Ler canções

Gosto de separar poemas de letras, porque as letras, para se acomodarem ao espartilho da música e serem cabalmente entendidas no tempo que o intérprete leva a brindar-nos com a canção (depois, já não vale), acabam por enfermar de uma simplicidade (ou de um simplismo) que nada tem que ver com a poesia (tantas vezes cheia de nós e laços para desatar). Contudo, existem autores de letras que são escritores fenomenais, sabendo não só meter as palavras na música, mas também dar ao conjunto uma profundidade e uma grandeza que só os maiores poetas às vezes atingem. Considero Chico Buarque um deles – mas há mais – e o tema deste post surgiu num domingo extremamente bem passado, que começou com um sushi de qualidade numa esplanada lisboeta à hora de almoço e terminou num jantar regado a canções do génio brasileiro, que ando a coleccionar em CD vendidos com o jornal Público a preço amigo, porque não tinha tudo e os discos em vinil ficaram, provavelmente, em casa da minha mãe – se é que eram meus, e não de um dos meus irmãos. E, depois de ouvir quase tudo, nem é assim tão estranho que Chico Buarque se tenha posto a escrever romances (acho que já aqui falei sobre Leite Derramado; senão, tenho gosto em fazê-lo) porque já era escritor antes disso. Basta ouvir Meus Caros Amigos com toda a atenção para perceber que as letras são uma literatura pegada, sendo a música um poema igual ou melhor. Olhos nos Olhos é uma das minhas preferidas deste cantautor. Aos domingos, depois de tanto livro, também sabe bem ler canções.

Comentários

  1. há uma diferença de facto entre letras de canções e poemas.

    até na escolha de palavras, há diferenças assinaláveis, pois as com mais musicalidade, preferem sempre ficar nas letras.

    há uma dúzia de anos escrevi algumas letras a pedido de um amigo, o Rui, que tinha uma banda de música moderna no Barreiro.

    não sei o que lhes aconteceu, até p e porque entretanto perdi o rasto do Rui.

    embora ele na altura tenha gostado muito, hoje sei que eram demasiado densas, e por isso mesmo difíceis de cantar...

    o Xico para mim é o grande poeta e compositor da música popular brasileira.

    li os seus três romances, o que gostei mais foi do "BUdaoeste".

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  2. Não acredito em letras demasiado densas para tocar. Quando se escreve um poema a pensar que alguém vai dizer ou cantar esse poema, tem de se ter noção de ritmo e de sonoridade, apenas isso. E tendo em conta isso, a literatura não tem, e não deveria, ser posta de lado. A maioria dos poetas portugueses conhecidos não tem essas noções (A MRP é uma das poucas excepções). Por outro lado, vejo muita coisa na blogosfera que daria óptimas canções e possíveis letras para fados bem melhores do que normalmente por aí se vê. Mas claro que essa é outra história: ninguém vai musicar um poema de um autor desconhecido, que é o que acontece com o maior dos bloguistas.

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    1. Nuno Serrano, o seu comentário leva-me a pensar num autor que conheci devido a si, neste blogue: Luís Caminha. Acho que quase todos os seus poemas são musicáveis. E todos são literatura. Passo o blogue dele a pente fino porque tem um modo de escrever que me faz pensar: 'Eu já devia ter dito isto assim'...
      Estes versos, por exemplo, são pura literatura e tenho a certeza que foram escritos pelo autor para pôr em música:

      -----
      FEBRIL (http://ocasosluiscaminha.blogspot.pt/2007/11/febril.html)

      Finalmente febril
      ajeito-me a um canto do nosso chão:
      nós tão aqui e o mundo a mil
      e o meu corpo no teu abraço
      e nos teus olhos tudo o mais que faço
      e nos teus olhos tudo o mais que faço.

      Não quero mais nada, não.

      Sob as sombras do tecto
      um andar por telhas da tua mão:
      o paraíso é tão directo
      como um sol que viaje por dentro,
      como um bombom de inferno em vai de vento,
      como um bombom de inferno em vai de vento.

      Não quero mais nada, não.

      Mais logo hei-de saber
      as manhãs que houver nos beijos que são,
      tudo o que em nós queremos ser
      e este sol que agora nos tem,
      a noite à noite que somos também,
      a noite à noite que somos também.

      Não quero mais nada, não.

      -----

      Acho deliciosas expressões como "um bombom de inferno em vai de vento"... Muito obrigada por me ter apresentado este autor.

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    2. Tem toda a razão, Mariana: acho que temos aqui, também e a par do que tenho dito dos seus romances, um óptimo letrista. Mas os cantores que cantam letras alheias optam normalmente por letras muito simples, com rimas e conceitos muito pobres. Como, pelo que sei, Luís Caminha não canta, aposto que os seus poemas nunca passarão do papel.

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  3. Faz todo o sentido aquilo que diz, acho eu...
    Sente-se que há quem escreva objectivamente poesia para letras - e tenho de citar o Carlos Tê, Jorge Palma, Carlos Alberto Janes , Ary dos Santos. Estes são para mim exemplos de poetas-letristas ... porque depois há os só letristas. E claro, há os poetas que são cantados, e surge-me imediatamente António Gedeão pela música e voz extraordinária de Manuel Freire...

    Também há depois quem consiga dizer/cantar com música qualquer poema e Rui Veloso é de facto o melhor, a par de Jorge Palma. Vilaret era único nesse dizer quase cantado, e aqueles dois como este, acho que dizem mais do que cantam, e o fazem muitíssimo bem, com o balanço ou ritmo do blues.

    Já que se fala dos brasileiros, acho que toda a bossa nova é poesia dita com ritmo!

    Falar de música é bom para variar!
    Vou à cidade: saudações do caminho!

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    1. Alguns poemas de António Gedeão contém a música. A música. A música. Nem todos. Mas muitos.
      Manuel Freire, Carlos Mendes, Samuel, Adriano Correia de Oliveira
      "Pedra Filosofal", “Fala do Homem Nascido”, “Calçada de Carriche”, “Lágrima de Preta” ou “Poema de Pedra Lioz”. são alguns dos seus poemas musicados. Sem esquecer José Niza compositor de várias músicas sobre poemas de António Gedeão.

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  4. Bom dia a todos os portugueses bem intecionados.

    Diria do post o possível e duvidoso.

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  5. O post da MRP salva o detalhe em "enfermar de uma simplicidade" fora facto a blogosfera em atentado visara o bem intencionado...tristeza nua e crua em dó fora a juventude o facto conferido, confesso combater o perverso em tecer integridade a nos silvar a vos silvar o perfume.

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  6. Amar é um deserto e seus temores
    Vida que vai na sela dessas dores
    Não sabe voltar
    Me dá teu calor
    Vem me fazer feliz por que eu te amo
    Você desagua em mim e eu oceano
    e esqueço que amar é quase uma dor

    Djavan para mim é poeta, sim, e o Jorge Palma também. Mas é claro que há letras que nada têm a ver com poesia.

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  7. "dar ao conjunto uma profundidade e uma grandeza que só os maiores poetas às vezes atingem"

    E, por falar em saudade ondeanda você onde anda seus olhos que a gente nem vê...

    Olhos nos olhos, quero ver o que você diz se aguenta me ver tão feliz...

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  8. Na maioria das vezes só depois de ler é que percebo o que ouvi em canção. Tem vezes que me surpreendo porque, apesar da dificuldade que tenho no entendimento oral desta língua quando cantada, o Português é capaz de brincar com sentidos de maneiras absolutamente geniais.

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  9. Grande Chico!
    Como se não bastasse a excelência da suas músicas, ainda escreve magníficos romances. O meu preferido é o Leite Derramado: adorei!

    Outro grande poeta da música é o maravilhoso Vinicius de Morais. E o Leonard Cohen , também. Excelentes, os três!

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    1. E Brel? Merecia e muito ser citado, não?

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  10. Poema: celeste anjo em canção.

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  11. Chico, sempre. Como poeta, como escritor, como músico, como Homem. Com vénia, sempre. É um ser iluminado, como há poucos.

    Para relembrar:

    "...E então ela se fez bonita como há muito tempo não queria ousar
    Com seu vestido decotado cheirando a guardado de tanto esperar
    Depois os dois deram-se os braços como há muito tempo não se usava dar
    E cheios de ternura e graça, foram para a praça e começaram a se abraçar..."


    "...Ah, se ao te conhecer
    Dei pra sonhar, fiz tantos desvarios
    Rompi com o mundo, queimei meus navios
    Me diz pra onde é que inda posso ir

    Se nós nas travessuras das noites eternas
    Já confundimos tanto as nossas pernas
    Diz com que pernas eu devo seguir..."


    Ficaria aqui a noite inteirinha ...

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  12. E em Portugal, quem seria o seu eleito?

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    1. Zeca, sempre. O Eterno Zeca Afonso.

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    2. O Sergio Godinho. Sempre!

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    3. O meu gostar do Sérgio Godinho também é enorme. Porém, se tivesse de escolher um ou outro - Godinho ou Zeca - ficaria com o segundo. Como não tenho de escolher, fico com os dois guardadinhos no meu coração. Mas o "meu" Zeca ... bem, é amor antigo, que nunca morrerá ... e faz-me tanta falta!

      E dos poemas cantados de Ary?

      "A mágoa que transporta a miséria ambulante,
      passeia na cidade o dia inteiro.
      É como se empurrasse o Outono diante;
      é como se empurrasse o nevoeiro.
      Quem sabe a desventura do seu fado?
      Quem olha para o homem das castanhas?
      Nunca ninguém pensou que ali ao lado
      ardem no fogareiro dores tamanhas".


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  13. Brel merecia ser citado, é verdade, não só pelas suas canções como pela forma como as cantava.
    Mas para mim o maior de todos ainda é Georges Brassens (ADORO!).
    Quanto a Chico Buarque e Vinicicius de Morais: com eles (principalmente com o Chico) havia sempre uma música que falava daquilo que estava naquele preciso momento a sentir, a tal ponto, que me convencia que havia sido escrita para mim (eheheh!).
    Isabel

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  14. É difícil encontrar mais "nós e laços para desatar" do que no poema/letra "Tourada", de Ary dos Santos, tão bem cantada pelo Fernando Tordo, em 1973. Está lá tudo: a ditadura, a censura, a hipocrisia, a ganância, etc., etc., culminando com a profecia da Revolução que se daria um ano mais tarde.

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