Havia e há

Gosto de acompanhar os jovens – não me interpretem mal, estou a falar apenas de escritores e dos seus livros e, além disso, sou casada e gosto. Além disso, o jovem em quem estou a pensar agora é uma mulher, o que tornaria tudo ainda mais improvável, dando-se o caso de eu me sentir atraída, até ver, apenas pelo sexo oposto. Mas adiante: falo de uma jovem autora, nascida em 1982, que se estreou com um livro chamado Diálogos para o Fim do Mundo, vencedor do prémio Maria Amália Vaz de Carvalho, da Câmara Municipal de Loures, em 2009 e publicado no ano seguinte pela Caminho; que agora reincide com um conjunto de pequenas ficções com o título Havia – a palavra com que começam absolutamente todas as histórias –, cuja capa é bastante original, pois reproduz parte de uma ficção do interior sobre – isso mesmo – a capa de um livro. Joana Bértholo, cuja biografia se inclui no volume como mais uma das muitas histórias, é uma cultora do absurdo e tem inteligência e talento suficientes para compor um leque apreciável de narrativas divertidas e modernas que se lêem de um fôlego e vêm acompanhadas das ilustrações de Daniel Melim, que também assina o posfácio (iniciado por «Havia», como não podia deixar de ser). Embora seja sempre difícil, num livro experimental deste tipo, que todos os textos tenham o mesmo nível, devo confessar que o equilíbrio é muito satisfatório e que a opção de fazer seguir cada uma das ficções de uma espécie de versão condensada e adulterada das mesmas – quantas vezes ainda mais mordaz – enriquece extraordinariamente a leitura. Havia… e há.

Comentários

  1. Eis um case study, este que nos traz a autora do blogue, porquanto:
    1- "agora reincide" não é bem assim, porque o livro foi publicado em 2006;
    2- foi publicado, com uma tiragem de 1.000 exemplares por uma pequeníssima editora, a "Primeiro Exemplar";
    3- Tanto a autora do texto como o "designer" da capa foram premiados;
    4- A jovem autora tem um vasta bibliografia.
    Se me é permitida a comparação, este que comenta, decidiu fazer o mesmo há uns anos atrás (com menos idade que Joana Bártholo), mas começou por alto - D. Quixote. Estava lá um Carlos Alvim que o recebeu num cubículo da editora, mas não recebeu a obra, talvez porque o miudo que lhe fazia a proposta não tinha "idade" para publicar.
    Pouco tempo depois, o miudo publicou mesmo, sendo a obra distribuída pela Bertrand, com lançamento na livraria da Avª de Roma (onde apenas deu 1 autógrafo!). Não eram 1.000 exemplares: eram 3.000; e tiveram a concorrência de "A Insustentável Leveza do Ser", lançada no mesmo mês pela D. Quixote e com uma capa fenomenal (então sob a batuta de Manuel Valente, marido da autora do blogue).
    Era então director-geral da Bertrand o Dr. Chaves Ferreira e lembro-me que o Sr. Morais, responsável pela distribuição da editora, na Amadora, me disse que o livro vendia bem.
    Como era miudo, fiquei com "raiva" da D. Quixote (mas já passou) e tive a peregrina ideia de comprar o livro do Kundera uns anos mais tarde.
    Enfim... Kundera e a "Insustentável..." eram um adversário de respeito. Arrependi-me de ter o livro, por ler, durante tanto tempo.
    Este arrazoado para dizer o quê?
    Há alguma diferença em o escritor publicar o primeiro livro com 20 ou com 70 anos, para além da idade? Não é o seu "primeiro" livro? Não é ele considerado "novo" escritor?
    Estranho as editoras apostarem nos jovens - só se fora agora!

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    1. Vou corrigir-me e esclarecer:
      onde escrevi Bártholo, devia ter escrito Bértholo (não quero ser "padrinho" desta magnífica nova escitora).
      Onde escrevi Carlos Alvim, devia ter escrito João Carlos Alvim, que passou da D. Quixote para a Bertrand; na altura em que eu aí publiquei, era a D. Isaura a responsável literária da editora e o Dinis Machado um dos seus leitores-editores.

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    2. Olha, não sabia que o marido da Maria do Rosário era o Manuel Valente, da Porto Editora! Ele há coisas...

      A MRP sempre se refere a ele como "Manel", mas eu ainda não tinha descortinado que era esse "Manel" (desculpem a familiaridade, mas serve apenas para esclarecer a situação).
      É interessante, porque aquela cena com a viúva do escritor premiado com o Nobel, contada por Rentes de Carvalho, e pela qual eu fui aqui tão atacada, por acreditar neste último, passou-se, precisamente, com Manuel Valente.

      Isto, agora, fez-me sentir melhor. Afinal, vale mesmo a pena apostar na honestidade e na sinceridade!

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    3. Cristina
      A Joana Bértholo mora para os seus lados, em Berlim.
      Sobre este pormenor, quero dizer uma coisa que me anda a bailar na cabeça há muito tempo: se eu vivesse em Berlim, eu havia de publicar uma obra em alemão (para depois ser traduzida para português). Faria como o jovem autor de "O Sorriso das Mulheres" (obra que recomendo) que, sendo francês e morando em Paris, publicou o livro numa pequena editora alemã e o êxito já rebentou em Itália, Espanha e agora em Portugal. Às vezes, "os santos da porta" não fazem milagres.
      A Cristina Torrão domina o alemão e o seu marido igualmente (pelo que me apercebi): receba a ideia, embora não se possa queixar de não ser editada (e bem) em Portugal.
      Relativamente ao seu comentário e a algum azedume passado, nada acrescento. No entanto, garanto-lhe que o editor da Porto Editora, Manuel Alberto Valente fez a D. Quixote - e eisto não é graxa, que não sou disso. Quando digo "fez", é porque essa editora tve, no seu "mandato" o apogeu, de que possuo muitas publicações.
      Por meu azar, coincidiu a publicação de Kundera com a do meu livro (e este saiu a perder, pudera!), pois as capas da colecção "Ficção Universal" são do melhor que se fez em Portugal (principalmente a do nº 63, de Gabriel Garcia Marquez) e Kundera escreveu como eu jamais escreverei.
      É evidente que digo isto com frontalidade, uma vez que, depois do que aconteceu com Alvim, NUNCA mais proporei ou admitirei uma obnra minha na D. Quixote.

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    4. Caro Jocamartinho,
      quanto a publicar na Alemanha, já me lembrei disso e já conto com uma tentativa falhada, o que não quer dizer que não volte a tentar. Mas olhe que escrever em alemão é complicado, mesmo para quem tem licenciatura nessa área e mora na Alemanha há cerca de vinte anos...

      Quanto ao azedume, é dirigido aos comentadores que, na altura, insinuaram eu ser mentirosa. Já não me lembro da sua reação, por isso, não estava a pensar em si, neste caso, apenas aproveitei o facto de ter sido o Jocamartinho a dar-me a informação (por acaso). De qualquer maneira, o azedume não é igualmente dirigido, nem à autora deste blogue, nem ao marido dela. Aliás, o facto de nenhum deles ter desmentido a ocorrência mostra que Rentes de Carvalho não anda a inventar histórias dessas. Contou a ocorrência sob a sua perspetiva, sim, mas não inventou, ou mentiu.

      Quanto ao estar bem publicada... Os livros estão bem feitos, sim, e estiveram nas livrarias. Mas falta a recompensa devida, ninguém gosta de trabalhar "para o boneco", não é verdade?

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    5. Cristina Torrão a respeito de vosso livro que escreveste, a cruz fora caso real, tinha destino certo ao lugar determinado fora devolvida, guardada a salvo. Linda história esta. Parabéns.

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  2. Carlos Teixeira Luís21 de junho de 2012 às 04:14

    Bom dia,

    leio todos os posts do blogue e este agradou-me imenso. Para mim a Joana Bértholo tem sido uma das grandes descobertas. O seu livro Diálogos para o fim do mundo merece ser lido por toda a gente. É que a nova Literatura da nossa terra pode passar por aqui. Tanto talento em tanta juventude. Eu fiquei deslumbrado. E saber que o Havia tem uma dose de experimentalismo elevada só me leva a ler o livro o mais rápidamente possível.

    Estamos sempre a aprender nestas Horas Extraordinárias.

    Um abraço e obrigado pelo seu inteligente e simpático blogue,

    Carlos Teixeira Luís.

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  3. Brincando: «o jovem em quem estou a pensar agora é uma mulher.»
    Transexual?

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  4. Olá, bom dia aos portugueses.

    Como segue o post "não me interpretem mal".

    Em caso a ser: bom intérprete e mau compreendido e mal intérprete a bem de intenções, questões nem de interpretações em segmentos dedicados a humana conducta, cada qual com cada quem.

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  5. Do post "Havia e Há" o livro "Diálogos para o fim do mundo" segundo a autora Joana da pátria portuguesa em posteridade e justamente da sugestão "enriquece extraordinariamente a leitura". Certamente a editora MRP com experiência a praxe dedica-nos o carinho do texto, eu aqui no Brasil afinada as leituras aguardo a possibilidade em adquirir a obra.

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  6. havemos de ter cuidado com a quantidade de inteligência, absurdo e talento com que aviamos os nossos escritos ou haverá sempre quem os classifique como "divertidos e modernos que se lêem de um fôlego", como a um gelado de gelo ou a uma caixa de cerejas. havemos de pôr os olhos em Gonçalo Tavares, homem que não relê o Ulisses e admira a foto de um urinol voltado as avessas, ao qual chamaram a fonte. Há, ah ah se há, quem agora dê nova volta ao urinol e lhe chame "fonte de cabeça para baixo"! Mágicos contemporâneos... "Há, ah ah se há... uma senhora que escreveu cem páginas sobre uma barata! Espantem-se cães! Espantem-se perante o que de mais contemporâneo existe!", e os cães espantam-se e a Bertholo é divertida e acompanhamos os jovens e mudamos títulos e limamos arestas e fazemos velhos dos jovens quando buscamos consistência em detrimento da paixão. "Contemporâneo é ter um herói banal a realizar feitos banais" dizia o Tavares, pois eu digo que contemporânea é a urticaria que faz tremer de excitação um peito jovem que arfa em contemplação de uma ideia nova, digo e espero, espero que o herói me cative, que os feitos me levantem num espanto delicado, que o autor pouco leia, pouco aprenda, porque assim o amo, divertido, cativante, apaixonado e novo. Contemporâneo porque único e como único omni-temporal.

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    1. Interessante este conceito talvez explique o livro que adquiri sob o título "As duas águas do mar" de Francisco José Veigas, impresso no Brasil pela Record onde diz que optou por manter a ortografia do Português de Portugal, mas temos a iniciar o livro duas frases aliás três (pensamento) uma de Frank Ronan, A picnic in Eden outra de Padraic que nem citarei e outra, na página outra página de Elizabhet Bowen, e que certamente estranho do acaso acontecer já que os editores portugueses têem tanto cuidado e prezam por demais a vossa língua.

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    2. Por acaso gosto dos comentários do senhor João Courinha.
      É que gosto mesmo!

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    3. Também gosto muito do Courinha e já estava a sentir a falta deste "enfant terrible" como um dia o amigo Pacheco o chamou. É que tem sido pouco assíduo nestas paragens ultimamente.

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    4. Tenho-me andado a divorciar e é coisa para dar um trabalhão. Prometo dizer mais disparates com uma assiduidade respeitável!

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    5. É coisa para dar um trabalhão, sim senhor!! Ficamos à espera dos seus disparates.

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    6. Por acaso se fosse verdadeiro teu gostar da originalidade do João Courinha e de facto admirável e criativo por natureza, perceberias a fala, a substância ou seja da essência do Courinha, bem pouco presente neste comentário acima e que descreve outra latitude e certamente de procedência duvidosa, mas como nem tudo é perfeito e a razão neste mundo tem paradeiro incerto, fico com meus botões por lamentar destas voltas que o mesmo munda dá.

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    7. Isso já me aconteceu algumas vezes. Dá um certo trabalho, dá! Mas mais trabalho daria se ficasse, sossegadamente, sem tomar qualquer atitude.
      Não acho que diga disparates, João Courinha. Há muita gente que os diz, sim, mas não o senhor.

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  7. De mais a mais nem saberia em cargas d'água a surpresa deste povo afinal compor uma pessoa bem casada e bem orientada diga-se representa em objetivo o de muita gente, portanto deveriam ser mais carinhosos uns, com outros ao querer-se par: felicidade e completude, companheirismo e fidelidade a quem de amor a grata surpresa e lá diante da íngrime caminhada a vida vos oferecera reparar ao horizonte cores, tons, sons em perfume presente.

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  8. o "jocamartinho" colocou uma série de questões pertinentes.

    imagino que jovem tem mesmo que ver com a idade, embora quando se entrega um manuscrito numa editora, não vá anexada a idade do autor, digo eu.

    também me lembrei da publicação de uma nota de leitura no "tempo contado", de Rentes de Carvalho, em que ele teve a coragem de nos mostrar a critica miserável de Nelson de Matos sobre uma das suas obras, quando ele era um escritor mais" holandês que português"...

    também na literatura podemos ser "bestas" aos quarenta" e "bestiais" aos oitenta...

    parece que sim, afinal a idade é um posto, no mundo dos livros...

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    1. Uma das questões que levantei - e relativamente ao post - diz respeito à suposta reincidência da escritora com o título "Havia" e à originalidade da capa (Caminho). Mas qual reincidência? E qual originalidade?
      Este livro saiu em Outubro de 2006 - repito -publicado por uma pequena editora, com uma capa mil vezes superior à da Caminho. Vejam aqui:
      http://primeiroexemplar.com.sapo.pt/publicados/havia.html
      Foram 1.000 exemplares, já esgotados, sem a parafernália de suportes publicitários que tem a Caminho.
      Acho explêndida e pertinente, a publicação da Caminho; contudo, é necessário dizer que não é a primeira editora da obra. Como diz o provérbio, "devagar comk o andor, que o santo é de barro". Ponto final.
      Relativamente à idade dos autores, a MRP prefere os mais novos - e tem direito às suas preferências e à legitimidade de apreciar a escrita dos jovens e dos menos jovens. Não sei é como (tal e qual referiu o Luis Milheiro), se consegue saber a idade de um escritor, tout court, através da sua escrita. Eu não consigo, sinceramente!

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    2. É verdade. A idade traz experiência. E a experiência pode fazer um autor excelente de um autor sofrível.

      Normalmente, quando um autor desconhecido envia o seu manuscrito a uma editora, junta alguns dados pessoais, incluindo a data de nascimento.

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  9. Aposto que não foi propositado, mas a Joana faz anos hoje... parabéns, porque o «Havia» é uma descoberta divertida e os «Diálogos para o fim do mundo» um presente à existência...

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    1. Descoberta divertida?! É assim que classificaria apossar das letras indevidamente?! Oras, tchau.

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