Proust ou o nosso Aquilino? " é pertinente.
      Quando era miúdo e vivia no "campo" (provavelmente o mesmo campo de onde envia as saudações), para mostrar que lia bons autores e difíceis, pedi na Biblioteca da Calouste Gulbenkian o "Náusea" de Sartre. Como saberá, a decisão da requisição dos livros era da responsabilidade do funcionário, que podia negar esta ou aquela obra se a mesma não estivesse adequada à idade do leitor. E o homenzinho negou-me a vaidade de exibir o "troféu" de Sartre, que eu não iria ler, então.
      Há livros chatos e, pior do que isso, longos, como a espada de el-rei D. Afonso. Difíceis, talvez não, a não ser que nos apareçam em caracteres chineses ou em línguas que não dominamos.
      Posso dizer-lhe uma coisa: nunca, mas nunca, deixei um livro por ler após ter lido a primeira página. Confesso que há muitas dezenas deles que ainda não comecei a ler, é certo, mas quando o fizer é para ler mesmo. Também é meu timbre elogiar esta ou aquela obra a amigos, desde que ela corresponda ao tempo aplicado nas "horas extraordinárias" de prazer; jamais faria o contrário, não aconselhar um ou outro livro aos mesmo amigos, só porque não me agaradou, a mim, a sua leitura.
      Não tenho espírito crítico tão apurado a tal ponto.
      Às vezes acho piada quando se fala em determinada obra e diz-se: não gostei; e acrescenta-se: só li até à página 10 ou 20. Se o livro tiver 100, 200 ou 300 páginas, é nas primeira duas dezenas que se aprecia o conjunto da obra?
      Referem o "Ulisses". Aquilo é um "tassalho" que mete medo só ao ver a lombada e pensar: vou ler isto em quanto tempo? E não lêem. Depois dizem: é um livro chato, longo e patati-patatá...
      E "O Nome da Rosa"? Saltam as páginas dos diálogos que numeram os incunábulos e as múltiplas referências bibliogáricas das obras da biblioteca do convento?
      Por isso, caro Pacheco, acho que o seu comentário é pertinente. Como dizem pelo "campo", "muita vez não fosse o galo cantar e a raposa não olhava a capoeira".
      Quis o exemplo de um comentário chato e longo? Aqui tem um.

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    3. António Luiz Pacheco5 de junho de 2012 às 16:27

      Gostei, meu caro! Claro e directo!

      Não pelo que parece concordar com a minha eventual opinião - de outsider (desculpe lá ó A. Severino e com todo o respeito) - mas porque na minha opinião de traça, aqui temos um exemplo claro e esclarecido daquilo que eu e as demais traças buscamos neste Extraordinária espaço!

      Um grande abraço!
      E obrigado pela atenção que me dá e distingue!

      Saudações campesinas!

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    4. O Joca esteve bem e o Pacheco melhor ainda (passe o outsider )...

      Um abraço para todos os Extraordinários

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  8. Com relação a (surrealismo) dizem, Marcel Proust rabiscava os cadernos enquanto andava “Em Busca do Tempo Perdido" e que Vitor Hugo inventou-o um século antes do que haveria de ser. Pois há os que ousam destes objetivosartísticos dizem ser subconsciente, porém em determinado tempo ou não, realidade ou não, de uns e de outros a ser o sonho de outros e de um ou vice versa.

    A respeito a inteligência pertence a uma ordem multifacetada e trata-se do reconhecimento destas faces que o artista intera-se de remontar o aspecto da leitura somente perceptível aos sentidos e responde características da informação e da satisfacção temporal, apontado regras de uma outra leitura e portanto particularmente âmbito recôndito: a imaginação, a criatividade etc., tem linguagem determinada e confugurando amparada sem conhecer (controlar) o sistema da temporalidade; quando esta clausura silenciosa consiste do constante reordenar similaridades (alcançar o outro). Acho, que é isso aí. E quem procura acha!

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    1. Cláudia, quando se fala de Victor Hugo ponho-me em sentido e faço a continência!

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    2. Sinceramente a melhor obra de Vitor Hugo fora a real, e certamente há de concordar comigo. e afirmo que esta nem seria de pert uma evasiva. Vamos lá?!

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    3. Cláudia, sinceramente, não consegui perceber o que me quis dizer, sobre Victor Hugo? sinceramente, tou a falar a sério.

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    4. Por ventura ASerino a obra de Vitor Hugo nem consiste somente de livros, mas carta inclui-se e da homenagem a Balzac em Pére Lachaise, ali lemos o Vitor Hugo pleno de sentimento: verdade, liberdade e fé a real serviço da literatura.

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    5. De acordo Cláudia, um bom dia.

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  9. João J. A. Madeira5 de junho de 2012 às 05:04

    Que raio de post me havia de calhar hoje, logo hoje, em sorte. Se tiverem paciência acompanhem este link a partir do minuto 13 (lol):

    http://www.youtube.com/watch?v=uGB_Q7n3OY4&feature=plcp

    O livro de que se fala - a par do outro que se mostra - é meu. Chama-se "O Rio Que Corre na Calçada" e não está editado. E sei lá eu o que é um livro difícil, chato, quando tenho opiniões assim divergentes de uma assentada. Quando, por outro lado, tenho o "amigo" António Luiz Pacheco (que não conheço pessoalmente) a dar-me a honra de o ler e depois aqui num comentário me chama, talvez por simpatia, "autor extraordinário". Quando tenho leitores que se assumem, sem falsas modéstias, como óptimos leitores e a dar-lhe todos os elogios. Quando recebo resposta da Leya não a chamar-me chato mas a desejar-me felicidades na demanda de uma editora.

    Sei lá eu o que é ser chato. Só sei que vi este comentário ontem à noite e ainda não o digeri bem.

    Há uns anos conheci uma cabeleireira que me quis ler. Fiquei cheio de medo da sua opinião. Não por ser cabeleireira, é claro, mas porque sabia que a sua leitura preferida era Paulo Coelho e livros de auto-ajuda. Não imaginam a alegria que senti quando mo devolveu e disse não ser capaz de passar da página 20.

    Sei lá eu o que é ser chato. Não será chato todo o livro que não nos rapta para dentro dele?

    Pelo post de hoje pode presumir-se que a nossa anfitriã teria recusado para edição o James Joyce se ele lhe tivesse enviado o original?

    Estou a escrever na varanda. Há um caracol a passear numa planta. Vou apanhá-lo e procurar outros, fazer uma caracolada e beber uns copos. Não percebo nada disto. Talvez perceba de caracóis.

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    1. António Luiz Pacheco5 de junho de 2012 às 05:35

      Ahahah !
      Gostei do sue comentário, também ele genuíno como tão bem explicou o Extraordinário Nuno Serrano!

      Meu caro, o seu livro tem a particularidade que me agrada de ser directo e claro, quer nas intenções quer na forma de comunicar.
      Aquilo que você vê e descreve é o Mundo que está ao alcance de qualquer, porque é o nosso... diria que não está ao alcance de leitores de Paulo Coelho, que é exactamente o contrário, escreve de modo abstracto para servir a todos e cada qual ler aquilo que quer ler! Porque a esse eu diria que falta ser genuíno!

      Hum... perdoem-me a presunção, mas é o que sinto.

      Até logo!

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    2. Caríssimo João Madeira
      Fui ver o vídeo que desassombradamente nos evidenciou. Não sei se a obra possui essa particularidade de adormecer um editor, mas pelo que julgo corrente, com honrosas excepções, há editores que dormem a partir da terceira ou quarta página, como se o livro fosse um anuário de estatística. Julgo mesmo que J.K. Rowling terá adormecido uma dúzia de editores (que passariam a noite a ler a obra de preferência, que é o Livro de Cheques) antes de encontrar um desperto.
      Gabo-lhe a coragem, João Madeira. Só por isso, teria curiosidade (porque o futuro da obra está nas suas mãos) em ler esse tal romance que, pelos efeitos causados numa das editoras (sonolência), leva-nos à presunção que devia ser vendido nas farmácias.
      De qualquer forma, tentarei adquirir o "Inter lapidem".
      Para que conste, até hoje, apenas levei duas negas e uma omissão (as duas negas foram de editoras que já não existem) e a omissão foi de uma editora a quem propus a obra e não deu qualquer resposta - julgo que já falei nisso, aqui.

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    3. João J. A. Madeira5 de junho de 2012 às 14:21

      O meu mail é jjamad@gmail.com . Envie-me o seu e terei todo o gosto em enviar-lhe o "manuscrito" tal como fiz com o António Luiz Pacheco. Sei de antemão que o resultado será 100% eficaz. Ou gosta do livro ou vê resolvidos eventuais problemas de insónia eheheh (atenção: ler livros em computadores também me dá sono).

      De qualquer modo, a sua opinião pode ajudar à resolução de um grande dilema: ou há apanhadores de caracóis a escrever ou cabeleireiras a editar.

      http://www.bertrand.pt/?palavra=interlapidem&restricts=8066&facetcode=temas

      É este o link de Inter Lapidem

      Um abraço e...obrigado

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    4. João J. A. Madeira5 de junho de 2012 às 14:25

      ...ah, e esqueci um pormenor. Tive uma editora a querer editar - sem pagar, porque isso não faço - todos os meus livros. Faliu. Ainda bem que não chegou a editar nenhum. Ainda ia pensar que a culpa era minha.

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    5. Caríssimo João Madeira

      Agradeço-lhe a sua disponibilidade e, ainda mais do que isso, a sua franqueza. Disponibilizar um original - que eu não aconselho - é um acto de coragem, que só o dignifica.
      Não se deixe levar pelas opiniões de duas ou três pessoas, ainda que estas sejam (como dcerto já foram) bem intencionadas; nem se deixe embalar pelas opiniões dos amigos, que têm algum rebuço em criticar negativamente.
      Julgo por si e não desista da obra que escreveu, porque é um trabalho solitário, a quem deu a sua atenção.
      Provavelmente por isso, não lhe irei pedir o original, porque não sou editor e - pese embora algum sentido crítico pessoal - não sou crítico literário. Logo, não iria adiantar muito mais do que outros justamente já fizeram ou já disseram.
      Vou comprar o seu "Inter lapidem", pois a Bertrand já o disponibilizou na net com um desconto.

      Um grande abraço e os desejos de grandes felicidades para a obra publicada e para as que achar que pode publicar. A sua franqueza - que não é a sua fraqueza - é o sinete da sua frontalidade, transparência e, porque não, o símbolo do génio que está em si, à espera de melhores dias e de outros editores.

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  10. "O encontro feliz com um livro foi combinado fora de nós. Combinaram-no a nossa idade (que é menos nossa do que dela), a nossa fase emotiva e cultural (que também), uma notícia de jornal, as obsessões que nos visitaram não sabemos porquê, o ar que se respirou, a rede infinita de relações que nos estruturaram uma sintonização."

    Vergílio Ferreira

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    1. António Luiz Pacheco5 de junho de 2012 às 06:13

      Fantástico aquilo que foi buscar minha Cara!

      Assim se entende a literatura e se divulga ou pode divulgarm entendendo, explicando e praticando esse conceito.

      Saudações respeitosas e agradecidas!

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    2. Como sempre, assertiva!:)

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  11. Certamente imperdível. O escritor Gonçalo M. Tavares e a consistência de Joyce pela obra "Ulisses" singra na Casa Fernando Pessoa; diga-se alto nível a livros difíceis.

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  12. Interessante locação de Neruda.

    "Tem mais folhas uma pereira que Em busca do tempo perdido?"

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  13. Aliás, nota interessante a respeito do post "Livros Difíceis" apontado entre "Dez livros essenciais da Literatura Mundial" segundo a "Revista Bravo" inclue as citadas por MRP - Ulisses de Joyce e O tempo perdido de Proust.

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    1. Oh Cláudia mas a revista BRAVO não é uma revista (alemã) para adolescentes muito adolescentes?

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  14. Nunca li nenhum deles, confesso. Imagino-os de leitura muito difícil e hermética. Chatos, melhor dizendo:)
    Se bem que estou com curiosidade de ler o Proust . De tentar, pelo menos.

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  15. Interessante a bíblia como livro difícil é fácil, e quando fácil difícil por compreender, tolerar e ensinar que o tempo fora caminho; livros difíceis: compõe de presente e audaz, cativante e estimulante, combatente e prisoneiro... circunscrevendo a imagem do homem ao que fora sem tempo do presente tempo o fora.

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  16. "Dificéis"...É comum que se diga que os "clássicos" são ou dificeis ou chatos, ou antes dificeis e chatos, "literatura pesada" como se diz, e ganham assim " má fama". Confesso (eu que gosto da literatura francesa) adorar alguns e não gostar nem um pouco de outros. Gosto particularmente de Zola, Flaubert, Sthendal, Victor Hugo, claro, e Voltaire (ri-me muito com o seu Candide). Mas a propósito dos clássicos , lembrei-me de uma frase muito boa de Italo Calvino que definia o que era um clássico "Un classique est un livre qui n'a jamais fini de dire ce qu'il a à dire". Por isso voltamos sempre à sua leitura...
    Isabel

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  17. O meu último livro foi o mais difícil de ler. Estou a falar do Portugal Agrilhoado, A Economia Cruel Na Era do FMI, de Francisco Louçã, a quem um caricaturista chamou de demagogo. Não porque tenha arrastado o dedo, palavra a palavra, pelas suas lombas, planícies e rios de páginas. Não! Porque li-o de um trago.
    Não porque estejam nele cravadas, a branco e preto, palavras que são escusadas, termos que me sejam escondidos ou teorias mais ou menos desconhecidas.
    Mas porque todos os livros, mesmo os que de criativos só são credores da realidade que supera a ficção, revelam homens que, adoptando a teoria dos rótulos, recusam mesmo na sombra do desconhecido os argumentos do outro.
    Posso não ter gostado, mas fiquei a conhecer um novo Portugal: um muito difícil de ler e mais difícil ainda de engolir! Ler é, definitivamente, tolerar!

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  18. Curioso. Ainda há pouco comentava com umas amigas que me custou ler as páginas centrais do 2666 (Roberto Bolaño) e que na altura quando terminei o livro fiquei com a sensação de que teria tido o mesmo efeito se tivesse lido apenas dez daquelas dezenas (ou centenas?) de relatos. Mas agora, quando me vêem à memória partes do livro, sei que valeu a pena aquele «sofrimento». Já abandonei livros a meio, sim. Nunca li nenhum desses. O meu marido andou a ler recentemente o «Ulisses» e parece-me que não o acabou. Talvez daqui a uns 10 ou 20 anos lhes pegue. Tenho pena de não poder ir hoje, porque parece prometer, quanto mais não seja pelo G.M. Tavares.

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    1. Interrompi a leitura de 2666 do Roberto Bolano para retomar quando estiver mais "inspirada", há tanto que quero ler antes.
      Isabel

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  19. "Os nossos jornalistas da área da Cultura gostam de apanhar os políticos, especialmente os que desempenham funções governamentais, em falso". Segundo MRP um bem ao país.

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  20. Eu tentei ler "Um amor de swann", mas deixei-o nas primeiras páginas. Havia um casal, em que ela tratava o marido por você, e vice-versa, e eu pensei "isto é muito antiquado, e as pessoas que se tratam assim hoje em dia são bastante anormais", e por isso deixei de o ler.

    Aliás, o Bruno Nogueira tem uma piada para as mães que tratam os filhos por você:

    "haja alguém que apresente o filho à mãe"

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  21. Para mim, que pouco, muito pouco mesmo, entendo destas coisas, é assim:

    - livro chato = aquele que a gente vai lendo, sem gostar muito do que lê. Larga-o e depois volta a lê-lo, volta a trás, depois avança 3 páginas sem lê-las (como quem não quer a coisa, com muita subtileza ...). Até gosta do tipo de escrita, mas o assunto ... ou v.v., enfim ... e como a teimosia é maior do que a chatura do dito, chega-se, finalmente, ao último parágrafo.

    - livro difícil = aquele que a gente vai lendo sem entender patavina do está lendo. Volta-se atrás e ... cruzes! isto é o Inferno! Desconcentração? Burrice? Falta de conhecimento da língua? Sabe-se lá. Não se sai é da página um. Várias tentativas e nada, quando muito consegue-se chegar ao verso da folha primeira. Já em suores e iras solta-se um "chiça, que isto não é para mim". E o coitado do LD é atirado, sem dó nem piedade, ao degredo da estante escura.

    - livro-chato-difícil = Vocês, conhecedores do assunto avisem-me, por obséquio, quais são eles para não lhes pôr nem mãos nem olhos em cima.

    Agradeço.

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  22. Sobre o La Recherche estamos conversados...

    Sobre o acontecimento sobre o qual versa o post:

    "Ao contrário da Montanha Mágica e de Crime e Castigo, Ulisses é um livro para se ler só uma vez - Gonçalo M. Tavares"

    "If I gave it all up immediately, I'd lose my immortality. I've put in so many enigmas and puzzles that it will keep the professors busy for centuries arguing over what I meant, and that's the only way of insuring one's immortality. - James Joyce"

    "Será que o jantar hoje é frango? Que seca... estou farto desta mer**, ainda bem que fiquei ao pé da porta - João Courinha"

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    1. António Luiz Pacheco5 de junho de 2012 às 16:37

      Quantos gins tinha o J. Joyce no bucho quando escreveu isso? E com ou sem tónica?

      Ó inclemência... ó João Courinha ... vá-se lixar!

      Se eu fora Zeuzera pyrina você ia pagar!

      A sua tia havia de o chamar à responsabilidade, seu Garcia!!!!

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  23. Maria do Rosário que me desculpe, mas não há livros difíceis. Como editora, saberá por experiencia própria que os leitores é que são, estatisticamente, difíceis de contentar.
    A abundância da oferta dá-lhes muitos livros que trazem a papinha toda feita – começa-se tranquilamente na primeira página sabendo que têm princípio, meio e fim, é o padrão normal, aviam-se sem esforço do leitor, que dá por bem empregue o dinheiro que pagou por eles, tão jeitosos. Leu, arrumou.
    O problema é quando os astros desafiam o escritor a experimentar outro padrão / e um editor resolve arriscar nesse outro padrão, que a conjugação dos astros lhe fez, naquele momento, pressentir que, se calhar… / e um crítico, também pelos astros iluminado, calha de opinar que, realmente, talvez, quem sabe?… / e o negócio editorial é, graças aos astros, naquele momento propício a uma inovaçãozita , para variar… / e a constelação política-ideológica no momento vigente tolera… / e, se as traduções para outras línguas, depois, não desvirtuarem / e se os intelectuais lá fora, caso a conjugação local calhe de não lhes ser propícia, tenderem a agarrar-se aos exemplos que lhes chegam de outras paragens / e se os editores lá fora, nessa conjugação, acharem por bem aproveitar e promover os exemplos que lhes chegam de mão beijada / etc … / … mais ou menos assim se fazem os clássicos, que sempre começam por ser problemáticos, difíceis – em vários sentidos. Italo Calvino explica, de algum modo, estas e outras imprevisíveis possibilidades em “ Se Numa Noite de Inverno um Viajante”, um verdadeiro tratado sobre o que é, realmente, a Literatura, em todos os seus vários aspectos – na perspectiva do leitor, na das personagens, do editor, do tradutor, do censor, do político, do polícia…
    Por que é que Ulysses ” é difícil?
    Porque rompeu padrões que, ainda hoje, é difícil serem aceites pelos leitores comuns, “estatísticos” (sem ofensa, todos nós). E, de facto, valha-nos deus – um período de 24 horas da vida de Bloom (*) é descrito por Joyce com tal minúcia que, para nós, os leitores, demorará umas boas 72 horas a ler, se não desistirmos a meio.
    “Difícil”, claro. Grosso volume, léxico muito variado, deu um incomensurável trabalhão ao autor.
    E para que se deu ele a esse trabalho? Para, perversamente, exigir um esforço incomensurável ao leitor?, fazer dele escravo?, fazê-lo sentir-se impotente?, estúpido?
    Não, certamente. Ele fez isto porque, lá nos primórdios do século XX, antecipou lucidamente que já era tempo de a Literatura propor romper a barreira da “papinha toda feita para o leitor”.
    Mais tarde, Italo Calvino haveria de, para compor as coisas, tentar fazer-nos ver que isto da Literatura tem muito que se lhe diga. A começar, talvez, pelos leitores…
    (*) Nota: Bloom , hein? – que depois, Gonçalo M. Tavares retoma em “Uma Viagem à Índia”… Isto dos clássicos…
    Saudações já ensonadas do noctívago
    Joaquim Jordão

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    1. é mais ou menos assim Jordão.

      até porque há uma grande diferença entre um livro difícil e um livro chato. O livro dificil obriga-nos a um trabalho redobrado como leitor, a andar muitas vezes de trás para a frente da frente para trás. mas tem qualquer coisa que nos prende (às vezes é a teimosia...).

      um livro chato, chateia-nos mesmo, não lhe
      encontramos uma ponta pata pegar.

      além disso, a leitura vive de momentos, há alturas que estamos mais receptivos a desafios difíceis, outras queremos ver os seus autores pelas costas.

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  24. António Luiz Pacheco5 de junho de 2012 às 16:39

    Ufa!
    Caramba...
    Fantástico...

    Um abraço!!!

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  25. Cara Maria do Rosário Pedreira e demais comentadores,

    considerei este post muito pertinente. A leitura da miríada de comentários só serviu para me redobrar o interesse por este tema.

    Julgo que nunca poderemos escapar em pleno àquele que, a meu ver, constitui o principal problema do ser humano ao longo da sua vida: a comunicação. Todos pretendemos comunicar o que nos define e sustenta, ou aquilo que nos cativa, que nos interessa. Tudo isso se resume na experiência da partilha. Para isso dispomos de vários meios, que passam pelas acções, pelas palavras verbalizadas, pelos gestos, pela língua escrita. Passa pelas várias artes, passa por essa arte que se denomina Literatura.

    O problema é que, não interessa qual o esforço que deponhamos na nossa forma de comunicar, ou quanto tempo passámos a prepará-la para os outros - haverá sempre alguém que não está com o estado de espírito, ou não tem as ideias, ou não tem os conhecimentos, ou é puramente diferente, de tal maneira que se torna impossível (pelo menos nessa altura) de ir de encontro ao que se comunicou e quem o fez.

    Os livros não escapam a este problema. Concordo, pois, com aqueles que não acham possível rotular um livro de 'chato' ou 'difícil'. O livro X é assim e ponto final. Tudo depende de quem o escreveu e de quem o lê, e da forma como a abordagem é feita. E, admitamos, dadas as diferenças entre cada um, temos de ser humildes e reconhecer quando não estamos à altura de compreendermos algo; e também de saber quando esse algo não está à nossa altura. A meu ver, em nenhuma das situações se deve colocar um dos referentes abaixo ou acima do outro; há apenas uma incompatibilidade, como em tudo na vida que não é perfeito - de uma maneira bem positiva, na minha opinião.

    Ainda não li nenhum dos livros referidos, a despeito de os ter já em minha lista de leitura futura há longo tempo. Isto porque vou lendo outros, entretanto.

    Mas avanço como exemplo os livros de Joris-Karl Huysmans, escritor francês do século XIX que, formado na escola naturalista (e tendo inclusivamente firmado amizade com Émile Zola), se destaca depois com o seu famoso 'À Rebours', considerado a "bíblia do decadente". Ora, eu já li um livro dele, e encontro-me agora a ler outros dois, este referido 'À Rebours' e o 'En Route'.

    Os seus livros podem ser considerados 'difíceis' ou 'chatos', conforme os que os lêem e a altura em que os lêem. Isto porque os seus livros quase não têm enredo, possuem um vocabulário extensíssimo e variado, com palavras invulgares; além disso, ao longo dos livros (e em toda a sua extensão), são apresentadas sucessivamente apreciações críticas, referências, reflexões, sobre várias obras de arte, desde literárias, até à pintura, arquitectura, simbologia, música, etc.

    Eu posso dizer que, por vezes, estou cansado a ponto de não conseguir continuar a leitura. Isto porque ela me obriga a parar constantemente e ir pesquisar a referência X, ler sobre essa referência, depois continuar a 'digerir'. Mas posso dizer que estes livros me estão a dar um prazer enormíssimo pois, além de me entreterem, estão a ensinar-me muita coisa, quer a nível de vocabulário, quer a nível dos vários temas sobre que versam.

    Eu só acho que não devemos condenar logo à partida um livro pela sua aparente 'verve entediante'. Pode surpreender-nos mais tarde. E, se não chegar a melhorar mais para a frente, então, quando o depusermos e dermos por encerrada a leitura, estaremos satisfeitos por havermos tirado as nossas conclusões com tempo e não de forma precipitada!

    A leitura é um prazer e um entretém; mas também é uma aprendizagem constante, e um esforço que nos recompensa! Se tudo fosse fácil, para que haveríamos de perder tempo com isso? A leitura, para mim, é como um contrato assinado entre o escritor e o leitor: cada um tem direitos e obrigações, e ou se cumpre esse contrato ou não se cumpre!

    Aproveito, assim, para recomendar a todos os livros de Huysmans. Não porque pense que todos irão gostar deles o

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  26. O prazer e o interesse que nos dá um está muito para além dos rótulos de "livros chatos". Confesso que na minha vida o livro/livros que mais prazer me deu foi o Em Busca do Tempo Perdido. Uma grande e estonteante maravilha a que regresso periodicamente, agora na sumptuosa tradução do Pedro Támen. Até parece que o livro foi escrito em Português. Aborrecida a obra do Proust ?? Não percebo.
    Já relativamente ao Ulisses do Joyce concordo que é um livro muito difícil e para leitores armados fortemente da bagagem necessária ao empreendimento. Talvez o mais difícil dos livros, fora o Finnegans que é ilegível. Agora o Proust difícil?Não percebo. Longo é, não há dúvida. O mais longo ...
    Alberto

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